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Paco de Lucia – “Zyryab”

Pop-Rock / Quarta-Feira, 17.04.1991


Paco de Lucia
Zyryab
LP / MC e CD, Philips, distri. Polygram



Ao lado de Manitas de Plata, Paco de Lucia faz papel de grande embaixador do flamenco no mundo. Ao contrário de Manitas ou do menos conhecido (mas não menos importante) Pepe Habichuela, conservadores na atitude e no estilo, Paco de Lucia investe em áreas que só indirectamente t~em a ver com a música cigana, como o jazzou a canção de tons mais ligeiros (quem nunca trauteou “solo quiero caminhar”?). Com John McLaughlin (com quem partilha um estilo particular de fraseado) e Al Di Meola, gravou um álbum exclusivamente dedicado às possibilidades da guitarra. “Zyryab” revela-se ecléctico no modo como aborda as típicas bulerias, tarantas, rumbas ou fandangos ciganos, através de uma liberdade formal que não receia juntar o discurso ortodoxo do flamenco às divagações jazz-rock ou a incursões mais marcadamente arabizantes, como acontece no título-tema “Zyryab”, valorizado ainda mais pela participação pianística de Chick Corea. ****

Legenda:
. Imperdoável
* Mau Mau
** Vá Lá
*** Simpático
**** Aprovado
***** Único

Concertos – “Mestres em Despique” – John McLaughlin, Paco de Lucia, Vicente Amigo e Al Di Meola

Pop Rock

23 JUNHO 1993

MESTRES EM DESPIQUE

John McLaughlin, Paco de Lucia, Vicente Amigo e Al Di Meola reatam em Portugal o projecto “lendas da guitarra”, primeiro em separado, depois numa “jam session” conjunta, num duelo onde não se prevê que haja vencidos.


Al Di Meola, John Mclaughlin and Paco de Lucia

John McLaughlin em Trio

Mestre místico. De incondicional da guitarra eléctrica, ao lado de Miles Davis, rendeu-se às maiores delicadezas da sua irmã acústica, sob a influência dos ensinamentos do guru Sri Chimnoy. Na Mahavishnu Orchestra, juntou as orações e a electricidade no monumento ao jazz rock que é “Birds of Fire”. Depois desligou a ficha, juntou-se a músicos indianos, cruzou as pernas e sentou-se no chão a tecer encantamentos com os Shakti, como “Handful of Beauty” e “Natural Elements”. Não têm conta as lições de guitarra que leccionou em disco. Decorem-se as seguintes: “Bitches Brew” (de Miles Davis), “Extrapolations”, “The Inner Mountain Flame”, “Birds of Fire”, “Electric Guitarists”. Em todas elas, John McLaughlin provou que a guitarra pode ser uma religião.

Paco de Lucia em sexteto

Mestre do flamenco. Duende do flamenco. Conseguiu juntar com êxito – e como se fosse a coisa mais natural deste mundo – a música cigana e o jazz. E talvez seja, de facto, o casamento mais natural deste mundo. Tocou já em Portugal, onde deixou atrás de si um rasto de fogo. Alia a fidelidade às técnicas de interpretação ciganas com um notável espírito de improvisador. Talentos que podem ser apreciados em registos discográficos abrangendo um leque de estilos diversificado, que vai do flamenco puro e da interpretação de Andres Segovia à recriação do célebre “Concerto de Aranjuez” e às improvisações jazzísticas partilhadas com McLaughlin e Di Meola, em “Friday Night in San Francisco” e “Passion, Grace & Fire”.

Vicente Amigo em quinteto

Mestre do flamenco mas mais novo. Como Paco de Lucia, não encara o flamenco como uma natureza morta, antes como um campo musical fértil de possibilidades de cruzamento com outras músicas. Vicente Amigo brilhou no ano passado em Sevilha, no célebre festival “lendas da guitarra”. A música cigana pode contar com ele para a transportar ao futuro. No nosso país, a televisão tem-lhe feito a desfeita de pôr os seus espectáculos em confronto directo com outros mais popularuchos. Inevitavelmente, ganham os popularuchos. A partir do dia 25, contudo, espera-se que Amigo passe a ser um vencedor.

Al Di Meola em trio

Mestre das fusões latinas. Começou por ser influenciado pelos Beatles, depois ouviu Miles Davis e não voltou a ser o mesmo, após o que ouviu Chick Corea e voltou de novo a não ser o mesmo. Optou pelo pianista (Corea, Miles é mais a trompete), que o deixou fazer parte dos Return to Forever. Além de ter participado no tal trio com John McLaughlin e Paco de Lucia, gravou uma série de álbuns onde nunca conseguiu mostrar ser tão bom compositor como os seus companheiros. “Casino”, “Splendid Hotel”, “Electric Rendez-vous” ou o acústico “Cielo e Terra” não passam de obras de fusão, competentes é certo, mas sem a centelha de génio que frequentemente atinge os seus amigos. O novo álbum “Heart of the Immigrants”, com a banda recente, World Sinfonia, não traz nada de novo, tendo pelo menos a virtude (para alguns…) de pretender dar um rosto moderno às sonoridades sud-americanas. Aquilo para que, de facto, tem mais jeito.

Dia 25,
CAMPO PEQUENO, 22H



Paco De Lucia – “Concierto De Aranjuez”

Pop Rock

29 JANEIRO 1992

PACO DE LUCIA
Concierto de Aranjuez

LP/CD, Philips, distri. Polygram

pl

Integrada nas comemorações do “Quinto Centenario del Descubrimiento de América – Encuentro de Dos Mundos”, a edição deste “Concierto” cumpre ainda uma promessa antiga de Paco de Lucia, um dos grandes intérpretes de guitarra flamenca da actualidade, ao lado de nomes como os de Manitas de Plata ou Pepe Habichuela, de gravar a maior obra composta por um dos seus reconhecidos mestres: Joaquín Rodrigo. Ao fulgor da improvisação e às aventuras de fusão com outras linguagens musicais, como acontecia no recente “Zyryab”, sobrepõe-se o rigor da pauta e as exigências da interpretação. “Concierto de Aranjuez” mostra um Paco de Lucia introvertido na forma como dialoga com as massas orquestrais (a cargo da orquestra de Cadaqués, com direcção de Edmon Colomer), no papel de solista “virtuose” que põe a sua arte ao serviço de uma inspiração que, sendo alheia, se inclui na tradição do flamenco, embora na sua vertente erudita, e por isso na sua própria sensibilidade. O lado 2 do disco é ocupado por “Iberia”, de Isaac Albéniz, interpretado pelo trio de guitarras de Paco de Lucia, José Bandera e Juan Manuel Cañizares.
Recomendado com algumas reservas aos que, no flamenco, apreciam sobretudo o fogo. Fogo cujas chamas este “concierto” de certa forma aprisiona e domestica. (7)

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