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Portishead – Portishead

03.10.1997
Psicocabaré
Portishead
Portishead (8)
Go! Beat, distri. Polygram

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Façam favor de deitar fora os Smoke City e a sua visão turística de tintas Robbialac de um mundo sem fronteiras. Cerrem os dentes e fileiras. O verdadeiro “safari” pelas crostas mentais e mais cinematográficas do trip hop continua a ser comandado pelos Portishead ou, para darmos o seu a seu dono, pelas estratégias de reconversão de Geoff Barrow e a voz de diva virtual de Beth Gibbons, coadjuvados pelos dotes de composição do terceiro elemento, Adrian Utley.
A nova película, a preto e branco, dos Portishead é um “thriller” bastante mais assustador do que o sedativo prescrito pela banda em “Dummy”. Onze temas de duração curta e de extraordinária densidade sonora que a cada momento investem na desconstrução e procura de novas coordenadas para a jádemasiado tipificada componente rítmica associada ao trip hop. Mais do que nunca, Barrow recorre a um trabalho exaustivo de samplagem dos sons que percorrem o seu imaginário, de fragmentos sinfónicos e ambientais, a música de filmes dos anos 60 e excertos de “fake jazz”. Mas o que distingue verdadeiramente este processo das vulgares apropriações de James Brown e de todo o arsenal soul dos anos 60 disponível para este tipo de “roubo” é o modo como o grupo personaliza estes materiais.
Na verdade, a maior parte das samplagens de “Portishead” deriva de um processo de autofagia, em que o grupo toca e grava primeiro em tempo real para um suporte em vinilo, usando depois as gravações para processamento, seja ele de sequenciação, decalque ou simplesmente de “scratch”. O resultado é um universo globular e esfrangalhado, de canções residuais amparadas pelas vocalizações – entre um “western” de Salem, a balada jazz clássica em processo de decomposição, um carnaval macabro de New Orleans, a soul petrificada e o cabaré de almas penadas – de Beth Gibbons, também elas saturadas por camadas sucessivas de filtragem, raspagem e polimento.
Não admira que no meio desta respiração pesada e do ambiente de claustrofobia os Portishead desenhem, mesmo que esta seja ainda uma derradeira ilusão, janelas abertas para o ar livre e para o silêncio, como acontece em “Humming”, onde um “Theremin” sideral faz vibrar o ar, precisamente, num “requiem” electrónico pela morte das “boas vibrações”.