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Maire Brénnan – Whisper To The Wild Water (conj.)

21.04.2000
World
Em Abril, Águas Milladoiro

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Bem bonita a capa de “Whisper to the Wild Water”, toda céltica, toda mística, rochas, azul e verde da cor do mar. E Maire Brénnan, a cantora dos Clannad, muito distinta, disfarçada da mana Enya com as mesmas roupas e a mesma voz. E a mesma música, já agora. O mercado de world music criou este tipo de sucedâneo que de música tradicional não tem rigorosamente nada, embora tente fazer-se passar por tal. Adivinha-se teledisco a condizer. Para quem se deleita em decorar a sala de audições com este imaginário plastificado e recauchutado de new age, “Whisper to the Wild Water” pode constituir uma opção. Uma opção pimba, mas uma opção. Para os que, simplesmente, gostam de música, trata-se de um objecto a evitar (Word, distri. Universal, 2/10).

Falemos, então, de coisas sérias. Do novo álbum dos Milladoiro, por exemplo, mais do que um grupo, a orquestra-folk por excelência da Galiza. Chama-se “Auga de Maio”, um belo título, com música apropriada para o mês que se avizinha. O que espanta nos Milladoiro, mais ainda do que nos irlandeses Chieftains, com quem têm vários pontos em comum, é a fidelidade a uma linha de conduta sem concessões e a capacidade renovada de a alimentarem com elementos musicais enriquecedores, como a música de câmara e, por vezes, um certo classicismo. Também neste caso já não fará muito sentido falar de maior ou menor proximidade das raízes tradicionais de tal forma os arranjos se tornaram sofisticados e o grau de execução dos músicos do grupo se aproxima de um apuro formal onde a improvisação e o toque “rural” há muito desapareceram. E, todavia, no lugar da fonte nasceu uma árvore de ramagem frondosa sob a qual os amantes da folk se podem abrigar.
Aqui estão, depurados como cristais, os alalás e muineras, as polcas e as marchas processionais, mas já susceptíveis de provocar no auditor um tipo de estímulos que não se compadece com a pureza das origens. A harpa, a gaita e a sanfona, a voz suave da convidada Olga Cerpa foram polidas, como o diamante que necessita de ser lapidado para melhor brilhar. Folk de câmara, nobre e envolvido em roupagens de luxo, “Auga de Maio” destina-se a gostos epicuristas, amantes do requinte, longe, muito longe da força mágica dos primeiros e fabulosos “O Berro Seco” e “Galicia de Maeloc”. Mais ainda do que o recente “Cabo do Mundo”, dos Luar na Lubre, um álbum que introduz a música galega nos salões elegantes da academia, como sempre pela mão e com a classe de Antón Seoane e Rodrogo Romani, os velhos mestres dos Milladoiro (Discmedi, distri., Letra e Música, 8/10).

Os apreciadores de sonoridades menos célticas têm com que se entreter com os dois álbuns do grupo basco Hiru Truku, “Hiru Truku” e “II”. O primeiro tem um som mais popular, de baile, como alguns dos trabalhos dos seus compatriotas Oskorri. O segundo dá um enorme salto em frente, primando pela riqueza e originalidade dos arranjos e pelas notáveis vocalizações – num registo que por vezes faz lembrar bandas italianas como os La Ciapa Rusa e Barabán e noutras os gascões Perlinpinpin Folc e Verd e Blu – de Ruper Ordonika. É nas baladas, de resto, como nas épicas “Hasi durangon eta” ou “Solora nindoala”, que os Hiru Truku se mostram excepcionais, denotando a enorme evolução do primeiro para o segundo trabalho. Mas talvez o facto se deva à presença tutelar e à influência em “II” de um convidado muito especial, o papa inglês Martin Carthy, que aqui toca guitarra acústica e cujas afinidades com a música basca já tinham sido exercitadas antes através da presença no álbum do 25º aniversário dos Oskorri. É verdade, também participa, como convidada, em “Hiru Truku” e “II”, a violinista Nancy Kerr, no primeiro ao lado da sua parceira habitual no violino, Eliza Carthy. Com convidados deste quilate era impossível falhar. Os Hiru Truku foram mais longe e, ao segundo álbum, arreigando-se apenas ao essencial, assinaram um clássico da música tradicional basca (Nuevos Medios, distri. Farol Música, 7/10 e 8/10).

Regressemos ao celtismo – com dois novos álbuns especialmente indicados para os viciados na gaita-de-foles. “Shouting at Magpies” apresenta uma excepcional executante das “Highland bagpipes”, “smallpipes” e “shuttle pipes” escocesas e do “overton whistle”: Ann Gray. Um “punch” demolidor, uma expressividade demonstrativa de um conhecimento profundo das fontes e uma digitação de grande recorte revelam-na como uma gaiteira de primeira água, fiel ao estilo e ao reportório tradicionais. Rodeada de convidados que acrescentam ao fogo das “pipes” os timbres da harpa céltica, violoncelo, guitarra de flamenco, teclados e um didgeridoo, Ann Gray percorre a tradição da Escócia sem grandes rasgos de ousadia, mas com um rigor a toda a prova. Saboreie-se o ardor das suas “pipes”, sentindo na cara o vento e as neblinas das terras altas (Lochshore, distri. Distrimúsica, 7/10).

O outro álbum com a gaita-de-foles como rainha é “The Sound of the Sun”, de Fred Morrison, dos gaélicos Ceolas e antigo elemento dos Clan Alba. Também neste caso se assiste à fidelidade total à ortodoxia – da região do Uist e do estilo “stepdance” das ilhas Hébridas – e a um espectáculo na arte de bem tocar, além das “border pipes” escocesas, aquela que é a mais completa e complexa de todas as gaitas-de-foles, as “uillean pipes” irlandesas. E como a música e o “piping” irlandeses possuem um swing e uma fluência que diferem do tom mais guerreiro e explosivo do “piping” escocês, também o grau de excitação provocado pela música sobre um degrau na escala do prazer sempre que a “rainha” entra em cena. Fred Morrison, apesar de escocês, trata as “uillean pipes” por tu, soando totalmente convincente um “reel” irlandês como “Sandy Cameron’s”. Convém elucidar que Fred é discípulo do grande Paddy Keenan, que, se bem se lembram, era o gaiteiro no álbum de estreia dos The Bothy Band (Lochshore, distri. Distrimúsica, 7/10).

Terminemos este périplo pela “celtic music” com um álbum onde esta música encontra aquele que terá sido o seu ramo primordial, localizado a oriente, “Touch Me Like the Sun”, da harpista Savourna Stevenson. Desde “Tickeld Pink” que Savourna vem desenvolvendo um estilo na harpa céltica no qual a experimentação de novas linguagens coloca a sua música no limiar da folk, do jazz e de um classicismo neste álbum tão próximo da música indiana (os glissandos do tema de abertura, “Emily’s calling”, num “jazzy air” minimalista num compasso dos Penguin Café Orchestra), como da new age de câmara de Roger Eno (nos três movimentos da longa peça para quinteto de cordas) ou do esteticismo orientalizante de um Ryuichi Sakamoto. O título tema é uma canção pop vocalizada por Eddi Reader, que recentemente actuou ao vivo num concerto da harpista em que também esteve presente June Tabor. Álbum terapêutico, de uma beleza fria, ideal para abrir uma nova série, de “jazz folk de câmara”, da editora ECM… (Cooking Vinyl, distri. Megamúsica, 6/10).