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Pascal Comelade – “Musiques Pour Films, Vol. 2”

Pop Rock

29 de Maio de 1996
poprock

Pascal Comelade
Musiques pour films, vol.2
LES DISQUES DU SOLEIL ET DE L’ACIER, DISTRI. ANANANA


pc

A estratégia é a mesma, mas, enquanto o efeito de encantamento que provoca não se dissipar, não há razões para a mudança. O coelho das pilhas Duracell continua enfiado no seu mundo pessoal de valsas, tangos e boleros, um brinquedo para os sentidos e uma provoação cheia de humor ao convencimento das chamadas “músicas sérias”. Neste conjunto de peças compostas para diversas bandas sonoras, de que não existe nenhum primeiro volume, os pianos, xilofones e sopros de brincar andam, como sempre, a vasculhar nos arquivos mais empoeirados da memória e os instrumentos de verdade a deleitar-se por ninguém os obrigar a andar na linha. Os três últimos temas enveredam por um caminho mais próximo da electrónica, culminando em “Back to Schizo”, em que Comelade se encontra com um dos seus heróis, Richard Pinhas, guitarrista com inconfundíveis traços frippianos, na recriação da sonoridade dos Schizo, formação anterior aos Heldon. O único tema não original é a “Chanson”, lengalenga em mono de uma criancinha, que aparece em “Détail Monochrome” e fechava em segredo certas “Estranhas frequências” que assombravam antigas noites radiofónicas… (8)



Pascal Comelade – Entrevista a propósito de concerto em Lisboa

Pop Rock

1 de Novembro de 1995
ENTREVISTA A PASCAL COMELADE

MEMÓRIAS DE UMA BAILE DEGENERADO


pc

Pascal Comelade é único e inclassificável. A sua música gira em torne de géneros esquecidos ou menosprezados. “Música de baile degenerada”, como ele próprio a define. Embora não procure ser o “Jimi Hendrix do piano de brinquedo”, as suas notas remetem para um universo de magia e de anacronismos. Miniaturas musicais moídas por uma máquina de fazer café.

Os seus álbuns são colecções de gravuras cobertas pela “patine” de outras eras. Canções esquecidas de Robert Wyatt, Jonathan Richman, Tim Buckley ou dos Yardbirds encostam-se a uma partitura nostálgica de Nino Rota ou a um arrebatamento romântico de Consuelo Velásquez. Pascal Comelade folheou para o PÚBLICO as páginas do seu álbum de recordações.
PÚBLICO – Num dos seus álbuns, “Détail Monochrome”, há um tema intitulado “Petite mélodie”. O conceito de “miniaturização”, desempenha um papel central no seu método de criação?
PASCAL COMELADE – Imagino, como “miniatura”, uma certa forma de pequena arquitectura dos arranjos musicais, um certo despojamento (ir ao encontro do essencial) que pode ser encontrado na época dourada do rock’n’roll inglês, nos Kinks ou na sublime utilização das quatro pistas em “Sergeant Peppers”. Daí a minha tendência para compor temas muito curtos. Outra referência é uma compilação histórica, “Miniatures” [N.R.: organizada por Morgan Fisher], com peças que não ultrapassam um minuto, incluindo a esplêndida “História do rock’n’roll”, por um elemento dos XTC. Há ainda o famoso mal-entendido do “minimalismo”. Dever-se-á falar de “minimalismo” a propósito da pré-história do rock’n’roll, em que era utilizado um mínimo de instrumentação (baixo, guitarra, bateria reduzida)? E quando se toca com um mínimo de notas? Houve alguém – Satie? – que disse: “Pode fazer-se tudo com um ‘fá’!” Refiro ainda a escola de “minimalismo” inglês, na época da série “Obscure”, de Brian Eno, com os primeiros registos de Gavin Bryars, Harold Budd, Michael Nyman, etc. Esquece-se facilmente também o trabalho de Moondog sobre o jazz e a música clássica. E John Cage, evidentemente. Enfim, pode pôr-se em prática um “resumo musical”, através da digestão, depois de uma filtragem? Música para máquina de fazer café?
P. – A mesma ideia está presente num título como “Haikus de Piano”, o “haiku” entendido como miniatura poética que ultrapassa a simples lógica racional. Serão as suas canções “haikus” musicais?
R. – Existe efectivamente uma influência literária mas, mais do que o “haiku” japonês, trata-se de um paralelo com o leitor que não leria mais do que a primeira ou a última página de um livro, o resumo, o prefácio ou o título…
P. – E a utilização de instrumentos de brinquedo, tem de facto necessidade da sua sonoridade? A música não sobreviveria sem eles?
R. – Os brinquedos são utilizados pela sua sonoridade, misturados ou não com instrumentos convencionais. Não tenho, à partida, qualquer teoria para justificar a sua utilização. Tento tocar num piano de brinquedo como se fosse um piano a sério. Para um pianista limitado, como é o meu caso, torna-se um exercício físico bastante interessante. Mas não há uma utilização sistemática. O mais importante é a prática musical, o tratamento e o resultado final. Não procuro ser o Jimi Hendrix do piano de brinquedo.
P. – O “El Primitivismo” de outro dos seus álbuns?
R. – Primitivismo, no sentido de uma prática instintiva, de ouvido, de amadorismo, de autodidactas ou de situações ligadas ao acaso. Trata-se simplesmente da utilização intemporal de músicas populares de todos os tempos, sem a perspectiva de coleccionismo nem a triagem de um esteta: jazz antigo, rock’n’roll dos anos 60, músicas de filme, canção italiana, por exemplo, mas sem me limitar a um passado nostálgico.
P. – A denominada “música mecânica”, das caixas de música e dos realejos, faz parte do seu imaginário musical?
R. – A influência maior verifica-se ao nível das percussões. A “música mecânica” ancestral não é mais do que Kraftwerk acústico! As músicas de feira, de circo ou de fanfarra têm a capacidade de poetizar o instante.
P. – A sua música é inseparável dos títulos. Há alguma ligação directa entre ambos, ao nível da composição?
R. – Puro método de paranóia-crítica! [N.R.: uma invenção do surrealista Salvador Dali.]
P. – “Bel Canto” é o título de um dos seus álbuns e a designação do seu grupo actual, apesar de a sua música ser quase exclusivamente instrumental. É o gosto pela ironia e pelo paradoxo?
R. – É isso exactamente! A vingança de um afónico perpétuo!
P. – Embora camuflado, o rock’n’roll também integra o lote das suas referências, ou trata-se ainda aqui de um paradoxo?
R. – Tento não passar a vida a acumular citações. Procuro fabricar artesanalmente a minha própria linguagem. As referências e os gostos pessoais não são forçosamente influências e vice-versa. De qualquer forma, não é um paradoxo, sou de facto um velho fã de rock’n’roll, de Elvis a Alan Veja, dos Pretty Things aos MC5. Por outro lado, gosto dos músicos que souberam criar um discurso individual, idiossincrático e único, como Thelonious Monk, Sun Ra, Captain Beefheart ou Robert Wyatt.
P. – Por que motivo grava tantos álbuns de uma compilação que, em última análise, não o são, uma vez que mistura temas antigos com originais e novas versões? Para o público, pode ser um bocado confuso…
R. – Aprecio bastante essa noção de “confusão”. Eu próprio sou confuso! Há muito tempo que deixei de analisar ou teorizar sobre a minha prática musical. Os únicos aspectos em relação aos quais permaneço crítico são a encenação, as leis do espectáculo e de distribuição da mercadoria. Não sou um cínico, mas procuro distinguir o “bom” momento do “melhor” momento. Dá muito trabalho, não dá? Enfim, não me preocupo em saber o que é novo e o que é velho.
P. – “Traffic d’ Abstractions”, ainda o título de um dos seus álbuns, pode ser um resumo perfeito de toda a sua música. Concorda?
R. – Os títulos dos álbuns são, em cada caso, uma tentativa de qualificar a tal prática musical que, no fundo, não é mais do que música de baile degenerada. Daí “Traffic d’ Abstractions”, “Cabaret Galactique”, “El Primitivismo” ou “Détail Monochrome”…

PASCAL COMELADE COM BEL CANTO ORCHESTRA, SÁBADO, DIA 4, TEATRO DE SÃO LUIZ, LISBOA, 22H00



Pascal Comelade – “Cent Regards”

Pop Rock

8 MAIO 1991

PASCAL COMELADE
Cent Regards

LP, G3G, import. Ananana

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O homem tem uma fixação por instrumentos de brinquedo. Mania original que deu excelentes frutos em obras como “Détail Monochrome” e “Bel Canto” (editado em Portugal). Pascal Comelade chegou agora ao ponto de pôr uma banda de dez músicos (a “Toy Limited Orchestra”) a tocar pianos, cornetas e xilofones de brincar. Valsas diagonais, tangos minimais, boleros astrais, rock’n’roll de peluche venenoso, nocturnos de Chopin, o café Mozart, o “Moulin Rouge”, “Egyptian Reggae”, “Proud Mary” dos Creedence Clearwater Revival, desfilam, sob a forma de miniaturas mecânicas, num universo irreal de soldadinhos de chumbo, casas de bonecas e sonhos de encantar. Como se a música não existisse fora do quarto dos brinquedos, cristalizada numa dimensão atemporal e onírica em que a realidade se confunde com a ilusão e tudo se anima ao sopro musical. Louco entre os loucos, Pascal Comelade agradece, no fim, a Robert Wyatt, Don van Vliet (um tal Captain Beefheart) e ao “Béu-Béu”. De que é que estávamos a falar? ****