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Ney Matogrosso – “As Aparências Enganam”

Pop Rock

21 JULHO 1993

Ney Matogrosso
As Aparências Enganam

CD Philips, distri. Polygram


nm

Em “As Aparências Enganam”, Ney Matogrosso assina um dos melhores álbuns de música brasileira deste ano. A voz do antigo elemento dos Secos e Molhados está melhor do que nunca. Os arranjos voam do tropicalismo para o intimismo, da dança para o solilóquio, com a agilidade da água. Com a firmeza de quem tem voz própria. Na companhia da banda Aquarela Carioca, Ney liberta-se na personagem de intérprete, de médium que veste as máscaras e as mil poses de autores alheios, no fundo o papel que melhor lhe assenta. E que autores: Milton Nascimento, Alçeu Valença, Caetano Veloso, João Ricardo, Chico Buarque e Jorge Bem, entre outros mestres da música popular brasileira.
Há grandes canções em “As Aparências Enganam”. Melhor dizendo, há apenas grandes canções. Fabulosas de fragilidade, de emoção, as interpretações de “O ciúme”, de Caetano, “Fruta boa”, de Milton, e “Pedra de rio”, de Luli e Lucinha. Como estrelas luzindo no firmamento povoado de frutas astrais de Cármen Miranda. “Notícias do Brasil”, também de Milton Nascimento, e “FM rebeldia”, de Alçeu Valença, são sol brasileiro, o morro e a favela. Onde “vive um povo que merece mais respeito, sabe? (…) tem gente boa espalhada por esse Brasil que ia fazer desse lugar um bom país”.
“Sangue latino”, repescado dos Secos e Molhados, é ponto de paragem do cantor em mares já explorados. O calor da dança tropical torra “Las muchachas de Copacabana”, de Chico Buarque, e “El Manisero”, nas ondas do reggae, cantado à maneira, em castelhano.
“Pavão misterioso” (”eles são muitos mas não podem voar”…) e “Cheiro de saudade”, segundo tema de Alçeu Valença incluído em “As Aparências Enganam”, são dois outros momentos em que a voz do cantor empresta acentuações inusitadas, seguidos de “Pedra do rio” (“meu barco voa sem vela, rio e navego sozinho”), esculpida nas graças da água e do amor, e “Vendedor de banana”, de Jorge Bem, colorido de amarelo-banana e dos pregões de mercado. Uma sequência irresistível de cirandas, com a voz de Ney caindo nos lugares exactos, desagua no título-tema que fecha o disco, onde as coisas se mostram afinal como são: “As aparências enganam aos que odeiam e aos que amam, aos que gelam e aos que inflamam, porque o amor e o ódio, o fogo e o elo se irmanam na fogueira das paixões.” Um disco apaixonado e apaixonante. (8)

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