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Angra Do Budismo – Mentor Dos Ocaso Épico Regressa Mais Espiritual – “Farinha Maizena” (artigo de opinião)

25 de Fevereiro 2000


Mentor dos Ocaso Épico regressa mais espiritual

Farinha Maizena


Lembram-se de Farinha e dos Ocaso Épico? Nos anos 80, provocaram com a sua mistura de pop saloia e electrónica futurista. Pois o provocador farinha está de volta, com a mesma electrónica, agora já não tão futurista, desta vez mesclada de filosofia oriental, no novo projecto Angra do Budismo. Zen e energias cósmicas para cada um interpretar como quiser.



Depois do ocaso dos Ocaso Épico, juntamente com António Variações, um dos nomes que mais rastilhos de pólvora acendeu à pop nacional, Farinha entrou em letargia. Um período prolongado de doença afastou-o dos estúdios e dos palcos, mas agora o veterano provocador regressa imbuído de energia renovada e da vontade de vencer.
Angra do Budismo é o seu novo conceito, partilhado com Luís Bernardo, guitarra e voz, e um terceiro elemento, Manuel Machado, teclados e voz. Farinha encarrega-se das programações, guitarra e voz. O projecto nasceu há cerca de um ano. “O Luís é de um elemento astrológico com uma energia mãe da minha enquanto a minha energia é mãe da energia do Manuel. Existe aqui uma energia de apoio que acabou por gerar uma construção.” Neste ponto Farinha prontifica-se a mostrar os vários tratados de budismo que traz consigo. Percebe-se que a onda não é bem a mesma em que navegavam os Ocaso Épico.
Angra do Budismo joga nas associações. Com humor, afinal uma das características que não se ausentou da personalidade musical de Farinha. Luís Bernardo, no entanto, carrega na tecla do eruditismo, apontando o “estudo e o acompanhamento de ciências orientais como a macrobiótica ou as doutrinas zen de Lao-Tsé”. “Não como praticantes, mas como curiosos.” Farinha corrige de imediato o seu companheiro: “Mas já fizeste alguns exercícios, eu tenho feito bastantes, embora não tenha nenhum mestre e ache que um homem deva ter um. Pronto, não há um enquadramento em estruturas rígidas, mas apenas uma observação de longe.” “É o budismo como podia ser o taoismo”, explica Farinha, esclarecendo que o grupo estava para ser chamado “Portal” – o “portal informático”, o “portal da sabedoria”, com conotações fadistas o “portal da Severa” e o portal 57 porque ele é energia do sol 5 e eu sou metal 7”.
Postas as coisas nestes termos, tudo se torna mais claro. Há ainda o fogo de Kundalini presente nas letras, sobretudo num tema como “Dança de Kundalini”, em que são notórias algumas parecenças com os Sétima Legião, influência que Farinha, de resto, não renega. Como não se importa quando alguém chama a este tema uma “canção romântica”.
“Fugia de ti”, “Trambolhão”, “Trash city”, “Alguém não” e “Irreal” são outros dos temas dos Angra do Budismo, contidos numa demo que, embora ainda não na sua versão definitiva, constitui já “um cartão de visita” daquilo que o grupo pode e quer fazer. Já há propostas de pequenos editores, porque se trata de “uma música não apontada ao circuito comercial”.
Falta sentido de humor à canção nacional? “Há é falta de descontracção”, lança Luís Bernardo. Farinha faz questão de dizer que este projecto não se insere na estética do drum ‘n’ bass, que considera ter “uma origem muito próxima do Brasil”. No leitor do automóvel tem andado – “Vais ficar à toa!” – um disco dos Anjos. Ao lado de Nusrat Fateh Ali-Khan, dos Kraftwerk, Blasted Mechanism e Da Weasel. Luís Bernardo também ouve de tudo, neste momento mais os Thievery Corporation.
O que também não se perdeu foi aquele lado mais popular que já estava presente nos Ocaso Épico. “Música popular, mas completamente electrónica e mecânica. Os puristas tocam só com cavaquinho e os da pop têm vergonha de ir àquilo que é castiço, eventual motivo de vergonha.” Farinha, “dixit”. Com ele ninguém faz farinha.



Ocaso Épico – “Muito Obrigado” – Série: “Os Melhores De Sempre – Música Portuguesa”

Pop Rock

14 de Junho de 1995
Os melhores de sempre – música portuguesa

Ocaso Épico
Muito obrigado


oe

Como foi

Não é um objecto de fácil definição. “Muito Obrigado”, dos Ocaso Épico, ou será melhor dizer, de Carlos Cordeiro, ou Farinha, como era e continua a ser conhecido, desafiou, na altura em que foi editado, algumas ideias preconcebidas. Seja como for, Farinha, hoje com 37 anos e um emprego no Ministério da Justiça, distanciou-se do projecto. “Não me lembro do ano em que o disco saiu. Não me preocupo com o passado, mas sim com o presente.” Apesar de tudo, há uma história para contar.
“Muito Obrigado” “foi uma proposta feita pelo Mário guia, na altura o proprietário do Rock Rendez-Vous. Os Ocaso Épico tinham tocado lá, houve um ano em que foi o grupo que tocou lá mais vezes. Provavelmente ele ficou com uma boa impressão.” A génese do disco aconteceu “ocasionalmente”, num restaurante no Algueirão, ao pé de Sintra, local de residência de Farinha, onde ele e Mário Guia se encontraram e foi feita uma proposta concreta para a gravação.
“O disco foi sendo feito ao longo de quase um ano de gravações onde estive quase sempre sozinho em estúdio”, diz farinha. “Primeiro fizemos uma pré-produção em casa, eu e o Pedro Barrento. Baseados em algumas programações já existentes, gravámos vários temas. Outros foram feitos posteriormente.” O termo “fizemos” é algo subjectivo, uma vez que os Ocaso Épico foram sempre uma ideia saída da cabeça de Farinha, embora com a ocasional colaboração de outros músicos, nomeadamente de Pedro Barrento, que em “Muito Obrigado” se encarregou das operações rítmicas elaboradas no computador.
Tal não impediu que, do início, o Ocaso Épico fosse de facto um grupo, por onde passou gente que aí “fez escola”, como o Alberto Garcia, um baterista que tocou nos Mler Ife Dada, nos Rádio Macau e com Marco Paulo, Rui “Fingers”, Anabela Duarte, dos Mler Ife Dada, ou Manuel Machado, acordeonista dos Essa Entente, entre outros. Farinha admite que o Ocaso era o seu projecto pessoal e que os processos de criação que levaram à gravação do disco não terão sido os mais comuns. “Tenho as minhas próprias ideias. Normalmente sou o compositor de todos os temas do Ocaso Épico, com uma ou outra excepção, entre cerca de duas centenas de músicas feitas quer no Ocaso, quer já em outros projectos.” A diferença está em que, quando toca com outros, Farinha garante possuir “a capacidade de apanhar aquilo que está na imaginação deles”. “Quando estou a tocar com uma banda”, diz, “consigo captar, sou um receptor telepático – embora seja também emissor – do que se passa na cabeça dos outros.”
Entre as canções que constituem “Muito Obrigado”, há uma que se distancia das programações efectuadas em estúdio, “Da Beira Baixa à Estremadura”, que foi tocada ao vivo. Nos outros temas, ao longo das sessões de gravação, Farinha ia “acrescentando instrumentos e compondo ao mesmo tempo”. Enquanto Zé Nabo, um dos produtores, ia almoçar, Farinha ficava no estúdio a experimentar instrumentos que desconhecia, determinados modelos de sintetizadores e máquinas de ritmos.
Uma experimentação que, em termos de produto final, terá ficado aquém das expectativas do autor: “O disco teve uma produção de fraca qualidade. Foi produzido praticamente por mim, pelo Mário Guia e pelo Zé Nabo, só que eu nunca tinha entrado num estúdio, não tinha qualquer tipo de experiência, inclusive a equalização paramétrica na mesa de mistura, não pescava nada daquilo”.
Hoje, Farinha não tem dúvidas ao afirmar que “em casa”, com um gravador de quatro pistas, consegue obter um “som melhor” do que o da gravação de “Muito Obrigado”. Independentemente da melhor ou pior qualidade técnica da gravação, o que ressalta é o seu lado satírico e a aparente ausência de uma lógica alinhada pelos modelos de produção então em voga, o que motivou alguma incompreensão e falta de receptividade da parte da crítica. “Isto é assim, Portugal é um país de cultura emergentemente rural. Da opinião pública à crítica, a mentalidade vigente não estava, não está preparada para ir além da cultura. Existem três componentes, a cultura, a sabedoria e a intuição. Quando há cultura e intuição, há conhecimento. É possível que uma pessoa com pouca cultura perceba melhor, tenha mais sabedoria que uma pessoa culta. Este disco transmite uma mensagem não cultural, mas sim de sabedoria.”

Como é

Pode a linguagem populista combinar com a electrónica futurista? Pode o “kitsch” mais parolo dar as mãos à crítica lúcida e mordaz? Pode a Beira descer à “Extrema-dura” para se tornar na província da experimentação em Portugal? Em qualquer dos casos, a resposta é afirmativa, num álbum como “Muito Obrigado”, dos Ocaso Épico, ou de Farinha Master, se assim lhe quiserem chamar. “Muito Obrigado” é um manancial delirante de conceitos, por vezes contraditórios, que se chocam e misturam com sons que à época, em Portugal, acompanhavam a frieza “cold wave” e “afterpunk” ou desciam ao sol do Sul da música árabe. O misticismo, a atenção concentrada nos meios “artísticos “ da capital, onde a cocalinda substitui o licor Beirão, e na decadência de um império que já só parte em viagem nos copos de uma Sagres preta criam em “Muito Obrigado” um carrocel de anarquia no qual apenas a intuição e a “verve” humorística de Farinha conseguem ter mão. Como ele próprio admite, os Ocaso Épico eram na altura como que o negativo, a sombra negra dos Heróis do Mar. Enquanto estes cantavam o “amor”, a “paixão” e a “saudade”, Farinha cantava “a produção musical/ do triste saloio nacional/ nunca deixou de cheirar o cu ao capital”. Um apocalipse de trazer por casa.