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Tanita Tikaram – “Lovers in the City”

Pop Rock

22 de Fevereiro de 1995
álbuns poprock

Tanita Tikaram
Lovers in the City

EAST WEST, DISTRI. WARNER MUSIC


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Com influências centradas em musicais como “West Side Story” ou na escrita de “songwriters” como Joni Mitchell e John Lennon, Tanita Tikaram tem desbaratado, ou mantido em segredo, o seu talento, por álbuns de vocação pop demasiado voltados para o consumo imediato. “Lovers in the City”, quinto longa-duração da cantora, dá um surpreendente salto qualitativo, ao qual não é alheio um tempo de maturação superior ao habitual, de alguém que, aos 25 anos, já vai com cinco álbuns gravados, bem como o trabalho de produção, assegurado por Thomas Newman (Tom Newman, produtor de Mike Oldfield, e pioneiro da “new age”?). A voz grave e acetinada de Tanita encontrou-se em canções em que predominam as baladas em tempos médios, ora envoltas numa aura percussiva que foi beber a Peter Gabriel, ora espraiando-se em lânguidas orquestrações para cordas, num registo confessional que segue de perto as pesadas de K. D. Lang, nas suas mais recentes operações de “coração aberto”, empreendidas no fabuloso “Ingénue”. Entre curiosidades como uma “Yodelling song” singular ou as horas perdidas entre o álcool e o fumo do tema final, “Leaving the party”, em que Tanita desnuda o seu lado trágico, numa versão feminina de Bryan Ferry, pérolas como “Bloodlines”, “Women who cheat the world” ou as entoações “langianas” de “My love tonight” garantem a subida de Tanita Tikaram à primeira divisão das vozes femininas actuais. Não faz mais sentido falar da menina-prodígio com boa voz, mas de uma cantora amadurecida em volta da qual nasceram as primeiras sombras. Um regresso que se saúda. (7)



Tanita Tikaram – “Everybody’s Angel”

Pop Rock

13 FEVEREIRO 1991
LP’S

MENINA BONITA

TANITA TIKARAM
Everybody’s Angel

LP e CD, EastWest, distri. Warner port.

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Porque será que a luz de Suzanne Vega ofusca tanto? Ouvem-se as outras senhoras, habitantes do mesmo território, as suas vozes, as canções, as histórias que contam e logo a imagem da nova-iorquina se impõe, omnipresente, implacável, incontornável. Porque será? E, no entanto, o estilo e personalidade da autora de “Days of Open Hand” são de tal maneira próprios dela que, à partida, chegariam para fazer esmorecer a mais pequena tentativa de concorrência. Mas, de facto e paradoxalmente, parecem ter feito escola entre as novas gerações de cantoras femininas.
Por exemplo, vejamos o que se passa com esta rapariga (que, como Vega, optou pelo corte capilar mais ou menos arrapazado) de nome exótico e que conta já com três álbuns no activo. A sua música tem pouco a ver com a da outra senhora. A voz muito menos. Os textos contam outras histórias, outras maneiras de ver o mundo. Mas lá está, faixa sim, faixa não, damos por nós a compará-la com a sempiterna Suzanne. Que segredo se esconderá então por detrás dos modos gentis e das entoações sinuosas desta voz que, tal qual um farol, ilumina a atrai a si todas as outras, para finalmente as destruir na violência de uma personalidade dominadora? Suzanne Vega exemplifica a emancipação do “singer/songwriter” em versão feminina, liberta da imagem sexuada, assente no primado da saia curta e olhar maroto. Suzanne personifica a coerência de uma visão pessoal e vigorosa do mundo, no seu caso da América, filtrada pelo olhar único que é o da mulher. E depois, não há nada a fazer, possui o dom fundamental nestas coisas da música: a arte de compor boas canções.
Regressando à nossa Tanita, verifica-se que entre ambas há certas semelhanças, menos ao nível dos processos musicais propriamente ditos e mais ao nível da atitude: tal como na obra de Suzanne Vega, cada canção da nossa jovem conta uma história que (ao contrário daquela) se acompanha enquanto é cantada, mas que de imediato se esquece, mal termina. Não colam. Não impressionam. Apenas fazem cócegas. Existe uma artificialidade latente na maneira como cada tema se desenrola. Cheira a laboratório, desde a produção (como sempre a cargo de Rod Argent, um veterano com a escola toda, auxiliado por Peter Van Hooke) até aos próprios maneirismos vocais soando a “trabalho de casa”, passando inclusive pela própria pose corporal. Acerca da voz de Tanita Tikaram disse a “Q-Magazine” que “era incapaz de soar mal”. É precisamente disso que se trata, do predomínio da forma exterior, do bonito e do agradável, sobre a beleza verdadeira, nua e por vezes bruta, que às vezes até pode não “soar bem”. Tanita é dona de uma voz atraente. Serve-se dela para cantar canções doces, nunca agressivas, que às vezes tocam ao de leve no firmamento estético da tal Suzanne, como é nitidamente o caso de “Hot Pork Sandwiches”.
Para além disso, neste disco, Tanita Tikaram parece querer abandonar de vez certas tonalidades pretensamente celtas, de resto mais sugeridas que reais, presentes no álbum de estreia, “Ancient Heart”, trocadas por uma desejada (e ainda incipiente) negritude a que tentar dar voz em temas como “Mud in any Water” ou “Me in Mind”, neste último o naipe de metais e os coros recordando a “soul” bem swingada dos velhinhos Foundations.
Para trás ficou a participação no já citado álbum do irlandês Davey Spillane, para dar lugar aos sopros (e ao violino de Helen O’Hara) da “The Section” (na qual figura o ilustre trompetista da ECM, Mark Isham), que aqui pintam com cores quentes as frágeis e delicadas canções da menina Tikaram.
De “Ancient Heart” até este “Everybody’s Angel”, passando por “The Sweet Keeper”, manteve-se o essencial: a fidelidade a um estilo introspectivo que, paradoxalmente, recorre a formas musicais tão extrovertidas como são normalmente as da “country music” (embora Tanita seja inglesa…), traduzido em baladas que acariciam o ouvido, mas, por enquanto, incapazes de elevar a intérprete ao nível superior hierárquico das grandes autoras-compositoras da actualidade. Não que ela pareça importar-se muito, mas, para ouvidos capazes de escutar mais fundo, pode tornar-se incómoda a sombra insistente da tal americana que toca guitarra e conta/canta histórias que, de tão vividas e sentidas, chegam a arrepiar. A diferença existente entre uma “pretty baby” e a “velha” senhora. **

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