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Guardar Castidade Nas Palavras E Nas Obras – artigo

Pop Rock

11 de Maio de 1994

GUARDAR CASTIDADE NAS PALAVRAS E NAS OBRAS


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Quem pensa que Quim Barreiros é o rei incontestado da ordinarice desengane-se. Ele é tão simplesmente o vértice de uma pirâmide cuja base parece não ter fundo. O “bacalhau”, o “bater por letra” e “Chupa Teresa” são gongorismos poéticos comparados com o pantanal de palavrões que se estende daí para baixo até ao infinito. Convidamos o leitor a descer connosco ao submundo da rasquice mais imunda, à piada mais rasteira, ao verso mais indigno. Sintam connosco o frémito da repugnância. Tenham nojo, tenham muito nojo! O espectáculo de horror vai começar.
A leitura do artigo que se segue é desaconselhável a menores de 18 anos. De resto, o mesmo aviso que aparece colado nas “Anedotas Malandrecas” de Canty, o “Cantiflas português”. Um exemplo, logo na entrada: “Num bailarico, uma tipa dançava com um tipo durante várias semanas. Ele notou que ela andava sempre de luvas. Um dia diz-lhe ele: Oiça lá menina Henriqueta, por que é que usa sempre as luvas? Diz ela: Ah, ah, ai o senhor já reparou? Sabe, eu uso luvas para manter as minhas mãos sempre branquinhas. Diz ele: Oh que merda esta, atão eu uso calças há tantos anos e tenho os colhões tão pretos?!” [Ruído de gargalhadas.]
Carregámos na tecla de “stop”. Continuam a seguir-nos neste túnel de horrores? Paremos um bocadinho para descansar e reflectir. Em nome de quê existem coisas destas à venda? Quem compra, quem ouve e quem se diverte a ouvir as anedotas de Canty ou as “canções” de Artur Gonçalves ou do duo Ele e Ela? Muitos milhares de pessoas por esse país fora, sem dúvida.
Canty não quer chocar com a sua linguagem grosseira, mas sim dar voz às pulsões reprimidas ou às frustrações de vidas sem sentido. O trágico é que há quem se divirta. Portugal, país de sonhadores e poetas, esconde trevas hediondas onde o comum dos mortais com um mínimo de sensibilidade perde a razão. Ainda têm coragem de prosseguir? Não digam que não vos avisámos! A história é pródiga em casos de homens e mulheres de bem que se perderam no lodo da corrupção.
Ele e Ela, José Crispim e Lena Silva, são um duo da ordinarice apadrinhado pela crueldade humorística de Herman José. Uma das suas cassetes intitula-se “A Cabra e o Bode” e tem narração de Vítor de Sousa. Aqui, a ordinarice tem “música” de acompanhamento e uma introdução algo desconexa em espanhol. “Niñas, niños, señoras, señores, para ustedes una mui preciosa historia de humor, que se pasa com los artistas Ele e Ela. Ele tiene un bode, ela tiene una cabra. Asi estes animales hacen parte de un espectáculo de humor.” De imediato seguida pela entrada triunfante da primeira canção, sobre ritmo disco: “Vamos a ela, à cabra da minha mulher! Um, dois, três, ela já não os tem” e “O bode do meu marido é que nunca mais cá vem”. Escolhemos ao acaso uma faixa pelo título: “Meu gato não me come a rata”. Até é suave: “Ai que rata tão bela! Mas o meu Zé gato quando a vê ao lado perde o aparato e não fica assanhado.”
Nel Mix e os seus “Sucessos” de “Música p’ra pular” de genérico “A revolta dos maridos” deram o mote para outras duas duplas cujo denominador comum é Tony Moreira. Uma delas com Deolinda Maria, intitulada “Desgarradas – Batota nas Bordas”, e outra com Rosa Oliveira, moçoila corada com trajes de minhota que aparece na capa a fazer uns cornos porque o disco se chama “Os Cornos do Diabo”.
A ordinarice junta-se aqui ao satanismo numa aliança duplamente perigosa. Sentimos curiosidade. Estariam aqui os percursores do “world metal” português? Era preciso ouvir, com muitas cautelas e amuletos, para ter a certeza. Sobre um fundo de folclore empastado de acordeões, chulas do princípio ao fim, tão ao gosto do bom povo português. Não encontrámos palavrões. Afinal é gente educada. Para além dos “cornos” ditos e reditos na descrição de um “affaire” marital desenrolado intra e além-fronteiras, nada de especialmente chocante há a assinalar. Aliás, talvez devido a um trauma qualquer, Tony Moreira tem uma fixação naqueles apêndices ósseos. A segunda das suas cassetes com Rosa Oliveira chama-se “Um Par de Cornos” e afina pelo mesmo diapasão de matreirice camuflada, enquanto com Deolinda Maria há, por sua vez, um tema chamado “Os cornos do caracol”. Será que a infidelidade grassa por essa província fora e que o Portugal real reage a este tipo de estímulos? Tratar-se-á da pornografia dos pobres?
Um dos temas de “Batota nas Bordas” é mais “hard” e tem por título “Fressura na panela”. Nele há o seguinte diálogo: “Olá menina do talho, tens a fressura molhada, se eu te apanho essa carne, hei-de comê-la à manada.” Responde ela: “A minha carne não comes, ela custa bom dinheiro, e tu a fazeres panelas é um fraco paneleiro.” Riposta ele (ofendido): “Faço panelas e pratas, sou um artista de primeira, se eu te apanho a fressura, ferro-lhe o dente à maneira.” Ela insiste nas ofensas à sua virilidade: “Só vendo isso no talho, nota bem ó comilão, falas tanto na fressura, mas só comes salpicão!” e “Só vendo carne de talho, toda a gente sabe disso, mete na tua panela um paio ou um chouriço.” Ele defende-se, ela ataca, deixamos à imaginação do leitor o crescendo de ignomínias conducentes a um desenlace que se adivinha trágico.
Não nos atrevemos a voltar a Canty e à boçalidade das suas pilhérias. Não é “Só malandrice” comos e diz noutra das suas cassetes, mas qualquer coisa de verdadeiramente obsceno muito além do simples teor escatológico ou sexual de palavras que agridem em primeiro lugar a inteligência. É possível que este e outros “artistas” da mesma igualha que milhares de cidadãos anónimos consomem de forma mais ou menos ingénua retratem no fundo as pulsões sem tino nem destino de portugueses perdidos dentro de si mesmos, abandonados num país entregue às mãos de uma estupidez mais profunda e mais perigosa do que qualquer rima pornográfica. Uma estupidez sem consciência, incrustada na alma inexistente de gente ainda mais feia do que o “Cantiflas português”. Uma estupidez perversa oculta sob máscaras, gravatas e pastas de executivo que, às escondidas, se rebola de riso alarve com as anedotas “muito picantes” de Canty. Vícios privados, públicas virtudes de quem não guarda castidade nem nas palavras nem nas obras.