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Ryuichi Sakamoto – “Smoochy”

Pop Rock

12 Fevereiro 1997
poprock

Ryuichi Sakamoto
Smoochy
MILAN, DISTRI. BMG


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Como David Bowie ou Peter Gabriel, Ryuichi Sakamoto evoluiu de criador de uma música original que influenciou algumas correntes musicais deste século para o cidadão do mundo, atarefado na promoção de um estilo e imagem de marca. A música que qualquer destes autores faz hoje, sendo, por norma, no mínimo, interessante, é, quase sempre, irrelevante. No caso de Ryuichi Sakamoto, que ainda no final dos anos 70 extrapolou o mecanicismo dos Kraftwerk para um contexto simultaneamente anacrónico e futurista, cirando a música de baile perfeita para robôs apaixonados, aquilo que faz hoje é conservar-se a par das últimas tendências da moda, mantendo, embora, em relação a estas, a elegância e uma certa distanciação. Apaixonado pela música brasileira, essa influência é evidente apenas enquanto componente subjectiva de um discurso que aparece demasiadamente aprisionado às estruturas rítmicas do trip-hop, as quais, curiosamente, poderiam ser invocadas no trabalho pioneiro dos YMO. Mas Sakamoto tanto é um adepto das aplicações da cibernética aos ritmos de dança, como um apaixonado pelos compositores impressionistas do início do século e é essa síntese entre a nostalgia e a vontade de inovação que fica por resolver em “Smoochy”. Se temas como “Bring them home” e “Manatsu no yo ana” vêm na linha classicista do que Sakamoto já propusera no anterior “1996” e “Aoneko no torso” cede ao velho fascínio por Satie, a maioria dos restantes hesita na direcção para onde seguir, perdido entre um psicadelismo passadista e crepuscular “made in Rio” e o sonambulismo de canções que ora se refugiam no legado dos YMO, como “Poesia”, ora se afogam num movimento, o trip-hop, que o japonês jamais consegue ultrapassar. (6)



Ryuichi Sakamoto – “Um Beijo No Rio” – Entrevista

Pop Rock

29 JANEIRO 1997

Brasil “sensual” de Ryuichi Sakamoto

“UM BEIJO NO RIO”

“Sensual”é o termo que Ryuichi Sakamoto utiliza para descrever o seu último álbum, “Smoochy”. As influências vão de Visconti e Godard a Miles Davis, mas a principal, como no caso de Arto Lindsay, é a música brasileira. O Rio de Janeiro, em versão “trip-hop” de um japonês “agarrado” à tecnologia, mas que receia ser subjugado pelo excesso de informação da Internet.


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“Smoochy” é o título do novo álbum do japonês Ryuichi Sakamoto. Influenciado pela música brasileira, prolonga uma tendência já demonstrada anteriormente, quando o antigo elemento dos Yellow Magic Orchestra sugeriu a Arto Lindsay que gravasse um álbum igualmente inspirado nos sons do Brasil. Arto concordou e o resultado foi “O Corpo Sutil” – já recenseado nas páginas deste suplemento –, sobre o qual o americano tece os comentários que podem ser lidos na página mesmo ao lado. Sakamoto produziu ainda a faixa “É preciso perdoar”, com Caetano Veloso e Cesária Évora, para a recente colectânea, “Red, Hot and Rio”.
“Smoochy”, do calão inglês “smooch” (“beijar”), é, nas palavras da editora, um álbum “sensual”, um título bastante apropriado, já que o disco, segundo o seu autor, “foi fortemente influenciada pela música brasileira, cujas melodias tendem para a sensualidade”. O alinhamento compreende 13 temas, nos quais colaboram com o japonês os brasileiros Jaques Morelenbaum, no violoncelo, e Everton Nelson, no violino, que já tinham tocado no álbum do ano passado, “1996”. Amadeo Pace, Arto Lindsay, Yoshiyuki Sahashi, Alexander Sipiagin, Miki Nakatani, Toshikori Mori, Vinicius Cantuária (outro brasileiro, presente em “O Corpo Sutil”), Lawrence Feldman, Vagabond Suzuki, Gil Goldstein e Hiroshi Takano são os restantes músicos convidados de “Smoochy”. O último tema, “Tango”, conta ainda com a participação de Soraya, cantora argentina na berra que preenche regularmente o pequeno ecrã no canal de música mexicano HTV.
Num exclusivo para o PÚBLICO, Ryuichi Sakamoto comentou cada um dos temas de “Smoochy”, explicando previamente as motivações gerais que levaram à sua feitura: “Comecei a escrever as canções para ‘Smoochy’ em Maio de 1995. Afadiguei-me como nunca para compor este álbum. Iniciei o projecto colocando a mim próprio algumas questões que nunca conseguira resolver desde que sou músico: ‘O que é que eu desejo realmente fazer?’, ‘o que é que procuro exprimir quando toco piano?’, ‘por que sinto vontade de escrever novas canções?’, ‘que prazer é que tudo isto me dá?’” Questões pertinentes, sem dúvida, as quais levam a que toda a gente retenha a respiração, na angústia que precede as grandes revelações.
Bom, Sakamoto alivia um pouco a tensão na explicação que dá a seguir: “Após todas estas interrogações pessoais, decidi levar em frente a ideia que já desenvolvera no meu álbum precedente, ‘Sweet Revenge’, isto é, sublinhar a melodia, tendo, desta vez, decidido explorar um pouco mais este potencial. Para isso, tive necessidade de escutar com mais atenção a voz do meu coração…”
Depois, uma espécie de confissão: “Mas, à medida que fazia este álbum, fiquei apanhado pela Internet. Esta interferiu, na medida em que a Internet é um vasto gerador de informação ilimitada. A minha criatividade sentiu-se ameaçada, porque compor é, essencialmente, criar nova informação. Absorver demasiada informação pode constituir um obstáculo para o artista, cuja tarefa é produzir algo de novo. Esta tarefa apela a uma ausência de informação. E a Internet é a antítese disso.”
Faixa a faixa, e apesar da tentação da Internet, o coração de Ryuichi Sakamoto decidiu o seguinte:

“Bibo no aosora”
“Inspirado pelo filme ‘Morte em Veneza’, de Visconti, é uma história acerca da morte, o mar e o céu azul, observados através de óculos com lentes infravermelhas. Mas as principais personagens são femininas, o que difere um pouco da história de Visconti.”

“Aishiteru, aishitenai”
“Põe em destaque a voz de Miki Nakatani, uma actriz japonesa. Após uma entrevista com ela de três horas, colei a sua voz à música. Este processo inspirou-se no processo de montagem utilizado por Jean-Luc Godard nos seus filmes dos anos 60.”

“Bring them home”
“Um ‘requiem’ pelos mortos que invoca uma sensação de profundo desespero. Inspirou-se numa canção muito triste intitulada ‘Five millions dead’.”

“Aoneko no torso”
“Para mim, é uma canção sobre uma sensualidade que não é quente, mas fria.”

“Tango”
“É a história de um homem que foge para a Argentina, depois de ter abandonado a sua terra natal e a sua amante.”

“Insensatez”
“Uma colagem de sons que gravei no Rio de Janeiro. Esta peça também sofreu a influência da obra de Miles Davis nos anos 70.”

“Poesia”
“Os tópicos centrais são o mar, os trópicos, assobiar e o estado de espírito de se estar optimista.”

“Dennogiwa”
“Um conto dos anos 90 sobre o ‘interface’ da ecologia com as redes informáticas.”

“Hemisphere”
“A minha perspectiva sobre uma canção ‘Samba numa nota só’ – a história de um homem que bebe rum todo o dia, sob um sol abrasador, de que se desprende uma sensação de resignação e remorso.”

“Manatsu no yo no ana”
“A primeira canção que escrevi para o álbum. O final é uma interpretação do ar calmo, mas sufocante de Times Square, à meia-noite, que traz à minha cabeça imagens da noite, da lua, da cidade e penumbras azuladas.”

“Rio”
“Outra colagem de sons que gravei no Rio, do mar e miúdos num aeroporto. A melodia principal surgiu, no entanto, quando passeava nas ruas de Nova Iorque de madrugada.”

“A day in the park”
“Desenvolveu-se a partir de uma frase de guitarra de um canção que escrevi para as Geisha Girls, chamada ‘Shonen’. Foi inspirada em manhãs luminosas, em crianças a brincarem no parque, nas suas mães, nos pensamentos dos pais ao compreenderem que os seus filhos um dia os abandonarão. As vozes deste tema pertencem a Vivian Sessoms.”

“Tango (version castellano)”
“Nesta versão, a vocalização é de Soraya.”



Ryuichi Sakamoto – “1996”

Pop Rock

12 de Junho de 1996

Ryuichi Sakamoto
1996
MILAN, DISTRI. BMG


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1996 não está para brincadeiras. Falta pouco para o final do milénio e os compositores andam ansiosos para mostrar aquilo que valem. “Aquilo que valem” quer dizer o abandono da música popular e a criação de obras, perdão “opus” eruditos, que exigem piano de cauda, cordas e a encomenda de uma peça para o Kronos Quartet. O antigo teclista dos Yellow Magic Orchestra achou que esta era a altura ideal para se libertar do farde de antigas companhias como Iggy Pop, David Sylvian ou Youssou N’Dour, já para não falar nos pecados “proto-“techno” dos Yellow Magic Orchestra. Ao contrário do seu antigo companheiro, Haruomi Hosomo, que evoluiu da electrónica “hard” dos YMO para uma leitura subtil da “pop” pancultural, em “Omni Sight Seeing”, e da “house” ambiental, em “Quiet Meditations from the Quiet Lodge”, Sakamoto enveredou pela via espartana. Em “1996”, o japonês toca piano, só toca piano, fazendo-se acompanhar pelo violoncelo da Jaques Morenlenbaum e o violino de Everton Nelson, na recriação de alguns temas antigos que abrangem vários trechos de bandas sonoras, como “The Last Emperor”, “Merry Christmas Mr. Lawrence” e “The Sheltering Sky”. Mas tanto estes como os originais soam anémicos e académicos, longe dos melhores tempos de mr. Sakamoto. O álbum, na sua edição europeia com 15 temas (a japonesa tem 16 e a norte-americana, 12) sairá por cá, a 24 deste mês. (4)