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Sex Pistols: Xeque Ao Reino (artigo de fundo)

Pop Rock

21 OUTUBRO 1992

“God save the queen: The fascist regime (…) There is no future, in England’s dreaming! No future for you, no future for you, no future for you!”

Sex Pistols, “God save the queen”

XEQUE AO REINO

Há quinze anos, durante as comemorações do “Jubileu”, a anarquia instalou-se no Reino Unido. A bordo do Queen Elizabeth, em pleno rio Tamisa, os Sex Pistols saudavam à sua maneira, com ódio e imprecações, a rainha. Num concerto que simbolizou o destino que já então marcava quantos ousaram rebelar-se: raiva e solidão. No passado sábado o projecto reviveu, com novo passeio previsto pelo rio, a coincidir com a reabertura do parlamento britânico.

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Junho, 1977. Uma Inglaterra à beira da histeria preparava-se para celebrar o “Jubileu” de comemoração dos 25 anos passados desde a subida ao trono da rainha Isabel. Os ingleses deixavam-se embalar no sonho depois do Império, não desistindo de deitar cartas na Europa, com um baralho à partida viciado. Junho, 1977, o movimento “punk” atingia o auge e os Sex Pistols, seus principais arautos, preparavam-se para detonar uma bomba, entre as massas hipnotizadas e o banho de “confettis”.
“God save the queen” era o grito de saudação prestes a irromper de milhões de gargantas sequiosas de uma imagem cor-de-rosa que fizesse esquecer o preto e branco da realidade presente. “God save the queen”, repetiam os Sex Pistols, na canção do mesmo nome que, nessa altura, ia tomando os “charts” de assalto. O poder e a imprensa oficial agitavam-se, ligeiramente incomodados. Quem eram estes violadores da ordem estabelecida? Anarquistas? Comunistas? Talvez até membros da National Front mais excitáveis?
Na revista “Noise”, Jacques Attali escrevia então: “Música é profecia. Os seus estilos e economia própria estão à frente do seu tempo porque exploram, muito mais rapidamente que a realidade material, a gama completa de possibilidades contidas num determinado código. A música torna audível o mundo novo, não só as aparências como os seus aspectos essenciais. Por esta razão os músicos são oficialmente considerados perigosos, agitadores e subversivos.” Os Sex Pistols não só eram tudo isto como até se propunham destruir o rock’n’roll. Pior que apelidar o governo de fascista e a rainha de “atrasada mental” – afinal os ingleses sempre foram, até certo ponto, tolerantes –, era alguém atrever-se a gritar que não havia um futuro. Para esta heresia não havia perdão.

Anarquia a bordo

A situação deteriorava-se a um ritmo acelerado. Para o dia 9 de Junho estava previsto um desfile da rainha pelo Tamisa. Malcolm McLaren e os Pistols antecipavam-se o seu para dois dias antes, a 7 de Junho. Uma fita presa à embarcação anunciava: “A rainha Isabel dá as boas-vindas aos Sex Pistols.” “Queen Elizabeth” era o nome do barco.
Segunda-feira, o dia fatídico, chegou finalmente. Sobre o convés do Queen Elizabeth, onde fora montado um palco de ocasião, os Sex Pistols estavam a postos para invectivar o reino de sua majestade e cuspir sobre o mundo a sua ira. Beckton, a Chelsea Bridge, Westminster, os pontos, ao longo do Tamisa, marcados nos roteiros turísticos, passavam a integrar a rota do ódio. A aparelhagem sonora parecia partilhar da tensão reinante e não parava de fazer “feedbacks” que a custo rompiam o “fog” londrino.
No momento em que o barco passava diante do edifício do Parlamento, explodiram as primeiras notas de “Anarchy in the UK”. John Lydon (então Johnny Rotten), Sid Vicious, Steve Jones e Paul Cook, apertados contra a assistência convidada, davam o concerto das suas vidas. “No feelings”, “Pretty vacant”, “I wanna be me”, hinos de uma geração frustrada e à beira do abismo, anunciavam o fim de qualquer coisa sem que se pudesse adivinhar uma saída. “No future! No future! No future!”
As lanchas da polícia estavam a caminho, prontas para abalroar, suprema ironia, o Queen Elizabeth. “No fun [o grito aprendido com os Stooges, de Iggy Pop], I’m alone, no fun! I’m alive! I’m alone! I’m alive!” – gritava Lydon, no meio dos poucos ingleses vivos, entre milhões de sonâmbulos que, tal como as abelhas, alimentavam a rainha. E por estarem vivos, estavam sós. Os “bobbies” subiram a bordo, procurando impedir que o concerto prosseguisse. Há quem tenha medo e procure regressar a terra. Mas há também quem permaneça até ao fim, levando o desafio até às últimas consequências. John Lydon não pára de berrar “no fun!” a plenos pulmões, apoiado pelo ritmo de Paul Cook. Há provocações mútuas. O ambiente é de caos e confusão total. Alguém grita para a polícia “you fucking fascist bastards”. Era o pretexto esperado para a carga da autoridade. São feitas prisões. A polícia espanca uma rapariga que aparentemente parece não sentir dor. O álcool ingerido serve de anestésico.

“Castiguem os ‘punks’!”

No dia seguinte os jornais apresentaram uma versão truncada dos acontecimentos da véspera, reduzindo-os à dimensão de ligeiros distúrbios provocados por “punks”. “God save the queen”, a canção, aumentava entretanto o seu número de vendas e chegava a número um dos tops no fim-de-semana em que as comemorações oficiais atingiam o auge. Era de mais para a indústria, uma extensão do poder, que respondeu falsificando os tops e colocando na frente das vendas um disco de Rod Stewart.
As vozes do poder repunham a coroa no lugar e lançavam a sua sentença de morte sobre os Pistols e o movimento “punk” em geral, chamando-lhes “doentes” e “sinistros” e acusando-os de “uma conspiração contra o modo de vida inglês”. O “Sunday Mirror” incitava na primeira página: “Castiguem os ‘punks’!”
Marcus Lipton, deputado trabalhista, não podia ser mais claro: “Se a música pop vai ser usada para destruir as nossas instituições, então terá de ser destruída primeiro.” A música pop não foi destruída, claro. Abraçaram-na e trouxeram-na de volta para o lado dos bons. Assim se instaurando um mundo melhor, sem violência nem confrontações – o admirável mundo novo.

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