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Norma Waterson – “Bright Shiny Morning”

Y 2|FEVEREIRO|2001
escolhas|discos


NORMA WATERSON
Bright Shiny Morning
Topic, distri. Megamúsica
8|10



Depois de se passear por entre as estrelas (algumas delas cadentes, como Nick Drake e Freddy Mercury) no fabuloso compêndio de “covers”, “The Very Thought of you”, poucas hipóteses restavam à senhora Waterson se escapar a um movimento de refluxo. Mas se a maré baixou, recolhendo-se num álbum composto cem por cento por temas tradicionais, permaneceram a profundidade e a sabedoria que continuam a emanar desta voz sem idade que ainda arrisca a exposição do canto “a capella”, no tema “Game of all fours”. Acompanhada, como sempre, pela família, com o tom épico das baladas em que intervém o marido, Martin Carthy, a impor-se, a novidade de “Bright Shiny Morning” reside, sobretudo, nas novas combinações instrumentais proporcionadas pelas presenças dos convidados Mary MacMaster, da dupla escocesa Sileas, na harpa eletrificada, e Julian Goodacre, na gaita-de-foles, instrumentos pouco habituais na tradição rural inglesa. A rainha aí está de novo sentada no trono da folk que por direito lhe pertence.



Norma Waterson – “The Very Thought of You” + Lal Waterson & Oliver Knight – “A Bed of Roses”

Sons

23 de Julho 1999
WORLD


Waterson & Waterson, o génio em família

Norma Waterson
The Very Thought of You (10)
Hannibal, distri. MVM
Lal Waterson & Oliver Knight
A Bed of Roses (8)
Topic, distri. Megamúsica


lal

“The Very Thought of You” apresenta uma das vozes com mais profundidade e carregada de emoção da música popular inglesa. E não dizemos folk, porque Norma Waterson é, hoje, a voz de muitas músicas. A veterana cantora dos Watersons, formação vocal pioneira do movimento de revivalismo folk que eclodiu em Inglaterra nos anos 60, faz-se acompanhar neste álbum – dedicado à sua irmã, Lal Waterson, recentemente falecida – por dois membros do clã Carthy, o marido, Martin, e a filha, Eliza, e por dois Thompson, Richard, o ex-Fairport Convention, e Danny, o ex-Pentangle. E é, precisamente, na composição assinada pela irmã, “Reply to Joe Haines” – resposta a uma carta, considerada “infame” pela cantora, publicada no “Daily Mirror” pelo dito Haines, a propósito da morte, de sida, de Freddie Mercury –, que “The Very Thought of You” atinge um grau de intensidade emotiva e uma beleza quase insustentáveis. Um tema para a eternidade.
Na canção anterior (Norma juntou-as aos pares sobre um mesmo tema), “Love of my life”, com a assinatura do próprio ex-cantor dos Queen, Norma faz coincidir o passado e o presente, o amor e a tragédia, num registo influenciado pelo pessimismo caro a Richard Thompson, que aqui contribui com dois temas da sua autoria: “Josef Locke”, outro dos momentos de maior intensidade interpretativa do disco, e “Al Bowlly’s in heaven”, ainda sobre a temática da morte, neste caso de Fred Astaire. Loudon Wainwright II, Nick Drake (“River man”, outro clássico, transformado num tema de folk de câmara pelo violino da filha, Eliza Carthy) e John Martyn (com “Solid air”, folk-jazz ao mais alto nível), dois nomes cujas obras têm em comum mais do que se possa imaginar, e Clive Gregson contribuem também com composições para “The Very Thought of You”. Um álbum que vai do clássico “Over the rainbow”, do filme “O Feiticeiro de Oz”, aos dias da rádio e ao jazz que se ouvia na rádio (o título-tema), das baladas mergulhadas num tempo já desaparecido à própria suspensão da temporalidade.
Em “The Very Thought of You” Norma Waterson pegou em canções com história e atirou-as para os braços da eternidade. Não há muitas cantoras, no mundo inteiro, que consigam aliar a tradição e a modernidade da maneira como ela o faz. Depois da estreia, com o álbum homónimo, de 1996, Norma Waterson assina em “The Very Thought of You” um dos melhores discos do ano.
Disco do ano foi, em 1997, para este suplemento, “Once in a Blue Moon”, de Lal Waterson e Oliver Knight. À semelhança do que acontece com Norma, que se socorreu dos serviços da filha Eliza, em “The Very Thought of You”, também Lal gravou “A Bed of Roses” com a ajuda do filho, Oliver Knight, o que já se verificara aliás, no disco anterior da dupla. Em “A Bed of Roses” há mais folk e menos fantasmas à solta do que em “Once in a Blue Moon”. E um pedaço de fado (!), pelo bandolim de Jody Stecher, em “Columbine”. Compreende-se, mais do que nunca, ao escutar temas como “Bath time” ou “Long vacation”, a influência que a cantora inglesa exerceu em Marianne Faithfull. E, no lugar onde ambas se encontram agora, decerto que Lal e Nico se terão encontrado para trocar segredos e maldições.
Em Lal Waterson, na sua voz impregnada de histórias, quase todas elas tristes, habitava o desamparo e a solidão dos exilados. Mesmo quando a intrusão de uma guitarra eléctrica “progressiva” se faz sentir, como acontece em “Train to bay”, é impossível escutar “A Bed to Roses” sem sentir uma gota fria de inquietação. E deslizar por um abismo de recordações saídas dos recantos mais escuros da memória, cercados por uma coroa de flores como as da capa, tão geladas quanto a voz e a música de Lal Waterson, uma cantora que ficará para a história como das mais enigmáticas da folk britânica. O tema, já sem a sua voz, é o espaço que fica depois da morte. Um espaço vazio.



Norma Waterson – “Norma Waterson”

Pop Rock

26 de Junho de 1996
world

Cumprir a Norma

NORMA WATERSON
Norma Waterson (8)
Hannibal, distri. MVM


nw

Desde as primeiras notas de “Black muddy river”, o tema de abertura, escrito pelo Grateful Dead recentemente falecido, Jerry Garcia, que percebemos estar diante de um daqueles álbuns que hão-de perdurar por muitos e muitos anos. “Norma Waterson” é o primeiro disco a solo desta senhora cujo nome se confunde com a lenda na “folk” inglesa e que até agora se confinara a cantar num dos colectivos mais antigos da tradição desta ilha, os Watersons (dos quais também faz parte o seu marido Martin Carthy, outra instituição) ou, mais recentemente, em família, com Martin e a filha do casal, Eliza Carthy, no fabuloso “Waterson: Carthy”. O reportório, na maioria preenchido por versões de temas alheios, funciona de certa forma como um complemento da veia tradicionalista de “Waterson: Carthy”, com a particularidade de dar a conhecer o lado mais plástico e dramático, carregado de diversas “nuances” emocionais, da voz de Norma Waterson.
Há aqui uma sabedoria e uma experiência acumuladas que, juntas, resultam em pura magia. Como resulta igualmente perfeita a combinação da voz com a guitarra de Richard Thompson, num tema da autoria deste último, “God loves a drunk”, sombras e luz, o desespero habitual do ex-Fairport Convention transportado nas asas da ternura da cantora. Thompson é a presença instrumental mais forte que se faz sentir nesta viagem de Norma Waterson pela escrita de autores como Billy Bragg, Elvis Costello, Fred Fisher, Ben Harper, Lal Waterson e John B. Spencer com Graeme Taylor, um ex-Gryphon, além dos já citados Jerry Garcia e Thompson e de uma composição da própria cantora, “Hard times heart” e um tradicional. Martin Carthy, Eliza Carthy, Roger Swallow e Danny Thompson completam o grupo de músicos participantes.
Se Maddy Prior e June Tabor são hoje as mais legítimas representantes da sofisticação e do apuro técnico do canto inglês de raiz tradicional, Norma Waterson simboliza e incarna a expressividade e o sentimento, a voz esculpida pelos anos até ter adquirido um “bouquet” de sugestões e sentimentos que apenas a passagem do tempo consegue conferir. Os temas falam quase todos de experiências dolorosas, de cicatrizes deixadas pela vida, de becos e vielas do amor, mas a música flui com a tranquilidade de um rio antigo, desde as águas onduladas de “There ain’t no sweet man that’s worth the salt of my tears”, escrito em 1965 por Fred Fisher, numa evocação dos dias da rádio, até ao hino “Pleasure and pain”, de Ben Harper.
Uma descida iniciática às profundezas do canto e da memória, entronizada na miséria sublime de “God loves a drunk” (“Deus ama o bêbedo, o mais baixo dos homens/ como os cães vadios e os porcos na pocilga/ mas um bêbedo apenas tenta libertar-se do seu corpo/ e paira nos ares como uma águia voando alto no paraíso…”) mas também em oração, no tradicional “There is a fountain in Christ’s blood”. E se o calor e a doçura da voz de Norma podem induzir os mais incautos ao sonho, não nos iludamos: a guitarra de Richard Thompson nunca se esquece de nos entornar para cima as suas vagas delicadas de ácido e metal.