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Nick Cave & The Bad Seeds – “The Boatman’s Call”

Pop Rock

19 Fevereiro 1997

NICK CAVE & THE BAD SEEDS
The Boatman’s Call (7)
Mute, distri. BMG


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O canibal tornou-se vegetariano. A esta nova dieta corresponde a interiorização de um estatuto que, álbum após álbum, vem aconchegando o antigo activista dos Birthday Party no altar dos clássicos. “The Boatman’s Call” concede ainda o benefício da dúvida, do tipo “deve haver uma perversão escondida no meio de tanto amor e orações”. O vídeo extraído de “Murder Ballads”, em que Kylie Minogue faz de cadáver afogado e Cave veste a pele do assassino esteta, funcionava ainda na medida dessa ambiguidade. O novo álbum, porém, faz da religiosidade assumida a regra sem excepção, jamais permitindo que a faísca da revolta agite a calmaria da conversão. Leonard Cohen é cada vez mais o modelo a seguir, no estilo em que o líder dos Bad Seeds construía a suas baladas. Mas também Lou Reed (as notas iniciais de “There is a kingdom” remetem de imediato para “Perfect day”), Tom Waits, na imersão sonambúlica em ambientes fumarentos, e o Peter Hammill dos momentos mais calmos, no modo como Cave pronuncia o refrão, “Into my arms, O Lord”, de “Into my arms”. Blixa Bargeld, o desconstrutor-mor dos Einstuerzende Neubatuen, e Mick Harvey reduzem-se a anjos maus a quem cortaram as asas. O papel principal pertence neste disco a um homem só. Perdido no seu solilóquio com Deus e o diabo, em crise de meia-idade ou em crise de vocação, a fé não serve de moeda de troca num bar mal afamado. No álbum mais pessoal da sua discografia, Nick Cave afirma acreditar em Deus, não um Deus intervencionista, mas um Deus que se refugiou nas sombras de uma intimidade impotente. Porque se, como diz na letra de “People ain’t no good”, os homens não prestam, então não vale a pena mexer uma palha e o melhor é mesmo beber a garrafa de cicuta até à última gota e descansar sobre as ruínas. Nick Cave tornou-se no velho pescador contador de histórias que entretém as noites a ruminar memórias. À espera do chamamento que não vem.



Nick Cave & The Bad Seeds – “Let Love In”

Pop Rock

13 ABRIL 1994

O DIABO ATRÁS DA PORTA

NICK CAVE & THE BAD SEEDS
Let Love In

Mute, distri. BMG


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Em quatro dos dez novos temas de “Let Love in”, sem contar com o título, aparece a palavra “Amor”: “Do you love me”, “Loverman”, “I let love in” e “Do you love me, part 2”. Quer isto dizer que o ex-vocalista dos Birthday party se converteu ao rock sentimentalão e ao mesmo tempo se arrependeu dos seus pecados e excessos do passado?
Numa miniestrevista passada recentemente na MTV, Cave afirmava – não é possível saber com que dose de cinismo – que se fartara de lixar a cabeça alheias, que entrara na fase de reconversão e de mudança: em suma, que se tornara uma boa pessoa. É um facto que a fúria dos Birthday Party ou dos primeiros álbuns a solo já não é a mesma e que o australiano foi desenvolvendo ao longo dos anos outras formas de inocular o veneno. De “cão raivoso” passou progressivamente a uma espécie de “crooner” luciferino, que disfarça o niilismo demoníaco dos temas num embrulho de falso romantismo que só enganará os mais ingénuos.
Nick Cave é um estratega do cinismo. “Let love in” não esmaga pelo lado do horror e da cacofonia, como acontece por exemplo com a música de um dos seus amigos, Blixa Bargeld, dos berlinenses Einstuerzende Neubauten, e com Mick Harvey, elemento de primordial importância no som dos Bad Seeds. Pelo contrário, o cantor veste-se com os veludos, os cetins e néons do “showbiz”, ou então deixa-se envolver pelos fumos de cabaré, para do lado de dentro das falsas canções de amor nos atirar à cara a mesma desesperança de sempre.
O universo actual de Cave, passado – pelo menos na aparência – o fascínio pelo Brasil (embora o músico continue a não esconder a admiração por este país, onde se desloca com frequência), encontra-se com as “industrial cowboy songs” de Frank Tovey, aliás Fad Gadget, como “I let love in” e “Red right hand”, o desestruturalismo dos Neubauten, a ideologia de autoflagelação de Clint Ruin, aliás Foetus, aliás Jim Thirlwell e, em última instância, com Jim Morrison, dos Doors. Em “Jangling Jack”, o maligno revela o seu rosto real, numa torrente de ácido de guitarras saturadas, que, em paralelo com a rouquidão alucinada da voz, recorda de forma surpreendente as primeiras experiências empreendidas pelos “industriais” de Sheffield, Cabaret Voltaire, de “Mix-Up” e “Red Mecca”.
O diabo dá inequivocamente a cara e o discurso em “Loverman”, talvez o tema emblemático do que Cave tem hoje para nos dizer – “there’s a devil waiting outside your door” –, em que de novo os sinos (os sinos que aparecem logo na entrada, “Do you love me”, os mesmos sinos que assombraram Lou Reed, ainda os mesmos sinos subliminares que gelam “An índex of metals”, de Fripp e Eno, um dos temas, se não “o tema” que na “música popular” melhor deixa passar o vento da loucura e do demónio para o lado de cá) anunciam a tragédia. Arredada ficou também a religiosidade invertida – por muito que Cave cite num dos temas, “Nobody’s baby now”, a Bíblia e Jesus como fontes de salvação – que caracterizava uma álbum como “The Good Son”, incondicionalmente aberto à influência do “gospel”. O “bom filho” deixou cair a máscara mas não o enorme talento para perturbar o mostrar o lado oculto e escuro da vida “real”, pintada com as mesmas cores que David Lynch utilizou para colorir a “realidade” de superfície, de “Veludo Azul”.
O que faz afinal aquilo que é ao mesmo tempo a unidade e a pulverização dessa unidade, na música dos Bad Seeds? Que o explica é Mick Harvey, guitarrista e companheiro de longa data de Cave, com quem alinhou nos Birthday Party: “Os Bad Seeds dependem dos aspectos idiossincráticos de cada músico individualmente. Não são um grupo regular no sentido vulgar do termo. Tudo depende muito da maneira como Thomas Wydler toca bateria ou Blixa Bargeld a guitarra. A personalidade do grupo define a globalidade de som, em que cada um trabalha a sua própria participação nas canções. É o que nos distingue das outras bandas. O grupo desenvolve as suas diferenças e o modo como cada um de nós estimula e se inspira na sonoridade dos outros.”
Nada disto resultaria, como é evidente, se não existissem as palavras e a perspectiva, sempre focada, do vocalista. Juntos, palavras, ruídos e “rock and roll”, formam um “cocktail” que mistura doses proporcionais de mistificação, deformidade e espectáculo de variedades. Teatro da crueldade, onde, como profetizava Artaud, vida e representação de confundiam. Paradigma desta estética de dramatização é a faixa atrás citada, “Loverman”, na qual três partes distintas, correspondentes a outras tantas personalidades fictícias, se conglomeram num todo que confere a um termo como “soul music” significações iguais a dor, medo, tortura, desespero e morte.
Idêntica desocultação ocorre em “Thirsty dog”, dilúvio de guitarras e gritos enraivecidos, que recuam aos tempos épicos de fogo dos Birthday Party – conotação a que decerto não é alheio o regresso de Tony Cohen, antigo produtor dos Birthday aos comandos do actual grupo. Épico de outra maneira volta a ser “Ain’t gonna rain anymore”, em que Cave, por um momento, se deixa comover por algo parecido com o amor. Para voltar a vestir o hábito do monge em “Lay me low”, um espiritual tingido de sangue, em que efabula sobre o próprio funeral, sobre coros e um órgão da igreja dos danados. A calma assassina desce, a mesma calma assassina que desde nos momentos mais escuros da obra de Leonard Cohen ou John Cale, no tema final, segunda parte de “Do you love me”, ardil e mote daquele que é um dos grandes discos de Cave até ao presente. Quem ama afinal Nick Cave? Quem se atreve a enlaçar este filho do filho das trevas? (8)

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Nick Cave & The Bad Seeds – “Henry’s Dream”

Pop Rock

22 ABRIL 1992

PESADELOS DE UM COWBOY ESPIRITUAL

NICK CAVE & THE BAD SEEDS
Henry’s Dream

LP/CD, Mute, distri. Edisom

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Nick Cave agora é um artista. Nos Birthday Party era mais um arruaceiro, um espinho cravado no cérebro da pop. Mas depois Nick conheceu Berlim, explicou o fim do mundo a Wim Wenders – ele que tão bem sabe cantar o fim – e por fim realizou o seu próprio filme, “Ghosts of the Civil Dead”, e escreveu o seu próprio livro, “And the Ass saw the Angel”, ambos os títulos, sobretudo o último, significativos da visão muito especial que o autor tem do mundo.
Os artistas, a dada altura, costumam voltar-se para as coisas espirituais e Nick Cave não foi excepção. “Tender Prey” e “The Good Son” recuperam as orações murmuradas em “Kicking against the Pricks” que finalmente explodem em espirituais e “gospels” enegrecidos, com Cave a sair da cave e a levantar os olhos para a divindade, ou pelo menos para aquilo que ele julga ser a divindade.
“Henry’s Dream” continua a ser religioso, à sua maneira. É um álbum conceptual sobre o tema da “fuga”, um disco em que as orações se confundem com imprecações. No argumento de “Ghosts of the Civil Dead”, Nick Cave escreveu sobre um assassino profissional, Jack Henry Abbott. Henry, um “serial killer” que aqui vê transcritos os seus pesadelos em forma de canções.
Espiritualidade, para Nick Cave, é sinónimo de violência. Interior e exterior. Em “Henry’s Dream” assiste-se à deambulação infinita pelos pântanos da alma empreendida por um “cowboy” do inferno. O céu de Cave é, apesar de tudo, diferente do de Wenders. Tem a cor da carne e o sabor do sangue. Nick Cave procura refúgio no amor. Todos os fazem quando se sentem perdidos. “Straight to You” e “Jack the Ripper”, as duas canções incluídas no “single”, são canções de amor, no vórtice do holocausto: “Now that heaven has denied us its kingdom, and the seas are all drunk and howling, this is the time that I’ll come running straight to you, for I am captured”. “Jack the Ripper” agride de outro modo, entre o coro dos danados e descargas contínuas de electricidade: “I got a woman, she rules my house with an Iron fist.” O amor dói.
O universo de Nick Cave só encontra paralelo no de Clint Ruin. Mas enquanto este procura a salvação na autoflagelação, na tortura e, amiúde, na reclusão no quarto fechado da esquizofrenia, para o ex-Birthday Party, ainda é possível abrir portas que dão para o outro lado, seja ele qual for – o movimento é sempre em frente: “Oh sweet Jesus, there is no turning back”, canta Cave em “When I first came to town”. “Henry’s Dream” oscila entre as chicotadas de “Papa won’t leave you Henry” e a derrocada emocional de “Brother my cup is empty”; entre o momento de encantamento de “Christina the astonishing” e o caos celestial de “When I first came to town” a galope numa harmónica de “cowboy” na direcção do pôr-do-sol.
Do lado de lá, a noite, os seus fantasmas e os seus rituais, em “John Finn’s wife” – “the night was deep, and the night was dark and I (aqui não se percebe, ele come as palavras) qualquer coisa dance home on the edge of town/ some big ceremony is going down”. Bruce Springsteen numa “bad trip”, povoado por imagens de carnificina, tesouras, facas de carniceiro e um seio tatuado. Cavalgada de pesadelo, sempre em crescendo, através da escuridão, que finalmente atinge o auge e o firmamento num fabuloso clímax orquestral, antes do derradeiro apaziguamento em forma de “gospel” declamado. Em “Loom of the Land” Elvis sai de um casino em Las Vegas e encontra Johnny Nash numa “no man’s land” imaginária, do lado escuro da “country”. Nick Cave é o verdadeiro “cowboy” espiritual. (8)

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