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Yungchen Lhamo – “Tibet, Tibet” + Choying Drolma & Steve Tibbetts – “Chӧ”

POP ROCK

26 Fevereiro 1997
world

Yungchen Lhamo
Tibet, Tibet (8)
REAL WORLD, DISTRI. EMI – VC
Choying Drolma & Steve Tibbetts
Chӧ (8)
HANNIBAL, DISTRI. MVM


yl

“Auuummmm”, incenso, campainhas, tlim, um gongo, bong, a despertar, dias inteiros a entoar cânticos em louvor das divindades, em templos perdidos entre as nuvens, no alto de montanhas inacessíveis. São algumas das imagens que, geralmente, se associam à música tradicional tibetana. Mas algo está a mudar dentro de portas e já faltou mais para que estes monges e monjas se transformem em “pop stars”. Neste caso trata-se de duas mulheres que trazem a religiosidade do budismo tibetano para as regiões profanas do consumo. “Tibet, Tibet” foi um dos álbuns que mais alto subiram nas listas dos “Melhores do ano” de 1996, da “Folk Roots”. É o mais tradicional do par. Voz solo ou acompanhada pelo coro dos Gyuto Monks, que, por sinal, já gravaram “Freedom Chants from the Roof of the World”, incluindo um tema como Philip Glass. Ascese, devoção, serenidade. Não chamamos sereia a Yungchen Lhamo (“Deusa da canção”) porque jamais ela aceitaria que alguém visse na sua música uma tentação. O que não impede que o espírito se rebole de prazer. Já Choying Drolma não tem destes problemas. A religiosidade é, no seu caso, adoçada pela produção e participação “new age” de Steve Tibbetts, guitarrista cósmico da ECM. “Chӧ” recorre também a um coro tibetano mas não dispensa nem arranjos de música de câmara, com as cordas da praxe, nem o sustento de um baixo eléctrico, num namoro hipnótico com o Ocidente que expõe as delícias perigosas do Tantrismo bem como de outros procedimentos da magia sexual tibetana. Música erótica. No leito das altas esferas.



Christy Doran & Freddy Studer – “Play The Music Of Jimi Hendrix” + Pat Metheny – “Zero Tolerance For Silence” + Steve Tibbetts – “The Fall Of Us All”

Pop Rock

11 de Maio de 1994
ÁLBUNS POPROCK

CHRISTY DORAN & FREDDY STUDER
Play the Music of Jimi Hendrix (7)

Vera Bra, distri. Dargil


cd

PAT METHENY
Zero Tolerance for Silence (5)

Geffen, distri. BMG


pm

STEVE TIBBETTS
The Fall of us all (6)

ECM, distri. Dargil


ST

Nestes três discos, a guitarra é pau para toda a obra. Em termos técnicos, tanto Christy Doran como Pat Metheny e Steve Tibbetts são aquilo a que se costuma chamar “virtuoses”. Mas a esta sua reconhecida capacidade de domínio da guitarra não corresponde, nesta fornada das suas obras mais recentes, música à altura. Mesmo assim, é Christy Doran quem, dos três, acertou mais perto da “mouche”. No seu caso, a música de Jimi Hendrix é pedra de toque para exercícios de desconstrução de temas como “Foxy lady”, “Manic Depression”, “Purple haze” ou “Hey Joe”, nos quais dificilmente se reconhece os temas originais. Doran, com os seus companheiros Freddy Studer, Phil Minton, Django Bates e Amin Ali, em vez de tentarem reproduzir a música do grande guitarrista negro, procuram, antes, apoderar-se do seu estilo, privilegiando a experimentação e a guerrilha sonora. O resultado poderia ser bem melhor se não fosse a contínua excitação de Phil Minton, cuja habitual apoplexia vocal acaba por se tornar irritante e desvalorizar as restantes prestações instrumentais, lançando ruidosa expectoração onomatopaica sobre a parede sonora criada pela guitarra e os teclados de Bates, um ex-colaborador de Bill Bruford. Apesar de tudo, Hendrix não sai desprestigiado da aventura.
Com Steve Tibbetts, o que se passa é que parece ter chegado a um beco sem saída. O seu estilo, caracterizado por uma abordagem “suave” da guitarra, mesclado de influências orientais e ambientais, deu origem a excelentes discos como “Yr” e “Big map idea”. Em “The Fall of us all”, contudo, a suavidade e a complexidade com que trabalhava sobretudo a guitarra acústica foram substituídas por um discurso mais violento, que nunca consegue ser coerente. Imagine-se os Oregon a perderem a cabeça e a ligarem todos os instrumentos à ficha. É um pouco isto que se passa em “The Fall of us all”, onde as tablas de arrastam, os sintetizadores adormecem e os coros femininos parecem ter sido repescados dos Pink Floyd. Posto isto, claro, Tibbetts continua a saber tocar guitarra.
“Zero Tolerance” afigura-se o caso mais estranho. Talvez cansado das críticas e acusações de que tem sido alvo nos seus recentes trabalhos, comercialões até dizer chega, Pat Metheny terá resolvido que era altura de mostrar que continua a ser um músico de “vanguarda”. Não podia ter sido mais radical na forma de o fazer: “Zero Tolerance” é um solo ininterrupto de guitarra eléctrica distorcida, sem qualquer acompanhamento, numa sequência dividida em cinco partes onde não se percebe muito bem o que Metheny quer dizer, além de dar razão ao título. A primeira parte, um quarto de hora de ruído ininterrupto, faz lembrar Glenn Branca numa “bad trip” e terá sido, decerto, o que levou Thurston Moore, dos Sonic Youth, numa nota colada à embalagem, a referir-se a este disco como “um dos mais radicais exercícios musicais de sempre empreendidos na guitarra”. Indicado como banda sonora para uma descida aos infernos.