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Trans AM – “Trans AM esgotam lotação na Galeria Zé dos Bois – Muita TRANSpiração e pouca TRANSgressão” (concerto)

cultura 21 de Janeiro 2000


Trans AM esgotam lotação na Galeria Zé dos Bois

Muita TRANSpiração e pouca TRANSgressão



Riff de guitarra eléctrica, feedback e solos de bateria fazem parte do vocabulário dos Trans AM. Afinal de contas, o velho rock ‘n’ roll enfeitado com futurismo kitsch. Os 150 que conseguiram entrar na ZDB aderiram à sessão de new wave, enquanto outros tantos ficaram à porta sem bilhete. Não houve crise. O povo é sereno.

Não houve motins nem ataques bombistas, como seria de esperar quando se organizam concertos com grupos tão populares como os Trans AM num espaço tão pequeno como a ZDB. Neste aspecto, a actuação do grupo norte-americano, na quarta-feira, no minúsculo cubículo do Bairro Alto, em Lisboa, decorreu com a serenidade de um encontro “new age”. Não houve feridos nem partos prematuros, nem sequer um baixo-assinado a protestar. Tudo na santa paz do Senhor.
Depois que os que ficaram de fora a chuchar no dedo se dirigirem pacatamente para os seus lares, as cerca de 150 pessoas que entraram, com bilhete ou recurso a expedientes vários, concentraram-se na actuação dos três rapazes de Washington D.C., preparados para uma lição de pós-rock. Bem entendido, só as 20 da frente conseguiram ver as caras dos professores, daí para trás dava para vislumbrar as pontas dos cabelos e as aranhas do tecto.
Foi mais uma sabatina do que uma lição. Nathan Means, Philip Manley e Sebastian Thompson, os três Trans AM, não conseguiram, como alguém dizia à saída, esconder que por detrás do rótulo de “banda electrónica”, o seu coração tende é para os Van Halen, AC/DC e outras bandas de heavy-metal. Aliás, parte do público presente, era composto por “headbangers” dispostos a abanar o capacete e a esguichar adrenalina. Esses adoraram. Os outros, mais conhecedores do pós-rock, aceitaram com relativa facilidade e alguma felicidade esta sessão de hard rock, acentuando o lado visceral e energético da coisa. Os Trans AM são retro-futuristas. Tão retro que remetem 20 anos para o passado, até uma noite numa cave mal iluminada de Manchester para ouvir música new wave. A sua música não esconde nem um bocadinho os sons onde foram beber a inspiração, sacados a discos antigos metodicamente estudados e reciclados de maneira a soarem a pós-rock, quer dizer, música suficientemente datada para poder ser utilizada com alguma distância e “atitude”.
Nas duas primeiras canções, do novo álbum “Future World”, as vozes filtradas por Vocoder e as melodias naif saíram em linha directa dos Kraftwerk do álbum “Radio Activity”. Kraftwerk mais carnudos, com bateria em vez de programações. Divertido como um filme de desenhos animados dos Jetsons.
Porém, à medida que o espectáculo foi avançando, impôs-se o lado mais rockeiro do grupo, com citações sucessivas aos Tubeway Army, New Order, devo, num contexto hard rock e, já perto do fim, a indispensável referência-reverência ao krautrock, através do mesmo compasso “martelo no prego” de “It’s a rainy day, sunshine girl”, dos Faust.
Quanto ao lado futurista, tão bem conseguido nos discos, resulta ao vivo na banda sonora de um filme de ficção científica de série B, com marcianos verdes com antenas, discos voadores em feitio de chávenas e pistolas de raio laser. Quem se lembra, em plenos anos 80, da “Music for Parties” dos Silicone Teens? Não eram pós-rockers mas já andavam vestidos com roupas metalizadas a voar em carros anti-gravitacionais por cima de casas transparentes a derramar “beep beeps” e serpentinas. Os Trans AM não brincam, levam-se a sério. O seu “Future World” tem polícias e câmaras vigilantes. Nada como o rock ‘n’ roll para agitar a bandeira do revisionismo. Dos Trans AM esperava-se mais visionarismo. Na ZDB os outrora rivais dos Tortoise (para quando um concerto em Portugal na casa-de-banho dos Armazéns do Conde Barão?) fizeram solos de guitarra e bateria, entornaram riffs a torto e a direito e, para disfarçar, rodaram timidamente os botões dos sintetizadores.
Não foi diferente do que seria de esperar? Provavelmente não. Mas bem feitas as contas talvez todos ficassem a ganhar se tivesse havido mais disciplina e menos desbunda. Menos transpiração e mais transgressão. É pois com alguma expectativa que esperamos por um próximo concerto dos Pink Floyd no Hot Clube de Portugal.



Trans AM – “Red Line”

20 Outubro 1999
POP ROCK – DISCOS


Pisar o risco

Trans AM
Red Line (8/10)
Thrill Jockey, distri. Ananana



Confirmam-se as indicações dadas pelo concerto do ano passado na Galeria Zé dos Bois e que tanto dividiu as opiniões: os Trans AM são, decididamente, uma banda rock. Eu, confesso que confundido pela lado sintético presente em álbuns como o magnífico “Surrender to the Night”, “The Surveillance” e “Future World”, acalentava ainda uma vaga esperança de que esse espetáculo não tivesse passado de um desvario, de uma noite punk bem regada, em que tudo tivesse acontecido assim porque os sintetizadores ficaram confiscados na alfândega. O álbum anterior, uma coletânea de “takes” mais ou menos alternativos, confirmava, porém, as minhas maiores suspeitas. Assunto arrumado, parecia. Até que – hélas! – este novo “Red Line” me fez reconciliar com os Trans AM. Eles são, de facto, rockeiros de alma e coração. Isso é ponto assente. Mas que significado tem ser rockeiro neste final de milénio? O rock dos Trans AM é futurista, carregado de fúria e urgência, mas as guitarras elétricas sozinhas são insuficientes para expressar com suficiente convicção toda a demência contida em “Red Line”. O lado eletrónico continua então presente, mas não porque a banda americana pretenda alimentar qualquer sonho sintético cor-de-rosa, mas porque na eletrónica e na velocidade reside a própria essência desta música e deste final dos tempos. E se “Red Line” é veloz e elétrico! São 73 minutos, divididos por 21 canções, em combustão acelerada, uma corrida para o abismo, que estão para o final dos anos 90 como os Suicide (“Where do you want to fuck today?”) estavam para o final dos 70 ou os D. A. F. – citados em “Polizei (zu spät)” – e os Einstürzende Neubauten para os 80. Os sintetizadores cortam como serrotes, a disciplina é de ferro, “I’m coming down” um escorrega para o inferno e “Lunar landing” uma viagem no Space Shuttle até ao planeta dos Schlammpeitziger e à galáxia kraut. A balada em guitarra acústica ao estilo dos Faust, “The dark gift”, limita-se a confirmar o que também já se adivinhava – que a música dos Trans AM, mais do que esquizofrénica é, como Pete Townshend, dos The Who, anunciava: “quadrifénica”. “Red Line” pisa mesmo o risco vermelho para se tornar num dos álbuns com mais “punch” do ano.



Trans AM Citam Radiohead Em “Futureworld” – Entrevista –

16.04.1999
Trans AM Citam Radiohead Em “Futureworld”

O.K. Computador

Depois de três álbuns “escuros” e de uma fecunda pescaria nos anos 70, os Trans AM pintaram-se de branco e foram buscar alimento à década seguinte, num novo trabalho, “Futureworld”, em que, apesar da herança incontornável dos Kraftwerk, puseram um pé no funk e outro no electropop. Enquanto se preparam para entrar no ano 2000 como uma banda de guitarras.

LINK

Trans Am – Futureworld live from Thrill Jockey Records on Vimeo.

Um anos depois de “The Surveillance”, a banda de Chicago regressou mais poderosa do que nunca, com um álbum carregado de electricidade e distorção, mas também de melodias para dançar. Phil Manley falou ao PÚBLICO dos preparativos para a entrada no novo milénio.
FM – O tema de abertura de “Futureworld” tem por título “a999”. É alguma declaração sobre o ano em curso, ou sobre o final do milénio?
PHIL MANLEY – É um tema com um som muito “cool”, com saxofone e um naipe de cordas. Faz lembrar um pouco uma canção dos Funkadelic, “Megaprint”, com um solo que parece interminável. Escolhemos o título empurrados por toda esta febre do final do milénio, mas também por ser uma espécie de homenagem a Prince e à sua canção com este mesmo nome.
FM – Qual a sua opinião sobre a música que se tem feito nestes últimos anos?
PHIL MANLEY – Não sei… Tenho de admitir que ando um bocado fora de tudo. Normalmente a música que ouço é mais antiga. Acabei de ouvir, por exemplo, um álbum dos Black Sabbath, “Masters of Reality”. Adorei.
FM – No tema seguinte utilizam um Vocoder. Penso que pela primeira vez. Tentaram criar uma voz de robô, como a dos Menmachine dos Kraftwerk?
PHIL MANLEY – Exactamente. Cantar é uma coisa algo difícil para nós. Por isso refugiámo-nos atrás da máquina.
FM – Este tema usa uma melodia que parece decalcada dos Tubeway Army, de Gary Numan. foi propositado?
PHIL MANLEY – Acha? Adoramos Gary Numan, é capaz de criar melodias fantásticas e de extrema simplicidade. Mas não foi intencional, embora não me surpreenda que ache o tema parecido com os Tubeway Army…
FM – Depois do “krautrock” dos anos 70, dá a impressão de que as bandas conotadas com o pós-rock estão a assimilar influências dos anos 80, Human League, Cabaret Voltaire, Clock DVA. Isto também acontece com os Trans AM?
PHIL MANLEY – A maior parte das pessoas, ao referir-se aos anos 80, só fala de Madonna ou de Michael Jackson, quando na verdade houve muita música underground que passou totalmente despercebida. Como os Chrome, uma das minhas bandas favoritas, que têm álbuns fantásticos como “Red Exposure” ou “No Humans Allowed”. Ou os Throbbing Gristle, os Suicide, os P.I.L., a fase inicial dos New Order, tudo bandas que as pessoas não ouviam na altura.
FM – Em “Futureworld”, há uma óbvia colagem a “Radioland”, do álbum “Radio Activity”, dos Kraftwerk. Até usam a mesma palavra, “radio”…
PHIL MANLEY – Sim, é fácil para nós “roubarmos” coisas dos Kraftwerk [risod]. O problema é como é que sepode evitar isso? É como perguntar a uma banda pop de foram influenciados pelos Beatles.
FM – “Futureworld” corresponde a uma visão sobre o futuro do mundo?
PHIL MANLEY – Não sei. Gostamos de estar muito atentos ao que se passa e tentamos ser optimistas. Mas não pensamos muito no futuro. Escolhemos “Futureworld” como título porque nos pareceu um termo apelativo. Como “computer World” [dos Kraftwerk] ou “Future Days” [dos Can].
FM – No tema seguinte, “City In Flames”, pode ouvir-se uma voz ameaçadora. Corresponde a alguma personagem específica?
PHIL MANLEY – É interessante que fale numa personagem. O nosso baterista, Sebastian, interessa-se por toda a espécie de jogos de personagens [“role games”], como “Dungeons & Dragons”, que gira em torno de um ambiente com dragões e acavaleiros, aventura e fantasia. A partir daqui ele inventou uma nova personagem, com uma linguagem própria, meio humana meio lobo, gravada num registo muito grave. É assustador. Como alguém a falar-nos por cima do ombro.
FM – “AM Rhein” apresenta um ritmo e riffs de guitarra completamente rock. Os Trans AM preparam-se para ser uma “guitar band” no ano 2000?
PHIL MANLEY – Espero que sim [risos]. A guitarra continua a ser o meu principal instrumento e o Nathan é, sem dúvida, um baixista tradicional. Não tencionamos mudar. As pessoas, neste final dos anos 90, já estão fartas de cena tecno. Um destes dias vai haver de certeza um revivalismo da guitarra. Talvez só aconteça daqui a 20 anos, seja como for, poderei dizer que a toquei sempre durante este tempo todo.
FM – “Cocaine Computer” é um título bizarro para um tema delicioso. Os Trans AM renderam-se ao funk?
PHIL MANLEY – O título é uma homenagem a “O.K. Computer”, dos Radiohead. Mas é também uma espécie de desabafo numa altura em que nos estávamos a sentir chateados no estúdio. É quase uma “jam session”.
FM – O computador envia-nos alguma mensagem?
PHIL MANLEY – Não. Nenhuma. Somos bastante amadores no que respeita aos computadores. Temos um computador já antigo. Todo o trabalho de electrónica mais difícil do álbum foi feito pelo Sebastian, num velho Atari que ele programou em Basic.
FM – Depois de “Futureworld”, surge um “Futureworld II”. Trata-se de algum futuro alternativo?
PHIL MANLEY -Fizemos um “Futureworld II” porque não tínhamos mais nenhum título para essa canção… Também nos agradou fazer algo semelhente ao que fizeram os Police, em “Synchronicity”, um e dois. Mas também é possível, de facto, encarar o tema como essa tal alternativa, já que uma das versões tem letra enquanto a outra é muito mais abstracta. E assustadora, na maneira como começa, com o som em chuva…
FM – Como em “Blade Runner”?
PHIL MANLEY – Exactamente.
FM – “Sad and Young” parece quase ter sido feito por uma banda diferente. Não soa a nada que apareça paea trás no álbum… É uma despedida ou um lamento?
PHIL MANLEY – É um lamento. Percebo o que quer dizer, soa de facto a algo produzido numa sessão de gravação diferente. Está cheio de guitarras e do som de órgão. É um tema orgânico…
FM – Jonas, uma personagem de Alain Resnais, fará 20 anos no ano 2000. O que poderá esperar um jovem de 20 anos do próximo milénio?
PHIL MANLEY – Toda a gente está a ficar apanhada pela ideia de que tudo mudará radicalmente no próximo milénio, mas penso que não haverá assim tantas mudanças, embora eu esteja convencido de que a economia global do planeta irá entrar em colapso e que a pobreza aumentará.
FM – A capa de “Futureworld” mostra um horizonte virtual completamente branco e vazio…
PHIL MANLEY – Certo. Gostamos dessa imagem. Mas, por outro lado, a capa é branca e verde por outra razão. Queríamos uma imagem com brilho…
FM – Como um monitor de computador?
PHIL MANLEY – Sim, algo que desse uma ideia mais positiva, até porque os nossos três primeiros álbuns são todos bastante escuros.
FM – A ideia final que “Futureworld” me sugere é a de uma viagem puramente mental, através de um computador, como se se tivesse perdido a ligação com o mundo exterior. É lícito concluir que o tema principal é a ilusão?
PHIL MANLEY – Sim, suponho que sim. Ou a fuga. Na tentativa de encontrar alguma esperança.
FM – Os Trans AM estão prontos para entrar no novo milénio?
PHIL MANLEY – Absolutamente. construímos um abrigo antibombas e enchemo-nos de comida enlatada [risos]. Pessoalmente, estou preparado para fazer uma enorme festa, provavelmente em Nova Iorque. É lá que costuma fazer as passagens de ano. Acontece sempre algo de louco.