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Patti Smith – “The Patti Smith Masters”

Pop Rock

11 de Setembro de 1996

Iluminações

PATTI SMITH
The Patti Smith Masters (8)
6xCD, Arista, distri. BMG

O rock não tem futuro. É provável que não. Mas orgulha-se de um passado e não deixa de sonhar o presente. Patti Smith contribuiu para a construção desse tempo de glória, juntando a poesia e a energia numa obra cuja totalidade foi agora reeditada no formato de antologia. Seis compactos remasterizados, os cinco de originais que gravou entre 1975 e 1979, mais uma selecção dos seus maiores êxitos, incluindo um par de canções do novo “Gone again”


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William S. Burroughs, Robert Mapplethorpe, Vermeer, a literature japonesa do séc. XVI, Madre Teresa de Calcutá, Sam Shepard, Kurosawa, Godard, Woody Allen e, sobretudo, Jean-Arthur Rimbaud são alguns dos múltiplos nomes e interesses que estão ligados a esta artista cuja carreira se iniciou na aurora dos anos 70, a declamar poesia na Esta Village, com a ajuda da guitarra de Lenny Kaye, e a escrever artigos para a “Creem Magazine”. Armada com este arsenal de cultura, influências e amizades, Patti Smith poderia ter optado pelo diletantismo e pela máscara da artista afogada na sua visão. Ao invés disso, esta mulher de ar escanzelado e ar andrógino preferiu a via do rock e do confronto directo, privilegiando o contacto de emoções à dissecação dos conceitos. A reedição completa da sua discografia é, além disso, um bom pretexto para se perceber algum do sentido do “punk” e da maneira como as gerações mais recentes se apropriaram do seu fogo, até das suas entoações vocais (Siouxsie Sioux, P. J. Harvey ou Courtney Love devem-lhe bastante, neste aspecto), nos caso dos “punks” não aproveitando, infelizmente, da sua inteligência. Agora que o “no future” volta a ser palavra de ordem, convém lembrar que o niilismo nunca foi bom conselheiro e que o rock sempre avançou empurrado por ideais. E Patti Smith era, e continua a ser, uma idealista.
A caixa “The Patti Smith Masters” é parca em adereços. Nada de futilidades. Apenas a sobriedade e o tom incisivo que sempre caracterizaram, desde o invólucro ao conteúdo, todos os seus discos. Superfície negra, com caracteres finos impressos em prateado. No interior, os cinco álbuns de originais – “Horses”, de 1975, “Radio Ethiopia”, de 1976, “Easter”, de 1978, “Wave”, de 1979 e “Dream of Life”, de 1988 -, mais um volume de “Selected songs” retiradas destes cinco discos mais duas canções do recente “Gone again”. À remasterização, capas originais, com as fotos de Mapplethorpe, de quem a cantora foi amiga, e informação adicional, juntaram-se um ou dois temas extra a completar cada disco. “Selected songs” apresenta na capa uma foto da mesma sessão de fotografias de “Gone again” e versões iguais às dos álbuns de originais, não se compreendendo, portanto, muito bem o alcance da sua inclusão nesta antologia. A capa, desdobrável, como as restantes cinco, apresenta uma biografia sucinta. A grande qualidade de “Gone again”, para além da “ressurreição” do “punk”, por si sós, eram suficientes para justificar a presente reedição e o interesse renovado pela sua autora, ao ponto de o jornal “Melody Maker”, na sua edição de 6 de Agosto, lhe dedicar três páginas e a “Record Collector” do mesmo mês 15 (!).
“Horses” é o impacte, um ano antes da explosão “punk”. A produção está creditada a John Cale, mas todo o som, na sua violência e crueza, é da responsabilidade de Patti. “Ignorámos todas as sugestões de Cale”, diz ela a este propósito. É o álbum de “Gloria”, um original de Van Morrison, da homenagem a Hendrix, em “Elegie”, dos grandes crescendos poéticos, como “Birdland” e “Land”. O tema extra mostra a sua leitura pessoal de “My generation”, dos The Who. Charles Murray. Do “New Musical Express”, descreveu, na altura, “Horses” como “uma espécie de ensaio definitivo sobre a noite americana enquanto estado de espírito”. “Horses” faz a convergência perfeita do simbolismo de Rimbaud com a violência depurada dos Velvets, justapondo sons e palavras com a precisão de uma faca e a dureza do metal. Faca que Patti Smith usa metaforicamente na definição do seu trabalho seguinte, “Radio Ethiopia”, “a faca que abriu a carne”, naquele que é o álbum mais experimental de toda a sua discografia. Os sintetizadores aparecem pela primeira vez e as experiências sonoras adquirem maior envergadura no título-tema, dez minutos gravados ao vivo que não receiam a utilização do ruído, da distorção e da colagem. Uma “suite” dividida em três partes que prenunciava as técnicas de samplagem, na qual Patti Smith procurou traduzir as explorações com estruturas livres de Albert Ayler. Álbum de alucinações de ópio, o mais marcado por Rimbaud, a quem, de resto, é dedicado.
Curiosamente, no ano de glória do “punk”, 1977, o nome de Patti Smith desaparece de cena. Uma queda do palco, numa actuação na Florida, atirou-a para a cama durante nove meses, impossibilitando-a de participar na orgia. Por outro lado, a anarquia então vigente não era ainda capaz de assimilar a sofisticação, tanto musical como poética, que a cantora não dispensava.
“Easter”, de 1978, é o álbum da ressurreição e inclui o “hit” “Because the night”, co-composto pelo então desconhecido Bruce Springsteen. A produção, assinada por Jimmy Lovine, investe num som mais aberto e declaradamente inserido na estética “new wave”. As palavras continuavam, porém, tão acutilantes como antes, aqui inscritas a raiva na sequência declamada cujo título, “Babelogue”, antecipava a publicação do quinto livro de poesia da cantora, de genérico “Babel”. “Wave” sai em 1979, com produção de Todd Rundgren, ainda mais próximo da pop e do “mainstream”, mas onde não faltam excelentes canções como o caudal de “Dancing barefoot”, comprovativo de que o rock pode swingar, o “hit” “Frederick” e a versão de “So you want to be (a rock’n’roll star)”, dos Byrds.
No ano seguinte, 1980, Patti Smith casa com Fred “Sonic” Smith, ex –MC5, o que a leva a preferir a vida doméstica em detrimento do “show business”. Ela mesmo faz questão de explicar que abandonou a indústria musical mas não a música propriamente dita. O amor leva a melhor durante nove anos, período finalmente interrompido pela edição de “Dream of life”, em 1989, um álbum honesto mas sem o vigor de outrora. A água substituíra o fogo, enquanto a cantora se justificava com a descoberta de novas dimensões do ser e da influência do sol, num mal disfarçado misticismo. “Sonic” Smith viria a morrer cinco anos mais tarde, em 1994. As feridas seriam saradas de forma sublime em “Gone again”, uma história por nós já aqui contada. Do regresso á boa forma e à sua paixão de sempre: o rock, iluminado pelo discernimento e pela poesia.



Patti Smith – Peace And Noise

17.10.1997
Patti Smith
Peace And Noise (6)
Arista, distri. BMG

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Volvido pouco mais de um ano sobre a edição de “gone Again”, que pôs cobro a um interregno discográfico de oito anos, Patti Smith regressa com um novo álbum onde a morte volta a ser o tema dominante. Se “Gone Again” era uma espécie de epitáfio à morte do seu então marido Fred “Sonic” Smith, “Peace And Noise” é, segundo a sua autora, a expressão de preocupações que o casal partilhava antes da sua trágica separação. A sida, o suicídio religioso colectivo da seita Heaven´s Gate ocorrido no ano passado, um episódio da guerra do Vietname são alguns dos temas abordados num álbum que faz dedicatórias a outros dois artistas desaparecidos, William Burroughs e Allen Ginsberg, ícones poéticos de toda a obra pretérita da autora de “Horses”. Trabalho ainda e sempre marcado pelo cinzento e pelo luto (a foto da capa interior mostra o interior de uma capela em ruínas), “Peace And Noise” está todavia mais marcado pela raiva do que o seu antecessor. É “rock’n’roll” carregado de poesia oscilando entre a declamação pura de “Spell” e os dez minutos de improvisação, ao vivo no estúdio, de “Memento Mori”, na tradição dos maiores de excessos de “Radio Ethiopia”. A verdade é que se ´inegável a sinceridade com que Patti Smith se entrega ao exorcismo da dor originada pela perda, não o é menos que, cada vez mais, ela parece estar a ficar amarrada a esse diálogo dorido com os seus fantasmas.