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Suzanne Vega Regressa Com Álbum De Sucessos – Canções À Prova De Bala

02.10.1998
Suzanne Vega Regressa Com Álbum De Sucessos
Canções À Prova De Bala
Suzanne Vega está de volta com uma colectânea intitulada “Tried and True” que reúne alguns dos seus maiores sucessos, como “Luka”, “Marlene on the Wall” e “Book of Dreams”. Um formato que a cantora gostaria de explorar com mais assiduidade, em retrospectivas temáticas com versões acústicas ou de todas as “canções subordinadas ao tema da saúde mental”, por exemplo.

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“Podia perfeitamente pegar em todas as minhas canções e voltar a editá-las de maneiras diferentes, de modo a que as pessoas pudessem experimentá-las também de maneiras diferentes”. Colecções arrumadas em versões acústicas de velhas canções, ou por temas específicos, como a “saúde mental”. Por aqui se vê que Suzanne Vega, uma das compositoras-intérpretes mais importantes da moderna música popular norte-americana é adepta incondicional deste tipo de discos: “Tenho a casa cheia de discos de ‘Greatest Hits’!”, garante. Por detrás deste interesse está a necessidade de olhar constantemente para o passado e a vontade de recontextualizar a obra feita. “Se dependesse de mim, lançava uma colectânea todos os anos”, diz a cantora que, até à data, já editou cinco álbuns de originais: “Suzanne Vega”, “Solitude Standing”, “Days of Open Hand”, “99,9º F” e “Nine Objects of Desire”. Embora ela própria não tivesse tido ainda a oportunidade de paresentar as suas próprias versões, outros, como Peter Behrens, Mats Höjer, Michiagn & Smiley, Nikki Sudden, Beth Watson e DNA, já o fizeram, no álbum “Tom’s Dinner”, um apanhado de versões “engraçadas”, “brilhantes” ou “estranhas”, nas palavras da compositora.
Entre 1996, ano de edição de “Nine Objects of Desire”, e a actual colectânea, Suzanne Vega passou o tempo com a família e aproveitou para pôr em ordem a colecção das letras dos seus discos, que sairão reunidas em “The Passionate Eye”, livro a editar nos Estados Unidos na Primavera do próximo ano.
Esta preocupação com os textos constitui desde sempre uma das características principais da autora de “Luka” – uma canção sobre os maus tratos infantis – ao mesmo tempo que reflecte a influência que sobre ela exerceram “singer songwriters” clássicos como Bob Dylan, Lou Reed, Leonard Cohen, Paul Simon e Laura Nyro. Vega já tocou, aliás, ao vivo, com um destes seus heróis, Lou Reed. Com Leonard Cohen, gostaria de poder gravar algum dia, um disco.
De Suzanne Vega, pese embora a nomenclatura do seu nome, não se espere o comportamento típico de uma estrela. O que Suzanne Vega é, é o que está nos discos. O resto, a indústria e as suas pressões, podem esperar. A próxima digressão, por exemplo, está condicionada pelos horários escolares da filha. Por isso será preciso esperar até ao próximo Verão, época de férias, para ser reatado o convívio com a estrada.
Não que a cantora tenha especial predilecção pelas longas deslocações que qualquer digressão exige. Para Vega actuações ao vivo e digressões não são bem a mesma coisa. “Embora adore cantar ao vivo para as pessoas, gostaria de o poder fazer sem ter de me deslocar até aos locais dos concertos”. Lembra, a propósito, um dos concertos que mais a marcou, em 1989, no festival de Glastonbury, onde foi obrigada a actuar em circunstância muito especiais: “Houve ameaças de morte contra mim e contra o baixista, Mike Visceglia. Fui forçada a actuar em frente de uma fila de polícias, com helicópteros a sobrevoar constantemente o palco. Cantei vestida com um coleta à prova de bala. Acabou por correr tudo bem, mas foi, sem dúvida, o concerto mais stressante de toda a minha carreira”.
Mas o mais vulgar nos concertos de Suzanne Vega não é a cantora ser recebida a tiros mas de braços abertos, embora as reacções variem bastante de país para país. A diferença entre o público japonês e o norte-americano, por exemplo, constitui um enigma: “No Japão são muito calmos e respeitadores mas, estranhamente, parecem compreender bem as letras das canções. Na zona ocidental dos Estados Unidos, pelo contrário, as pessoas são mais barulhentas e apreciativas, quando gostam em particular de uma canção, só quem também estranhamente, parecem não fazer a mínima ideia do que é que ela fala, nem parece que falamos a mesma língua. É uma daquelas coisas misteriosas que não consigo explicar”. Já na Inglaterra “as pessoas são muito sarcásticas e interrogativas, mas é porque estão a gostar”. Por enquanto Suzanne Vega não poderá saber qual o tipo de reacção do público português. Mas a julgar pelo bom acolhimento aos seus discos, não estará longe de ser um dos “Nine Objects of desire” que dão título ao seu último disco de estúdio.

Livro De Sonhos

Suzanne Vega, em discurso directo, sobre cada uma das cancções de “Tried and True: The Best Of…”:

“Luka”
Foi um grande sucesso em 1987. É, provavelmente, a minha canção mais conhecida. Fala de um rapaz chamado Luka que sofre maus tratos dos pais. Toda a gente quis saber se existiu de facto, um Luka. A resposta é sim. Vivia no andar de cima do meu prédio. Mas, na verdade, os pais não lhe batiam.
“Tom’s diner”
Existe um “Tom’s Diner” na rua 102 da Broadway, chamado “Tom’s Restaurant”. A versão aqui incluída foi remisturada pelos djs D. & A.. Ao contrário do que tem sido dito, gosto bastante dela, motivo pelo qual a editei em single.
“marlene on the wall”
Pertence ao meu primeiro álbum e foi escrita a partir de um ponto de vista inspirado num poster de Marlene Dietrich que tinha colado no meu quarto. Procura responder aquelas pessoas que se interrogam sobre quem era Marlene.
“Caramel”
Uma espécie de tributo à bossa nova dos anos 60. Costumava ouvir Astrud Gilberto, que cantava “A Rapariga de Ipanema”. Sempre quis compor uma canção como essa. É a minha versão.
“99,9º F”
O assunto é, na verdade, muito simples. É sobre namorar com alguém. O tema não é a doença, ao contrário do que algumas pessoas pensam.
“Small blue thing”
Outra canção de amor, embora não convencional. Basicamente descreve um ambiente especial. E responde à questão: “se eu fosse uma coisa pequena e azul que tipo de coisa pequena e azul é que seria?”.
“Blood makes noise”
Deu-me imenso gozo a gravar. Cantei numa das pistas através de um megafone e noutra com a minha voz natural. É uma canção sobre não se ser capaz de comunicar com alguém por causa da ansiedade e do medo. Como estar preso numa casca de noz.
2Life of center”
Foi escrita para o filme “Pretty in Pink”, em especial para o personagem principal, desempenhado por Molly Ringwold”. a partir do guião, escrevi-a a pensar na sua personagem mas também na minha.
“In Liverpool”
Escrevi-a para um amigo de longa data, quando chegou de Liverpool. Pertence a uma época em que andava em digressão e visitei essa cidade.
“Gypsy”
Outra canção escrita para essa mesma pessoa. Portanto, ele tem duas canções que lhe dizem respeito, embora, de facto, não as mereça. Não voltei a vê-lo desde esse Verão, já há muito tempo, o que acho bem. Há coisas que devem ser deixadas como estão.
“Book of Dreams”
Está ligada a um período que se seguiu a uma digressão, em que estive sem actuar ao vivo durante um ano, a recuperar e em que dormia muito. Descobri que sonhava muito. Muitas das canções de “Days of Open Hand” estão relacionadas com sonhos e com introspecção. É a canção central deste álbum.
“No Cheap Thrill”
Fala de romance utilizando a linguagem do jogo. Penso que fala por si.
“World before Columbus”
Composta para a minha filha. Pretendi escrever algo que expressassse os meus sentimentos por ela, um bebé, mas sem que isso soasse como uma canção de embalar ou uma canção para bebés.
“When heroes go down”
Uma canção curta, 1m54s, que também fala por si.
“The Queen and the Soldier”
trata-se, provavelmente, de uma das minhas canções mais misteriosas. Não consigo dizer, exactamente, de onde é que surgiram as imagens, embora já muita gente me tivesse feito essa pergunta. Há quem afirme que foi escrita da perspectiva da rainha mas isso não é verdade. Senti-me na pele tanto da rainha como na do soldado.
“Book & a cover” e “Rosemary”
Duas canções inéditas. “Book & a cover” fala de não julgar as pessoas com base nas aparências. “Rosemary” é uma canção sobre o desejo de se ser recordado, o que julgo ser uma maneira apropriada de finalizar uma retrospectiva.

O Mestre Leonard Cohen Deveria Aprender Com A Discípula Suzanne Vega

12.10.2001
O Mestre Leonard Cohen Deveria Aprender Com A Discípula Suzanne Vega

Leonard Cohen e Suzanne Veja têm novos álbuns: Ten New Songs e Songs of Red and Gray.
Mestre e discípula. Qual é um e qual é outro? É diferente o Outono de ambos. Cohen renunciou ao céu e afirma-se feliz. Vega continua a piscar, inquieta, mordida pelas abelhas. O ferrão saiu do espírito dele para se cravar na alma dela. Ele cala. Ela dança.

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Antes de denegrir o novo álbum de Leonard Cohen e, consequentemente, ser alvejado por todo o tipo de impropérios e outros projécteis verbais pelos admiradores incondicionais deste cantor canadiano que acabou de lançar “Tem New Songs”, devemos confessar que nele sempre apreciámos, em primeiro lugar, o poeta. A música sempre desempenhou na sua obra um lugar secundário, espécie de lenga-lenga melódica que acabou por se institucionalizar como estilo.
É verdade que o velhote que há oito anos aderiu à “filosofia” zen, passando a viver como um monge-cozinheiro no Mount Baldy Zen Center, mas que não dispensa o seu copito (“I fought against the bottle/But I had to do it drunk”, diz um dos versos de “That don’t make it junk, uma das canções do novo álbum), tem jeito para lidar com as palavras, ainda que, mesmo neste aspecto, “Tem New Songs” esteja longe de evidenciar a acutilância, por vezes apocalíptica, dos primórdios cohenianos, em álbuns como “The Songs of Leonard Cohen”, “Songs from a Room” e “Songs of Love and Hate”.
É um disco de textos simples e música mais simples ainda, nalguns casos a roçar a indulgência. Como sempre tem acontecido no passado, mas este disco provoca ainda mais, ou se adora ou se detesta a forma como Leonard Cohen expõe, de forma risível, a sua luz, aos olhos alheios. Já foi intolerável, pela intensidade da exposição, este confronto.
Ao fim de 66 anos de vida desenrolada com a persistência de uma contínua viagem em direcção ao silêncio, ficou pouco. Para alguns, o essencial. Para outros, o óbvio, de mãos dadas com o lugar-comum. Mas essa é afinal a etapa última da viagem de auto-descoberta e da renúncia de si próprio. Leva-se uma vida para dizer do fundo do mar o que o comum dos mortais diz de cabeça no ar. Verdades evidentes, ridículas, simplistas. A diferença reside apenas na maneira e na vida de quem as diz. Entre o idiota e o santo, a gramática é a mesma. O sopro do Verbo é que é diferente.
Recentemente Cohen abandonou o mosteiro onde residiu durante quase uma década, reconhecendo a ausência de uma verdadeira vocação espiritual. Renunciou. Curioso: o zen, via do paradoxo, acende-se precisamente quando aquele que o persegue o abandona, o ter cede ao ser. A mão fica cheia ao desistir de segurar. Neste aspecto, Leonard Cohen não tem feito outra coisa senão prosseguir uma coerência que – faça-se-lhe justiça – sempre pautou a sua obra. A simplicidade de “Tem New Songs” desarma. Mas também incomoda. E pode ser irritante. A própria capa do disco mostra o velho cantor e compositor com uma expressão imbecilóide no rosto. Claro que também podemos ver na fotografia a serenidade de um bonzo. Ainda aqui, tudo depende, da intensidade ou da mentira do olhar.

A Vida Negra
Dito isto, que até soa a elogio, feliz ou infelizmente, “Tem New Songs”, feito em estreita colaboração com duas mulheres (as mulheres sempre preencheram os tempos vivos e os tempos mortos de Cohen) – Sharon Robinson, produtora e co-autora de todos os temas e Leanne Ungar, engenheira de som -, se descolado da lenda e da aura de profeta que sempre rodeou o canadiano de voz de gato-pingado, soa a uma papa vagamente “soul” armada sobre programações a trote do cansaço.
O tema central é, como sempre foi e continuará a ser até chegar o momento de Cohen optar em definitivo pelo silêncio absoluto, o amor. Manda a regra imutável da pop e da arte em geral – o amor infeliz. As fugas, as desistências, as traições, as incompreensões, enfim, todo o conjunto de emoções dolorosas que o ser amado nos inflige, sabe-se lá por que motivações maquiavélicas, e nos faz ser desgraçadamente humanos.
Em “Tem New Songs” Leonard Cohen continua a tentar perceber as razões da avalanche. Faz várias perguntas, quase todas a si próprio, e as respostas, à míngua de uma revelação, surgem na forma de canções. Mas as perguntas de “Tem New Songs” soçobram no vazio e o vento do desalento não deixa de soprar. Ao mesmo tempo que faz o trabalho de limpeza da introspecção, Cohen interroga o advogado do céu ou, na sua ausência, do inferno, justificando as suas maleitas com o mal universal e a indiferença de um Deus que implica com ele e lhe faz – ou fez – a vida negra. Daí a simbologia e estrutura poética religiosa (bíblica?) impressa em canções como “Here it is”, “Boogie Street” (ainda o vinho, na sua dupla dimensão dionisíaca e litúrgica…) e “The Land of Plenty”. Não há melhor maneira de tornar universal a dor individual.
A “coroa”, o “vinho” e a “cruz que Leonard Cohen depõe em “Here i tis” passam por ser os sinais de uma agonia que finalmente encontrou plausibilidade e redenção na visão desprendida de quem, já no crepúsculo da viagem, nada mais deseja senão compreender. Mas daí até versos como “May everyone live/And may everyone die/Hello, my love/and my love, goodbye” (em “Here i tis”), sobre caixa de ritmos cha-cha-cha, serem tomados como novo evangelho dos deserdados do amor, vai uma certa distância…
O próprio Cohen, em 1988, a propósito das conotações religiosas da sua música, afirmara: “Pensei que poderia espalhar luz, iluminar o meu mundo e o dos que estão à minha volta, que poderia seguir o caminho do serviço, da ajuda aos outros. Acreditei que conseguiria mas não fui capaz. Este é um terreno no qual os homens mais fortes, mais corajosos, mais nobres, mais bondosos, mais generosos do que eu, homens que capazes de cometer feitos extraordinários, se despedaçaram ao longo do caminho. Quem lida com o Sagrado acaba por ser dilacerado”.
Treze anos volvidos, no novo álbum, faz a confissão do fracasso, em “The land of plenty”: “Na verdade, não tenho coragem/Para permanecer onde devo permanecer/Não tenho realmente temperamento/Para deitar uma mão amiga”.
“The land of plenty” expõe de forma limpid o dilemma: “Don’t really know who sent me/To raise my voice and say:/May the lights in the land of plenty/Shine on truth some day” e, mais íntimo, “Don’t really know why I came here/knowing as I do/What you really think of me/What I really think of you”. Quer dizer, atendendo ao cansaço e à idade, ou aos conselhos que o seu amigo monge Joshu Sasaki lhe terá sussurrado ao ouvido durante a sua estadia no mosteiro, Leonard Cohen desistiu, deixando a esperança para quem tiver ainda a Força: “For the innermost decision/That we cannot but obey/For what’s left of our religion/I lift my voice and pray:/May the lights in the land of plenty/Shine on the truth, some day”. Uma certa forma de “new age” existencial que cai bem. Se é que é possível cair bem… Talvez seja. No presente, Leonard Cohen diz: “Estou feliz”.

Danças Com Abelhas
Será Suzanne Vega capaz de estender a mão? De conservar e usar a força? De ser feliz? Como Leonard Cohen, seu mestre, Suzanne (uma das canções do canadiano chama-se assim, “Suzanne”) colocou o ênfase na palavra “song” no título do seu novo álbum, “Songs in Red and Gray2. Assunção de um estatuto de cantor-compositor clássico que dispensa associações. As canções a “vermelho” e “cinzento” – o vermelho do coração, o cinzento do cérebro – têm uma só assinatura, imediatamente reconhecível: “Canções Suzanne Veja”. À semelhança de Cohen, há uma voz e um estilo inconfundíveis, quer se goste ou não deles. E, ainda como Leonard Cohen, Suzanne Veja não resiste a cantar sobre as suas desventuras amorosas. Com uma diferença: apesar dos santos e penitentes que assombram “Songs of Red and Gray”, para si, o fim de uma relação não é o fim do mundo.
Suzanne, 42 anos, revolve com outra força as feridas de cada um de nós. Menos mito (mesmo a “Virgin Mary” de “It makes me wonder” é a companheira de “uma exploração carnal” do “sagrado” e do “profano”) e mais sangue fresco.
Nos 66 anos de Cohen, o sangue corre frio e devagar. Nela tudo arde ainda. O ardor do ferrão da abelha cravado na carne. Depois, quer se queira quer não, Suzanne Veja sabe colorir as suas histórias com um vigor instrumental que Cohen desde sempre dispensou. E pintar-se com as imagens de uma simbologia da terra: folhas, abelhas, uma rosa-chaga, um baralhos de cartas, aberto em copas – corações. Será uma forma de se cobrir. Cohen vai nu. Ela dança, como uma bailarina.
“Songs in Red and Gray” é, como não poderia deixar de ser, um álbum feito à medida de quem sente e sabe cantar com ternura aquilo que sente. Cohen vai descamando a alma como um réptil. Veja brilha ainda como uma estrela cujo brilho irradia. Cohen arrefece. Vega aquece. Mesmo se “Songs in Red and Gray”, balouçando entre a maquinaria de cetim de “99,9ºF2, orquestrações folky e o arvoredo outonal de segredos ditos, Às escondidas, num sonho, não acrescente uma vírgula à grandeza, sinónimo de beleza, oferecida em “Days of Open Hand”.
Ainda assim, o mestre deveria aprender com a discípula. Que é, aliás, o que fazem todos os verdadeiros mestres.