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Procol Harum – A Whiter Shade Of Pale (conj.)

16.10.1998
Porco Doce
Saber conviver com o passado pode ser um exercício salutar. Ainda para mais quando algumas das fatias antigas do bolo pop surgem limpas e remoçadas por cuidadas remasterizações. Os anos 70 continuam a dar lições.

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Em 1967, o ano do “Verão do amor”, a pop descobriu o poder do sexo, das drogas e do sonho. Os Beatles, com “Sgt. Pepper’s”, não deixaram respirar mais ninguém do lado de cá do Atlântico. São Francisco e as bandas da “West Coast”. Grateful Dead, Jefferson Airplane, Quicksilver Messenger Service reinavam do outro. Em Inglaterra, os Procol Harum aparecem sem aviso com “A Whiter Shade Of Pale”, cujo “hit” com o mesmo nome era inspirado numa melodia de Bach. Aguentaram-se nos anos vindouros, experimentando novos sons em “Shine on Brightly”. Aqui variavam entre os “blues” levemente psicadélicos e as carícias do órgão Hammond de Gary Brooker, coloridos pela poesia de Terry Reid. Outros tmas a reter: “Conquistador”, “Something following me”, “Kaleidoscope” e “Salad Days (are ere again)”. Edição mono, em digipak, com quatro temas extra, incluindo o lado A do single “Homburg”. (Repertoire, import. Virgin, 7).

Mick Abrahams foi guitarrista dos Jethro Tull antes de abandonar este grupo para formar os Blodwin Pig, uma das bandas mais injustamente ignoradas da Música Progresiva. “Ahead Rings Out”, de 1969, estabelece uma aliança poderosa do “rhythm’n’blues” com o rock progressivo onde pontificavam o saxofone e os arranjos para sopros de Jack Lancaster (que também tocava flauta, trompa e violino eléctrico). Imagine-se uma variante possúída pelo delírio dos Chicago e dos Blood, Sweat & Tears, ou a fase “Bare Wires”, de John Mayall com os Bluesbreakers. Destaque para o instrumental “The Moderna Alchimist”, pelo arrojo do discurso jazzístico. O segundo e último álbum dos Blodwin Pig, “Getting to This”, de 1970, expande-se com a mesma força. Os arranjos tornam-se mais complexos mas a energia que irradiam não é menor que a do primeiro álbum. Além dos sopros de Jack Lancaster, sempre em proeminência, abundam os efeitos de estúdio, como nos oito minutos de “San Francisco sketches”. Mas a jóia da coroa é “See my way2, uma canção de “hard rock” que ilustra todo o espírito de uma época. (BGO, import. Megamúsica, 8 e 8).

Muito antes de se tornarem reis da sequenciação e embaixadores da música electrónica no mundo, graças ao bom acolhimento internacional de “Phaedra” e “Rubycon”, os Tangerine Dream eram uma das bandas que mais longe levara o experimentalismo da escola teutónica de Berlim. No seu álbum de estreia, “Electronic Meditation”, editado em 1970, estava longe o registo planante que viria a impor-se gradualmente a partir do álbum seguinte, “Alpha Centauri”, e se consolidaria nos seguintes, “Zeit” e “Atem”. Em “Electronica Meditation” vingavam a estética de colisão num “free-rock” cósmico determinado pela guitarra psicadélica (que Julian Cope considera ter ido mais longe que qualquer das “acid jams” das bandas californianas da época) de Edgar Froese e pela batida angular de Klaus Schulze. A tecla espacial era conferida pelo órgão electrónico de Conrad Schnitzler, a contrastar com o industrialismo sufocante que punha em prática nos Kluster, ao lado de Dieter Moebius e Joachim Roedelius. De “Journey through a burning brain” a “Cold smoke”, “Electronic Meditation” é a trip de um cérebro em combustão que dá a conhecer as entranhas antidiluvianas do “Kosmische rock”. (Castle Communications, import. Lojas Valentim de Carvalho, 8).

De saída da folk estavam os Strawbs, depois de Sandy Denny (que participara em “All our Own Work, de 1967) trocar o grupo pelos Fairport Convention e com a entrada, no álbum anterior, ao vivo, “Just a Collection of Antiques & Curios”, de Rick Wakeman, nos teclados. Forjados no mesmo molde dos Fairport, Steeleye Span e Pentagle, os Strawbs sofriam, porém, de uma certa indefinição e de uma queda para o sinfonismo que descaracterizaram a sua música a partir de “Hero & Heroine”. Mas em “From the Witchwood”, de 1971, o grupo encontrava-se no auge, reunindo uma colecção de selos ilustrados que encaixavam às mil maravilhas no “vibrato” e teatralidade inatas de David Cousins, uma voz em muitos aspectos semelhante à de Peter Gabriel. Podemos, de resto, tomar os Genesis como exemplo das projecções fantasmáticas que emanavam da caixa-de-música de “From the Witchwood”, recordando peças como “Harlequin” e “For absent friends”, do álbum “Nursery Crime”. Junte-se a esses recortes de gravuras antigas o imaginário e as lendas folk, a par do virtuosismo, aqui plenamente dominado, de Wakeman. “From the Witchwood” é uma galeria de vitrais atravessados pela luz de um duende. “Bursting at the Seams”, de 1973, editado a seguir a “Grave New World”, já com Blue Weaver (ex-Amen Corner) no lugar de Rick Wakeman, resvala para o tipo de canções que ficam facilmente nos ouvidos, sendo considerado o primeiro disco “rock” dos Strawbs, que nesta altura eram já presença regular nas “charts” inglesas. O melhor exemplo é “Lay Down”, cuja edição em single se tornou num enorme sucesso. O tema, que recorre a citações bíblicas, nasceu na estrada, da ingestão de cogumelos alucinogéneos que alguém atirara para dentro de uma lata de sopa. “From the Witchwood” e “Bursting the Seams” (com três temas extras) surgem pela primeira vez remasterizados, notando-se uma notável melhoria de som em relação às edições japonesas anteriormente disponíveis no mercado. (A&M, import. Lojas Valentim de Carvalho, 9 e 7).

“Berlin” é a obra-prima de Lou Reed que, também aqui pela primeira vez, aparece remasterizada e com uma capa decente, que inclui fabulosas fotografias da mesma série da capa. Disco que antecipa o fim de um mundo, celebrando as suas exéquias com o esplendor de um ritual, começa com um brinde e acaba em tragédia, no palco de Berlim, “by the wall”, símbolo de uma fronteira que o ex-Velvet Underground procurava nessa altura ultrapassar, montado na heroína. “Lady day”, “Man of good fortune”, “Caroline says”, “The kids”, são as canções de um amor sem esperança emborcado com sofreguidão. Nesse cabaré da morte que se extingue são apagadas as mesmas velas. “The bed”: “This is the place where she lay her head / and this is the place our children was conceived / candles in the room brightly at night / And this is the place where she cut her wrists / that odd and fateful night”. Em surdina e devagar, sangrando por uma guitarra acústica, em busca de lenitivo através de uma orquestração que acena de longe e cresce até tornar a dor insuportável. Tudo termina com uma “Sad Song”, que é um hino e um exorcismo. Fica a imagem de um retrato. “I Thought she was Mary, queen of the scotts…”. (RCA, import. Virgin, 10)

“The Wind Rises” (título inglês que substitui o húngaro, na versão original, em vinilo, de 1987, pela Hungaroton), diário electrónico de memórias do compositor húngaro István Mártha, insere-se numa área difusa da música contemporânea que mistura a colagem acusmática (manipulação de gravações de sons naturais), o ambientalismo e desmontagens étnicas, onde cabem nomes como Steeve Moore, Jocelyn Robert, Philip Perkins, Charles W. Vrtacek ou o seu compatrirota Boris Kovac. Religiosidade e experimentalismo unem-se neste salão privado onde, entre outros, entram a cantora Márta Sebestyen e o grupo de percussões Amadinda. (Recommended, distri. Ananana, 8).

Dinossauros excelentíssimos, os Deep Purple insistem em mostrar que no seu Parque Jurássico a vida está longe de poder ser considerada extinta. “30: Very Best of” embrulha de novo, a propósito dos 30 anos de carreira do grupo, um punhado de êxitos da fase mais criativa deste grupo que as gerações actuais do “heavy metal” veneram como heróis, dos álbuns “Fireball”, “Deep Purple in Rock” e “Machine Head”. A estes juntaram-se canções da fase anterior e mais psicadélica (“The Book of Taliesyn”) e temas dos posteriores “Burn”, “Stormbringer”, “Perfect Strangers”, “The Battle Rages On” e do mais recente “Abandon”, a par de remisturas, como a de “Highway star”, um clássico do “speed metal”. (EMI, distri. EMI-VC, 7)

Com “The OMD Singles”, os Orchestral Manoeuvres In The Dark, sobreviventes dos anos 80, do lado mais pop e comercial da “cold wave”, assinam o ponto com uma colectânea dos seus singles de maior sucesso, como “Electricity”, “Enola Gay”, “Souvenir” ou “Joan of Arc”, que repete, praticamente, o alinhamento do anterior “Best of” da banda. Excessos de reciclagem… (Virgin, distri. EMI-VC, 5).

Procol Harum – A Salty Dog (conj.)

17.03.2000
Reedições
Visões de Mescalina
Bernard Parmegiani é um dos mais importantes compositores de música electro-acústica franceses, da geração de nomes que se acolheu sob a égide do GRM (Groupe de Receherches Musicales) criado em 1958 por Pierre Schaeffer, como François Bayle, Michel Chion e Michel Redolfi. “Pop’Eclectic” é uma colagem de gravações de linguagens musicais díspares, como a pop, o jazz ou a ópera, integradas por Parmegiani em vinhetas de largo espectro sonoro e ideológico, aumentadas e alteradas através de processamentos electrónicos. Dois destes quatro temas, gravados entre 1966 e 1973, contam com a participação de Michel Portal e Bernard Vitet, um dos actuais elementos dos Un Drame Musical Instantané. Anos antes dos Residents, em “The Third Reich ‘n’ Roll”, e dos Nurse With Wound, em “The Sylvie and Babs High-Tigh Companion”, criarem os seus próprios Frankensteins, Bernard Parmegianni fazia esta declaração definitiva sobre a música enquanto fenómeno de autofagia, alterando e devorando contextos para, a partir de órgãos soltos, criar novos organismos autónomos. “Pop’Eclectic” é uma destas criaturas, que, passados 30 anos, mantém intactas todas as suas funções. Depois das recuperações recentes de Oskar Sala, Tom Recchion e Arne Nordheim, a presente reedição vem uma vez mais alertar para a importância e o pioneirismo de compositores como Bernard Parmegiani em correntes estéticas como o krautrock, o pós-rock ou a electrónica francesa dos anos 70. (Plate Lunch, distri. Matéria Prima, 9/10)

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Os Procol Harum tiveram no final dos anos 60 o seu momento de glória, inundando os tops britânicos com o romantismo protogótico de “A whiter shade of pale” e “A Salty Dog”, repetindo o êxito, em larga escala, na década seguinte, com o álbum “Grand Hotel”. “Shine on Brightly” (na foto) e “A Salty Dog” respectivamente segundo e terceiro álbum da sua discografia, ambos lançados em 1968 e agora reeditados em luxuosos digipaks, são representativos da melhor fase do grupo, numa época em que a combinação entre a música de Gary Brooker (o organista que parecia tocar como se estivesse numa missa…) e os textos de Keith Reid deu origem a grandes canções. “Shine on Brightly” é o álbum mais experimental e progressivo dos Procol Harum. As canções espalham-se em várias direcções e, em comparação com o álbum de estreia, “Procol Harum”, tiram maior partido das possibilidades oferecidas pelo estúdio, mantendo-se o dramatismo das vocalizações e o ecletismo. O estilo clássico aflora em “Rambling on” e “Magdalene (my regal zanophone)”, uma das canções mais belas e tristes de “Shine on Brightly”. Mas é o longo tema (mais de 17 minutos) “In held twas in I” que volta o velho mundo dos Procol Harum de pernas para o ar. Um tema progressivo/psicadélico (o verde da capa poderia ser a cor das alucinações de mescalina…) que junta declamações ao estilo dos Moody Blues, ambientes clássicos tocados numa veia soturna, partes instrumentais incongruentes, divagações religiosas, libações de cabaré, sons de trovoada, sinos e sirenes (muitos anos antes de os Pink Floyd fazerem descer helicópteros nos discos…), e bocados de canções que escorriam do cavalo que Lucy cavalgava no céu com diamantes.
“A Salty Dog” impõe o estilo classizante de tons sombrios que caracterizaria daí para a frente a música do grupo. Além do já citado título-tema (que chegou a servir de matéria para uma tese de doutoramento que nele encontra 17 significados diferentes…) encontram-se neste álbum um punhado de excelentes canções, como “The milk of human kindness” (a fazer lembrar os Gracious, aliás como algumas sequências de “In held twas in I”), “Too much between us”, “The devil come from Kansas” e “All this and more”, num álbum onde os blues ainda estavam presentes mas em que o grupo usava pela primeira vez uma orquestra, opção que viria a ser explorada a fundo no álbum ao vivo de 1973, “Live in Edmonton”. (Repertoire, import. Lojas Valentim de Carvalho, 8/10 e 7/10).

Os The Move foram uma notável e, por vezes, bizarra banda pop dos anos 60, criadores de clássicos como “Flowers in the rain”, “Blackberry way” e “Brontossaurus”. Roy Wood era o seu hirsuto mentor, a ele se devendo a incorporação de instrumentos como o clarinete, o oboé e o fagote no meio de uma inofensiva canção pop. Quando os Move evoluíram para os Electric Light Orchestra (ELO) e, a seguir, formou os Wizzard, já Roy Wood arrastava atrás de si uma quantidade inacreditável de outros instrumentos. “Message from the Country” foi gravod em 1072, por imposição da editora, numa altura em que já todos pensavam nos ELO. Apesar de não ter a frescura dos dois primeiros álbuns, “The Move” e “Shazam”, “Message from the Country” contém alguns momentos especiais como “No Time” (ao nível e na mesma linha da pop insinuante dos The Kinks), “It wasn’t my idea to dance” (neste caso as semelhanças são com os Sparks), “The Minister” (com um solo de oboé arabizante) e “The words of Aaron” (o tema mais próximo dos clássicos “Flowers in the rain” e “Blackberry way”), acentuando-se a faceta camaleónica do grupo em paródias aos estilos vocais de Elvis presley (“Don’t mess me up”) e Johnny Cash (“Bem crawley steel company”). Para os ELO, estava reservado o caminho dos milhões. (BGO, distri. Megamúsica, 7/10).

Michael McGear não era nenhum camaleão nem um imitador, mas simplesmente o irmão mais novo de Paul McCartney. Fez parte de duas bandas para levar a brincar, os Scaffold (de “Lily the pink”, um “hit” absurdo de 1969) e os Grimms, e gravou a solo dois álbuns, “Woman” (1972) e “mcGear” (1974). Há quem diga que não ficava atrás do irmão em matéria de talento. “Woman” dá razão aos que pensam assim. McGear aliava ao talento de melodista do irmão o gosto pela excentricidade, o que, em “Woman”, resulta num leque de canções que seria de toda a justiça retirar do anonimato. Onze canções que são outras tantas pérolas de delicadeza, humor e sensibilidade, numa espécie de apêndice do “álbum branco” dos Beatles que também pode ser definido como um parente rock de outro ilustre McCartniano, Gerry Rafferty. Entre os músicos participantes em “Woman”, encontram-se Zoot Money, Gerry Conway (Fairport Convention, Fotheringay) e Brian Auger. (Edsel, import. Virgin, 7/10).

Procol Harum – Shine On Brightly (conj.)

17.03.2000
Reedições
Visões de Mescalina
Bernard Parmegiani é um dos mais importantes compositores de música electro-acústica franceses, da geração de nomes que se acolheu sob a égide do GRM (Groupe de Receherches Musicales) criado em 1958 por Pierre Schaeffer, como François Bayle, Michel Chion e Michel Redolfi. “Pop’Eclectic” é uma colagem de gravações de linguagens musicais díspares, como a pop, o jazz ou a ópera, integradas por Parmegiani em vinhetas de largo espectro sonoro e ideológico, aumentadas e alteradas através de processamentos electrónicos. Dois destes quatro temas, gravados entre 1966 e 1973, contam com a participação de Michel Portal e Bernard Vitet, um dos actuais elementos dos Un Drame Musical Instantané. Anos antes dos Residents, em “The Third Reich ‘n’ Roll”, e dos Nurse With Wound, em “The Sylvie and Babs High-Tigh Companion”, criarem os seus próprios Frankensteins, Bernard Parmegianni fazia esta declaração definitiva sobre a música enquanto fenómeno de autofagia, alterando e devorando contextos para, a partir de órgãos soltos, criar novos organismos autónomos. “Pop’Eclectic” é uma destas criaturas, que, passados 30 anos, mantém intactas todas as suas funções. Depois das recuperações recentes de Oskar Sala, Tom Recchion e Arne Nordheim, a presente reedição vem uma vez mais alertar para a importância e o pioneirismo de compositores como Bernard Parmegiani em correntes estéticas como o krautrock, o pós-rock ou a electrónica francesa dos anos 70. (Plate Lunch, distri. Matéria Prima, 9/10)

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Os Procol Harum tiveram no final dos anos 60 o seu momento de glória, inundando os tops britânicos com o romantismo protogótico de “A whiter shade of pale” e “A Salty Dog”, repetindo o êxito, em larga escala, na década seguinte, com o álbum “Grand Hotel”. “Shine on Brightly” (na foto) e “A Salty Dog” respectivamente segundo e terceiro álbum da sua discografia, ambos lançados em 1968 e agora reeditados em luxuosos digipaks, são representativos da melhor fase do grupo, numa época em que a combinação entre a música de Gary Brooker (o organista que parecia tocar como se estivesse numa missa…) e os textos de Keith Reid deu origem a grandes canções. “Shine on Brightly” é o álbum mais experimental e progressivo dos Procol Harum. As canções espalham-se em várias direcções e, em comparação com o álbum de estreia, “Procol Harum”, tiram maior partido das possibilidades oferecidas pelo estúdio, mantendo-se o dramatismo das vocalizações e o ecletismo. O estilo clássico aflora em “Rambling on” e “Magdalene (my regal zanophone)”, uma das canções mais belas e tristes de “Shine on Brightly”. Mas é o longo tema (mais de 17 minutos) “In held twas in I” que volta o velho mundo dos Procol Harum de pernas para o ar. Um tema progressivo/psicadélico (o verde da capa poderia ser a cor das alucinações de mescalina…) que junta declamações ao estilo dos Moody Blues, ambientes clássicos tocados numa veia soturna, partes instrumentais incongruentes, divagações religiosas, libações de cabaré, sons de trovoada, sinos e sirenes (muitos anos antes de os Pink Floyd fazerem descer helicópteros nos discos…), e bocados de canções que escorriam do cavalo que Lucy cavalgava no céu com diamantes.
“A Salty Dog” impõe o estilo classizante de tons sombrios que caracterizaria daí para a frente a música do grupo. Além do já citado título-tema (que chegou a servir de matéria para uma tese de doutoramento que nele encontra 17 significados diferentes…) encontram-se neste álbum um punhado de excelentes canções, como “The milk of human kindness” (a fazer lembrar os Gracious, aliás como algumas sequências de “In held twas in I”), “Too much between us”, “The devil come from Kansas” e “All this and more”, num álbum onde os blues ainda estavam presentes mas em que o grupo usava pela primeira vez uma orquestra, opção que viria a ser explorada a fundo no álbum ao vivo de 1973, “Live in Edmonton”. (Repertoire, import. Lojas Valentim de Carvalho, 8/10 e 7/10).

Os The Move foram uma notável e, por vezes, bizarra banda pop dos anos 60, criadores de clássicos como “Flowers in the rain”, “Blackberry way” e “Brontossaurus”. Roy Wood era o seu hirsuto mentor, a ele se devendo a incorporação de instrumentos como o clarinete, o oboé e o fagote no meio de uma inofensiva canção pop. Quando os Move evoluíram para os Electric Light Orchestra (ELO) e, a seguir, formou os Wizzard, já Roy Wood arrastava atrás de si uma quantidade inacreditável de outros instrumentos. “Message from the Country” foi gravod em 1072, por imposição da editora, numa altura em que já todos pensavam nos ELO. Apesar de não ter a frescura dos dois primeiros álbuns, “The Move” e “Shazam”, “Message from the Country” contém alguns momentos especiais como “No Time” (ao nível e na mesma linha da pop insinuante dos The Kinks), “It wasn’t my idea to dance” (neste caso as semelhanças são com os Sparks), “The Minister” (com um solo de oboé arabizante) e “The words of Aaron” (o tema mais próximo dos clássicos “Flowers in the rain” e “Blackberry way”), acentuando-se a faceta camaleónica do grupo em paródias aos estilos vocais de Elvis presley (“Don’t mess me up”) e Johnny Cash (“Bem crawley steel company”). Para os ELO, estava reservado o caminho dos milhões. (BGO, distri. Megamúsica, 7/10).

Michael McGear não era nenhum camaleão nem um imitador, mas simplesmente o irmão mais novo de Paul McCartney. Fez parte de duas bandas para levar a brincar, os Scaffold (de “Lily the pink”, um “hit” absurdo de 1969) e os Grimms, e gravou a solo dois álbuns, “Woman” (1972) e “mcGear” (1974). Há quem diga que não ficava atrás do irmão em matéria de talento. “Woman” dá razão aos que pensam assim. McGear aliava ao talento de melodista do irmão o gosto pela excentricidade, o que, em “Woman”, resulta num leque de canções que seria de toda a justiça retirar do anonimato. Onze canções que são outras tantas pérolas de delicadeza, humor e sensibilidade, numa espécie de apêndice do “álbum branco” dos Beatles que também pode ser definido como um parente rock de outro ilustre McCartniano, Gerry Rafferty. Entre os músicos participantes em “Woman”, encontram-se Zoot Money, Gerry Conway (Fairport Convention, Fotheringay) e Brian Auger. (Edsel, import. Virgin, 7/10).