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Quadrilha – “Quarto Crescente”

19 de Novembro 1999
PORTUGUESES


Quadrilha
Quarto Crescente (6)
Vachier & Associados, distri. MVM


quad

Há anos a jogar na segunda divisão dos grupos de música de raiz tradicional, os Quadrilha têm tentado de várias formas ascender ao escalão principal. Demasiado tempo abrigada à sombra dos Romanças, a banda liderada por Sebastião Antunes persegue uma fórmula relativamente virgem no panorama nacional: o folk rock, sem grandes pretensões de autenticidade etnográfica e voltado para a simplificação e estilização de ritmos e melodias que apenas remotamente cultivam o respeito pela tradição. “Quarto Crescente” denota influências várias que vão dos Romanças e Luís Represas, em Portugal, aos Fairport Convention, em Inglaterra. A instrumentação é mais rica do que em álbuns anteriores e inclui violino, gaita-de-foles, harpa e sanfona. Não chega para fazer de “Quarto Crescente” um álbum essencial, mas tem a virtude de refrescar um som que, uma vez mais, se revelou incapaz de ultrapassar as limitações do costume: pobreza rítmica, leitura redutora da música tradicional, mas também ausência de um verdadeiro espírito de ruptura. Contudo, há momentos em “Quarto Crescente” a merecer alguma atenção, como “Ninguém é dono do mar”, o canto das ondas de “Canto do quarto crescente”, o introspectivo “Lágrima de lobo”, “Má sorte teres sido tu” (daqui poderia nascer um caminho seguramente mais interessante para a Quadrilha), uma “Aninhas” devedora dos Vai de Roda e uma “Valsa da bailarina” que cruza os Ad Ville Que Pourra com Jorge Palma. Ainda não é desta que os Quadrilha subirão à primeira divisão, mas a verdade é que dela já estiveram mais longe.



Artigo de Opinião: “O Futuro Sem Fantasmas” – Brigada Victor Jara, Gaiteiros De Lisboa, Realejo, Quadrilha

POP ROCK
3 de Janeiro de 1996

Especial Balanço 95 Da Música Portuguesa

O FUTURO SEM FANTASMAS


realejo

Uma colheita de ouro, a do ano que findou, de música portuguesa com as raízes mergulhadas na tradição, só comparável à da segunda metade dos anos setenta, com a digestão consumada da ressaca da revolução de Abril.
Três grupos recolheram os louros, assinando trabalhos discográficos notáveis que fizeram a música de raiz tradicional portuguesa avançar um passo de gigante: Brigada Victor Jara, Gaiteiros de Lisboa e Realejo, por ordem cronológica de edição dos respectivos discos, “Danças e Folias”, “Invasões Bárbaras” e “Sanfonia”. Num registo menor, os Quadrilha garantiram o apoio logístico aos generais, com o seu folk rock sem pretensões de maior, em “Até o Diabo se Ria”.
O que faz dos álbuns atrás mencionados obras que vão ficar na história é o facto de cada um deles apontar um caminho no sentido da renovação do legado tradicional. Nenhum está anquilosado no passado. Logo, nenhum deles sofre de artrite, reumatismo ou esclerose. Tal não significa, porém, que se possa passar ao lado, ou, por inépcia, massacrar a música tradicional, por natureza sensível aos maus tratos. Quem conhecer os músicos que compõem tanto a Brigada como os Gaiteiros, verificará que todos eles se submeteram ao longo de anos e anos a um processo de evolução e aprendizagem que se poderá considerar alquímico. Do trabalho de recolha dos primórdios às liberdades tomadas no presente, vai uma jornada longa e, amiúde, dolorosa. Recuperar e actualizar a tradição é perpetuar essa mesma tradição. Criar novas formas a partir do barro exige o conhecimento do barro e as suas técnicas de manipulação. A alma esconde-se na pedra. A luz habita no âmago das trevas. Picasso demorou uma vida até conseguir pintar como uma criança. Umas “uillean pipes” demoram anos até ganhar vida e voz próprias. Não é quem quer, mas quem sabe, quem tem o direito – e o dever – de arrancar a erva daninha e o “folclore”, enquanto deterioração enfeudada a um qualquer poder político, que fazem definhar a verdadeira música – os seus gestos, as suas melodias, as suas cadências, os seus rituais – das comunidades rurais ainda existentes. Não é quem quer, mas quem sabe, quem tem o direito – e o dever – de inventar novas vozes, sobrepondo-se às vozes que levam de vencida e se incrustam no tempo.
A Brigada evitou as rupturas bruscas, apostando no reformismo. Os festejos, sem convulsões, do seu 20º aniversário não poderiam ter sido melhores, não só pela edição de “Danças e Folias”, como pela reedição em compacto de “Eito Fora” e “Contraluz”, culminando num concerto memorável, em Dezembro, no São Luiz. Os Gaiteiros entraram a matar, com a voracidade de predadores. “Invasões Bárbaras” é uma aposta no excesso e na diferença que não deixa ninguém indiferente e volta a agitar as águas mornas de algum contentamento, representando para os anos 90 o que o GAC representou para os 70.
Deixámos para o fim os Realejo, projecto de Fernando Meireles, que partiram de outro lugar e de um outro modo de olhar. Se o objectivo primeiro foi recuperar a dignidade e o prestígio perdido em séculos passados, da sanfona, a verdade é que o som de “Sanfonia”, até pela ênfase colocada naquele instrumento, apresenta características que o aproximam de uma certa forma de “fazer tradicional” disseminada pela Europa, algures entre a música antiga e o folk progressivo das grandes bandas, sobretudo francesas, dos anos 70 (Malicorne, Mélusine, La Grand Rouge, La Bamboche, La Marienne, Maluzerne).
Entre as várias conclusões possíveis de extrair desta trindade que em 1995 ganhou um corpo novo e um novo alento para a música portuguesa, não só tradicional, uma há que se reveste de particular importância. A dessacralização de Michel Giacometti, acompanhada por uma visão mais lúcida e, sem dúvida, mais frutuosa do seu trabalho no campo das recolhas e catalogação dos espécimes étnicos. O seu espólio deixou de ser considerado um mito e, como tal, um dogma, passando a constituir um ponto de referência e de consulta, enquanto material de trabalho prático, à disposição de todos, na condição de não terem mãozinhas de chumbo.
Foi este, aliás, um dos principais tópicos do debate sobre música tradicional e de raiz tradicional portuguesa promovido pelo pop Rock no mês de Novembro, com a presença dos convidados Tentúgal, dos Vai de Roda, Carlos Guerreiro e José Manuel David, dos Gaiteiros de Lisboa, Amélia Muge e José Martins (Ó que Som Tem). “O futuro, já!”, título que escolhemos para ilustrar o referido debate, poderia ser, de resto, o lema de uma nova atitude perante a tradição, carregada em simultâneo de sabedoria, ousadia e espírito de inovação. Neste cenário de promessas cumpridas, acompanhado da separação do trigo do joio (1995 foi um mau ano para a “MPP – música popularucha portuguesa”, ou então não se deu por ela, o que vai dar no mesmo…), ficou ainda reservado um lugar de honra para um disco de recolhas onde é possível desfrutar o canto e a música genuínos da população rural de uma localidade de Trás-os –Montes, “Idanha-a-Nova, Toques e Cantares da Vila”, considerado pelo Pop Rock um dos melhores discos de música tradicional do ano, resultado da investigação de José Alberto Sardinha.
A última boa notícia é que o ano que agora se inicia, a confirmarem-se as expectativas, vai ser pelo menos tão bom como o anterior.



Quadrilha – “Até O Diabo Se Ria”

Pop Rock

5 de Julho de 1995
álbuns portugueses

Quadrilha
Até o Diabo se Ria

EDI. E DISTRI. POLYGRAM


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Os Quadrilha são uma banda de pop-folk sem grandes pretensões que nos últimos tempos tem andado um pouco à sombra dos Romanças, com quem aliás partilham o palco todos os fins-de-semana na Taverna dos Trovadores, em Sintra. À semelhança do anterior, embora a evolução seja evidente, há uma ligeireza no som e nos arranjos que impede de arrumar os Quadrilha ao lado de grupos com um trabalho em profundidade, como os Vai de Roda, Brigada Victor Jara ou até mesmo dos recentes Realejo.
A presença do sintetizador, não sendo por si só um defeito, acaba por pecar pela utilização que dele se faz, insistindo-se na tónica das cordas sintéticas, que confere à música uma irremediável som de “variedades”. Depois há vícios de base, numa certa concepção de como deve soar a música para parecer de “inspiração tradicional”. Depois há o terrível anátema da Irlanda, e nisto os Quadrilha morderam o isco. A mistura, forçada, das esmeraldas com o tintol é difícil dar bons resultados.
Há melodias engraçadas, arejadas, mas que soam sempre um bocado na senda dos Romanças. Se pensarmos que os Romanças não são eles próprios um grupo que possamos considerar “pesado”, o que dizer dos Quadrilha, senão que ainda não descobriram o seu centro de gravidade? (5)