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Pole – “Pole 2”

Sons

12 de Fevereiro 1999
DISCOS – POP ROCK


Pole
Pole 2 (7)
Kiff, distri. Megamúsica



pole2

O primeiro álbum dos alemães Polé (não confundir com os proto-industriais franceses dos anos 70, Pôle) era um bocado irritante. A ideia de construir um disco inteiro à base de sons de sintetizadores ultra-amplificados e ruídos de estática (daqueles capazes de estragar a audição de um álbum em vinilo) era original, mas acabava por resultar em massacre para o sistema nervoso. “Pole 2”, impecavelmente embalado num digipak todo em vermelho tinto, na melhor tradição do pós-rock, soa bastante melhor. Não que o grupo desistisse de nos espetar alfinetes no cérebro – os sintetizadores continuam a parecer entupidos com interferências; só que neste seu novo trabalho tudo soa mais limpo e recostado em parâmetros menos radicais. São seis temas impenetráveis, sem margens fixas, onde a electrónica se reduz à emissão de sinais sem destinatário, numa sucessão de ciclos onde não se descortina o mínimo resquício de humanidade. Algumas ressonâncias perdidas de “chill-out” (por vezes aflorando os ambientalismos dos Biosphere), perfurações rítmicas em placas digitais, a constante intromissão de programações residuais sugerem a actividade de insectos ligados a um gerador eléctrico. Umas vezes próximos dos Tone Rec, outras de Pete Namlook em dias de azia, outras ainda evidenciando a mesma actividade de circuitos doentes dos Oval ou dos Microstoria, a música dos Pole provoca a angústia de uma sala de espera de um dentista. Com sabor a gengivas queimadas.



Pole – Pole 3

30.06.2000
Pole
Pole 3 (6/10)
Kiff, distri. Megamúsica

pole3

Pole 1 – 2 – 3
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LINK (parte 3)
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Sempre que ouço a música dos Pole, alter-ego de Stefan Betke, que recentemente actuou no Museu Serralves, no Porto, imagino os sons amplificados de uns intestinos em plena actividade digestiva, captados através de um microfone ligado a um estetoscópio. O “click-dub” dos Pole é esse aglomerado em constante mutação de estalidos, zumbidos, pancadas e raspagens electrónicas, música de dança para vísceras atiradas para uma centrifugadora. Depois de um primeiro volume azul carregado de estática e de um segundo volume vermelho que escorria sangue sintético, o terceiro volume dos Pole é todo em amarelo-bílis, como uma glândula desenvolvida em laboratório. Com uma dose reforçada de imaginação e o corpo já suficientemente massacrado por um número excessivo de exposições a esta música pouco recomendável para pessoas saudáveis, é mesmo possível descortinar em “Pole 3” algo parecido com “Groove”. Temas como “Karussell” (ter-se-ia Stefan Betke lembrado dos Cluster?), “Uberfahrt” ou “Rondell Zwei” (teria Stefan Betke estado a ouvir Bob Marley enquanto fumava um charro de quilo?) conseguiriam talvez fazer levantar um cadáver numa sessão techno na morgue. Há com certeza movimento nesta música criada nas entranhas do computador, se está viva ou não, essa já é outra questão. Algo mexerá ainda depois de extintas todas as funções vitais, provavelmente, como no banquete de carne morta enlouquecida de “Braindead”, as tais vísceras, réplicas horríveis do corpo principal. Gestos reflexos de órgãos mortos, postos em actividade por choques eléctricos.