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Perve – “Segmentos”

POP ROCK

17 de Maio de 1995

álbuns portugueses

Perve
Segmentos

ED. E DISTRI. MOVIEPLAY


perve

Está a despontar em Portugal uma geração de músicos que aposta em sair dos esquemas de produção habituais. Como acontece com os U-Nu, o projecto dos Perve demonstra, em primeiro lugar, a existência de uma cultura musical sólida dos seus elementos. Percebe-se que ouviram e assimilaram sons e referências afastados do “mainstream”, o que neste caso deverá ter passado pela vastíssima sonoteca que constitui o catálogo da Recommended, uma boa escola para um número crescente de músicos nacionais. Estruturada em forma de canções agrupadas em seis “segmentos” – da génese, das percepções, do ébano, da evasão, do silêncio e da experiência -, a música, com ocasional direcção de Nuno Rebelo, decorre de surpresa em surpresa, escapando aos lugares-comuns que por vezes armadilham os caminhos da “vanguarda”. Há aqui a noção de uma música arquitectónica ou de montagem cinematográfica, onde cada elemento de uma canção se ajusta ao todo segundo lógicas por vezes intuitivas, por vezes absurdas, por vezes incompreensíveis, mas sempre fazendo sentido no interior da globalidade de uma obra delineada ao pormenor. Passagens fugazes pela “tecno” (“Quantas vezes, diz-me?”), a paródia (consciente?) à voz de Paulo Bragança (“A mulher néon”) ou uma paragem na música tradicional portuguesa (“Os olhos”) inserem-se numa estratégia geral de transgressão que não dispensa a utilização selectiva do texto e da palavra, como na longa declamação de “Um calafrio”. Infelizmente, o álbum tem um ponto fraco, aquele que em geral vulgariza este género de cenários: as vocalizações do Homem, a personagem enigmática de máscara no rosto que julgamos ser o mentor da banda. As palavras – como em certos filmes portugueses em que os diálogos parecem pertencer ao filme errado – surgem não poucas vezes despropositadas, metidas a martelo, não encaixando no ritmo dos temas, forçando um lugar onde não há lugar para elas. Será que os músicos portugueses ainda têm medo de fazer álbuns totalmente instrumentais? (6)