Arquivo de etiquetas: Rodrigo Leão

Rodrigo Leão – “Alma Mater”

Y 29|DEZEMBRO|2000
discos|escolhas


RODRIGO LEÃO
Alma Mater
Ed. e distri. Sony Música
7|10


rl

Está mais leve, a música de Rodrigo Leão. Ainda que as máscaras de tristeza do seu “Theatrum” não tenham sido integralmente arrancadas, nota-se que no novo “Alma Mater” o teclista da Sétima Legião arejou a sua música e abriu as janelas para deixar entrar o sol. Além da solenidade habitual dos corais dos Vox Ensemble, “Alma Mater” recebeu duas verdadeiras canções nas vozes de Adriana Calcanhotto e Lula Pena, ao mesmo tempo que as habituais divagações instrumentais perderam um pouco a vertente Nymaniana para se aconchegarem ao piano, romântico e aéreo, tão impregnado de luz e vibrações positivas que não admiraria se este “Alma Mater” fosse parar direitinho à estante da “new age”. Não ficaria mal ao lado de Roger Eno. Mais fogosas são as volutas de tango que Rodrigo Leão também resolveu entregar aos cuidados da alma mãe.



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Rodrigo Leão & Vox Ensemble – “Theatrum”

POP ROCK

16 de Outubro de 1996

RODRIGO LEÃO & VOX ENSEMBLE
Theatrum (8)

Columbia, distri. Sony Music


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O maior “pecado” da pop continua a ser o de querer deixar de o ser. Rodrigo Leão insiste na menção a referenciais pop, em relação ao seu trabalho, mas a evidência mostra que a sua alma deriva hoje por outras frequências do espectro musical. “Theatrum”, segundo álbum com os Vox Ensemble, depois de “Ave Mundi Luminar” e do EP “Mysterium”, é o típico objecto que é fácil denegrir, sob as acusações de “pretensiosismo” e de acomodação a uma leitura simplificada da música clássica.
Seria fácil classificar “Theatrum” como a mera procura do bonito e do politicamente correcto, com base em referências que vão de Michael Nyman a Mozart e Górecki. Ao invés, estamos perante algo mais do que simples teatro. Ao contrário de “Ave Mundi Luminar”, onde é por demais óbvia a sedução que a lógica das estruturas formais exerceu sobre Rodrigo Leão, em “Theatrum” percebe-se um arrebatamento e uma interiorização das formas “eruditas” que colocam a sua música acima, ou para além, da descodificação imediata das formas.
A teatralização aqui é da ordem do drama, ou da tragédia, no sentido clássico grego, e de pulsações cuidadosamente revertidas para uma linguagem que se assume como liturgia. Com o Voz Ensemble e a ajuda do coro Ricercare juntou Rodrigo Leão uma tapeçaria de tristeza onde as formas clássicas se fundem com a artilharia gótico-industrial de uns In The Nursery (“Locus secretus”) e a computação tecnológica, aspecto no qual o seu trabalho se revela particularmente notável, seja na sequenciação dos “samples” percussivos ou ambientais, seja na simulação de mil e um arcaísmos, de que são exemplos os excelentes “Dies irae”, “O corredor” e “Contra mundum”.
“Theatrum” despede-se e celebra o luto de uma música, a pop, em agonia. Ou de algo mais, na lamentação final, cantada em russo – “O novo mundo” – tal como no início, “In memoriam”, a bailar no som de sinos que sabemos serem os da loucura…



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Rodrigo Leão no seio de “Alma Mater”

13.10.2000
Rodrigo Leão no seio de “Alma Mater”
“O piano dá mais luz às músicas”

rodrigoleao_almamater

LINK

Rodrigo Leão está de volta abraçado à “alma mãe”. Fechadas as portas do “Theatrum”, o antigo teclista dos Madredeus regressa com “Alma Mater”, música luminosa num álbum recheado de surpresas, com participações vocais de Adriana Calcanhotto e Lula Pena.
Foi há dois anos que Rodrigo Leão começou a preparar “Alma Mater”. Pelo meio meteram-se os Sétima Legião e “Sexto Sentido” – “um trabalho que me tirou para aí uns seis meses, demorou mais tempo a fazer que o “Theatrum” – e trabalho de estúdio, “muito acústico”, e de casa, “uma fase mais electrónica”. “Alma Mater” apresenta duas facetas musicais distintas que, no entanto, se entrecruzam como se fossem a única maneira de fazerem sentido. Uma mais “leve” e “new age”, pintalgada pelos toques pianísticos da escola impressionista francesa, à chuva, com Erik Satie, outra mais densa e “de câmara”, na sequência da anterior obra de Rodrigo Leão.
“Theatrum” encerrava um capítulo iniciado com ‘Ave Mundi Luminare’, com o ‘Mysterium’ pelo meio. Senti logo nas primeiras composições deste novo trabalho uma necessidade inconsciente de sair daquela densidade toda, de uma coisa muito mais maquinal”, explica Rodrigo Leão, destacando neste seu novo disco o seu carácter “melódico” e a sua “simplicidade”.
Na época em que gravou “Theatrum”, Rodrigo atravessava uma fase negra da sua vida. “Alma Mater” corresponderia então a um período solar? “A minha vida tem muito a ver com a música que faço”, anui. “Senti necessidade de me afastar do ‘Theatrum’.” Um afastamento do teatro que implica deitar fora as máscaras. “Alma Mater” é um álbum transparente.
Mais do que nos anteriores álbuns, o piano faz-se ouvir com a transparência do cristal. “Nos outros álbuns havia muitas coisas em piano que eu depois achava que eram de mais e acabava por mudar, enquanto neste acabaram por ficar. O piano dá mais luz às músicas.” Embora, neste caso, não se trate de um piano de cauda mas de um registo simulado no sintetizador. E há um sample de uma voz africana, em “Orionte”.
“New age”. Um terreno redutor. Rodrigo Leão não se sente incomodado. “Em Espanha, os meus trabalhos anteriores foram catalogados de ‘new age’, nos outros países foi arrumado na música clássica. Não me preocupo muito com isso, arrumarem a música que faço nalguma corrente.”
Uma dessas correntes é o tango. Dois temas de “Alma Mater” chamam a música do país de Gardel. Um deles, “Pasión”, vocalizado pela cantora convidada, Lula Pena. “Sou um admirador da obra de Piazolla”. “’Pasión’ já tinha uns cinco anos, era um instrumental, um tema alegre que contrastava com a melancolia dos outros todos. Foi já muito mais tarde que pensámos em pôr uma voz. A Lula Pena gostou do tema…”
Adriana Calcanhotto canta em “A Casa”, com poema de Ana Carolina, actual companheira do músico. Já tinha sido cantado em português, Rodrigo Leão não gostou. “Fazia lembrar um bocadinho Madredeus.” Mas como “faz lembrar, também um bocadinho, bossa nova”, Rodrigo Leão lembrou-se de alguém brasileiro para cantar. “Primeiro pensei no Caetano Veloso mas este ano fiquei a conhecer melhor a obra da Adriana, praticamente todos os discos dela, estabeleci o contacto e fui a correr até ao Rio de Janeiro…” O terceiro convidado especial de “Alma Mater” é o guitarrista português Pedro Jóia, especialista em flamenco. Em “Sossego” poderá avaliar-se em pormenor o seu estilo na guitarra clássica num tema pautado por uma melancolia e cadência muito satieanas.
“Dragão” está a um pequeno passo de poder ser dançado. “É um bocadinho Sétima, depois de ter sido uma música mais a ver com os Joy Division. Tinha só tambores mas depois, na mistura, não funcionou. Acabámos por optar por uma coisa mais simples.”
De “Theatrum” para “Alma Mater” ficou, pelo menos, o título em latim. “Este é metade português, metade latim, mas é um título que, por si só, já tem luz, tem muitos ares. É a mãe criadora, o sítio onde os antigos aprendiam a sabedoria. Para mim, simbolicamente, uma fonte de inspiração.”
Quem quiser partilhar com Rodrigo Leão e os Vox Ensemble esta sabedoria poderá fazê-lo já esta noite na festa de entrega dos Prémios Blitz.

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