Arquivo de etiquetas: Nuno Rebelo

Listas: Electrónica Portuguesa – 10 Discos Fundamentais

Sons

14 de Janeiro 2000


Electrónica Portuguesa


10 DISCOS FUNDAMENTAIS


NUNO CANAVARRO: Plux Quba-Música para 70 Serpentes (Ama Romanta/Moikai, 1988)
TÓ ZÉ FERREIRA: Música de Baixa Fidelidade (Ama Romanta, ed. em vinilo, 1988)
CARLOS MARIA TRINDADE & NUNO CANAVARRO: Mr. Wollogallu (União Lisboa, 1991)
TELECTU: Evil Metal (Área Total, 1992)
JOÃO PEDRO OLIVEIRA: Electronic and Computer Music (Numérica, 1993)
CARLOS ZÍNGARO: Musiques de Scène (Ananana, 1993)
NO NOISE REDUCTION: The Complete No Noise Reduction (Moneyland, 1995)
NUNO REBELO: M2 (Ananana, 1996)
VÍTOR JOAQUIM: Tales from Chãos (Ananana, 1997)
ZZZZZZZZZZZZZZZZZP!: Ficta 003 (Ananana, 1998)

Nuno Rebelo – “M2”

POP ROCK

9 de Outubro de 1996

NUNO REBELO
M2
(8)
Ed. e Distri. Ananana


nr

Se estivéssemos noutro país qualquer que não Portugal, “M2”, mesmo endereçado a uma minoria educada nos chamados experimentalismos, venderia um número confortável de exemplares, permitindo ao seu autor a prossecução de uma via musical autónoma, independentemente de esta se revelar mais ou menos “difícil” aos ouvidos profanos. Mas vivemos nesta santa terrinha e, por cá, as coisas não se passam assim. Chris Cutler já ouviu “M2” e teceu sobre ele os maiores elogios. Até que ponto, porém, é que o mercado nacional está pronto para receber objectos deste género? Porque “M2” merece ir tão longe quanto o soubermos aceitar.
Dividido em duas partes distintas, a primeira, “Sábado 2”, executada em tempo real, é a resposta musical a uma coreografia de Paulo Ribeiro, em que a acção se reparte entre as desconstruções da guitarra de Rebelo, na melhor tradição dos “Guitar Solos” de Fred Frith, e as deambulações do saxofone de Paulo Curado. Cruzamentos “Recommended”, falsas partidas e chegadas, a descoberta constante do improviso estruturado, “Sábado 2” faz o elogio da liberdade e do gozo de tocar. Referência obrigatória: Paulo Curado, pelas coordenadas estéticas em que o seu discurso se insere e pela naturalidade com que as põe em prática, ocupa hoje um lugar ao lado dos maiores no panorama das novas músicas da Europa.
“Minimal Show”, por outro lado, desenvolve algumas das vias iniciadas em “Sagração do Mês de Maio”, explorando em profundidade os processos composicionais em computador. Sem pôr de lado a vertente lúdica que caracteriza a sua aproximação ao acto musical no seu todo, é aqui que Nuno Rebelo encontra os seus brinquedos preferidos. Há balizas e pontes de contacto. Em “Um, dois” e “Três”, a sobreposição das vozes que repetem números em várias línguas diferentes constitui referência óbvia a “Numbers”, dos Kraftwerk, do álbum “Computer World”. Noutras ocasiões, os circuitos de Rebelo ocupam momentaneamente os mesmos lugares sonoros de um Elliott Sharp (de “Virtual Stance”) ou de Holger Hiller (na sobreposição barroca das samplagens). Mas “M2” é algo mais do que a simples soma das partes, escapando à frigidez esquemática e aos automatismos da “system music”, jogando Nuno Rebelo, dentro da sua lógica pessoal, na recriação dos timbres e na montagem de pormenores (sereias, cucos, mecanismos de relojoaria, “trompe l’oeil” vários) que se encaixam uns nos outros como uma construção de Lego. A descobrir e decifrar muitas vezes.



Artigo de Opinião – Nuno Rebelo – “‘M2’ Como Uma G3”

POP ROCK
25 de Setembro de 1996

Nuno Rebelo lança compacto com música para coreografias

“M2”, COMO UMA G3


nr

m2

Nuno Rebelo tem finalmente um novo álbum. Chama-se “M2” e é o segundo em toda a sua carreira, depois de a edição, em 1989, de “Sagração do Mês de Maio” sofrer um sem-número de aventuras e desventuras, passando ao lado de um êxito que, de todo, merecia. Mas, se este antigo elemento dos Street Kids, Mler Ife Dada e, mais recentemente, dos Polpoplot Pot não tem recebido os favores da indústria discográfica, o mesmo não se pode dizer da sua actividade no campo das “performances” musicais ao vivo, de que são exemplo a composição e interpretação “in loco” de bandas sonoras feitas “a posteriori” para obras do cinema mudo, como o “Nosferatu”, de Murnau, ou “Douro, Faina Fluvial”, de Manoel de Oliveira, com a Poliploc Orkeshtra/Ensemble.
“M2” inclui duas peças. A primeira tem por título “Sábado 2”, sendo composta para uma coreografia de Paulo Ribeiro estreada em Junho do ano passado. Música gravada e tocada em tempo real, com Nuno Rebelo na guitarra eléctrica, baixo, percussões acústicas e electrónicas e “alguns teclados, poucos” e Paulo Curado no saxofone. A segunda, “Minimal show”, foi composta para uma peça de teatro encenada por José Wallenstein e apresentada pela primeira vez no âmbito do Lisboa-94 no Teatro da Cornucópia. Ao contrário de “Sábado 2”, é, explica o autor, “música sequenciada” onde a electrónica se divide pelas programações de computador e a inclusão de “samples” de instrumentos gravados previamente por Rebelo, como trombone, violino ou clarinete, e de outros “roubados aqui e ali”.
A apresentação oficial de “M2” terá lugar hoje, a partir das 21h30, na Galeria Zé dos Bois, na Rua de São Paulo, 62, em Lisboa. “Primeiro pensava que era só para se beber uns copos e conversar com as pessoas.” Afinal vai ser algo mais. Pediram-lhe para tocar, na ocasião, ao vivo. Nuno Rebelo acedeu, concordando em “tocar um bocadinho”, que é como quem diz, fazer “improvisação total”, em conjunto com Paulo Curado, uma vez que as duas peças de “M2” “são impossíveis de tocar sozinho em palco”. O compacto tem o selo Ananana e está, para já, a “acertar nos sítios certos”. “O Paulo [Paulo Somsen, da Ananana] telefonou-me há dias a dizer que tinha recebido um fax do Chris Cutler a elogiar imenso o disco.” Para Nuno Rebelo, artista na acepção mais pura do termo, foi “um tiro no alvo”.