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Marianne Faithfull – “20th Century Blues – An Evening in the Weimar Republic” + The Rolling Stones & Vários – “Rolling Stones Rock and Roll Circus”

Pop Rock

9 de Outubro de 1996
poprock

Perdidos nas estrelas

MARIANNE FAITHFULL
20th Century Blues – An Evening in the Weimar Republic (7)
BMG, distri. BMG
THE ROLLING STONES & VÁRIOS
Rolling Stones Rock and Roll Circus (6)
Abkco, distri. Polygram


mf

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Um intervalo de três décadas separa estes dois álbuns, marcados ambos pelo tempo, pela ilusão e pela utopia. As contas podem fazer-se entre os anos 30 e os 60, ou entre os 60 e os 90, sempre o teatro e a ilusão surgem a baralhar as datas. Em “20th Century Blues”, Marianne Faithfull põe em dia a sua relação com a música de Kurt Weill, iniciada em 1985 com a sua participação na homenagem a este autor idealizada por Wal Willner em “Lost in the Stars”, onde cantava “Ballad of the soldier’s life”, e posteriormente aprofundada no seu melhor álbum até à data, “Strange Weather”, que inclui “Boulevard of the broken dreams”, outro clássico dos anos 30, não weilliano, recuperado neste seu novo trabalho.
Gravado ao vivo no New Morning, em Paris, “20th Century Blues” culmina todo o anterior percurso de Faithfull em redor da obra de Kurt Weill, que a levou, inclusive, em 1992, a participar como actriz na “Ópera dos Três Vinténs”, onde desempenhava o papel da pirata Jenny. Antes, a cantora fizera duas “performances” sobre “Os Sete Pecados Mortais”, obra que a marcaria decisivamente na descoberta do universo de Kurt Weill.
O passo decisivo coincide com a realização de um ciclo de três dias, “A Weekend of Decadent Twentieth Century Music”, o último dos quais dedicado a Weill, assistiria ao encontro de Marianne Faithfull com o pianista Paul Trueblood, num espectáculo de genérico “An Evening in the Weimar Republic”, base do presente trabalho.
“20th Century Blues” funciona, pois, como um clímax há muito aguardado, como se todo o anterior passado recente da cantora não fosse mais do que a laboriosa preparação deste momento. É o casamento perfeito, dir-se-ia, de uma alma atormentada com um conceito estético que juntou a ópera, o jazz, o cabaré, a “folk” e a canção de rua, no período da História da Alemanha compreendido entre a queda da monarquia e a Primeira Grande Guerra e a ascensão de Adolf Hitler ao poder, em 1933. Um período de sínteses dolorosas e apressadas que se erigiu como um imenso (e intenso) espectáculo de máscaras, na construção de uma utopia – do poder e da arte nas mãos do povo – de em breve as chamas de um novo totalitarismo consumiriam. Neste “cocktail” psíquico e musical, encontrou Marianne Faithfull a sua pátria espiritual, bebendo a cicuta até à última gota.
Em 1968, ano seguinte ao de todas as obras-primas de “pop music”, em plena euforia “hippie”, os Rolling Stones montavam, por sua vez, o seu próprio circo de “rock’n’roll”. Como nos anos da República de Weimar, acreditava-se então que a música poderia mudar o mundo, celebrando-se, em conformidade, um outro jogo de máscaras e sínteses musicais, de novo do jazz e da “folk” com o teatro, mas agora com o estímulo adicional das drogas psicadélicas. À semelhança do disco de Marianne Faithfull, é uma gravação ao vivo, neste caso com o beneplácito da BBC e até agora inédita. “Rock and Roll Circus”, além dos Stones, contou com as presenças de convidados – enquanto músicos ou simples apresentadores fazendo a ligação entre as canções -, dos Jethro Tull (com “Song for Jeffrey”), The Who (“A quick one while he’s away”), Taj Mahal, Yoko Ono, John Lennon (integrado nos inexistentes The Dirty Mac, com “Yer blues”), Eric Clapton e… Marianne Faithfull. Marianne Faithfull que então cantava no “standard” “Something Better” (lado B do “single” “Sister morphine”): Have you heard, blue whiskey is the rage, I’ll send you a jug in the morning…” Escutamos os ecos de “Alabama song” e é como se o tempo se apagasse…
Os Stones contribuem com metade dos temas, seis, incluindo “Jumping jack flash”, “You can’t always get what you want” e “Sympathy for the devil”. Dois de folia, de músicos mascarados, trapezistas e comedores de fogo, na ressaca de “Their satanic Majesties Request”, o “opus” psicadélico-satânico do grupo, que constituem um testemunho da agitação criativa da “swinging London” dos anos 60. Ocasião irrepetível em que, como escreve o crítico “David Dalton”, “por um breve momento pareceu que o rock’n’roll iria conquistar a terra”.
Se “20th Century Blues” é o voo de cinzas de um coração magoado, o circo montado pelos Stones era a crença ilimitada na irracionalidade. A música de Weill/Faithfull soa seca, ferida, a sangue coalhado. A festa das estrelas “pop” fazia a apologia do caos e das cores garridas. Marianne Faithfull enverga, por interpostas máscaras, a diversidade devastada dos seus próprios rostos. A companhia dos Stones tripava, cavalgando sobre a inconsciência do instante. Marianne Faithfull abraça comovidamente a morte, como a uma derradeira amiga, Os Stones, perversamente, vestiram a morte com uma túnica “hippie” e enfiaram-lhe um charro na boca.



The Rolling Stones – “Flashpoint”

Pop Rock

3 ABRIL 1991
LP’S

PORQUE ROLAM AS PEDRAS ?

THE ROLLING STONES
Flashpoint

LP / MC / CD, Promotone, distri. Sony Music port.

rollingStones

Quem são? De onde vêm? Para onde vão? Rolling Stones – a maior banda de rock’n’roll do Universo? A ser verdade, passados estes anos todos, tal facto não abona muito em favor do universo. Tão pouco do rock’n’roll. Quem são e quantos são? São cinco, dois Micks, um Bill, um Keith e um Charlie. Todos juntos, perfazem a bonita idade de 244 anos. Difícil é compreender como conseguem manter-se ainda juntos, ao fim de tantos anos. Vêm dos blues e do início da música pop em Inglaterra. Pretendem ultrapassar os Beatles sem perceberem que as duas bandas seguiram sempre por estradas diferentes, em direcções opostas, que nunca se cruzaram. Para onde vão ninguém sabe. Nem os próprios. Enquanto tiverem força para se aguentarem de pé, segurar nas guitarras e cantar, e a família deixar, hão-de continuar na estrada e a gravar discos que sonham deixar para a posteridade.
“Flashpoint” recorta os melhores momentos da tournée de 1989/90, “Steel wheels – Urban jungle tour”, procurando fazer passar a excitação que a banda alegadamente provoca ao vivo (no Estádio de Alvalade não tanto como isso) e chegar às gerações mais novas para as quais o nome “Rolling Stone” se reveste de uma aura quase mística, de tanto o ouvirem mencionar da boca dos pais ou dos avós, com um brilhozinho nos olhos. A lista de temas aqui incluídos é um autêntico “best of” da carreira do grupo: “Start me up”, “Miss you”, “Ruby Tuesday”, “You can’t always get what you want”, “Little red rooster”, “Paint it black”, “Sympathy for the devil”, “Brown sugar”, “Jumpin’ Jack flash” e “Satisfaction” recuperam a melhor fase do grupo, constituindo uma óptima oportunidade para pais e filhos encostarem as cabeças e trautearem os velhos êxitos em conjunto. Que diria que os Stones se tornariam num modelo de consenso capaz de juntar as gerações? Com os Stones, na “Urban Jungle tour”, esteve um dia, entre mais de uma dezena de músicos escolhidos para disfarçar os momentos de maior cansaço das estrelas, Eric Clapton, para ressuscitar “Little red rooster”. No fim, a questão principal dos últimos anos permanece sem resposta: o que faz correr ainda os Stones, a maior banda de rock’n’roll do Universo? **

aqui



The Rolling Stones – “Their Satanic Majesties Request”

27.09.2002

The Rolling Stones
Their Satanic Majesties Request
ABKCO, distri. Universal
10/10

A Jóia dos Malditos

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“Their Satanic Majesties Request”, registo ímpar na discografia dos Stones dos anos 60, faz parte do pacote “the Rolling Stones Remastered”, composto por 19 álbuns (22, se considerarmos que “Out of our Heads”, “Afternath” e “Between the Buttons” sairão em dose dupla, correspondentes aos diferentes alinhamentos das edições inglesa e americana), que serão postos à venda a 21 de Outubro. Da embalagem em formato digipak a um processo de prensagem “dois em um” que reúne os registos super áudio CD e CD áudio normal, tudo foi pensado em termos de “edição definitiva”. Editado originalmente me 1967 com uma capa dom uma foto em 3D (na presente reedição substituída por um holograma), “Their Satanic Majesties Request” é o álbum psicadélico dos Stones. O disco maldito que poucos ousam incluir na sua lista de preferências mas sem dúvida aquele que mais longe levou o lado inexplorado do grupo e é digno de ombrear com os grandes clássicos do psicadelismo., como “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles, “Odesse and Oracle”, dos The Zombies ou “Begin”, dos The Millenium. Muito do seu exotismo é fruto do impulso das drogas alucinogénicas que então integravam o “input” inspiracional da maioria dos grupos da época, matéria em que Brian Jones (falecido dois anos mais tarde, vítima de “overdose”) era especialista. Foi ele o primeiro feiticeiro a render-se a Lúcifer, dele recebendo os seus tesouros amaldiçoados, pelos quais pagou com a própria vida. Cravos, mellotrons, “sitars” indianos, ritmos africanos encantatórios, tudo encaixa como os fragmentos simétricos de um caleidoscópio, criando uma fantasmagoria suspensa no abismo da qual emerge uma das mais belas canções de sempre do grupo: “She’s a rainbow”, emblemática da “weirdness” psicadélica, como é Lucy, no céu com diamantes.
Em “Their Satanic Majesties Request” os Stones quiseram ser poetas e, como os Beatles, trazerem para a pop uma beleza sobrenatural. Conseguiram-no, roubando ao mais belo e terrível dos anjos a sua jóia dilecta: uma esmeralda. Brian Jones morreu. Mas suspeita-se que a pedra verde continue, oculta, a cintilar no coração de Mick Jagger.