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Storvan – “An Deiziou Kaer”

POP ROCK

5 Março 1997
world

Storvan
An Deiziou Kaer
KELTIA, DISTRI. MC-MUNDO DA CANÇÃO


st

Os Storvan são uma das três formações que ocupam a vanguarda actual do movimento de recriação da música tradicional bretã, ao lado dos Skolvan de Strobinell, por coincidência todos com nome começado por S. “An Deiziou Kaer” (“os belos dias”) sucede a “Digor ‘n Abadenn” na discografia do grupo, revelando um progresso assinalável na maneira como este vem trabalhando a música de uma região onde a marca celta ficou para sempre impressa. Em termos de apreciação instrumental, não conseguimos recorrer a outra palavra, para definir a impressão que nos provocou a sua audição, senão: magia. Pura magia. O “laridé” em seis tempos da abertura e o “hanter dro” seguinte, para além de fazerem dançar um coxo, destilam aquela substância volátil e misteriosa que faz mexer as cordas mais secretas da alma. “Ar biniou” insere-se na vertente do sagrado, inseparável da tradição bretã, numa transposição para bombarda de uma história sobre o “biniou” (gaita-de-foles bretã) contada pelas míticas irmãs Goadec, ainda retomadas em “An tad moualh koz et porsac’h”. Na inevitável “Suite de danses fisel”, Christian Facheur volta a evidenciar os seus dotes de “virtuose” da bombarda, um dos instrumentos mais exigentes, mas também de sonoridade mais evocativa, da música da Bretanha. Em “Danse de Bitêklé”, os Storvan contam as 99 estalagens que, segundo a tradição, se erguem ao longo do caminho que vai da Terra ao Paraíso. Precisamente a meio caminho fica a de Bitêklé, aquela onde, todos os sábados, Deus vai buscar, para as levar para o paraíso, as almas do que ainda não estão demasiado bêbados. Para nós, dizem os Storvan, fica a tarefa de encontrar os passos certos para esta dança entre dois mundos. A nós cabe-nos ainda essa outra tarefa, talvez a mais nobre de todas, de moldar os nossos hábitos de escuta, abandonando a passividade que impede o discernimento, se quisermos aceder ao que a música tradicional tem de mais profundo para nos dizer: a correspondência de movimentos, entre a dança das notas e o devir anímico. A música dos Storvan leva-nos aonde quisermos ir. Um dos melhores álbuns do ano passado que transitaram para o ano novo, antecipando os “belos dias” da Primavera que está para nascer. (9)