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Neil Young & Crazy Horse – “Weld”

Pop Rock

 

30 OUTUBRO 1991

LP’S

 

COMBUSTÃO ESPONTÂNEA

 

NEIL YOUNG & CRAZY HORSE

Weld

2 x LP/CD, Reprise, distri. Warner Music

weld

Documento oficial da digressão “Ragged Glory/Don’t Spook the Horse”, “Weld” constitui desde já um marco nos álbuns ao vivo. Se “Times Fade away” (1973) cortava de forma violenta com o passado acústico de “After the Goldrush” e “Harvest”, e “Live Rust” (1979) encenava já essa violência desmedida que, a partir da segunda vida dos Crazy Horse, parece ter-se tornado a forma preferencial do músico responder aos ataques do mundo, “Weld” é a explosão de raiva definitiva, a hemorragia final da alma, o curto-circuito incendiário das guitarras e dos sentimentos em carne viva.

Mergulhando ainda mais fundo do que em “Ragged Glory”, Neil Young prossegue a introspecção demencial e a denúncia de uma sociedade doente que sempre se encarregou de lhe fazer a vida negra. O som, desde as primeiras espiras de “Hey hey, my my (into the black)”, é um murro no estômago, documentário abrasivo de uma “bad trip” que na descida aos infernos encontra a derradeira redenção.

Dizer que as guitarras de Neil Young e Frank Sampedro ou o baixo de Billy Talbot são musculados e poderosos, no ponto limite em que o calor se transforma em chama, é pouco. Do princípio ao fim do disco, assiste-se como que à agonia do rock’n’roll, coincidente com o massacre em que a si próprio se imola no fogo da paixão. Auto-sacrifício ou operação de extermínio, pouco importa, se o resultado assombra com o esplendor dos grandes incêndios. “Love to Burn” assim se chama um dos temas do disco, eis do que trata “Weld”, no paroxismo da vertigem, na ânsia desmedida de tudo querer conter num grito.

Ouve-se “Weld” com a sensação de se assistir ao cataclismo iminente, à erupção de um vulcão, ao colapso de qualquer coisa que não ousamos interiorizar. É nesse ponto de impossível equilíbrio que Neil Young tem vindo a construir a sua obra e a sua vida. A morte de amigos, juntamente com a fé cega nas virtualidades da música como forma exclusiva de exorcismo, conferem-lhe mais que o estatuto de sobrevivente, o de herói. Enquanto Dylan se debate entre as contradições de uma mensagem esvaziada de sentido e o absurdo de querer manter vivo um mito que deixou de o ser, Neil Young recusa olhar para o passado, preferindo, em vez disso, investir, de guitarra em punho, contra o futuro, deixando, pelo caminho, o presente devastado.

Não por acaso, o compositor de “Rust never Sleeps” (cuja sequela ao vivo, “Live Rust”, contribui com seis temas para “Weld”, devidamente actualizados e prontos a lançar na fogueira) retoma um tema de Dylan, “Blowin’ in the wind”, de forma a anular-lhe quaisquer conotações que ainda pudesse ter com a mística de Woodstock, substituindo a sua carga pacifista pela gangrena trazida pelos ventos corrosivos que hoje sopram pelo mundo. Neil Young destrói o passado, para, num segundo momento de refluxo, o evocar na sua vertente mais negra: a introdução instrumental de “Blowin’ in the wind” remete de imediato a memória para a desolação e a violência de Jimi Hendrix.

Como em “Star Spangled Banner”, a mesma hecatombe de “feedback”, o mesmo trucidar da guitarra à procura de sonoridades impossíveis e da pulsação primordial do rock. No limite dessa apoteose de ruído e da desagregação, faz sentido a inclusão, no formato de CD, de um tema adicional, “Arc”, 37 minutos de “‘feedback’ orquestral” que a folha promocional se encarrega de definir como “chiqueiro e distorção com alguns fragmentos vocais”.

Nunca, como em “Weld”, Neil Young esteve tão perto do Apocalipse. Os minutos finais do épico “Like a hurricane” resolvem-se num caos grandioso de ruído, manifestação epidérmica dessa dor imensa que, no final, obriga o músico a gritar: “No pain!” Para Neil Young, cada vez mais “Tonight’s the night”. Sabemos isso e continuamos a arrepiar-nos (10).

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