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Ted Nash Quintet + The Schulldogs + Andrew Hill Sextet – “O “Louco” No Alto Do Monte” (concertos / festivais / jazz / seixal jazz 2003)

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terça-feira, 4 Novembro 2003


O “louco” no alto do monte

TED NASH QUINTET
(5ª feira, 2º “set”)

THE SCHULLDOGS
(6ª feira, “set” único)

ANDREW HILL SEXTET
(sábado, 1º e 2º “sets”)
SEIXAL Auditório Municipal do Fórum Cultural
Assistência média: salas cheias



Jazz contemporâneo, mais ou menos vanguardista, preencheu o programa dos três últimos dias do Seixal Jazz 2003. Boa música, quase toda. “Boa” é adjetivo valioso nos dias que correm. Já lá vão os tempos em que tocar e ser jazz era uma questão de vida ou de morte. Hoje toca-se bem mas é raro encontrar-se o genuíno espírito de aventura, a entrega sem calculismo, o tudo ou nada que transforma a vida de quem faz e de quem ouve.
Passou-se isto na quinta-feira, com o quinteto de Ted Nash. Jazz com todas as letras, faltou-lhe a labareda que queima. No segundo “set”, Nash, esguio de estilo e na figura a fazer lembrar John Lurie, percorreu de alto a baixo as escalas e as gamas expressivas do tenor, bem mais selvagem do que na elegante produção do seu mais recente registo discográfico, “Still Evolved”, conseguindo fazer esquecer a presença da pauta, ainda que longe de atingir a fronteira além da qual o desconhecido encara o músico de frente.
Na secção rítmica brincou-se e de que maneira. Matt Wilson (um sósia de Miguel Esteves Cardoso) revelou ser baterista “gourmet” dos pequenos sons e dos ritmos hipnóticos. Cada tambor, cada prato, cada parte de metal, madeira ou pele, foi percutido com um sentido agudo da acentuação e das variações de timbre. Acompanhando cada inflexão com o esgar facial apropriado, Wilson foi simples nos compassos mas requintado no toque, fazendo um solo em trote de cavalo, longo, progressivo, com a baqueta esquerda a tamborilar na parte de fora do tambor, como uma espora. De uma atenção extrema ao menor estímulo, de si próprio e dos outros, combinou de forma perfeita com o contrabaixo de Ben Allison.
Confissão: Nunca nos perdemos de amores por álbuns deste músico como “Peace Pipe” (demasiado verniz…) mas ao vivo o senhor é outra coisa. Uma máquina, como se costuma dizer. Autêntico dançarino, alternou pulsações sanguíneas com uma leveza e precisão notáveis, com “swing” para dar e vender. Talvez o maior defeito de um concerto formalmente sem mácula fosse precisamente tanta leveza, tanta elegância, numa demonstração de talento e “savoir faire” que, honra seja feita aos músicos, esteve, porém, longe do mero exibicionismo.
Com os Schulldogs, dos irmãos George e Ed, respetivamente baterista e contrabaixista, que atuaram em “set” único na sexta-feira, foi sempre a malhar. Na falta do motor harmónico que é o piano, o som cru e, por vezes, abrasivo, do quarteto pautou-se pela nevrose dos sopros, já que os dois manos da secção rítmica mostraram ser pouco mais do que pedreiros competentes. Soprou Rich Perry, mais próximo da tradição. Soprou o menosprezado Herb Robertson (autor de álbuns magníficos dos anos 80 como “X-Cerpts” e “Shades of Bud Powell”), invariavelmente em alta velocidade, na zona vermelha dos agudos e do paroxismo. Uma sova de pós-free, pós-jazz, pós-ouvidos ficarem a zunir.
Sábado, no encerramento do Seixal Jazz 2003, um grande músico e um grande concerto. Andrew Hill, em sexteto a evocar a grandeza de “Point of Departure” (como notou o apresentador em voz “off”) levou ao festival jazz daquele que (ainda) faz falta: tradicional mas pujante de energia e criatividade, a exigir de cada músico o impulso individual, sim, mas em perfeita consonância com a arquitetura do coletivo.
Bem ancorados numa secção rítmica composta por um John Hebert de ferro, no contrabaixo, e por um Nasheet Waits, na bateria, bem mais disciplinado do que no trio de Jason Moran, os dois saxofonistas (Greg Tardy no tenor, Jason Yard – substituto de última hora de Marty Ehrlich – no alto e no soprano), deram livre curso à improvisação, correndo em passada larga entre e sobre o “free-bop” e o “free free”, gritando, respirando com a alma inteira, trazendo à memória os “safaris” de Pharoah Sanders à caça de luz.
Hill foi o maestro discreto, Monkiano no “touching”, no gosto pelas dissonâncias e na articulação dos silêncios cheios. Tocando seco, abdicou do pedal de ressonância para se concentrar no essencial de cada frase melódica. A cabeça é que, aos 66 anos, deu mostras de estar já um bocadinho mais para lá do que para cá. Apresentou os músicos uma mão cheia de vezes e cortou a “onda” quando parecia que algo mais poderia acontecer… “The fool on the hill”?… São poucos os que enfrentam os ventos que sopram no cume dos montes.