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Tocar De Cruz – Artigo De Opinião

Pop Rock

8 de Novembro de 1995
Opinar

TOCAR DE CRUZ


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Portugal assistiu nos últimos anos ao aparecimento de duas correntes musicais, opostas e complementares, que se autonomizaram e fizeram escola. A primeira nasceu das teorizações de Pedro Ayres Magalhães e ganhou corpo nos Madredeus. A segunda tem nos Sitiados o seu mais popular e aguerrido paradigma. Caracterizam-se ambas por um nacionalismo intrínseco, na medida em que veiculam e reproduzem valores tipicamente portugueses.
Os primeiros propagandeiam o fado, a saudade, o quinto império coberto por um sudário. São elitistas. Os segundos defendem ideais mais prosaicos e fazem a apologia do arraial, dos copos e do futebol. São populistas. Enquanto os Madredeus faziam a banda-sonora da Lisboa existencial observada através de câmara de Wim Wenders, os Sitiados chamavam nomes à sogra e cobriam de ridículo a figura de Cavaco. Os Madredeus estão crucificados num violoncelo. Os Sitiados dançam ao som de um acordeão.
Estaria tudo conforme e na paz dos anjos se o que na origem se afirmou como o exercício saudável de duas alternativas originais no panorama pop português não se tivesse transformado num pretexto para o conformismo e a estagnação. Tanto os Madredeus como os Sitiados inventaram (?) e exploraram um conceito. Seria absurdo criticá-los por isso. O problema surge quando os discípulos ou, pior, os imitadores saem das tocas e põem o nariz no ar a ver para que lado sopra o vento.
E assim chegámos, não ao quinto império, mas ao quintal; não à grande festa popular, mas ao estado de sítio. São os filhos de Deus, os primos de Deus, os sobrinhos de Deus, os enteados de Deus, que se vestem de negro e arvoram a pose fatalista de um Portugal que se esgota entre os cafés de Alcântara e o Bairro Alto, de um lado. São a chusma do palavrão e da pilhéria boçal, uma excitação, aos encontrões no baile pindérico do provincianismo que cabe no Centro Comercial do Martim Moniz, do outro.
No meio destes dois lodaçais sufoca-se. Entre dois estereótipos do “ser portuga”, a música portuguesa corre o risco de cegueira e da asfixia. O nosso fado tem sido desde sempre o de deitar tudo a perder, quando se tem o tesouro e o poder nas mãos. Seria trágico que os novos músicos portugueses se deixassem iludir pelo brilho da fancaria e baixassem o cachaço ao afago dos falsos profetas. Chega de “fado” e de pimba!