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Vários – “Guerra À Guerra” (dossier)

Pop-Rock 23.01.1991


GUERRA À GUERRA


O rock pode ter-se internacionalizado, mas mantém-se, tal como na sua origem, uma forma de expressão musical e artística de predomínio anglo-saxónico e norte-americano, em particular. Pela sua própria natureza, é agressivo e violento, assumindo inclusive tonalidades marciais e vandalistas. A conjugação destes dois traços torna-o assim favorável à instrumentalização como tónico para as cruzadas bélicas “yankees” e, desse modo, foi usado no passado no Vietname, como mesmo agora para o ataque ao Iraque, para cuja frente de batalha foram enviados milhares de cassetes. Música anglo-saxónica, o rock erigiu-se, todavia, contra o seu sistema, e foi desde sempre na contestação dos seus (e os outros) “senhores da guerra” que tomou posição. Tornou-se, assim, estandarte do pacifismo por negação da negação ou por declarar imperativo fazer guerra à guerra. E, a esse respeito, 20 anos depois de marcar pontos na frente de batalha contra as batalhas, em quase nada mudou.
Mas este novo episódio da dissidência musical que, desde a agudização da crise no Golfo, se começou a escrever traz um desenvolvimento inédito. O “mentor” da primeira represália rock à linguagem das armas foi Lenny Kravitz, o neo-“hippie” por excelência, e os seus parceiros directos são a esposa e um dos filhos do patriarca do pacifismo John Lennon. O projecto que os fez reunir, por sua vez, foi uma nova versão de “Give Peace A Chance”. Ou seja, uma estratégia de intervenção aparentada à usada no Live Aid, em 1985, tomando por pano de fundo uma canção de 69. O mesmo é dizer que, em 1991, a causa pacifista assumida pelo rock não pode mais encarada como um caso de moda, não é pontual ou aleatória, mas inspira-se e alicerça-se na sua própria história, sendo hoje a sua autoridade e credibilidade a de um contrapoder instituído. É impossível nestas páginas reconstituir essa história ou fazer o balanço completo do que nela correu bem ou mal. Mas é aliciante recapitular as fundamentais correntes antibelicistas que têm assomado à ribalta rock, apresentando-as através de algumas das suas letras mais eloquentes. É claro assim que, apesar de haver consenso, não há nesta selecção uniformidade, mas diferentes perspectivas, algumas delas contraditórias entre si.
Luís Maio

SENHORES DA GUERRA
BOB DYLAN


Vós, senhores da guerra
Que construís todas as armas
Que construís aviões da morte
Que construís grandes bombas
Que vos escondeis atrás de muros
Que vos escondeis atrás de secretárias
Quero que saibam
Que vejo através das vossas máscaras
Vós, que jamais fizestes outra coisa
Para além de construir para destruir
Brincais com o meu mundo
Como se fosse o vosso brinquedo privado
Dais-me uma arma para a mão
E escondei-vos do meu olhar
E virais costas e fugis para longe
Quando as rápidas balas traçam o ar

Como o velho Judas
Mentis e enganais
Quereis que acredite Que uma guerra mundial pode ter vencedor
Mas vejo através dos vossos olhos
E vejo através da vossa mente
Como vejo através da água
Que escorre pelo ralo

Preparais os gatilhos
Para que outros disparem
Depois recostai-vos e assistis
Ao crescer do número de mortos
Escondei-vos nas vossas mansões
Enquanto o sangue escorre
Dos corpos dos jovens
E se mistura com a lama

Suscitatstes o pior medo
Alguma vez provocado
Medo de trazer crianças
Ao mundo
Por ameaçardes o meu filho
Ainda sem corpo e sem nome
Não sois dignos do sangue
Que vos corre nas veias

O que é que eu sei
Para falar sem licença
Podeis dizer que sou novo
Podeis dizer que sou ignorante
Mas, duma coisa estou certo
Embora eu seja mais novo que vós
Nem Jesus perdoaria
Aquilo que fazeis

Deixai que vos faça uma pergunta
O vosso dinheiro é assim tão bom
Que vos compre o perdão
Acreditais isso possível
Quando chegar a vossa vez
Creio que descobrireis
Que nem todo o dinheiro que arrecadastes
Vos restituirá a alma

Espero que morrias
E que chegue depressa a vossa morte
Seguirei a vossa urna
Na tarde pálida
E estarei vigilante quando vos baixarem
Para o leito da morte
E ficarei sobre a vossa campa
Até estar seguro da vossa morte

“Masters of War” foi primeiro editada em “The Freewheelin’ Bob Dylan”, segundo álbum do cantor-compositor, datado de 1963. A canção é geralmente apontada pelos exegetas como exemplo, por excelência, do que é uma má canção de intervenção. Argumento: Dylan produz uma dicotomia crua entre os “senhores” de um lado e ele do outro, e as suas palavras são de todo destituídas de conteúdo político objectivo, sendo o seu ataque baseado em nada, para além do puro insulto.


O SOLDADO DESCONHECIDO
JIM MORRISON, DOORS


Espera até que a guerra acabe e sejamos ambos um pouco mais velhos
O soldado desconhecido treina-se onde as notícias são lidas
Na televisão, crianças por nascer, já mortas, vivas, vivas, mortas
As balas atingem a cabeça, por debaixo do capacete
E, para o soldado desconhecido, tudo acabou
Tudo acabou para o soldado desconhecido

COMPANHIA: ALTO!
APRESENTAR ARMAS.

Preparem uma sepultura para o soldado desconhecido
Aninhado sobre o vosso ombro desguarnecido
O soldado desconhecido treina-se enquanto se lêem as notícias
Na televisão, crianças mortas, as balas atingem a cabeça, sob o capacete
Tudo acabou. A Guerra terminou.

“The Unknown Soldier” aparece pela primeira vez em 1968, no formato de single, antes de fazer parte do terceiro álbum da banda, “waiting For The Sun”. Vítima por excelência, longe de todos os heroísmos, o “Soldado Desconhecido” representa um dos símbolos mais tipificados do discurso pacifista. Na época do Vietname, cristalização e tudo o que a geração do “Flower Power” odiava. A televisão difundia então imagens de crianças mortas. Hoje, no pequeno ecrã, a guerra parece-se mais com um “videogame”.


DÊEM UMA OPORTUNIDADE À PAZ (1)
JOHN LENNON


Toda a gente fala de
Devastismo, desgrenhismo, pressionismo, louquismo,
Desordismo, rotulismo
Ismo para isto, ismo para aquilo, ismo, ismo, ismo
Tudo o que estamos a dizer é
Dêem uma oportunidade à paz.

Toda a gente fala de
Ministros, sinistros, balaustradas
Latas, bispos, peixarias,
Rabinos e olhos pop, adeus, adeus, adeuses
Tudo o que estamos a dizer é
Dêem uma oportunidade à paz

Deixem-me agora falar de
Revolução, evolução, masturbação,
Flagelação, regulação, integrações,
Meditações, Nações Unidas,
Parabéns.
Toda a gente fala de
John e Yoko, Timmy Leary, Rosemary,
Tommy Smothers, Bobby Dylan, Tommy Cooper,
Derek Taylor, Norman Mailer,
Alan Ginsberg, Hare Krishna,
Hare
Krishna.

“Give Peace A Chance” surgiu como single em 1969, assinado sob o rótulo “The Plastic Ono Band” (nome dado por John a várias formações com que gravou, esta incluindo Petula Clark e Allen Ginsberg). O tema foi escrito durante o chamado “período da cama”, forma de protesto do casal Lennon contra o belicismo, que se tornou em hino definitivo dos pacifistas. Já não pertence ao domínio da poética Beatles, mas ao estilo de jornalismo pragmático que o músico viria a colmatar em “Sometime In New York City”. A melodia e o refrão sloganístico justificam a popularização, o simplismo legitima as críticas de vazio fundante.
—-
(1) Texto basicamente intradutível, pelas constantes “invenções” e associações de palavras envolvidas. Na primeira estrofe, Lennon cria palavras acrescentando “ismo” a palavras que se podem traduzir por “devastação”, “desgrenhamento”, “pressão”, “loucura”, “desordem” e “rotulação”. Na segunda estrofe forma as palavras com os sufixos ingleses “ters” (“ministers”, “banisters”) e “Hops” (“bishops”, fishops”) que não permitem efectuar operação semelhante em português sobre os seus correspondentes. Já se pode fazer qualquer coisa, na terceira estrofe, traduzindo o sufixo inglês “tion” por “ção”, menos com “United Nations”.


PAZ – UM COMEÇO, PAZ – UM FIM
PETE SINFIELD, KING CRIMSON



Sou o oceano
Que a chama ilumina
“Paz” – é o meu nome.
Sou o rio
Que o vento aflora
Sou a história
Sem fim

“Paz” – é uma palavra
Do mar e do vento
“Paz” – é uma ave que canta
Enquanto sorris
“Paz” – é o amor
De um inimigo convertido em amigo
“Paz” – é o amor que dás
A uma criança.

Quando me buscas
Procuras por todo o lado
Esquecendo-te de olhar para o teu lado.
Quando te buscas
Procuras por todo o lado
Esquecendo-te de ver dentro de ti.

“Paz” – é um rio
Que brota do coração de um homem
E um homem do tamanho da aurora
“Paz” – é uma aurora
De um dia sem fim
A Paz é o fim, tal como a morte,
Da guerra.

“Peace – A Beginning” e “Peace – na End” constituem respectivamente a abertura e fecho de “In The Wake Of Poseidon”, segundo álbum de originais dos King Crimson, lançado em 1970. A guerra como metáfora do eterno retorno – morte e renascimento, somente transcendido pelo amor -, mensagem poética de Peter Sinfield, que acabaria por soçobrar diante da violência musical, estóica e luciferina de Robert Fripp.


MARCHAVAM EM FILAS
IAN CURTIS, JOY DIVISION



Bebiam e matavam por entretenimento
Fardados em uniformes impecáveis
Exibindo a vergonha dos seus crimes
Marcando passo marchavam em fila
Marchavam em fila

Traziam retratos das esposas
E chapas numeradas para se saberem vivos
Marchavam em fila
Marchavam em fila

Cobertos de glória nunca vista
Triunfaram através de toda a engrenagem
Para nunca mais questionarem
O hipnótico transe nunca visto
Marchavam em fila
Marchavam em fila

“They Walked In Line” do primeiro disco (o de estúdio, o outro é ao vivo) do duplo álbum “Still” dos Joy Division, compilação póstuma editada em 1981, na sequência do suicídio do cantor e autor das letras, Ian Curtis. Aparentemente, é uma condenação da guerra, mas a um nível mais profundo, em particular na articulação da sonoridade possessa da voz com o tom assombrado dos instrumentos, verifica-se que na atrocidade da chacina militar, como de resto em tudo o que é cruel, há um estranho e perverso fascínio para Curtis e companhia. Isso é, aliás, patente no nome da banda, inspirado na designação de um campo de concentração nazi no romance “A Casa Das Bonecas”.


1999
PRINCE



Estava a sonhar, quando escrevi isto.
Desculpem se devaneio,
Mas ao acordar hoje de manhã
Era capaz de jurar que era o dia do juízo final.
O céu estava todo púrpura, havia gente a correr por todo o

[lado]
Tentavam escapar à destruição e, sabes,
Eu nem sequer me preocupei porque, é como eles dizem…
2000 zero zero, a festa acabou, ups, o tempo esgotou-se.
Portanto, esta noite vou festejar como se fosse 1999.
Estava a sonhar, quando escrevi isto.
Por isso desculpem-me se alucino.
Mas a vida não passa de uma festa
E as festas não foram feitas para durar.
A guerra circunda-nos por todos os lados,
O meu espírito diz-me que me prepare para combater.
Então, se vou morrer, vou escutar o meu corpo porque, é como

[eles dizem…
2000 zero zero, a festa acabou, ups, o tempo esgotou-se.
Portanto, esta noite vou festejar como se fosse 1999.
Se tu não vieste para festejar,
Não vale a pena bateres-me à porta,
Tenho um leão no bolso
E, querida, ele está pronto a rugir.
Toda a gente tem uma bomba,
Podemos todos morrer um dia destes.
Mas antes que deixe que isso aconteça
Vou morrer a dançar porque, é como eles dizem,
2000 zero zero, a festa acabou, ups, o tempo esgotou-se.
Mamã— Porque é que toda agente tem uma bomba?

“1999” do duplo LP homónimo, de 1982. Foi o disco que lançou Prince na primeira divisão dos tops mundiais, o que se deve atribuir, em particular, à faixa do mesmo nome. Dois traços originais e complementares: a articulação da síndrome da guerra com a diversão, a orquestração do terror do genocídio com ritmos infectadamente dançantes. Muitas estrelas pop reflectiram sobre a pop, mas poucas, como sua alteza de Minneapolis, propuseram uma solução. Pela provocação: se a guerra pode rebentar a cada instante, o melhor é não esperar e começar já a aproveitar a vida. Dionísios contra Apolo em versão acção directa.
——
Nota: uma vez que a primeira prensagem em CD incluía menos uma faixa que a edição original em vinil (para caber num só compacto), a Warner acaba de lançar uma reedição integral em laser.


CONSTRUÇÃO NAVAL
ELVIS COSTELLO / ROBERT WYATT



Valerá a pena?
Um casaco de Inverno, novo, e um par de sapatos para a mulher
É uma bicicleta pelo aniversário do rapaz
Não passa de um boato que as crianças e as mulheres espalham pela cidade
Em breve construiremos navios
Vejam bem
O rapaz disse: “Papá, vão dar-me emprego
Mas estarei de volta pelo Natal”.

Não passa de um boato espalhado pela cidade
Alguém disse que houve quem ficasse com cadastro
Só por dizer que as pessoas morrem
Em consequência da construção naval.
Francamente…
Mergulhar por uma questão de sobrevivência
Quando podíamos fazê-lo para apanhar pérolas…

Não passa de um boato espalhado pela cidade
Culpa de um telegrama ou de um postal ilustrado.
Dentro de semanas voltarão a abrir o estaleiro
E a notificar os parentes mais próximos.

“Shipbuilding”, original de Elvis Costello incluído no álbum “Punch The Clock”, de 1983, transformou-se em melancólico grito de protesto na voz de Robert Wyatt, editado em single no mesmo ano e posteriormente na minicolectânea “1982-1984”. Comentário à guerra das Malvinas que a cadência lenta e cinzenta do ex-baterista dos Soft Machine e actual comunista convicto tornou imortal. A Inglaterra crepuscular ou o mundo que envia os seus filhos para o naufrágio, com palmadinhas nas costas e promessas de medalhas. “The United States of Amnesia” e “East Timor” são outras tantas canções de Wyatt. Mas só “Shipbuilding” atingiu os tops…


A GUERRA
EDWIN STARR / BRUCE SPRINGSTEEN



A guerra
Serve para quê?
Absolutamente para nada

A guerra é, para mim, desprezível
Porque implica a destruição de vidas inocentes
A guerra faz brotar lágrimas dos olhos de milhares de mães
Cujos filhos vão combater, sacrificando a vida.

A guerra
Limita-se a destroçar corações
A guerra só interessa aos cangalheiros
A guerra é inimiga da Humanidade inteira.
Só de pensar nela, enlouqueço
É um legado que, de geração em geração,
Induz à destruição.
Quem quererá morrer?

A guerra reduziu a pó os sonhos de muitos jovens
Ao torna-los deficientes, amargos e mesquinhos
A vida é demasiado preciosa para ser desperdiçada em guerras, todos os dias
A guerra não pode dar a vida só tirá-la

Limita-se a destroçar corações
A guerra
Só interessa aos cangalheiros
Paz, amor, compreensão
Tem de haver um lugar, hoje, para estas coisas
Dizem-nos que temos de lutar para preservarmos a nossa liberdade
Mas, Senhor, tem de existir um processo melhor
Melhor que a guerra.

A “War”, segundo o original de 1970 de Edwin Starr, passou, sem que a levassem muito a sério, pelos Frankie Goes To Hollywood, até atingir a notoriedade, em 1985, na voz cristã e muito americana de Bruce Springsteen. Foi a leitura de “Borna t the 4th of July” de Ron Nevic que levou o “boss” à elaboração de “Born in the USA”, enésimo exorcismo dos fantasmas complexos, não resolvidos, do Vietname. Qual o sentido que faz hoje gritar que a guerra é “desprezível” e “não serve absolutamente para nada”? O rock servirá ainda para despertar os adormecidos?


OS DIAS DE ARMAGEDÃO ESTÃO À PORTA (DE NOVO)
THE THE



Estão a oito mil metros de altura voando em linha recta, deixando
[um rastro de vapor contra um céu vermelho de sangue.
Vêm de Oriente para Ocidente com gorros Balaclava (1) nas
[cabeças… Sim!

Mas se pensas que Jesus Cristo está para regressar,
Meu amor, é outra coisa a chegar.
Se alguma vez ele descobrir quem lhe contrabandeou o nome,
Extirpará o coração e revolver-se-á na campa.

O Islão está a crescer.
Os Cristãos mobilizam-se.
O mundo está de rastos,
Esqueceu a mensagem e idolatra os dogmas.

“É a guerra”, gritou ela…
“É a guerra”, gritou ela…
“Isto é a guerra!”
Larga os teus bens, ó povo simples.
Hás-de combatê-los nas praias… em roupa interior.
Hás-de agradecer ao bom deus por erguer a bandeira britânica.
Hás-de ver os barcos sair da barra e os cadáveres voltarem a
[boiar.

Se o verdadeiro Jesus Cristo hoje se erguesse,
Seria alvejado a sangue frio pela CIA,
Oh, as luzes que agora mais brilham por trás de vidros coloridos
Projectarão as mais negras sombras sobre o coração humano.
Mas Deus não edificou para si esse trono.
Deus não vive em Israel ou Roma.
Deus não pertence ao cabaz do dólar ianque.
Deus não lança bombas contra o Hezbollah.
Deus nem sequer vai à igreja.
E Deus não nos manda morrer por Alá.
Não, Deus lembrar-nos-á o que já sabemos – Que a raça humana está prestes a colher o que semeou.

O mundo está de rastos,
Esqueceu a mensagem e idolatra os dogmas.
Os dias de Armagedão estão à porta… de novo

“Armageddon Days Are Here (Again)” de “Mind Bomb”, terceiro álbum de Matt Johnson, sob a designação The The, datado de 1989. Até ao momento, o álbum mais comprometido do autor é, nas suas palavras, “acerca das forças ocultas que estão por trás de todas as coisas”. Parte crucial desse álbum conceptual, a faixa que aqui se refere, constitui uma das melhores reflexões de origem musical sobre as causas do escaldante ambiente no Médio Oriente, colocando judiciosamente o acento nas fricções de ordem religiosa e opondo a verdadeira espiritualidade ao cego fanatismo gregário, tanto a Ocidente como a Oriente.
———
(1) Espécie de gorros, em malha metálica, vulgarizados pelos guerreiros da Idade Média.

TRADUÇÃO E COMENTÁRIOS
DE: FERNANDO MAGALHÃES E LUÍS MAIO

Robert Wyatt – “Robert Wyatt E O Regresso Dos Reis” (artigo de opinião)

(público >> y >> pop/rock >> artigo de opinião)
26 Dezembro 2003


Robert Wyatt e o regresso dos reis



Robert Wyatt, Ricky Lee Jones, John Cale, Lou Reed, June Tabor, Nick Cave, Richard Thompson. Os clássicos. Todos eles lançaram excelentes álbuns ao longo do ano. Têm em comum, além de pertencerem a uma geração (ou gerações, Rickie e Nick são um pouco mais novos, ela tem 49, ele 46) que percorreu três décadas (alguns, quatro…) de música popular, algo que se pode definir como “classe”. “Classe” que se caracteriza pela intransigência no que respeita à cedência aos imperativos comerciais da indústria discográfica. De todos eles se pode falar com propriedade de uma “obra” coerente, fiel a princípios regidos exclusivamente pelos respetivos percursos existenciais. Nos anos 70 dos múltiplos absurdos e exageros, nos 80 espartanos e infernais, nos 90 das tecnologias-que-tudo-fazem mantiveram intacta a integridade artística sem deixarem de incorporar nos seus trabalhos, ajustando-os às necessidades próprias, essa panóplia de adereços e muletas que a modernidade (que é sempre hoje…) colocou à sua disposição.
É isso que os distingue dos novatos, por mais espampanantes que os discos destes últimos aparentem ser. Uma visão pessoal e intransmissível, por vezes incómoda para os espíritos e ouvidos condicionados pelos sons massificantes que o mercado ciclicamente atira para a trituradora, que os anos vão depurando, pulindo ou aguçando, consoante as curvas e os precalços da vida.
Wyatt, o baterista de “free jazz” que transitou para o psicadelismo de Canterbury dos Soft Machine, e desceu aos infernos para se descobrir e redimir numa solidão de criança com a lucidez de um velho mago. Cale, o minimalista emperdenido, discípulo do guru Lamonte Young, violista raivoso dos Velvet, o classicista perverso que condensou a raiva de forma tão violenta como ataca as notas do seu piano. Lou Reed, seu companheiro de armas nos Velvets, o monstro absoluto que reduziu a música ao ruído e eletricidade puros em “Metal Machine Music”, colheu as flores do mal e cheirou os aramas da morte, para finalmente escalpelizar o sofrimento e o “mal de vivre” sob o manto de ópio, álcool e traças de Edgar Allan Poe. Cave, o pregador dos evangelhos da decadência, do vício e do naufrágio, disseminados nos Birthday Party e transformados em espiritualiadde negra nos Bad Seeds. Thompson, o pessimista dos amores e do desespero sem cura que aprimorou numa guitarra que jamais cortou as ligações que a prendem à terra desde os tempos dos Fairport Convention. Tabor, a voz mais profunda da folk britânica que, álbum após álbum, vem redefinindo a palavra “tradição”. Ricky Lee Jones, uma das vozes e escritas mais consistentes do “songwriting” americano, sempre em busca desse equilíbrio, por natureza percário, entre pop, jazz, experimentação e o registo de vivências interiores (curiosamente, busca paralela à de Wyatt, com a diferença de que este tombou desamparado no fundo e teve que se reconstruir a partir da dor absoluta, sentado numa cadeira de rodas banhada por Deus e pela loucura, em “Rock Bottom”).
Qualquer deles percorre um longo caminho, deixando-nos as etapas, os triunfos, as perdas, até mesmo passos em falso. Tiveram e têm o tempo como aliado. Único a permitir que nele se construa a intemporalidade. Lançaram preces e maldições. Construíram cidades, jardins e templos. Auto-estradas onde a emoção toma o freio nos dentes e becos onde o silêncio parece ser a única resposta. Mundos que devem ser lidos e ouvidos de fio e pavio para a história ser comprendida como um todo. Servem ou deveriam servir de exemplo aos mais novos. Os “melhores do ano” são, afinal de contas, os “melhores de sempre”

Robert Wyatt – “Voando Sobre Um Ninho De Cucos” (entrevista / artigo de opinião) + “Cuckooland” (crítica de discos)

(público >> y >> pop/rock >> artigo de opinião / crítica de discos)
10 Outubro 2003


voando sobre um ninho de cucos

Irónico, apaixonado, solitário e solidário, reconciliado com a vida. Assim é Robert Wyatt, um dos resistentes dos anos 70 que insiste, a cada novo disco, em nos atirar à cara uma obra-prima. A última chama-se Cuckooland – metáfora de um mundo cada vez mais dominado pela solidão.



Aos 58 anos, Robert Wyatt é um dos mais respeitados músicos da atualidade. O seu novo álbum, “Cuckooland”, junta mais um pedaço de genialidade a uma obra que começou no free jazz, prosseguiu com a aventura psicadélica dos primeiros Soft Machine e nas desfocagens pop dos Matching Mole e, finalmente, cicatrizou as feridas do infortúnio numa carreira a solo de que se não conhecem pontos fracos e da qual resultou uma das obras-primas deste século, “Rock Bottom”.
Wyatt, o ideólogo e o esteta, o Che Guevara da música popular e o humanista terno, traça a rota de uma viagem solitária ao mesmo tempo capaz de sublimar a nostalgia do passado e de se projetar num futuro ao qual continuam a não faltar motivações. Acima de tudo, em “Cuckooland” ressalta a ideia de um homem e de um músico que soube adaptar-se e transcender a mudança dos tempos, e desatar os nós de si próprio, ao seguir as correntes de uma lógica feita de humor, inteligência e emoção. Não é jazz, nem pop, nem canção de autor – pelo menos das que estamos habituados. É o fascinante mundo de Robert Wyatt, o ex-baterista que continua a marcar a cadência dos corações que lutam.
O Y conversou, via telefone, com ele, percorrendo de A a Z tópicos relacionados com o disco e com a sua personalidade.

ARTE
Cirurgia plástica

BENGE (Alfreda), sua mulher, autora da capa e das letras de “Cuckooland” – a nova capa é diferente das pinturas ilustrativas que a sua mulher desenhou para os álbuns anteriores…
Não sei como ela faz. Neste álbum desenhou uma coisa mais hieroglífica.

CORNETA – tocou pela primeira vez este instrumento no novo disco, mas os teclados continuam a soar bastante “cheap”
É uma trompete que se pode tocar dentro de casa, uma trompete íntima. Quanto aos teclados, usei material novo da Yamaha para fazer uma espécie de jacuzzi onde mergulhei as canções.

DEATH (morte)
Ah, isso… Está sempre a acontecer, não é? Mas não normalmente às pessoas que gostaríamos… (risos). Não me preocupa, graças a Deus, é algo que não se pode separar da vida, da mesma forma que não se pode separar a noite do dia. Alguns poetas falaram da quantidade de pequenas mortes que antecedem “the big one”. De qualquer forma, depois de morrermos, a vida continua…

ENO (BRIAN) tem uma participação neste disco simbólica. Em “Tom Hay’s fox” deixou-o tocar apenas a “última nota”…
O escritório de Brian fica perto de minha casa e um dia passou por lá de bicicleta. É um tipo muito “low tech”. A presença dele no disco é difícil de definir… É um entusiasta… Durante as gravações decidiu de repente que queria viajar até ao Brasil, a seguir fez um “tour” de bicicleta pelo Sul de França. De qualquer forma foi uma participação valiosa. Quanto a essa “última nota”, foram na verdade duas ou três, embora lhe tivesse dado inteira liberdade para tocar a última (risos). É uma nota linda!

FOREST tema de “Cuckooland”. Uma valsa enigmática
Inspirei-me numa melodia da Europa Central, na fronteira entre a Polónia e a Checoslováquia, uma região recheada de memória de florestas. Escolhi um compasso de valsa por ser uma cadência tipicamente europeia, introduzida no continente pelos ciganos, antes de se tornar uma dança respeitável para os músicos clássicos. A floresta tem duplo sentido: pode ser um local maravilhoso mas também onde se escondem as vítimas, pessoas perigosas… E lobos… Um local de magia. Branca e negra.

GILMOUR (DAVID) guitarrista em “Forest”
Conheço-o há anos, tocámos juntos nos mesmos sítios [quando os Soft Machine e os Pink Floyd formavam o par de bandas mais importantes da pop psicadélica em Inglaterra]. Voltei a encontrá-lo há dois anos, quando o convidei para tocar num festival que organizei em Londres. No final perguntou-me se estava interessado nos seus serviços…

HIROSHIMA tema da faixa “Foreign accents”
O bombardeamento de Hiroshima constituiu o supremo ato de hipocrisia pelos poderes ocidentais, numa altura em que hoje tanto falam nos perigos das armas de destruição maciça. A ideia de que só os outros povos têm essa responsabilidade e as nações ocidentais não, é de um racismo absoluto.

IRAQUE em “Lullaby for Hamza”
… Que antes se chamava Mesopotâmia. Entre o Iraque e o Irão situa-se o berço da civilização ocidental. As pessoas falam de Roma e na Grécia quando, na verdade, as primeiras civilizações nasceram na Mesopotâmia, na Pérsia, etc. Só este facto já é sufi ciente para que o Ocidente tenha um pouco mais de respeito.

JOBIM (ANTÓNIO CARLOS) autor de “Insensatez”, adaptado por Wyatt à língua inglesa
A bossa-nova é um dos géneros musicais com mais pontos em comum com o jazz. Uma das poucas músicas exteriores aos EUA que fascinaram os músicos americanos, em parte, devido ao facto da língua portuguesa, falada nas antigas colónias, por exemplo, ter desenvolvido musicalmente um leque harmónico que se ajusta bem ao jazz. Adoro a sofisticação do português da América Latina, bem como o espanhol de Cuba ou da Argentina. Mas essa riqueza é única no Brasil. Tentei enfatizar essa beleza harmónica. Depois, achei sempre que a voz de Karen Mantler se parece um pouco com a de Astrud Gilberto e quis verificar se era verdade (risos). Infelizmente não consigo cantar em português. É difícil. “Insensatez” é a única palavra nesta língua que consegui usar até agora!

KAREN (MANTLER) filha de Carla Bley, com quem Wyatt tocou numa série de álbuns. Adora mesmo esta família, não é verdade? E já agora, o que é o “Karenotron” que vem mencionado na ficha técnica?
Adoro esta família, exatamente. Sempre me dei bem, com os pais dela [o trompetista Michael Mantler]. Carla escreveu canções maravilhosas, por vezes arrepiantes. E foi uma honra trabalhar com Michael Mantler e ver crescer a sua filha, nos últimos 30 anos, até se tornar numa música adorável. Penso que somos ambos influenciados pela sua mãe.
O Karenotron é um Mellotron onde foram inseridas apenas cassetes com a voz de Karen. Pedi-lhe para cantar uma escala inteira, que depois alarguei, nos graves e nos agudos, para registos mais bizarros. Tudo tocado num teclado, como num Mellotron.

MADAME “Cuckoo madame”, tema central do álbum
É realmente um cuco, as pessoas não acreditam! Alfie [Alfreda Benge] escreveu este poema ao ver um cuco fêmea à procura de um sítio para pôr os ovos e depois partir. Após uma reação normal de agressividade, por pensar nos cucos como vítimas, acabou por meditar em como, de facto, é estranha a vida de um cuco – não conhece nem os pais nem os filhos e parte sozinho para África, todos os anos. Que vida solitária! Deve haver uma razão evolucionista para explicar este comportamento. Algumas teorias explicam que é por não haver cucos machos sufi cientes para ficarem a tomar conta dos mais novos…Toda a gente conhece alguém parecido com um cuco…

NEITHER HERE…” + “…NOR THERE” as duas partes distintas em que Wyatt dividiu o disco, separadas por uma faixa de silêncio.
Porque existe uma banalidade nas identidades que nos são atribuídas, nacionalistas ou religiosas. O que é que isso significa no mundo moderno? Um mundo em que tudo é regido por uma economia global.
Depois, era para ter saído como um CD duplo, mas era muito caro, daí ter optado por essa separação, com um intervalo de silêncio, e aproveitar o dinheiro para dispor de mais tempo no estúdio.

OLD EUROPE Paris, o romance entre Miles Davis e Juliette Gréco…
Adoro a velha Europa, sou um velho europeu, sem que isto signifique qualquer atitude de patriotismo. É mais um sonho romântico sobre uma Europa cosmopolita, cheia de nostalgia e fantasmas simpáticos (outros menos…) mas ainda na dianteira, no que diz respeito à “avant-garde”, a novas ideias e a recetividade, mesmo em comparação com a cultura americana. Acaba por não fazer sentido a divisão entre uma Europa “velha” e outra “nova”, divisão só possível nas cabeças de políticos amnésicos e de jornalistas condescendentes…
Tanto eu como Alfie estivemos em Paris durante a adolescência. É uma cidade maravilhosa onde descobri uma quantidade de coisas. Tudo o que existe sobre esta cidade nos filmes, nos discos ou em poemas é verdade. É uma cidade viva, com o drama e os estímulos que descobri, por exemplo, nos livros que li sobre Picasso.

PIANO que toca em solo absoluto no tema “Raining in my heart”
Pertence a Phil Manzanera, gravei-o no apartamento dele. É um instrumento curioso, arcaico, dos anos 30, a imitar “art nouveau”. Pedi ao Phil para o gravar, limpámos-lhe a poeira… Tem um som estranho que adorei…

RATLEDGE Mike, ex-companheiro nos Soft Machine. A questão que todos pretendem ver respondida: que é feito de Mike Ratledge?
Tornou-se um empresário de sucesso. No ramo de anúncios para TV. Aproveitou os lucros obtidos com os Soft Machine para entrar no negócio, com o seu sócio, Karl Jenkins [outro antigo membro do grupo]. Foram eles que ficaram com todo o dinheiro dos Soft Machine. E quero dizer mesmo “todo”!

SETEMBRO, 11
Essa data tornou-se famosa, como todos sabem, por ser o dia em que os americanos puseram no poder o general Pinochet, nos anos 70, e também o dia em que Salvador Allende foi assassinado pelo exército fascista a soldo dos EUA.

TRICKLE DOWN a faixa mais jazzy do álbum.
Sim, mas um jazz anacrónico. O baixista disse que nunca tinha feito um disco com swing… É notório que sinto uma nostalgia pelo jazz de há 50 anos, adoro swingar mas ao mesmo tempo procurei voltar o conceito do avesso. Os címbalos e a secção rítmica são o acontecimento principal, enquanto os solos são como fragmentos espalhados, relegados para segundo plano.

VIDA
A vida?… Sssimmm… bem… nunca esperei saber alguma coisa sobre ela. Tenho três netas e a esperança de que as próximas gerações endireitem as coisas. Sinto-me impressionado ao ver como pessoas atacadas e pressionadas por todo o lado continuam a conseguir divertir-se e a ter uma vida boa, sejam vietnamitas, palestinianas ou ciganas. Às vezes pergunto-me porquê, mas suponho que tudo tem a ver com uma força extraordinária. Seja qual for o local e as circunstâncias, há sempre algo que consegue nascer e crescer. Mesmo num deserto. Mesmo num muro.

WELLER (PAUL) guitarrista em “Lullaloop”
Alfie já tinha composto o tema, o único feito todo no estúdio e o primeiro inteiramente da sua autoria, quando Paul apareceu, só para cumprimentar (também vive ao nosso lado). É uma das vantagens de ter um estúdio no mesmo local onde vivem celebridades. As pessoas podem pensar que é uma colaboração estranha mas temos um “background” semelhante. Ambos nos rotinamos a cantar a música negra dos anos 50 e 60.

YOU (TU). Como se sente, agora que está a completar 40 anos de carreira?
Satisfeito por ainda estar aqui, até porque não tenho tido muito cuidado (risos). Fico cansado mais facilmente mas, à parte isso, as coisas estão melhores do que alguma vez estiveram. Os músicos com quem trabalho são bons, a Alfie ajuda-me e eu ajudo-a a ela, estou numa editora ótima… Tive sorte por ter chegado a uma situação em que me sinto confortável.

ZZZZZZZ (DE SONO)
(risos) Sim, absolutamente, é a minha atividade preferida. Muitas pessoas dizem que o sono não passa de uma preparação para as atividades do dia. Para mim, é o contrário. Atividades diárias como comer, reproduzirmo-nos ou dizer ‘olá’, são reparativos para o verdadeiro propósito da vida que é cair ditosamente no sono.


valsa para um homem só

ROBERT WYATT
Cuckooland
Hannibal, distri. Edel
10|10

As primeiras notas de “Just a bit” poderiam pertencer a uma versão para funeral de “Música no Coração”. E é disso que se trata. As palavras, aquelas palavras que noutras gargantas soariam a lamentos de um velho senil mas que caso de Wyatt irrompem como emanações de uma personalidade que sublimou a dor e a solidão, fazendo delas seus amigos íntimos, pulsam como os batimentos de um coração ferido. “I’m as mad as any hatter, I feel safer touching wood” canta, sobre o tal jacuzzi de sintetizadores que banham e afogam cada sílaba num dilúvio de melancolia. Como quase todos os discos do ex-Soft Machine desde “Rock Bottom”, desprende-se da música uma tristeza feita em partes iguais de ternura, lucidez e resignação. Acompanhado por músicos como Annie Whitehead e Karen Mantler, Wyatt encarrega-se, como vem fazendo a partir de “Ruth is Stranger than Richard”, a partir o jazz aos bocadinhos, cada um deles correspondente a um pedaço de espelho que apenas reflete uma parcela de uma verdade mais vasta. Naipes de sintetizadores girando no Ocaso, saxofones do princípio do século, valsas da Europa romântica onde Miles Davis corteja Juliette Gréco, uma inusitada intromissão guitarrística de rock-vaudeville de Paul Weller, a par dos habituais disparos (sem o estampido de manifestos como “Nothing can Stop Us”) contra o imperialismo e a injustiça, tudo encaixa no lugar que este homem determina como sendo o certo, ou seja, o seu, por mais que diga estar “Neither here..” e “…Nor there”.
Os cucos são aves solitárias. Ao escutarmos de lágrimas nos olhos (porque a Beleza tem que ter este efeito nas almas dos que estão vivos), esta voz que parece volatizar-se por trás das nuvens, este oceano de melodias que limpam e redimem de uma vez por todas as banalidades que infestam a pop, imaginamos a figura de um homem dobrado sobre os seus sonhos, medos e esperanças, sentado à mesa, sozinho, a beber chá, no meio de um prado outonal. Mesmo na orla da floresta, como a de “Forest”, onde se escondem estranhas maravilhas mas também as vítimas e os lobos – valsa definitiva dos génios e dos loucos, marcha dos anjos decaídos. Mas anjos, apesar de tudo.
Um dos discos do ano.