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Romanças – “Azuldesejo”

POP ROCK

25 de Maio de 1994
WORLD

Romanças
Azuldesejo

Luminária, distri. Strauss


romancas

Sintra impõe-se cada vez mais como factor determinante no imaginário e nos métodos de produção dos Romanças. Depois de “Monte da Lua” (uma das designações da mítica cadeia montanhosa), o novo trabalho do grupo foi gravado em plena encosta da serra, na pousada da juventude que fica situada alguns metros abaixo da Igreja de Santa Eufémia. E se a localização do local de gravação desempenhou um papel activo em termos técnicos (captação do som ao vivo em salas de habitação com tempos de reverberação variados, por exemplo), o mesmo não se pode dizer em relação à inspiração. Descontando a presença de elementos aleatórios, como o som real de chuva que acompanha o tema “Candeia” ou a alusão directa ao dia-a-dia vivido na pousada e nas idílicas paisagens circundantes pelos membros do grupo em “Fim do dia”, uma das várias composições originais de Pedro D’Orey, “Azuldesejo” (síntese de azul e desejo), num azulejo contendo 12 símbolos desenhados por João Ramos, correspondentes a cada uma das faixas), poderia ter sido gravada noutro sítio qualquer. O problema principal que se coloca em relação a “Azuldesejo” é que não existe um fio condutor, uma ideia determinante, mas tão-só múltiplas e contraditórias direcções, que acabam por quebrar um pouco a unidade de um trabalho congeminado com minúcia. Há nele pistas suficientes para permitirem aos Romanças serem uma banda diferente consoante a faixa. O tema inicial “as vozes do mundo” é, juntamente com “Janeiradas” (“must” de há longa data nas noites da Taverna dos Trovadores…), um dos que menos quebra os elos com o anterior “Monte da Lua”. No primeiro caso, uma subtil deslocação de um dos eixos criativos de José Afonso; no segundo, a organização de uma desbunda popular onde a todos é dada oportunidade para brincar. “Mineta” é uma das melhores faixas do álbum, com a harpa céltica de Pedro D’Orey a ornamentar uma das peças mais bonitas do nosso cancioneiro. No instrumental “Galicia”, as gaitas-de-foles de Paulo Marinho e Rui Vaz bem poderiam ter pedido à irritantes e inúteis vozes de coro para se calarem – o mesmo defeito que descaracteriza outros temas. Fausto e a morna cabo-verdiana navegam em “Oceanos”, enquanto os jogos fonéticos em japonês de “Soredemo” (ai os tais coros…) partem com Júlio Pereira e vão dar à complexidade de arranjos dos Gentle Giant. “Carolina”, a peça que integra uma compilação internacional de “world music”, tem o bom sabor dos temas tradicionais e um desempenho vocal de Pedro D’Orey algo periclitante. “Auto da criação” é quase um “haiku”, instante de revelação na voz de Filomena Pereira sobre “percussões industriais”, estilo serração, semelhante à que os Malicorne utilizaram em “L’Extraordinaire Tour de France d’Adélard Rousseau”. Tema que, juntamente com “Candeia”, cultiva parentescos próximos com a Banda do Casaco. “Vindima”, outro tradicional, dá finalmente lugar ao adeus na guitarra acústica, num original de José Afonso, “Mulher da Erva”. Compete agora aos Romanças escolher entre continuarem na busca de novos caminhos ou, pelo contrário, seguirem por uma única senda até ao fim. Quem sabe, até ao alto da serra. (7)

a partir daqui



MPP: A Geração Dos Supercondutores – artigo

Pop Rock

9 MARÇO 1994

MPP: A GERAÇÃO DOS SUPERCONDUTORES


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Pedro Barroso, Ganhões de Castro Verde, José Peixoto e Romanças editaram ou vão editar novos discos cujo denominador comum é a música de raiz tradicional. As cantigas de amigo da Idade Média, o “cante” alentejano, a influência árabe e o folclore português adaptados, recriados ou apresentados na sua pureza primitiva. Numa altura em que a Ronda dos Quatro Caminhos cometeu a proeza de ser o primeiro grupo de música tradicional portuguesa a entrar no “top” nacional de venda de álbuns, com “Uma Noite de Música Tradicional”, é forçoso concluir que se está na presença de um movimento com força e pernas para andar. Não só em termos estéticos, mas também comerciais. Há quem veja na música tradicional uma das músicas do futuro. Em Portugal, cada vez mais pessoas começam a perceber isso. Os artistas rock e pop procuram nas raízes a fonte de inspiração. Uns vão ao fado, outros aos arquivos, outros ainda procuram nos lugares geográficos as palavras e os sons que hão-de dar corpo aos seus projectos. Um número crescente de músicos nacionais compreende que a sua evolução será tanto mais segura quanto mais eles forem capazes de aprender e conduzir a tradição. 1994 promete ser um ano diferente para a música portuguesa.

LUA NA POUSADA

O novo disco dos Romanças, que sucede a “Monte da Lua”, chama-se “Azuldesejo” e deverá ser editado com o selo Luminária no próximo mês de Abril. Traz a particularidade de ter sido gravado numa pousada situada na Serra de Sintra (afinal, o monte da Lua), perto de Santa Eufémia – uma ideia que começou por ter a ver com custos mais baixos de produção e acabou por ser determinante no próprio som do disco. “Neste disco, decidimos experimentar muitas coisas”, diz Pedro D’ Orey, que, pela primeira vez, introduz o som da harpa na música dos Romanças – “Queríamos ter tempo e disponibilidade para isso. Ora, num estúdio a quinze contos a hora, não se tem propriamente disponibilidade para andar a experimentar sozinhos…” Experiências que passam também pela não utilização da bateria, substituída pelas percussões (percussões industriais no tema “Auto da criação”…) de Fernando Molina, João Luís Lobo e do convidado José Salgueiro, que, juntamente com Pedro D’ Orey, produz “Azuldesejo”, pela contribuição na voz feminina de Filomena Pereira e por uma canção cantada em japonês. “São salas vivas, salas reais”, continua Pedro D’ Orey, referindo-se ao local de gravação, “nas quais gravámos de manhã, de tarde e à noite durante um mês, sem fins-de-semana… Por exemplo, as gaitas-de-foles [dos convidados Paulo Marinho e Rui Vaz] foram gravadas da sala de jantar e não têm um pingo de reverberação artificial”. Quanto ao projecto da banda, no essencial, permanece fiel ao original: “Fazer interpretações de uma forma não ‘tradicional’, como se faia no século passado, ou seja, utilizando uma linguagem moderna” de composições que, todavia, se baseiam em temas tradicionais. “Não queremos que nos considerem um grupo de música tradicional”, diz Fernando Pereira (não confundir com o imitador), vocalista e guitarrista dos Romanças, “embora no disco haja quatro ou cinco temas cantados de maneira tradicional, pois não queríamos que houvesse um corte abrupto”.
A provar que os Romanças deixaram boas recordações com o anterior “Monte da Lua” está o facto de já terem vendido dez mil exemplares do novo disco, cinco mil comprados pela entidade patrocinadora da gravação e a restante metade em pedidos antecipados, o que faz com que “Azuldesejo”, mesmo antes de ser lançado no mercado, já seja disco de prata. As composições que integram o álbum são “As vozes do mundo”, “Mineta”, “Galicia”, “Candeia”, “Janeiradas”, “Oceanos”, “Soredemo”, “Carolina”, “Fim do dia”, “Vindima”, “Auto da Criação” e uma versão instrumental de “Mulher da erva”, de José Afonso.

O “CANTE” NÃO ENTRA NO CAFÉ


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António Eduardo Revez tem 57 anos de idade, duas filhas e é taxista de profissão. É também um dos elementos solistas do grupo de cante alentejano Ganhões de Castro Verde, onde desempenha as funções de “alto”. “Nascido e criado na Alentejo”, António Revez perde “horas do serviço profissional” para se dedicar ao canto. Actividade vital – como a respiração, o trabalho ou o lazer –, o canto alentejano vive do colectivo. Canta-se na taberna, na eira, na rua, ao luar. “Modas”, estreia em disco do grupo, foi gravado num auditório. Sucederam-se os “takes” entre a boa disposição e, por vezes, alguma impaciência. “Eu não diria que foi mais difícil”, diz António Revez referindo-se ao local de gravações. “É, talvez, a questão psicológica das pessoas que pode provocar algum nervosismo. O alentejano é assim: quando tem um copo de vinho, a alegria chega mais depressa.” De resto, está a perder-se aos poucos a tradição de cantar nas tabernas, em parte porque este tipo de estabelecimento e local de convívio tende a desaparecer, substituído pelo café. “A mocidade de hoje só procura os cafés. Os jovens deixaram de ir às tabernas onde se juntavam antigamente as pessoas, que eram mais modestas na questão monetária.” As filhas de António Revez acham a actividade artística do pai “engraçada” e dizem que ele “ainda vai no uso antigo”. Os jovens afastam-se: “É triste, não conseguem aprovar o património que nós tínhamos, o sistema cultural, a nossa música, os nossos cantares. Agora é tudo mais moderno, as pessoas estão voltadas para os rocks e isto e aquilo.” No que diz respeito aos Ganhões de Castro Verde, mantêm-se fiéis à voz do sangue e da terra que lhes deu origem.