Arquivo de etiquetas: R.E.M.

REM – “Verdade e Consequência” (artigo sobre o ‘best of’)

Pop-Rock Quarta-Feira, 02.10.1991


VERDADE E CONSEQUÊNCIA

Foram comparados aos Byrds, com os quais partilham o gosto por melodias imaculadas – presentes numa guitarra despojada de artifícios que sabe recortar o essencial e numa voz de cortar o coração. Para os REM, tudo se resume a um jogo em que são os únicos a impor as regras. Jogaram o trunfo “Our Of Time” e fizeram o pleno. Agora é tempo de historiar tempos passados, através da edição de um “Besto of” que reúne algumas das suas melhores canções.



Parecem ter nascido já com o estatuto de clássicos. Desde o som de garagem do primeiro single, “Radio Free Europe”, gravado em Julho de 1981, até à produção luxuriante do álbum mais recente, “Out of Time”, sempre a mesma coerência e firmeza de princípios, que lhes permitiu subir a pulso a escada do sucesso e a criação de um som próprio que, sem desprezar influências, soube religar passado e presente, isto é, pegar na tradição do folkrock psicadélico dos Byrds e acrescentar-lhe a energia e a carga emocional de uma voz em permanente estado de graça.
Desprende-se da música dos REM uma magia especial, resultado da combinação perfeita entre o canto, sempre emocionado, sempre frágil, sempre contagiante, de Michael Stipe e a guitarra, clara e incisiva, de Pater Buck. Canções como o já citado “Radio free Europe”, “The One I Love”, “Talk About The Passion”, “Finest Worksong” ou os recentes e irresistíveis (embora já comecem a saturar, tal a insistência com que continuam a ser passados na rádio e na televisão) “Losing my religion” e “Shiny happy people” colam-se facilmente ao ouvido e recordam as grandes melodias e a simplicidade da era gloriosa dos singles, nos anos 60.
Para Michael Stipe, Peter Buck, Mike Mills e Bill Berry tem sido a ascensão permanente em direcção à glória, com a constante de cada álbum que editam vender mais do que o anterior. “Document” foi o primeiro, nos Estados Unidos, a alcançar a barreira do milhão de exemplares vendidos. “Green” ultrapassou esse número, com vendas na ordem do milhão e meio. “Out of Time” continua a vender, sem que seja possível prever o número final, decerto exorbitante. Números que não deixam de surpreender, se levarmos em conta que toda a carreira do grupo se tem processado por sua conta e risco, sem uma relação intensa com os “media” nem disposição para seguir qualquer tipo de directivas impostas pela editora. “Se déssemos ouvidos a essas sugestões, para utilizarmos nos vídeos raparigas em bikini ou, nos discos, uns ritmos ‘disco’, ironiza o guitarrista, “decerto que os REM já teriam acabado.”

Introspecção, Não

Em vez disso, preferem a aliança inusitada entre a imediatez das melodias e o discurso crítico das letras de Stipe, para quem o “nonsense” “constitui um elemento crucial nas canções pop”. Não deixa, neste aspecto, de ser curioso que cada ouvinte julgue encontrar nos textos referências autobiográficas ou mensagens de profundo significado místico, que o próprio Stipe se encarrega de desmistificar quando, ao vivo, substitui uma palavra por outra, de valor fonético equivalente. A introspecção não parece, pois, ser a principal fonte de inspiração – “é aborrecida, essa necessidade de falar sobre si próprio, muito anos 70”. De resto, acaba por impressionar mais não as palavras em si, mas a maneira como Stipe as canta, com a emoção sempre à flor da pele, como se se tratasse, em cada canção, de desafiar o destino e toda a sua vida dependesse dessa confrontação. “Losing my religion”, por exemplo, induz facilmente a tentação de referir o poema à experiência pessoal do cantor. Ele encolhe os ombros e afirma que muitas das suas letras são para rir.
Alguns textos partem, com efeito, de situações concretas: “Welcome to the occupation” diz respeito à intervenção militar americana na América Central. “Fall on me” não está longe de constituir uma denúncia ecológica sobre as chuvas ácidas. “Sitting still” tem que ver com o convívio da irmã de Stipe com crianças surdas. “Camera” poderia ser um “zoom” sobre um acidente de carro de um amigo. O resultado final, contudo, assume contornos de uma ilegibilidade enigmática, como se Stipe procurasse a todo o custo ocultar o lado mais aparente das coisas, preferindo sugerir em vez de mostrar, confundir em vez de explicar. “Não sou nenhum Billy Bragg”, diz, “não tenho nenhuma mensagem a transmitir.”

As Aparências Iludem

Deste modo, resta ao ouvinte reconstruir em particular esse universo imaginário, juntar as peças do “puzzle” segundo a intuição ou a disposição do momento. Os REM não escondem essa atracção pelo enigma e pelos trocadilhos conceptuais. “Fables of the Reconstruction / Reconstruction of the Fables” (1985) passa por ser, por um lado, um manifesto surrealizante sobre a reconstrução do Sul pós-guerra civil e, por outro, uma tentativa de recuperação da tradição oral desse mesmo Sul. Michael Stipe diz que talvez, mas que a inspiração partiu essencialmente de uma conversa com o pai, sobre carpintaria. Em “Reckoning” (1984) indicam que o disco deve ser arquivado “under water”. Uma das canções do álbum “So. Central Rain (I’m Sorry)” conta uma situação de solidão passada numa tarde de chuva, em Athens, Georgia, pequena cidade de onde Stipe é natural. “Document” (1987), pelo contrário, deve ser arrumado “under fire”. A inclusão, neste disco, de “It’s the end of the world as we know it” sugere um apocalipse de chamas castigadoras. Um jogo contínuo de “verdade e consequência”, em que cada significado sugere sempre outro, até ao infinito.
Ao todo, os REM jogam num tabuleiro formado, até agora, por sete álbuns de originais: “Murmur”, “Reckoning”, “Fables of the Reconstruction / Reconstruction of the Fables”, “Life’s Rich Pageant”, “Document”, “Green” e “Out Of Time”. Neles há matéria mais do que suficiente para decifrar uma infinidade de mistérios. Com os REM nada é o que parece ser o que na verdade é. Cada canção é uma espécie de “trompe l’oeil” em que sons, palavras e imagens (os clips fornecem pistas ou baralham ainda mais?) confluem na criação de ambientes insondáveis, abertos à fruição pura. Talvez resida aí o segredo.
A colectânea “The Best of REM”, agora editada pela Emi-Valentim de Carvalho, faz o historial do grupo, por ordem cronológica, desde “Murmur” de 1983 (primeiro álbum oficial, se descontarmos o mini “Chronic Town”) até “Document”, de 1987, ou seja, todo o período de gravações para a IRS, anterior a “Green” e “Out of Time”, já com o selo Warner Bros. Na capa interior vêm incluídas notas explicativas sobre cada tema. Excelenete oportunidade para se começar a jogar.

R.E.M. – “Out Of Time”

Pop Rock

27 MARÇO 1991
LP’S

CANÇÕES PARA A ETERNIDADE

R.E.M.
Out of Time

LP / MC / CD, Warner Bros., distri. Warner port.

rem

“Música que não inclua elementos de extrema felicidade, tristeza, beleza, raiva e violência, não vale a pena ser feita” – palavras de Michael Stipe, vocalista dos R.E.M., que definem na perfeição a atitude de uma banda que nem o sucesso comercial do anterior “Green” afastou de um percurso exemplar, agora culminado com esta obra-prima absoluta. Nada neste disco se parece com o passado. Os R.E.M., como o título de resto indica, ultrapassaram a prisão temporal e atingiram a eternidade.
Onde “Green” se revelava politicamente empenhado, “Out of Time” torna-se maior que o mundo e canta, por vezes de forma estranha, o amor. Em vez das declarações bombásticas – “Deixei de sentir necessidade”, diz Michael Stipe, “de fazer de cada frase que escrevo uma declaração.” – e do discurso politicamente empenhado, as palavras que nascem directamente do coração, que falam do amor, “de todas as espécies de amor imaginárias”.
Tempo foi o que não faltou para a feitura deste disco: “Não tínhamos pressa. Quisemos experimentar todas as possibilidades e ver de que modo elas se poderiam desenvolver.” Após a digressão mundial de 1989, que levou os R.E.M. aos quatro cantos do planeta, Michael Stipe, Bill Berry, Peter Buck e Mike Mills decidiram que era altura de mudar. O estúdio passou a ser o centro do universo e o trabalho de composição e produção o centro desse centro. Alterados os papéis e regras habituais (com os quatro músicos a trocarem de instrumentos) e com o espaço alargado concedido às cordas e aos metais, o leque instrumental tornou-se quase ilimitado – “Tínhamos sons de diferentes instrumentos na cabeça”, diz Stipe, “e quisemos passá-los para o disco.”
Para isso, recrutaram músicos como o saxofonista Kidd Jordan, a vocalista Kate Pierson, dos B-52’s, o tocador de filiscórnio da banda de Henry Mancini, o “rapper” dos Boogie Down Productions, KRS-1 e membros da orquestra sinfónica de Atalanta, entre outros. A explosão de génio e o estado de graça de todos os membros da banda fizeram o resto – um disco perfeito, capaz talvez de rivalizar com a luz de “Revolver”, “Exile on Main Street” ou “Highway 61 Revisited” – como sonhava secretamente Peter Buck.
Onze canções – outras tantas jóias que devolvem à música (rock ou não, pouco importa) popular americana a dignidade perdida. Música popular que os R.E.M. consideram morta e “assassinada pelos ‘media’”. Canções que “recordam às pessoas um tempo em que os músicos não receavam tentar fazer coisas diferentes”. Canções que Michael Stipe não se envergonha de chamar “pop”, por muito que às vezes possam soar estranhas.
“The world is collapsing/ around our ears/ I turned up the radio/ but I can’t hear it” – mensagem inicial difundida em “Radio Song”, “funky” apocalíptico, que cedo dá lugar a um carrocel de emoções em forma de canção, carimbadas com a marca de “clássicos”. “Losing my Religion” prova até que ponto Michael Stipe se pode considerar hoje, ao lado de Stan Ridgway e David Byrne, um dos grandes cantores do lado oculto da América. “Low”, magistral, só encontra paralelo na patética litania de Bryan Ferry com os Roxy Music em “In every Dream Home a Heartache” – lenta e angustiada progressão de órgão e do clarinete baixo de Jordan, resolvida na extasiada e solar libertação final. “Near Wild Heaven” compara-se, no requinte das harmonias vocais, aos melhores momentos dos Beach Boys, por entre os saltos de alegria das guitarras. Guitarra que, no semi-instrumental “Endgame”, se torna mais terna e luminosa, em acordes que trazem à lembrança o dedilhar de Steve Howe, dos Yes, em “Mood for a Day”.
Do outro lado, a alegria das vozes de Michael Stipe e Kate Pierson, jubilosas entre as piruetas da guitarra, em “Shiny Happy People”, outro dos melhores momentos do disco. “Texarkana” é uma “cowboy song” que junta a mitologia e sonoridade dos Byrds ao estilo narrativo de Stan Ridgway. “Country Feedback” e “Me in Honey” (este construído sobre cavalgadas guitarrísticas próximas dos Talking Heads da fase inicial) fecham com chave de ouro um disco sem pontos fracos. Com “Out of Time” os R.E.M. tocam o céu da perfeição. •••••

aqui