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Vários – Portugal de Luxe

04.07.1997
Vários
Portugal de Luxe (7)
Norte Sul, distri. Lojas Valentim de Carvalho

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Não faz muito sentido bater no ceguinho. Além de ser cruel, revela falta de sentido de humor. “Portugal de Luxe” foi feito para se ouvir com a distanciação do esteta e uma veneração idêntica ao do cinéfilo que se delicia a ver “O Ataque dos Tomatos Assassinos”. É um “close up” sobre uma época de inocência. Uma inocência imposta por um regime político, onde se percebem os sinais do isolamento e o encanto de um desamparo. Voltar a ouvir, ou ouvir pela primeira vez, esse hino às coisas pueris que é “Óculos de sol”, espécie de tradição lusitana da ambiguidade emocional da bossa-nova, ou as orquestrações de música de levador do Thilo’s Combo, tem o efeito de uma operação de despoluição, tanto quanto o de um jogo em que a inteligência se deixa masoquisticamente apanhar.
“Portugal de Luxe”, é claro, pode servir de motivo de chacota, mas isso seria o mesmo que gargalhar com os primeiros filmes a preto e branco ou afirmar que as calças em boca de sino são ridículas. Se repararmos bem, a sociedade actual é ridícula em quase todos os seus aspectos. Num mundo de aparências, onde os absurdos e o culto das formas se sucedem, não deixa de ser sintomático que a ausência total de disfarces possa chocar. O cérebro cai nesta armadilhas. Como quando fica preso num daqueles desenhos onde se podem ver, alternadamente, duas formas distintas. Trata-se de saber gozar com essa perturbante indefinição.