Arquivo de etiquetas: Peter Gabriel

Peter Gabriel – “Peter Gabriel” + “Peter Gabriel 2” + “Peter Gabriel 3” + “Peter Gabriel 4” + “So” + “Passion” + “Us” (dossier)

Pop Rock >> Quarta-Feira, 23.09.1992


PERDER O MEDO AOS MONSTROS



Em Peter Gabriel tudo se mistura num cadinho em constante ebulição: os sons que aprendeu a escutar do mundo, a tecnologia sofisticada, as suas próprias emoções. Entre os temas tratados em “Us”, o seu mais recente álbum, editado em Portugal, contam-se o medo, as virtudes do vapor e a domesticação de monstros. Mais uma gama razoável de relações amorosas. Enquanto não nasce a “Gabrieland”, uma Disneylândia futurista para os artistas brincarem. O mundo real funde-se com a realidade virtual.



Há uma inquietação constante em Peter Gabriel, que determina cada um dos seus passos e serve de motor a cada novo projecto. Antigamente, chamavam a este tipo de homens “idealistas” – os que procuravam ver a realidade através do maior número possível de perspectivas e que acreditavam que qualquer sonho podia e devia ser posto em prática. Peter Gabriel é um destes homens. Desde os tempos em que, nos Genesis, procurou alargar as fronteiras do rock, até a mistura pancultural do seu novo álbum, “Us”, passando pela criação da editora Real World e pela organização do primeiro festival WOMAD, acreditou sempre que poderia ir mais longe, e que era possível transformar o sonho em realidade.
Durante os últimos cinco anos, Peter Gabriel submeteu-se ao crivo da terapia psicológica. Por culpa de um divórcio e das confusões sentimentais arranjadas com a actriz Rosanna Arquette. A terapia é uma espécie de escavação nos terrenos baldios da alma, que permite encontrar, presos à terra, jóias e esterco. Peter Gabriel escavou até libertar o monstro que hiberna em todos nós. Numa das faixas de “Us”, intitulada, “Digging the Dirt”, ele explica todo o processo e, ao mesmo tempo, sossega-nos quanto às consequências. Os monstros ou demónios, diz ele, perdem o seu poder, quando são trazidos das profundezas para a luz do dia.
O vídeo deste tema, realizado por John Downer, parece, no entanto, não confirmar esta opinião, e mostra o paciente num estranho desempenho, entre fruta podre, cadáveres em decomposição e larvas de borboleta. De resto, Peter Gabriel passara por um período mais desequilibrado, no qual manifestara a intenção de compor um álbum sobre temas como a morte, o assassínio e a pena capital.
Acabou por inflectir na direcção oposta e assinar um disco, “Us”, que ele define como de “canções de amor”. Estranhas formas de amor e estranhas canções. A união de sangue entre Adão e Eva no paraíso (“Blood of Eden”); a influência do vapor (“Steam, definida pelo seu autor como uma canção “quente e húmida”); o desejo de purificação pela água (“Washing of the water”); princesas que beijam sapos na esperança de encontrarem príncipes mais ou menos encantados (2Kiss that frog”); o mundo secreto dos objectos (“Secret world”), entre outras experiências religiosas, sexuais e emocionais, integram a lista de temas que tornam “Us” uma amálgama, por vezes confusa, de estímulos provenientes do mundo real (por vezes, demasiado real).
O som é fruto da ressaca – ainda não curada – dos excessos de “world music” cometidos em “Passion”, ou seja, instrumentos étnicos às centenas, convidados às dezenas, muitos ritmos electrónicos como condimento, e canções que reatam a tradição dos álbuns antigos de Peter Gabriel até “So”. Daniel Lanois, o produtor, porque suportou sobre os ombros a tarefa de evitar excessos em que o cantor tenderia por vezes a incorrer, mas francamente, não se nota.
Enquanto “Us” já iguala iu ultrapassa o número de vendas de “So” – e muito ajudaram a saldar dívidas contraídas com a organização do primeiro WOMAD, uma ideia pioneira que, na época, não encontrou grande aceitação – Peter Gabriel vai sonhando com a companhia de Laurie Anderson e Brian Eno, com a Gabrieland. Uma espécie de Disneylândia tecnológica de futuro, laboratório, igualmente galeria de arte e campo de ensaios – onde não faltariam máquinas indutoras de realidade virtual, o mais recente fascínio de Gabriel, para artistas, psicólogos e toda a espécie de “loucos” poderem concretizar as suas ideias ou simplesmente se divertirem. O local já existe: 12 hectares de terrenos em Barcelona esperam a chegada do novo mundo. Seja real ou virtual.

PORTAS E JANELAS

Pode dividir-se a discografia completa de Peter Gabriel em três fases: a primeira, partilhada com os restantes elementos dos Genesis, constitui um dos capítulos mais brilhantes da música progressiva dos anos 70. É a fase da valorização poética, do sonho e das grandes encenações, vocais e teatrais. A segunda, que vai do disco homónimo de 1977 até “So”, corresponde à visão solitária de um poeta que trocou, como fonte de inspiração, as fantasmagorias vitorianas pelo pesadelo urbano. Uma fase de dilaceração e, em simultâneo, de construção de uma personalidade nova. A terceira, com preâmbulo nos festivais WOMAD e na criação da editora Real World, mostra um Peter Gabriel liberto de si próprio e com o coração, os olhos e os ouvidos voltados para as músicas do mundo. Começou com “Passion” e encontrou um ponto de equilíbrio precário no novo “us”. Resta saber se tudo permanece em aberto ou se, pelo contrário, Peter Gabriel foi dar a um beco enfeitado de exotismos. Ele que um dia afirmou ser perito em abrir portas e janelas.


Peter Gabriel (1977)



Os Genesis tinham ficado para trás, mas as feridas não estavam totalmente saradas. “The Lamb Lies down on Broadway”, derradeira obra do quinteto, saíra na quase totalidade da pena do seu actor / vocalista. Era chegado o tempo de afirmação de uma personalidade… também de mudança para outras latitudes. O primeiro trabalho a solo marca a ruptura de Peter Gabriel com a viagem de contador de fábulas que os discos da banda punham em relevo. À poesia de canções como “Solsbury Hill” , “Humdrum” e “Down the dolce vita”, ainda não totalmente afastadas do veio Genesis, Gabriel contrapõe a violência ainda bastante controlada e sobretudo temática, de “Modern Love” e “Waiting for the big one”. “Moribund the Burguermeister” prenuncia, à distância de mais de uma década, o mergulho nas sonoridades world. “Here comes flood” é um hino apocalíptico que até hoje continua a queimar a memória. A guitarra de Robert Fripp ateia os primeiros incêndios.

Peter Gabriel 2 (1978)



O som torna-se mais agressivo. A magia do mundo de histórias e da Inglaterra vitoriana apaga-se em definitivo. Ficam as sombras e as ameaças. Peter Gabriel aprende cada vez mais depressa a tirar partido da paranoia. As capas dos discos acompanham o processo que em breve se mostraria ser de desagregação. Na do primeiro, o cantor parece fechado no interior de um automóvel, ao abrigo da chuva (do dilúvio). A imagem é de tristeza e abandono. Agora passa a ser de fúria. As mãos “rasgam”, do interior, a fotografia. O ar é demoníaco. Na contracapa, Peter Gabriel atravessa uma paisagem de lixo urbano. Tudo a preto e branco, como convém. “Mother of violence” e “Animal Magic” dão expressão a esse fogo. A essa quase luta pela sobrevivência. “Exposure”, recuperado posteriormente para o álbum do mesmo nome de Robert Fripp, e “White Shadow”, o tema mais perturbante, em que se torna nítida a influência das concepções musicais do antigo guitarrista dos King Crimson, balizam o caminho que viria a ser percorrido no álbum seguinte.

Peter Gabriel 3 (1980)



Até à data, o disco onde melhor se expressam as diversas divagações estéticas exploradas pelo ex-Genesis. Passando incólume pela avalancha punk, Peter Gabriel afirma orgulhosamente que sabe “qualquer coisa sobre abrir portas e janeasl”. “No self control”, “I don’t remember”, “And through the wire”, “Family snapsot” confirmam na verdade as suas reais capacidades de serralheiro. O som torna-se mais complexo, a par da violência, sempre crescente, e da teia intricada de sentidos sugerida pelos textos. Aproxima-se o ponto de combustão. E do não retorno. As preocupações sociais, que nos Genesis se ocultavam por detrás do humor “nonsense” e da simbologia surrealista, como acontecia em “Harold the barrel” (de “Nursery Cryme”) ou, de forma mais directa e interveniente, em “Get ‘em out by Friday” (“Foxtrot”), são atiradas para a primeira linha das inquietações do autor, na paródia ao eurovazio de “Games without frontiers” ou no manifesto anti-“apartheid”, “Biko”. O poder do batuque aumenta a intensidade – Gabriel dispensa a utilização de outros instrumentos de percussão para além dos tambores que aqui rivalizam com os prodígios do recém-descoberto Fairlight CMI, pai de todos os samplers. A capa apresenta o rosto do artista corrído e deformado por ácidos. O processo alquímico passava pela fase do “putrefacto”.

Peter Gabriel 4 (1982)



Regresso a casa, por ínvios caminhos. Não parece, mas é o álbum mais próximo dos Genesis, da primeira fase, evidentemente. Música progressiva, camuflada por uma utilização maciça de electrónica, em registo barroco e sobrexposição de imagens. Capa colorida por filtros e efeitos vídeo. Dentes que rangem. Dor. Poderia ser a continuação da “trip” de ácido de “The Lamb Lies down on Broadway”. “The family and the fishing net”, “Lay your hands on me” e, sobretudo, “Wallflower” não destoariam ao lado das boas canções dos Genesis. “I have the touch” e “Shock the monkey” usam e abusam dos ritmos electrónicos. “Rhythm of the heat”, “San Jacinto” e “Kiss of life” dos ritmos tribais. Faltava apenas ultrapassar a barreira do rock e do sucesso – o que Peter Gabriel conseguiu, no álbum seguinte – para se abrir de par em par a porta de acesso aos mundos do “mundo real”.

So (1986)



Entre os dois álbuns de estúdio, Peter Gabriel deixou registado o duplo “Plays live”, em cuja capa curiosamente aparece fotografado com o rosto pintado, ao estilo característico das antigas encenações nos Genesis. “So” é conciso, no título e nos sons. Mais directo e acessível do que qualquer dos discos anteriores, recupera a energia depurada do rock ‘n’ rol. “So” representa para Peter Gabriel o mesmo que “Nadir’s Big Chance” para Peter Hammill – a libertação e o exorcismo da tensão acumulada ao longo de vários anos de busca constante de novas formas musicais, a par de novos meios de expressão, poética e conceptual. O descanso do guerreiro. O disco alcança um sucesso sem precedentes. Nos Estados Unidos atinge o primeiro lugar do “top” de vendas, no Reino Unido sobe ao número quatro. “Sledgehammer”, editado em single, é ao mesmo tempo a síntese perfeita da nova orientação seguida por Gabriel e um dos vídeos mais inovadores da história do rock. Resultados compensadores para um trabalho cujo orçamento rondou as 120 mil libras e que demorou perto de 100 horas a gravar. Rentabilizam-no as presenças, entre outros convidados, do senegalês Youssou N´Dour e de Kate Bush, que ao lado de Gabriel contribui com a sua voz para um dos piores (e mais divulgados) temas do disco, “Don’t Give Up”.

Passion (1989)



Banda sonora da “Paixão” filmada por Scorceses. Primeiro volume da série Real World. O termo “world music” começou aqui. A música propriamente dita já existia há alguns milénios. Não havia era produtores interessados. “Passion” é tudo o que imaginamos a respeito de flautas de bambu, tambores do Mali e cânticos rituais das mais recônditas regiões do globo. Os sintetizadores são o catalisador que evita o choque de sensibilidades entre o Ocidente e o terceiro, quarto, quinto mundo e seguintes. “Passion” é um desfile de lugares-comuns onde a beleza é tudo menos natural. Bem mais genuíno, e sem a participação directa de Gabriel, é “Passion Sources”, o objecto intacto, não polido, o verdadeiro, o único, o inimitável “mundo real”. O álbum é também um galarim de músicos não ocidentais: Hosam Ramzy, Manu Katché, Shankar, Vatche Housepian, Mustafa Abded Aziz, Baaba Maal, Youssou N’Dour, Nusrat Fateh Ali Khan. E Jon Hassell que tem um pé de cada lado. Paixão, da que inflama sem remédio, é que não há muita.


“UNITED COLOURS OF GABRIEL”
PETER GABRIEL
CD / MC / 2xLP, Real World, distri. Edisom



Em termos conceptuais “Us” apresenta diversas pistas e coincidência interessantes. Peter Gabriel é, antes de mais, um homem de ideias, de projectos. A música vem depois, como complemento. “Us” aborda, segundo o seu autor, o problema da “união” – de dois seres, dos sexos, de culturas afastadas, das relações humanas em geral – a diferentes profundidades e com índices de êxito variáveis. Isto numa altura em que o ex-Genesis se libertara do fantasma do divórcio com Jill Moore, com quem mantivera uma relação de váriosa anos, e da relação extra-conjugal com a actriz Rosanne Arquette. O tema da união aparece logo mencionado, de forma oblíqua, na capa, com a imagem de um Petr Gabriel azul perseguindo uma figura fantasmagórica de mulher. A “outra” ou a sua própria polaridade feminina, que os antigos filósofos herméticos desiganavam por “alma” e os latinos por “anima”? O fundo aparece pintado de vermelho-rubi, cor que em termos simbólicos, alquímicos, simboliza a última fase da obra, correspondente à união final, às núpcias e ao renascimento do andrógino original.
“Us” é “nós” ou sigla acidental de “United states”? Estados Unidos, estados de união, com quê e com quem? A música, os textos, as próprias explicações do autor permitem algumas respostas.
Em termos musicais “Us” pode definir-se como um compromisso entre a visão “personalista” de toda a discografia de Gabriel até “So” e a “overdose” de sonoridaees “world” de “Passion”: ritmos tribais, instrumentos exóticos rebuscados de vários pontos do globo, electrónica em dilúvio constante e as vocalizações inconfundíveis de um Peter Gabriel que parece ter ficado refém de um número restrito de fórmulas já antes exploradas. Temas há que remetem para outros mais antigos: “Come talk to me” está na mesma linha de “I have the touch” (do álbum nº 4), “Steam” é a continuação de “Sledgehammer” (de “So”), “Only us” entronca no grupo de “Family & the snapshot” (do terceiro álbum) e assim sucessivamente, num repisar de esquemas conhecidos.
Outro esquema que se repete é a utilização de uma convidada feminina. Depois de Kate Bush chegou a vez de Sinead O’Connor acrescentar um pouco de sal vocal a temas como “Come talk to me” e “Blood of Eden”. São possíveis aproximações divertidas. “Blood of Eden” junta o violino de Shankar, a voz da vocalista careca e versos como “I feel the man in the woman and the woman in the man” (força, união!) numa espécie de “world gospel” com sabor a Paul Simon e a meninos de Deus, num registo idêntico ao dos piores horrores vocais de “Passion”. Também não deixam de ser engraçados os ocasionais pontos de encontro, ao nível das vocalizações, de Gabriel com Phil Collins, em “Love to be loved” num arranjo etéreo a que não é alheia a presença de Brian Eno, ou com Roger Waters (de “The Wall”), em “Washing off the water”, tema não muito distante de “Here comes the flood”.
“Digging in the dirt”, single lançado previamente no mercado, explora o lado negro da personalidade e lá está Peter Hammill dando o seu apoio vocal sob a forma discreta de um eco gutural, ele que sempre foi paleólogo e escafandrista das regiões interiores. “Steam”, o tal prolongamento de “Sledgehammer” é violento q.b., entre falsetos de angústica e uma secção de metais que recria os bons velhos tempos em que a Stax tinha “soul”. Neste e noutros temas, David Rhodes mostra-se um exímio guitarrista. “Only us” pisca o olho ao psicadelismo. “Fouteen black paintings” é étnico até à saturação e “Kiss that frog”, efabulação psicológica sobre a puberdade feminina, inclui alusões (Gabriel chama-lhe “subtexto”) sexuais. Finalmente, “Secret world” é maquinal à maneira dos Kraftwerk, melódico à maneira de Eno dos tempos de “Taking Tiger Mountain” e tão secreto como uma “canção de amor”. “Us” pode considerar-se, todo ele, de resto, um disco de canções de amor.
Registe-se por último – entre a miríade de músicos convidados dos quatro cantos do “mundo real”, os ilustres Sinead O’Connor, Eno, Peter Hammill e Shankar, ou os “session men” de nomeada que são Manu Katche, David Rhodes, Richard Blair, David Botrill e Tony Levin – as presenças inesperadas de Caroline Lavelle, no violoncelo, do grupo irlandês Touchstone, do mago das misturas William Orbit, mentor do projecto The Orb, ou do ex-Led Zeppelin John Paul Jones que depois da participação no novo trabalho de Brian Eno, “Nerve Net”, volta a figurar numa ficha técnica de prestígio.
“Us” é um por todos e todos por um. A união faz a força. (7)

Vários – “Festa Da Música Em Bourges, Entre 30 De Abril E 5 De Maio – Sagração Da Primavera” (artigo / antevisão / concertos / festivais)

Secção Cultura Domingo, 31.03.1991


Festa Da Música Em Bourges, Entre 30 De Abril E 5 De Maio
Sagração Da Primavera

Festa da música em Bourges, pequena cidade medieval francesa. É o “Printemps de Bourges”, ponto de encontro e convívio da França com o resto do mundo, na descoberta e partilha de um espaço cultural europeu comum.

Este ano no “Printemps de Bourges”, entre 30 de Abril e 5 de Maio próximos, como de costume, o programa é aliciante e diversificado, num leque que vai do classicismo pós-moderno de Wim Mertens e a música antiga dos Hespérion XX, ao jazz de Manu Dibango (vertente “afro”) e Carla Bley com Steve Swallow, sem esquecer, obviamente, o rock representado pelos House of Love e Elliott Murphy, ou o universo múltiplo das músicas étnicas.
Com o apoio e patrocínio de entidades oficiais (o Ministério da Cultura e Comunicações, a Secretaria de Estado para a Juventude e Desportos ou a “Maison de la Culture de Bourges) e instituições particulares (MCM – Euromusique, L’ARCAM, Coca-Cola, Air France, etc.), o “Printemps de Bourges” conta entre os seus objectivos “encorajar os jovens artistas e possibilitar ao maior número de pessoas possível a descoberta de novos músicos e a audição das suas vedetas preferidas”.

Espectáculo Na Rua

À semelhança do que aconteceu no ano passado, o centro das operações localiza-se na parte antiga da cidade, num périplo que inclui as suas principais zonas históricas, impecavelmente servido em termos de infra-estruturas habitacionais e comerciais. Quando despertar ao som de músicas estranhas, invadida por milhares de forasteiros atraídos pela curiosidade, pela festa ou pela magia única doo acontecimento, a habitualmente pacata cidade de Bourges transfigurar-se-á, adquirindo a aura luminosa e o prestígio das grandes galas culturais.
O Palácio dos Congressos, o “Grand Théatre” e o Pavilhão, salas menores como as “Gilles Sandier”, “Duc Jean” e “Germinal”, e a própria catedral, preparam-se para abrir as portas à música, ao espectáculo e às inúmeras surpresas capazes de transformar o festival em qualquer coisa de inesquecível. Mas nem só nos recintos fechados haverá que ver e ouvir. Como é da praxe, também as ruas da cidade serão palco para o que der e vier, através dos designados “Hors Jeu” – actividades paralelas que este ano vão desde o “cosy disco centre d’art”, estranho acampamento completo, espécie de festival dentro do festival, que junta os conceitos de circo, dança e centro cultural alternativo, ao desfile dos chamados “trens eléctricos” brasileiros – orgia carnavalesca sobre rodas.

“Troupe” Surrealista

Despoletar e encantar a imaginação infantis é a tarefa a cargo da “troupe” surrealista “Maximomes”. Mas que ninguém se espante se deparar com um camião orquestra, uma agência noticiosa (“L’Agence Tartare ‘La Chaine’”), encarregada de confundir e difundir notícias e acontecimentos fantasiosos (!) ou com a possibilidade de aprender, “in loco”, a disparar um canhão napoleónico. Os “Generik Vapeur et la grande petarde nocturne motorisée” prometem tornar as ruas num pesadelo povoado de criaturas estranhas e cerimónias apocalípticas. Por vezes acontecerá tudo ao mesmo tempo.

Nomes Importantes

Para quem preferir o conforto dos recintos fechados, o mais difícil será escolher. Todos os dias, entre as duas da tarde (no “Germinal – découvertes” – à descoberta dos novos valores do rock) e as tantas da manhã, a música não para e a excitação muito menos. Entre os concertos agendados com nomes de cartaz, destaque para Eliott Murphy (rock americano urbano) e Manu Dibango (jazz + funky = cataclismo rítmico), dia 30; Bel Canto (pop norueguês da “nova idade”) e Carla Bley com Steve Swallow (duo piano/baixo por dois expoentes no jazz actual), dia 1; Guesh Patti (animal de palco em “music-hall” revisitado), Wim Mertens (minimalista, classicista, pianista, monárquico e doido genial) e os House of Love (guitarras e canções da nova geração Pop britânica), dia 3; Juliette Greco (grande dama da “chanson française”), dia 4; Jimmy Sommerville (ex-Communards, porta-voz das emoções “gay”), dia 5. Realce muito especial para a actuação do grupo de música antiga Hespérion XX, dirigido por Jordi Savall e onde pontifica a voz sublime de Monserrat Figueras, dia 1, na catedral.
A lista continua: UB 40 (“reggae” em corte inglês), Geoffrey Oriema (dos nomes mais importantes da actual música africana, Brian Eno e Peter Gabriel não lhe regateiam elogios), os franceses Les Rita Mitsouko e Les Negresses Vertes, New Model Army (os novos “Clash”, para o “Times”), Flying Pickets (vocalizações “a cappella”), Kanda Bongo Man (rumbas zairenses transvertidas em música de dança). Depois, partir à descoberta dos nomes novos e novas emoções: Elmer Food Beat, Victims Family, Sons Of The Desert, Noise Gate, Bat Attack, Patrick Bruel, Reynaldo Anselmi, Bratsch, Paris Musette… Em Bourges, a música faz a Primavera.

Vários – “Um Guia Seleccionado Para A Música De Quatro Décadas Que Se Reeditou Em 90 RAROS, INÉDITOS e REEDITADOS” – Fernando Magalhães e Luís Maio

Pop-Rock 09.01.1991


Um Guia Seleccionado Para A Música De Quatro Décadas Que Se Reeditou Em 90
RAROS, INÉDITOS e REEDITADOS
Fernando Magalhães e Luís Maio


Depois das glórias dos anos 50 e 60, foi a vez de o sumo da década de 70 e da primeira metade da de 80 alimentar em 90 a indústria dos fundos de catálogo. Essa orientação de mercado parece, contudo, não corresponder a alguma nostalgia instantânea pelo que acabou ou ainda está a passar – e muitas das compilações em causa integram e foram lançadas em simultâneo com novos singles. Houve sim uma espécie de adaptação ao mercado da música do sistema de montagem em série com variações mínimas de pormenor, corrente por exemplo no ramo automóvel. Prova disso, outra tendência dominante foi voltar a reeditar tudo o que ainda há pouco se reeditara, mas em diferentes embrulhos sob o lema das retrospectivas definitivas, em luxuosas caixas de CD, com aliciantes suplementares de títulos inéditos, gravações raras e “takes” alternativos. Importa também notar que, se o fluxo de reedições no resto da Europa foi em 90 tão grande, ou nalguns meses superior ao das edições de originais, as companhias portuguesas não parecem ter compreendido as potencialidades desse mercado (em contraste com algumas lojas de importação). Isso mesmo se poderá constatar neste guia pela ausência maioritária de representantes locais para tais reedições.

A divisão do guia por décadas é estritamente operatória

ANOS 50

THE EVERLY BROTHERS
Perfect Harmony (Knight Evy)

Todos os hits dos famosos manos, desde a estreia nos tops em 57 com “Bye Bye Love”, até à ligação com os Beach Boys para “Don´t Worry Baby”. Parce que sem eles os Simon & Garfunkel nunca teriam passado de meninos de coro.

GENE VINCENT
Boxed Set (Capitol)




Uma das grandes lendas mortas do rock ‘n’ rol, o preferido dos inadaptados, o eleito dos clã motorizados. “Be Bop A Lula” e tudo o resto reempacotado em CD para velhos adolescentes de alma rebelde sob o uniforme de executivos.

JOHNNIE RAY
Cry (Bear Family)

Celebrado como o primeiro “crooner” do rock ‘n’ rol, professor de Elvis nessa matéria, Ray parece não ter tido tanta felicidade na escolha do seu reportório de coberturas de negros, ou pelo menos não lhes comunicou tanto carisma em estúdio.

LITTLE RICHARDS
His Greatest Recordings (Ace)




Duas dúzias de pérolas do negro que assustou toda uma geração de pais americanos e, antes de se converter ao divino, inventou o vocábulo mais significativo da língua inglesa do pós-guerra, “Awopbopaloobopalopbambooom”.

THE SHIRELLES
The Collection (Castle)

Vinte e quatro lembranças queridas, ou tantos hits do tempo em que as Shirelles introduziram um modelo de singela “coqueterie” (para sempre?) no vocabulário do rock ‘n’ rol.

SCREAMIN’ JAY HAWKINS
Voodoo Jive (Rhino)

Aproveitando a reabilitação como gerente de hotel no “Comboio Mistério” de Jim Jarmusch, o pioneiro do rock ‘n’ rol foi recuperado nesta compilação das peças essenciais do seu show surrealista. Mesmo hoje, parece impossível que alguém pudesse cantar em semelhante grau de desarranjo.

ANOS 60

BEACH BOYS
“Pet Sounds”, “Surfin’ Safari” / “Surfin’ USA”, “Surfer Girl” / “Shut Down, Vol. 2”, “Little Deuce Coupe” / All Summer Long”, “Todo” / “Summer Days (and Summer Nights)”, “Summer Dreams” (Capitol, distri. EMI-VC)




Até “Pet Sounds”, os Beach Boys foram os meninos de ouro, queridos na Costa Oeste e, mais tarde, no resto dos Estados Unidos. Meninos da praia, reis do “surf” e das intricadas harmonias vocais, das raparigas de sardas e rabo-de-cavalo e dos descapotáveis eram a coqueluche das “garage band” da época. Brian Wilson, o génio da família, queria mais. “Rubber Soul”, dos Beatles, espicaçou-lhe o orgulho e a veia criativa. Decidiu que tinha de fazer melhor e há quem diga que o conseguiu. Com “Pet Sounds”, por muitos considerado um dos melhores álbuns de sempre da música popular. Um naipe de fabulosas canções e uma revolucionária utilização das técnicas de estúdio, tornam o disco incontornável. Depois foram os próprios Beatles a querer ainda mais além – “Sergeant Peppers” seria o disco e a lenda.
Cada uma das actuais reedições inclui quatro ou cinco faixas extra – as habituais versões alternativas ou simples experiências de estúdio. Nos textos das capas, Brian Wilson conta parte da história e explica como foi. “Summer Dreams” é uma colectânea que inclui a maior parte dos temas famosos da banda. “Good Vibrations”. Para sempre.

BEE GEES
The Very Best (Polydor)

or aqui se vê que eram melhores imitadores dos Beatles que divas da “febre” disco dance.

THE BYRDS
The Byrds (CBS)




Caixa de quatro CD, contendo a maioria dos temas que cobriram de glória a banda americana percursora do “psychedelic rock” de tendências rurais. Guitarras cristalinas que fizeram escola (frequentada entre muitos, pelos R.E.M.) e vozes que serviam excelentes melodias funcionam como máquinas do tempo que nos leva direitinhos à época das grandes explorações de estúdio e ideologias a condizer. A caixa contém novas misturas e versões alternativas de temas antigas, interpretações ao vivo de “Mr. Tambourine Man” e “Turn! Turn! Turn!”, bem como quatro temas extraídos de um concerto recente em que de novo se juntaram Roger McGuinn, David Crosby e Chris Hillman, “Younger Than Yesterday”, “The Notorious Byrd Brothers”, “Sweethearts Of The Rodeo”, momentos mágicos de uma era (aparentemente) dourada. Canções, pois claro, a “Eight Miles High”, vibrando para sempre no éter estelar.

DONOVAN
The Collection, Donovan Rising (See For Miles)




Parece mentira, mas é verdade: O homem da voz doce e tremelicante ressuscitou das profundezas de “Atlantis”, mais gordo, mas cósmico e florido como nunca. Para além da colectânez e do álbum ao vivo, lançou ainda este ano o novo “One Night In Time”. Os psicadélicos devem-lhe alguma coisa, talvez as flores. Gravou uma obra-prima que poucos conhecem – o duplo “HMS Donovan”, tão belo e absurdo como Alice no país das maravilhas. Chegou a ser rival de Dylan. Hoje os Butthole Surfers homenageiam-no com a sua interpretação de “Hurdy Gurdy Man”. Homenageiam-no é uma forma de dizer…

ERIC CLAPTON
Clapton Conversation (London Wavelenght)

Depois desta caixa de três discos com Eric Clapton a botar discurso na rádio, porque não meia dúzia de CD da celebridade a cantarolar no duche?

HERMAN’S HERMITS
The EP Collection (See For Miles)

Odiados nos anos 60 pelas elites como campeões da patetice, os Hermits são agora reabilitados a título de porta-vozes de eleição da inocência dos anos 60, numa compilação que alterna os hits imediatos com títulos que, apesar de não terem conhecido os favores da altura, por isso mesmo resistiram melhor ao tempo.

JIMI HENDRIX
Cornerstones, 1967-1970 (Polydor)

Quatro temas por ano. A ordem e simetria são muito bonitas. Greenaway procederia assim. O guitarrista era menos ordenado, o génio explodia-lhe da alma até à guitarra, em chamas. Hendrix não se compadece com cronologias. Pertence à eternidade. “Hey Joe, Are You experienced?” Ao pé dele somos todos meninos.

THE KINKS
“Kinks”, “Kinda Kinks”, “The Kink Controversy”, “Face To Face”, “Something Else By The Kinks”, “Live At The Kelvin Hall”, “Are The Village Green Presrvation Society”, “Arthur Or The Decline And Fall Of The British Empire”, “Lola Versus The Power Man And The Moneyground, pt. One”, banda sonora de “Percy”. (Castle)

Inglaterra, nevoeiro, chá das cinco, bosques verdes, Londres, Big Bem, Picadilly Circus, Ray Davies, Dave Davies, os Kinks. Sobretudo Ray Davies, o “dandy” preocupado em cantar o declínio do império. As reedições em CD reproduzem as capas originais e abrangem toda a obra fundamental da banda londrina. “Arthur” não apanhou o comboio das óperas rock, arrastado pela velocidade de “Tommy”, dos rivais “Who”. Quase tudo são hits que fizeram uma época e que assobiaremos para sempre no coração. “You Really Got Me”, “Sunny Afternoon”, “Waterloo Sunset”, “Death Of A Clown”, “Victoria”, “Shangri-La”. Roupas e vozes muito coloridas. Londres parecia então um arco íris.

RIGHTEOUS BROTHERS
Unchained Melody (Verve)

Já não se façam canções românticas deste classicismo. Se se fizessem, por que razão haveria um filme tão chunga quanto “Ghost” de ressuscitar um tema com 25 anos para os primeiros postos de vendas dos tops mundiais?
Rolling Stones

ROLLING STONES
Hot Rocks, More Hot Rocks (London, distri. Polygram)

A pretexto dos Stones 1990, a reedição dos seus êxitos no catálogo London. Passa sem muita discussão que aqui se encontra tudo ou quase tudo o que interessa nos Stones, e teria sido menos cansativo e incomparavelmente mais elegante editarem só estas colectâneas no lugar de “Steel Wheels”.

STEVE MILLER BAND
Best Of 68-73 (Capitol)

Tem tudo a ver com a recuperação de “The Joker” no recente anúncio da Levi’s. Mais ou menos o mesmo que a prévia “Anthology” sob outra ordem.

SMALL FACES
The Ultimate Collection (castle), The Singles A’s & B’s (See For Miles)




Se, na altura da explosão mod inglesa, os Who foram os que mais fizeram negócio, os Small Faces devem ter sido os mais originais e dinâmicos, extrapolando com classe as coordenadas soul e r&b para um contexto branco. Estas colectâneas são provas indiscutíveis.

TIM BUCKLEY
“Dream Letter, Live In London 1968”

Duplo CD contendo temas inéditos do autor de “Goodbye and Hello”, “Starsailor” e “Look At The Fool”. 1968 foi o ano em que se apresentou pela primeira vez ao público londrino. Uma voz, guitarra acústica, baixo e vibrafone (absolutamente encantatória a introdução de “Hallucinations”) chegaram para criar uma atmosfera mágica, intimista e irrepetível. Tim Buckley nunca parava de cantar, mesmo no intervalo entre duas canções. Como se sabe, só a morte o impediu de continuar.

VAN MORRISON
The Best Of (Polydor, distri. Polygram)
É quase um crime reduzir a obra discográfica do irlandês a escassas duas dezenas de títulos. A boa desculpa desta compilação é serem os favoritos do próprio artista na altura da resenha.

ANOS 70

BUZZCOCKS
The Peel Sessions Album (Strange Fruit, distri. Anónima)

Oportunidade para recordar Pete Shelley, acreditado como o poeta oficial do punk e um dos ídolos de Morrissey, nas gravações para o programa de John Peel, em Setembro de 1977, no zénite da sua eloquência desesperada.

CHIC
Megachic (Atlantic)

Depois das remisturas que lançaram o revivalismo “Chic”, os originais, ou seja, aquilo por que os Chic hoje valem ainda a pena serem recordados.

DAVID BOWIE
Changes Bowie, Space Oddity, The Man Who Sold The World, Hunky Dory, Aladin Sane, Pin Ups, Diamond Dogs (Emi)

Primeiras peças do grande teatro Bowie, acrescidas em CD, de temas bónus – novas misturas, “takes” de estúdio, brincadeiras. Claro que se trata de álbuns todos eles fundamentais, como fundamental é a totalidade da sua obra até “Scary Monsters / Super Creeps”. Daí para a frente o “Thin White Duke” trocou o teatro pelo cinema e os resultados são um pouco para esquecer, não havendo “Tin Machine” que lhe valha. Antes era diferente. Era sempre diferente. De álbum para álbum. De máscara para máscara. De comum entre “Space Oddity” e “Diamond Dogs” existe apenas essa extraordinária capacidade de se metamorfosear e a facilidade com que produzia fabulosas experiências musicais, sempre à frente do seu tempo. Indispensável. Toca a trocar os discos por CD!

THE ENID
Touch Me, Six Pieces, The Spell, Final Noise!

O melhor de uma dessas bandas sinfónicas que o punk sepultou, agora ressuscitada em CD como pioneiros da “nova idade”.

ISAAC HAYES
Black Moses (Stax)

O épico de 1971 reeditado num CD duplo para consolo dos iluminados da época e educação dos actuais aprendizes do funk filosófico. Apoteose acabada de um dos maiores profetas da música negra deste século.

THE ISLEY BROTHERS
Forever Gold (Epic)

Ainda não foi a reedição integral destas glórias da fusão soul/rock dos anos 70, que hoje se estima mais estimulante que na altura, mas do melhor nos seus primeiros quatro álbuns no selo próprio T-Neck.

JOHN LENNON & YOKO ONO
The Interview, (BBC) The Ultimate Lennon Box Set (Parlophone)




Duas horas de conversa entre John e o jornalista Andy Peebles, gravada para a Radio One, com a japonesa a interromper de vez em quando. As ideias, a generosidade e ingenuidade de um visionário que acreditou até ao fim que o mundo podia ser melhor. Quanto à caixa são os discos pós Beatles que já toda a gente conhece nu embrulho luxuoso para revigorar o apetite.

JONATHAN RICHMAN AND THE MODERN LOVERS
Great Recordings (Essencial)

Jonathan Richman, o tipo de Boston que à saída da Factory de Andy Warhol tropeçou num buraco negro e foi dar às filmagens de um secreto re-make de “O Feiticeiro de Oz”, retratado nos seus momentos de mais brilhante alucinação.

KATE BUSH
This Woman’s Work (Emi)

O trabalho todo – nove álbuns que incluem os seis discos de originais até agora gravados em estúdio, mais 31 lados B de singles, uma faixa extra retirada da colectânea “the Whole Story” e dois temas em francês, “Ne T’En Fuis Pas” e “Un Baiser d’Enfant”, num total de noventa e oito canções. Chega e sobeja para nos arrepiar.

KEVIN AYERS, JOHN CALE, ENO, NICO
June 1, 1874 (Island)




Imemorial reunião de quatro das personalidades mais bizarras da pop. Hoje, Nico, “deusa da Lua”, brilha na escuridão do firmamento. Ayers deixou os copos, deixando também para trás a genialidade dos cinco primeiros álbuns, trocada pelo sol de Maiorca. Cale continua a ser aquilo que sempre foi: um bom compositor, com esporádicos lampejos de génio. Eno forçou a que se inventassem novos sistemas de referência – sozinho, vai redescobrindo o silêncio e inventando novos universos. Há 16 anos provavam que a loucura pode ser partilhada, inflamados no vulcão de “Baby’s On Fire”.

KEVIN AYERS
The Collection (See For Miles)

O menino prodígio dos Soft Machine, que renunciou à alta-roda dos tops para cantar os prazeres e as amáveis alucinações da vida ao sol mediterrânico, em mais uma recapitulação que evita os delírios surrealistas em favor das baladas acessíveis e suaves.

LED ZEPPELIN
Remasters, Led Zeppelin (Atlantic)

No primeiro caso trata-se de três discos, ou dois CD, preparados e tratados em estúdio por Jimmy Page, numa operação de cosmética destinada a valorizar o material passado para o “compacto”. No segundo, os números passam para o dobro: Seis discos, quatro CD. 54 temas que incluem os bónus “Travelling Riverside Blues” e “White Summer / Black Mountain Side”, gravados em 1969 numa sessão para a BBC, nova versão do clássico da percussão “Moby Dick” e “Hey, Hey What Can I Do”, originalmente o lado B de “Immigrant Song”.

MADNESS
One Step Beyond; Absolutely; The Rise & Fall (Virgin)

Melhor banda “new wave” com humor britânico, recordada numa edição limitada de três “Picture discs”, talvez demasiado composta para recheio tão achicalhado.

MARC BOLAN & T. REX
My People Were Fair And Had Sky In Their Hair… Prophets, Seers And Sages, Unicorn/Beard Of Stars, Electric Warrior”, Bolan Boogie, The Slider, Tanx, Zinc Alloy And The Hidden Riders Of Tomorrow, Bolan’s Zip Gun, Futuristic Dragon, “Dandy In The Underworld, The Collection. (Castle)




Era uma espécie de David Bowie a uma escala menor. Mestre do “glamour” e da poesia “naif”, Marc Bolan era o Merlin dos adolescentes, cobrindo de lantejoulas e melodias pop um universo de fábula. Tyranossaurus Rex, assim se chamava o duo inicial – guitarra acústica, bongós e uma voz de encantar. Depois foi a electricidade e o rock em hits como “Hot Love”, “Get It On” e “Telegram Sam”. Infelizmente as letras dos álbuns da época “mística”, não constam nos CD. Também “T. Rex”, álbum de transição para a fase eléctrica não teve direitos de reedição. Deste disco apenas quatro faixas aparecem nas colectâneas “Bolan’s Boogie” e “The Collection”. Já não há flores na cabeça das pessoas.

MONTY PYTON
Monty Pyton Sings (Virgin)

Mais que larachas cantadas, canções verdadeiras que fazem rir, a prova dos nove dos Monty Python no terreno do “vaudeville”.

NICK DRAKE
Five Leaves Left, Brayter Layter, Pink Moon, Heaven In A Wild Flower (Island)

Obra completa do poeta da melancolia. A música de Drake cai na alma como folhas no Outono. Trsitemente. À luz da lua. Morreu muito novo, depois de caminhar pela loucura em câmara lenta. Passou despercebido na altura em que todos queriam ser sinfónicos. Ele cantava, apenas, com voz frágil, a passagem do tempo e das ilusões. Joe Boyd, responsável e amigo do artista, autorizou a venda do catálogo Witchseason à Island, na condição de esta manter permanentemente em “stock” os discos do poeta. “Heaven In A Wild Floer”, título do romântico William Blake para a colectânea do mesmo nome, sintetiza a essência da visão que Nick Drake em vida cantou e, depois da morte, decerto alcançou.

PETER GABRIEL
Shaking The Tree – 16 Golden Hits 8Virgin, distri. Edisom)

Foi o próprio Gabriel quem escolheu, e agora o seu segundo álbum a solo não está entre os seus preferidos, mas sobretudo o mais recente “So”. Sendo assim, se calhar, não valia a pena fazer compilação nenhuma.

QUEEN
Queen At The Beed 1973 (Band Of Joy, distri. Anónima)

A curiosidade de descobrir que, nas secções de gravação prévias ao álbum de estreia, a estrela dos Queen era Brian May. Do mal teria sido o menos…

SOFT MACHINE
The Peel Sessions (Strange Fruit)




Duplo álbum gravado durante as célebres sessões de John Peel, num período compreendido entre 1969 e 1971. Na época, Hugh Hopper acabara de substyituir Kevin Ayers e a banda alcançava com o duplo “Thrid” a sua obra-prima absoluta, após os psicadelismos pop dos dois primeiros discos. Destaque para a participação nalguns temas da secção de metais constituída por Elton Dean, Lyn Dobson, Marc Charig e Nick Evans (que colaboraria também em “Third”) e de uma nova versão de “Moon in June”, a clássica e terna liturgia esquizofrénico-vocal de Robert Wyatt, aqui com letra alusiva ao locutor. Mike Ratledge e Elton Dean tornam a coisa mais complexa.

THE STRANGLERS
Greatest Hits 1977-1990 (CBS, distri. CBS port.)
Agora saiu Hugh Cornwell, amanhã, se calhar, Jean Jacques Burnell vira actor de cinema, ou qualquer coisa no género. Os hits dos Stranglers, esses, são sempre os mesmos. Pelos vistos, o que muda é o pretexto.

SUICIDE
1/2 Alive (Contempo)




Alan Veja e Martin Ver gravaram, durante uma carreira de vinte anos, três álbuns de estúdio. Neste disco aproveita-se tudo o que ficara até agora de fora: gravações caseiras e inéditos ao vivo, gravados entre 1974 e 1979. “Harlem II”, “Going to Las Vegas”, “Space Blue”, “Long Talk”, “Speed Queen”, “Love You”, “Cool as Ice” e “Dreams” são alguns dos originais incluídos no disco. O ritmo da sociedade industrializada à beira do caos tocado por Ver em serra elétrica e cantado por Veja, encarnando o espectro cavernoso e reverberado de Elvis Presley. Implacável.

TELEVISION
The Blow Up (Danceteria)
Peça essencial para enriquecer a magra discografia da mais carismática banda nova-iorquina de guitarras na fase “new wave”, onde as duas faixas de cerca de 14 minutos, gravadas ao vivo em 1978, chegam e sobram para demonstrar o virtuosismo explosivo da dupla Tom Verlaine / Richard Lloyd.

ANOS 80

ABC
Absolutely (Phonogram, distri. Polygram)

O fim do contrato dos ABC com a Phonogram deu origem a esta compilação dos anos em que durou (81-89), com justo destaque para os títulos do LP de estreia “Lexicon Of Love”. O caso acabado dos tipos que são melhores a fingir mundos e fundos que a chorar as desgraçadas dos subúrbios.

CARMEL
Collected (London, distri. Polygram)




Jazz estilizado, gospel incendiário, pop distanta, conjugados numa fórmula harmónica que, ao longo de sete anos, nunca vingou nos tops, mas fez sempre as delícias das elites de bom gosto. Só os distraídos preferem a colectânea aos discos originais.

JOE JACKSON
Ntepping Out (A & M, distri. Polygram)

A colecção de mais de uma década de êxitos falhados, mas de muito prestígio, que acabaram por fazer a A & M meter Jackson no olho da rua.

THE FALL
458489 A-Sides, 458489 B-Sides (Beggars Banquet, distri. Anónima




Um disco para as faces A, outro para as B dos singles que os Fall editaram entre 84 e 89, os seus anos na Beggars Banquet. Mark Smith fica uma vez mais reiterado, é único companheiro de Morrisey na fé de que o público nunca se farta de lhe comprar discos por atacado.

THE GO-BETWEENS
1978-1990 (Beggars Banquet, distri. Anónima)
Os Go-Betweens acompanharam de perto as mais sinuosas elipses do coração apaixonado ao longo demais de uma década sem colherem grande contrapartida financeira. Esta compilação faz-lhes justiça alternando os seus clássicos com material que foi ficando pelo caminho.

MADONNA
The Immaculate Collection (Sire, distri. Wea)




Os hits da escaldante senhora e mais nada, dos inícios electrodisco nos primórdios da década de 80 até ao bailado “voguing” nos inícios dos anos 90. Como remate, a mesma história de sempre, quer dizer, mais um single para encher o olho no pequeno ecrã, onde pela milésima vez a loura avantajada justifica as suas fraquezas carnais.

MANTRONIX
The Best Of (1986-1988) (10 rec, distri. Virgin)

Pioneiros algo inglórios da actual febre de sincretismo dançante, os Mantronix viram o seu material antigo recuperado nesta compilação graças ao hit menor, mas recente “Got To Have Your Love”.

MOMUS
Monsters Of Love Singles (1985-90) (Creation, distri. Anónima)

Um tipo que se tornou francamente chato e afectado, cujas boas recordações estão todas aqui, porque o actual já ninguém tem paciência para aturar.

MORRISSEY
Bono Drag (His Master Voice, edi. EMI-VC)

Na sequência do ensaio frustrado para o segundo álbum a solo, Morrissey iludiu a crise editando primeiro um vídeo de concerto e em seguida esta compilação dos seus singles em nome próprio. A eloquência poética e a chama vocal não se apagaram, mas este material transpira a ausência de um cúmplice nos arranjos à altura de Johnny Marr.

NEW ORDER / JOY DIVISION
Peel Sessions (Strange Fruit, distri. Anónima)




Esboço de retrato da evolução do mais cinzento projecto britânico de finais dos anos 70 para a banda independente de dança mais brilhante dos 80, através das sessões gravadas pelas duas formações para o programa de John Peel. Sem surpresas, só pelo prazer de recapitular.

PUBLIC IMAGE LTD
Greatest Hits (Virgin, distri. Edisom)

O grande profanador de crina multicolor Johnny Lydon reciclado nos seus hits pós-Pistols, na liderança da “experiência” Public Image. Se isto não fosse uma compilação, mas um disco de originais, os PIL, seriam com certeza maiores que os Pistols.

THE TEARDROP EXPLODES
Everybody Wants To Shag The Teardrop Explodes (Fontana, distri. Polygram)

O terceiro álbum “perdido” dos Teardrop Explodes, com o título pretendido para o primeiro. Cinco faixas foram incluídas num EP que saiu em 83, duas retomadas depois a solo por Julian Cope, restando assim de facto cinco inéditos. Mais uma sequência de esboços que de canções acabadas, peça sobretudo dedicada aos colecionadores.

TALK TALK
Natural History (Parlophone, distri. EMI)

Estranhamente, depois de os Talk Talk terem assinado em “The Spirit Of Eden” um enorme salto qualitativo, percorrendo sinuosos caminhos algures entre a pop e a música ambiental, eis que a Parlophone os despediu. O êxito comercial da compilação cronológica sequente foi um verdadeiro certificado de incompetência para o seu sector de “artistas e reportório”.