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Steve Fisk & Robert Beerman / Cut-Out – “Interlude With The Fun Machine”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
14 Novembro 2003


STEVE FISK & ROBERT BEERMAN
Cut-Out, Interlude with the Fun Machine
Starlight Furniture Co., distri. Sabotage
7|10



Autor de um dos clássicos da pop alternativa dos anos 80, “448 Deathless Days”, Steve Fisk regressou há dois anos com novo trabalho inspirado na numerologia, “999 Levels of Undo”. Desses dias sem morte para cá, a música de Fisk, membro dos Pigeonhead e Pell Mell, produtor dos Screaming Trees, Nirvana, Beat Happening, Low e Soul Coughing, entrou em normalização. Só que “normal” é ainda sinónimo de margens do “mainstream”. “Cut-Out” vai ao encontro dos parâmetros do pós-rock de bandas como Tortoise ou Tarwater com tendência para o exagero na repetição e fragmentação dos “grooves”. Porém, o que em “448…” era colagem inteligente de eletrónica com lugares-comuns de géneros como a “soul” ou o “disco”, derivou para uma linguagem cuja originalidade ficou substancialmente reduzida. Entre assomos de drum & bass e pisadelas tecno, esta “máquina de diversão” consegue, ainda assim, surpreender, seja com o falso bloqueio de um leitor de CD avariado (“Under the lamp”), seja com a música de câmara digital de “Fin”. A vida está difícil para excêntricos como Fisk, por mais que procurem métodos de “não fazer”.

Steve Fisk & Robert Beerman – “Cut-Out, Interlude With The Fun Machine”

14.11.2003
Steve Fisk & Robert Beerman
Cut-Out, Interlude With The Fun Machine
Starlight Furniture Co., distri. Sabotage

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pwd: p-l-m.blogspot.com

Autor de um dos clássicos da pop alternativa dos anos 80, “448 Deathless Days”, Steve Fisk regressou há dois anos com novo trabalho inspirado na numerologia, “999 Levels of Undo”. Desses dias sem morte para cá, a música de Fisk, membro dos Pidgeonhead e Pell Mell, produtor dos Screaming Trees, Nirvana, Beat Happening, Low e Soul Coughing, entrou em normalização. Só que “normal” é ainda sinónimo de margens do “mainstream”. “Cut-Out” vai ao encontro dos parâmetros do pós-rock de bandas como Tortoise ou Tarwater com tendência para o exagero na repetição e fragmentação dos “grooves”. Porém, o que em “448…” era colagem inteligente de electrónica com lugares-comuns de géneros como a “soul” ou o “disco”, derivou para uma linguagem cuja originalidade ficou substancialmente reduzida. Entre assomos de drum & bass e pisadelas tecno, esta “máquina de diversão” consegue, ainda assim, surpreender, seja com o falso bloqueio de um leitor de CD avariado (“Under the Lamp”), seja com a música de câmara digital de “Fin”. A vida está difícil para excêntricos como Fisk, por mais que procurem métodos de “não fazer”.

Steve Fisk – Desfeita Ao Drum ‘N’ Bass

11.05.2001
Steve Fisk
Desfeita Ao Drum ‘N’ Bass

Quantos níveis existem de desfazer? Exactamente novecentos e noventa e nove para Steve Fisk. Colagens e delírios tão estranhos como a criatura informe a descansar sobre um crânio como o da capa de 999 Levels of Undo. Um pontapé no rabo do drum ‘n’ bass.

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Steve Fisk ´um génio do sampling que nos anos 80 gravou o mítico “448 Deathless Days”, do qual o novo álbum, “999 levels of undo”, é digno sucessor. Colaborador assíduo dos Negativland, assinou pelo meio colaborações na produção com os Nirvana, Soundgarden e Screaming Trees, ao mesmo tempo que devolveu ao som de Seattle a inovação perdida, com os Pigeonhead.
A sua música alia uma utilização do sampler – enquanto armazenador de memórias perdidas da música negra dos anos 70 e 80 – a concepções rítmicas que tanto devem à colagem contestatária dos Negativland como ao impulso cardíaco do drum ‘n’ bass, que Fisk obriga a escorregar para fora das pistas de dança. Para este veterano que coloriu com as travessuras do experimentalismo a estafada cena das bandas grunge de Seattle e conserva o gosto pelos velhos sintetizadores analógicos dos anos 70, a electrónica é um carro de combate e uma tenda de circo. Ou uma orquestra de acontecimentos em que as surpresas se sucedem ao ritmo de uma imaginação sem limites. “Desfazendo” o novelo dos estilos e o conforto da rotina, Steve Fisk fez um dos discos mais estimulantes do ano.

FM – O novo álbum, como o anterior “448 Deathless Days”, ostenta uma sonoridade que tanto parece ser criada a partir de máquinas analógicas, como logo a seguir toma formas inteiramente digitais…
STEVE FISK – Comecei a interessar-me pela electrónica aos 15 anos e um ano depois comprei o meu primeiro sintetizador, um A.R.P. Odyssey, hoje uma peça de museu. Se soava bem na altura, continua a soar bem agora. As pessoas redescobriram o prazer de ouvir estes aparelhos, como o mellotron, que também continuo a usar e que adorava ouvir nos anos 70, pelos King Crimson. O computador uso-o para fazer os ‘edits’, todos os sons que gravo são passados através dele. Sem ele, as colagens que faço nos meus discos soariam todas baralhadas. Já utilizava um em “448 Deathless Days”, de 1987, embora a maior parte de colagem desse álbum fosse manual.

FM – Esse estilo de colagens faz lembrar nalguns casos os Negativland, com quem de resto já colaborou, em “Escape From Noise”.

STEVE FISK – Gosto bastante dos Negativland, com quem trabalhei nesse álbum mas não só. Costumamos trocar samples por correio e temos uma quantidade de material que fizemos juntos, registado em cassete e pronto a ser editado, incluindo uma canção que soa vagamente a “White Rabbit”, dos Jefferson Airplane (risos). Estão sempre a pedir-me para lhes mandar sons que tenho gravados em casa. E faço parte de uma banda de improvisação, com Mark Hosler, um dos músicos do grupo.

FM – Qual a importância desempenhada pela música negra de dança num trabalho de composição que cita e desfaz, com toda a desfaçatez, as malhas do drum ‘n’ bass?

STEVE FISK – Sempre apreciei artistas como Prince, Stevie Wonder, Sly & The Family Stone, Parliament, Funkadelic, as bandas de Minneapolis. Embora eu procure o mesmo tipo de organicidade, a minha música está longe de ser dirigida para as pistas de dança, como faz DJ Shadow, por exemplo, que também admiro particularmente. E verdade que, até certo ponto, acabei em ‘999 Levels of Undo’ por ir parar ao drum ‘n’ bass, mas não foi uma atitude voluntária. Procuro evitar ao máximo ouvir as correntes musicais em voga, não se dê o caso de inconscientemente apanhar alguma ideia ou “Groove” alheio…

FM – Em termos de sampling, “999 Levels of Undo” é um álbum tão revolucionário como “Supermodified” de Amon Tobin. Conhece esse disco?

STEVE FISK – Esse é um grande elogio, comparar-me, em importância, ao Amon Tobin. É um músico fantástico. Ouvi-o recentemente num spot publicitário televisivo de uma marca de automóveis…

FM – É possível estabelecer comparações entre os seus discos a solo e o trabalho que desenvolveu entre um e outro, com Shawn Smith, nos Pigeonhed?

STEVE FISK – Há características comuns entre ‘448 Dethless Days’ e ‘999 Levels of Undo’, apresentando ambos uma quantidade de ‘drumbeats’ em cascata, falsos começos… Mas a música que componho a solo é muito diferente da que faço com os Pigeonhed que é bastante mais acelerada, estilo 130 batidas por minuto… Sozinho componho coisas menos frenéticas, num registo quase orquestral, na medida em que crio sequências de acontecimentos e efeitos especiais ligados entre si. Mas houve alturas em que cheguei a sentir-me embaraçado, por pensar que as pessoas pudessem associar os sons a um certo jazz-rock errático, quando o humor é afinal parte integrante da minha música. Gostaria que as pessoas se rissem ao ouvir certos temas…
FM – Rir, quando se confrontam logo à partida com uma imagem tão perturbante como a da capa?

STEVE FISK – A escultura original, da autoria de Katherine Wolf, é um bocado mórbida. Pedi a um amigo meu para fazer uma pintura de um crânio a partir dela e foi daí que resultaram todas as gravuras que aparecem na capa. A ideia é mostrar dois pólos opostos e indissociáveis, a vida e a morte. Creio que as imagens reflectem as minhas próprias formas e processos musicais.

FM – E o título, que à semelhança do disco anterior, recorre a um número, qual foi a ideia?

STEVE FISK – Partiu de uma piada em torno de um procedimento habitual em estúdio através do qual é sempre possível desfazer o último ‘take’ de uma gravação e voltar ao precedente… Wendy Carlos, por exemplo, criou no seu computador um sistema que permite bloquear esse processo, não suportava a simples possibilidade de que fosse apagada música que já estivesse feita, de alterar qualquer decisão sua na escolha das versões definitivas. Claro que também me passou pela cabeça que 999 é 666 invertido…

FM – Para terminar, uma lista dos seus discos favoritos…

STEVE FISK – “Computer World”, dos Kraftwerk; o primeiro volume de “Woodstock”, que me mostrou como soam as pessoas reais, num contexto real, em contraste com a forma como soam em estúdio. O som é péssimo e algumas das perfomances são de fugir, mas aprendi imenso com ele… O álbum ao vivo de Todd Rundgren com os Utopia – que, provavelmente, foi responsável por me ter posto a cabeça a funcionar de mil e uma maneiras “horríveis” – e o primeiro volume de uma colectânea de música electrónica da Columbia.