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Sei Miguel – “Ra Clock” + Telectu – “Quartetos” + Jacinta – “A Tribute To Bessie Smith” + Pedro Madaleno – “Fast Living”

(público >> mil folhas >> portugueses >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 22 Março 2003

O jazz tanto pode ser um bunker de metal como um canteiro de flores. Sei Miguel e Jacinta exemplificam, em Portugal, estes dois extremos do jazz. A sabedoria louca de um contrasta com a felicidade aos caracóis da outra.


Com a felicidade estampada nos ‘blues’


Sei Miguel
Ra Clock
Ed. e distri. Headlights
8 | 10

Telectu
Quartetos
3xCD Clean Feed, distri. Trem Azul
6 | 10

Jacinta
A Tribute to Bessie Smith
Blue Note, distri. EMI-VC
7 | 10

Pedro Madaleno
Fast Living
Edição de autor
6 | 10



Jazz além. Mas além de que lugar? Segundo as coordenadas de Sei Miguel, ir pelo jazz é arriscar-se numa aventura interior sem retorno, de transmutação, transcendência e transferência da personalidade para uma máscara de enigmas. “Ra Clock” é, na forma, uma homenagem a Sun Ra, que o trompetista português considera como avatar da música contemporânea, nomeadamente através da suite com o mesmo título, espécie de livro de horas que ilustra o percurso musical e espiritual do autor de “It’s after the End of the World”. Disco diluviano, no sentido de precipitação e revelação, transporta consigo os mesmos estigmas e a imagética mitológicos que ilustravam a obra do teclista americano, na reapropriação de uma ancestralidade por onde passa, afinal, a decifração do labirinto tecido em “Astérion” ou do microclima de 33 segundos intitulado “Isobel”.
Não há madeiras, apenas metal: trompete de bolso, trombone, guitarra, gongos, piano, percussões e água elementar. E, em “Astérion”, uma “drone” de órgão Hammond a calcar a pedra e o cristal. Pressente-se aqui algo carregado com a mesma energia mágica das florestas virtuais do quarto mundo de Jon Hassell, os mesmos rituais de utilização dos sonhos como via de acesso ao interdito. E o espectro de Miles a espreitar nesta transmigração.
“Ra clock”, da “viagem da alma até ao planeta Terra” até ao “caminho de regresso para as estrelas”, instala-se no âmago desse tal “além” situado entre as cinzas do jazz e a música concreta, com citações, pelo meio, às sonoridades siderais de Sun Ra. Um disco difícil, como são todos os de Sei Miguel, exercício de sublimação da loucura em discurso do método.
Nos antípodas de “Ra Clock” está o novo e triplo álbum dos Telectu, de Jorge Lima Barreto e Vítor Rua. A dupla, que, curiosamente, nos últimos anos cultivou processos vários de clonagem e mimetismo de géneros musicais que iam da eletrónica lúdica à eletroacústica, retoma em “Quartetos” a estética do “free jazz” e da livre improvisação que marcaram os primeiros anos do coletivo.
Com Lima Barreto ao piano (incluindo o preparado), Vítor Rua na guitarra de 18 cordas e eletrónica, e Tom Chant no saxofone soprano, cada um dos três CD conta com um convidado de peso, na bateria: Sunny Murray, protótipo da bateria “free”, no primeiro, Eddie Prévost, elemento da mítica formação AMM, no segundo, Gerry Hemingway, “avant-gardista” e “sideman” de Anthony Braxton e Marilyn Crispell, entre outros, no terceiro.
Nada de novo nem de particularmente excitante acontece nesta ressurreição do espírito libertário dos anos 60, um “tour de force” que, para além de mostrar Lima Barreto em arroubos de lirismo pianístico (no intervalo dos omnipresentes “clusters”), tem como principais focos de interesse as conversas travadas entre o saxofone de Chant e as percussões livres de Murray, Prévost e Hemingway. Chant que, no disco 3, chora encostado ao piano, com Hemingway a desmultiplicar-se nos efeitos percussivos, naquele que será um dos momentos mais conseguidos de “Quartetos”.
Mas o “free” era uma guerra. A luta pela liberdade em nome de uma causa. É difícil descortinar nestes “Quartetos” mais do que cicloturismo ao redor do parque dos clichés em que certa música improvisada é fértil. No jazz grande, o gesto vale enquanto manifestação ou manifesto de uma necessidade ou motivação profunda. “Quartetos” é grande na luta contra o tempo, esperando que o milagre aconteça.
Comparada com as de Sei Miguel e dos Telectu, a música de Jacinta é um refresco. A nova “coqueluche” do canto jazzístico português, senhora de uma voz grave e com razoável controlo de modulações, presta no seu álbum de estreia — impressa na subsidiária nacional do prestigiado selo Blue Note — homenagem à
rainha dos “blues”, Bessie Smith.
“A Tribute to Bessie Smith”, com produção de Laurent Filipe, mostra uma voz empenhada em revitalizar e recriar com sucesso (“Outro segredo de Jacinta: ser intérprete, logo autora”, escreve José Duarte nas notas de apresentação) o “jazz” na sua costela mais emotiva — com um ou outro sopro “lounge”, uma corrida pelo rhythm’n’blues e a assunção dos “blues”, mesmo, numa balada tão tocante como “Baby won’t you please come home”. Conta com notáveis participações instrumentais, nomeadamente de Mário Santos, nos saxofones e clarinete baixo, Greg Moore, no trombone, e de um Rodrigo Gonçalves capaz de percorrer ao piano uma gama larga de subtilezas e contrastes.
A “A Tribute to Bessie Smith” só faltará o drama que apenas a vida concede ou retira a cada um. Mas como desejar um fado e um fardo assim a quem, como Jacinta, coloriu desta maneira o jazz feito em Portugal, com a felicidade do seu sorriso e uma alma aos caracóis?
De volta ao jazz mais urbano depara-se-nos “Fast Living”, com assinatura do guitarrista Pedro Madaleno (também nos sintetizadores), em quarteto com Ruben Alves (piano e teclados), Yuri Daniel (baixo acústico e elétrico) e Dejan Terzic (bateria). Não será por aqui que se encontrarão motivos que permitam descortinar novos sons e novas terras para o jazz, mas o que o guitarrista e os seus companheiros fazem fazem-no bem. Trata-se de “jazz rock”, inspirado nos mestres americanos como Weather Report ou Return to Forever, mas também na abordagem mais “snob” e progressiva da corrente inglesa de Canterbury personificada por grupos como os Soft Machine, Hatfield and the North ou National Health (temas como “Alien visitor” ou “What intelligent thing?” são bem ilustrativos desta tendência).
Já em “Spirit of the world” e “Late night in Hamburg” o estilo guitarrístico de Madaleno lembra o do holandês Jan Akkerman, dos Focus, enquanto “Different places to go” denota a influência de John Scofield. Mesmo não estando isento da “comercialite” fácil, que é pecado em que amiúde incorre o “jazz rock”, “Fast Living” pertence àquela categoria de discos que não magoa nem maltrata o jazz, mais preocupado em distrair e provocar boas vibrações do que em deitar as garras de fora.



Sei Miguel Lança “Token”, Um Duplo Com “Single” Para O Verão

16.07.1999
Sei Miguel Lança “Token”, Um Duplo Com “Single” Para O Verão
O Elefante Visto De Muito Perto
Sei Miguel situa a origem da sua música nos blues. Um blues, definido como um bicho “de que não se consegue ver a totalidade por se estar mesmo em cima dele”, é a longa peça de violoncelo solo que ocupa meia hora do seu novo trabalho, um CD duplo intitulado “Token”

Contando com um naipe de colaboradores mais numeroso do que o habitual (Rodrigo Amdado, Rafael Toral, Bernardo Devlin, Luis Desirat, Manuel Mota, Pedro Chuva, Fala Miriam e Rute Praça, entre outros) e com uma diversificação de sonoridades que vão da bateria electrónica ao theremin e do trombone ao violoncelo, “Token” permite uma aproximação diferente da de álbuns anteriores. A sua estranheza é o seu principal fascínio.
Sei Miguel faz uma apresentação mais simples: “É o meu disco mais concreto.” Um disco “muito elaborado” que demorou “quatro anos ou mais” a fazer. E também bem-humorado, como atesta a referência a um “djembé temperado”. “É francamente irónico”, admite, referindo-se também ao tema que abre “Token”, uma suite estruturada segundo os andamentos clássicos do barroco, com o título “real dancer suite”. “Estou a ironizar sobre a própria noção de ‘suite’ que, neste caso, foi composta para ‘ballet’. Gravei-a praticamente sob contrato e acabou por dar em nada, daí ter assumido a suite até ao fim. É um objecto um pouco sarcástico.” No fundo “é mais um blues”, diz, desta feita a brincar.
São os blues que animam por dentro muita da música composta por Sei Miguel. “Estão na essência de ‘The ring’, tema que já me disseram ser demasiado longo.” O “demasiado longo” deste tema incluído em “Token” significa mais de meia hora de um desempenho de um violoncelo solo por Rute Praça. “E eu respondo: nem queiram saber até que ponto eu acho que é demasiado longo!”, corrobora Sei Miguel para logo acrescentar que foi de “propósito”. “Faz parte intrínseca do peso do blues. Esse peso está ali. É um blues à primeira irreconhecível, como um desenho de um elefante visto de muito perto, em que não se consegue ver com a sua presença, enquanto instrumentista, embora isso se deva, também, a ter sido feito, como acima se entende “em circunstâncias muito duras”.
Todos os paradoxos se desvanecem e todas as abstracções se iluminam se conseguirmos entrarmos nos meandros do pensamento do músico, encontrando no significado de cada palavra desvios ao que a norma lhes impôs. “Token”, insiste, “é um disco muito técnico.” Não usa o termo como um elogio. “Talvez seja o desequilíbrio dele – o Paulo [da editora Ananana] mata-me [Risos.] – em comparação com ‘Showtime’ que é um disco muito mais ‘soft’, no bom sentido”. “Showtime” é “um disco de jazz”, afirma, enquanto “Token” é “um disco de músico de jazz”. Diferença subtil onde se manifesta o sentido essencial de alguém que, contra todas as aparências, a si mesmo se define como “um músico de jazz”.
“A composição e improvisação são termos úteis à tradição ocidental, académica, mas que o jazz transcendeu.” Ser músico de jazz é “participar na forma mais inacabada e mais actual de fazer música. E mais contraditória, também, porque é a música que tende mais para o abstracto”, embora continue “longe das academias e a ser uma música de rua”. E se à improvisação é possível arranjar uma definição, então ela é “estar mais próximo do mais antigo, do mais básico, do material musical e, ao mesmo tempo, estar obrigatoriamente, como consequência, na última vertente, no que se está a fazer. Na vanguarda, para utilizar uma palavra que hoje não está muito na moda”.

Sei Miguel – Token (conj.)

06.08.1999
Portugueses
Silêncio Do Fundo

seimiguel_token

Sei Miguel
Token (8)
Ed. e distri. Ananana
Ernesto Rodrigues e Jorge Valente
Self Eater And Drinker (6)
Ed. e distri. Audeo
“Token” e “Self Eater And Drinker” são dois álbuns arrumados na gaveta larga das “novas músicas”. Dos dois, “Self Eater and Drinker” é o que, de modo inequívoco, se situa no epicentro da música improvisada. Estruturado como uma “suite em oito partes”, “Self Eater” vive, como Rui Eduardo Paes cita nas excelentes notas de capa, da “dinâmica criativa dialéctica” e da exploração sistemática do instantes” entre o violino, quase sempre traficado electronicamente, de Ernesto Rodrigues, nos últimos anos acompanhante regular de Jorge Palma, e a parafernália electrónica de Jorge Valente, conotado com projectos de natureza mais esotérica, como os Trioto Flêumico e Fromage Digital.
O problema com que “Self Eater” se debate é, por natureza, irresolúvel. É que, se a “exploração sistemática do instante” pode representar a expressão mais verdadeira do acto de criação musical, a mesma deixa, contudo, de fazer sentido quando “enclausurada” no suporte discográfico. Que sentido faz falar do “instante”, quando o auditor pode avançar ou recuar, seleccionar, repetir ou truncar, sempre que quiser, a música contida no CD? Rui Eduardo Paes diz que, para os dois executantes, “o acto musical é mais importante do que aquilo que dele resulta”, o que aproxima “Self Eater and Drinker” menos das teorias integracionistas de John Cage e mais das tomadas de posição de Derek Bailey sobre o primado do processo sobre o produto final. Mas o problema mantém-se e o que dele resulta em “Self Eater” é uma massa, por vezes impenetrável, por vezes atraente, de estímulos e texturas electrónicos supersaturados em que os programas “composicionais” do computador de Jorge Valente fazem valer os seus direitos sobre a respiração mais visceral (mas não menos abstracta) de Ernesto Rodrigues.
Sei Miguel soube ultrapassar este dilema. Não sem alguma surpresa, atendendo a que, num passado não muito distante, o seu trompete amiúde se escudou num discurso demasiado fechado sobre si mesmo. “Token” (sinal, símbolo), pelo contrário, foi assumido como objecto “estético”, não redutível aos processos da sua elaboração. Mesmo que uma lógica secreta se esconda por detrás, como sugere um dos títulos: “Cube magic (visible sides)”.
“Token é um álbum de composições, grande parte delas sem a presença do trompetista. A improvisação aconteceu, sem dúvida, mas Sei Miguel desatou o nó que Ernesto Rodrigues e Jorge Valente não suberam, ou não quiseram, desatar. Seja ou não fruto do momento, nada em “token” parece resultar do acaso ou da espontaneidade. Nesta medida, é menos um trabalho sobre o “eterno presente” da improvisação do que a congelação de formas que, paradoxalmente, nascem do jazz. Dos blues ao free, passando pelo bebop. “Token” não transcende o tempo, mas tira-lhe as medidas.
Electrónico, nas texturas saborosas que lhe emprestam as intervenções parasitárias de Rafael Toral ou as percussões sintéticas de Luís Desirat, ou no free tropical de “Twilight”, ou com a secura de uma miragem do deserto projectada pelo saxofone barítono de Rodrigo Amado, “Token” leva o archote às profundezas nos 31 minutos de violoncelo solo, por Rute Praça, em “The Ring – for one mixed cello”. Um tema sobre naufrágio e afundamento, como “The Sinking of Titanic”, de Gavin Bryars. E sobre o silêncio do fundo.