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Narada: A Era Do Vazio

Pop Rock

13 MAIO 1992

NARADA: A ERA DO VAZIO

Narada é o nome de uma editora de música “Nova Idade”, a partir de agora distribuída entre nós. A maior parte do catálogo dá sono, mas há um ou dois títulos que valem a pena.

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“New age”, “nova idade”, o paraíso, enfim, que nos acena. O conceito surgiu na América, em meados dos anos 80, com editoras como a Coda e Windham Hill. NO início, os artistas intervenientes eram rapaziada e raparigada como Rick Wakeman (dos Yes), Tom Newman (produtor de Mike Oldfield) ou Claire Hammill, veteranos de outras batalhas, em fase de reciclagem, à procura de relançamento e de novas formas de sustento. Ficaram para trás. Vingança: a “nova idade”, aprendida nos manuais de astrologia, abria-lhes as portas.
Houve quem aderisse. Era a promessa do “novo” que fazia luzir mil olhinhos cansados das violências e desacatos do rock, traduzida numa música bonitinha, inofensiva, ideal para “relaxar” e “fazer sonhar”, sobretudo os executivos para quem a coca acabou por não se revelar a panaceia universal.
A indústria chamou “adult alternative music” à coisa. Muitos, por comodismo, deixaram-se cair no logro. É pena, porque de facto há uma nova idade que desponta. Assim, pela via da normalização e da facilidade, “slogans” como “não destruam a floresta amazónica” têm a força de um “não comam chocolate porque faz mal ao fígado”.
A Narada – que passou a ter distribuição nacional através da discoteca Roma – é mais uma entre dezenas de editoras “new age” (como a Private Music, Higher Octave, Miramar, Silver Wave, Soundings of the Planet, Sonic Atmospheres, Golden Gate, Astromusic, e outras tantas manifestações de “kitsch” cósmico, onde não cabe a Hearts of Space, que mistura um bocado as coisas e inclui no seu catálogo obras de Robert Rich ou Steve Roach, que pouco ou nada têm a ver com a restante mediocridade), com a diferença de, sabe-se lá porque misteriosas conjunções astrais, ter vendido no ano passado mais que a concorrência.

Passagem indolor

No seio da Narada, os discos dividem-se em três categorias principais: Narada Equinox, para as “fusões de influências variadas, pop, rock, jazz, étnica e folk incluídas”; Narada Lótus para a “música acústica cuidadosamente embalada”; e Narada Mystique para a “nova música de raiz electrónica”.
Os artistas têm nomes estranhos e vagamente apropriados para o género: David Arkenstone, Richard Souther, Ralf Illenberger, Trapezoid e Kostia. Os CD apresentam capas que retratam paisagens idílicas, de aspecto gráfico cuidado, sem esquecer os “booklets” sofisticados repletos de gravuras, simbologia avulsa e longos tratados sobre o vazio.
Os títulos – “Natural States”, “Indian Summer”, “Desert Vision”, “Moon Run”, “White Light”, “New Land”, “Heartsounds”, “After the Rain”, “Valley in the Clouds” – são portentos de imaginação.
E a música? Ouviram-se vários discos: “Panorama” de Wayne Gratz, “Natural States” e “Return to the Heart” de David Lanz, “Dorian’s Legacy” de Spencer Brewer, o inenarrável dino-meirismo de “Michael’s Music”, de Michael Jones; e dois melhorzitos, talvez porque menos preocupados em soar “new age”: “In the Garden”, de Eric Tingstad e Nancy Rumbel, obra conceptual sobre “jardins”, reais e como metáfora, e “A Childhood Remembered”, em que vários artistas da editora dão uma mãozinha e efabulam sobre a infância perdida. O piano é rei, acolitado pela electrónica, instrumentos de orquestra e uma ou outra concessão ao “étnico”.
Para todos quantos gostam de Richard Clayderman e hesitam em dar o passo em frente, receosos de arriscar, não hesitem e ouçam os discos: a passagem é absolutamente indolor.

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