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Perlinpinpin Folc – “Ténarèze” + Verd E Blu – “Música De Gasconha”

Pop Rock

29 Abril 1992

GASCONHA NAS ALTURAS

PERLINPINPIN FOLC
Ténarèze (10)
CD, Compas, distri. Megamúsica

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VERD E BLU
Música de Gasconha (10)
CD, Menestrèrs Gascons, distri. Megamúsica

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No mapa, a Gasconha fica situada entre o Golfo da Biscaia e o Mediterrâneo, ao lado dos Pirinéus. Da música tradicional desta região (na década de 70 chegaram até nós alguns discos de Joan Pau Verdier e “Camas de Boi” de Peir Andreu Delbeau) a Oeste da Provença, onde outrora se falava a língua d’Oc dos trovadores medievais, apetece dizer que não é deste mundo. Porque as emoções que provoca também não o são.
Os Perlinpinpin Folc estiveram duas vezes em Portugal, por ocasião dos I e II encontros da Tradição Europeia. Para quem teve o privilégio de assistir aos seus concertos, a simples visão do seu nome é razão suficiente para correr de imediato à procura do disco.
“Ténazère”, designação de “uma via pré-histórica sem pontes nem vaus”, dá a conhecer uma música diferente, servida por músicos não menos diferentes. Viagem iniciática por polifonias vocais parentes por vezes do canto corso, embora menos imbuídas do seu sentimento trágico, pela delicadeza e expressividade da gaita-de-foles e por arranjos onde impera a diversidade permitida por uma panóplia instrumental onde o acordeão, a gaita, o mandolocello, o violino, o oboé e o clarinete coabitam com a sanza africana, o bamboulak ou o “escovofone”, que os Perlinpinpin trouxeram aos encontros – uma vassoura de sopro, cuja sonoridade se assemelha à de sax barítono.
Os Perlinpinpin primam pelo sentido lúdico e pela religiosidade. No passado, as duas andavam sempre juntas. Então, como em “Ténazère”, o corpo e a alma vibravam em comunhão, soltos em serpentes e águias melódicas e em transportes harmónicos que, por fricção interior, nos ensinam que ouvir e fazer música se complementam num movimento único. É isso o amor.
Os Verd e Blu chegam-se mais à música antiga e às origens trovadorescas da Gasconha. O som evoca lagos de estrelas reflectidas em forma de canções pela pureza da voz de Marie-Claude Hourdebaigt e sublimadas ao fogo pela sanfona de Jean Baudoin. Os Mant-Jóia, grupo da Provença com um disco editado na Le Chant du Monde podem servir de ponto de comparação a estes “Verdes e Azuis” pintados pela gaita-de-foles, pelo acordeão, pela sanfona e por percussões que tomam o Mediterrâneo pelos trópicos. Há sons de serrote, respirações de vento, polirritmos de palmas e de novo polifonias vocais que radicam em cânticos e evocações perdidos no tempo.
“Ténarèze” e “Música de Gasconha” não se explicam por palavras. Sentem-se como se sente aquilo que temos por mais profundo: o divino.