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Naked City – “Torture Garden”

Pop Rock

 

10 JULHO 1991

 

CADA VEZ MAIS RÁPIDO

 

NAKED CITY

Torture Garden

LP, Earache, distri. Anónima

Torture+Garden+o92323

Mais rápido, mais curto, mais forte parece ser o lema do saxofonista delirante John Zorn, bem acolitado nos Naked City, por Fred Frith, imperturbável, no baixo, Wayne Horvitz, nos teclados, Bill Frisell, guitarra, e Joey Baron, bateria – a mesma formação que nos visitou no ano passado, com regresso marcado já para amanhã, na Aula Magna da Universidade de Lisboa. De John Zorn, cérebro e grito do projecto, já se sabia o gosto pelo confronto de extremos, pela dialéctica de opostos, resolvida (ou não) num discurso delirante, em que todos os géneros musicais disponíveis valem como diferentes células de um tecido heteróclito, cuja essência é a própria diversidade.

Nos Naked City, a principal diferença em relação a obras como “The Big Gundown”, “Spillane” ou o fabuloso tema incluído na homenagem “Godard, ça vous chante?” reside no factor “compressão”. Enquanto que nos títulos citados a sequência alucinada (e aparentemente aleatória) dos diversos estilos de desenvolve de forma, digamos, natural, ou, pelo menos, liberta dos imperativos temporais (as faixas podiam ocupar um lado inteiro de um álbum), nos Naked City tudo se comprime e sintetiza num instante. Em “Torture Garden”, apenas duas faixas excedem a “eternidade” dos 60 segundos.

Referências óbvias, o “thrash metal”, o “hard core”, o “speed metal”, e por aí fora, como se Zorn tivesse regredido às pulsões primárias do “Heavy”, não chegam para justificar esta apetência pelo vórtice e a ânsia de chegar o mais rapidamente possível a lado nenhum. Passando ao lado da “gritaria”, tornada esteticamente respeitável, do “free jazz”, onde obviamente o saxofonista se sente mais do que à vontade, convirá talvez procurar as raízes do estertor em razões de ordem sexual.

Com efeito, é mais do que evidente o carácter “orgásmico” da música do quinteto. Como tudo se resolve numa questão de segundos, será lícito encarar cada faixa como uma ejaculação precoce, uma “igneous ejaculation”, referida num dos títulos. O disco divide-se num lado “sado” e noutro “maso”. As gravuras da capa (da autoria de Maruo Suehiro), tão atraentes quanto repelentes, também não enganam. Trata-se enfim de uma sucessão de explosões libertadoras de energia e fogo concentrados em que cada “canção”, paradoxalmente, funciona como um buraco negro que tudo suga à sua volta, neste caso as músicas todas que se julgavam a salvo: o jazz, o rock, o cabaré, a country, os blues, a electrónica, a música erudita e outras de que não me lembro agora, reduzidas à vacuidade e ao papel de simples “carne para canhão”.

O limite desta carnificina é, como não podia deixar de ser, a morte, como aliás o próprio Zorn fez questão de salientar, em entrevista concedida ao PÚBLICO, quando da sua primeira visita ao nosso país. A mesma morte, inevitável e desejada pelos dois amantes do “Império dos Sentidos”, de Oshima, esgotados os jogos sexuais sadomasoquistas (houve que lhe chamasse amorosos, sem perceber nada do que é o amor…), perpetuadores de um movimento infernal que, na vertigem e na repetição, se perde na ausência de sentido. Dicotomia prazer/morte bem expressa de resto no próprio título, a fazer lembrar o “Jardim dos Suplícios”, de Octave Mirbeau. Tudo isto partindo do princípio de que John Zorn e os companheiros não estão, pura e simplesmente, a gozar com o pagode, só para se deliciarem com o “perfume of a critic’s burning flesh”… ****

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Naked City – concerto em Portugal

Pop Rock

27 MAIO 1992
SÓ CONCERTOS – JULHO

Zorn

NAKED CITY – Segunda vez em Portugal. A mesma formação do ano passado: John Zorn (saxofone esquizóide, gritos e apitos), Fred Frith (baixo confortável), Wayne Horvitz (teclados, bits e bites), Bill Frisell (guitarra planante ou arranhada, é conforme), Joey Baron (bateria circunspecta). Data única confirmada: 10 de Julho, em Lisboa, na Aula Magna. Para fazer esquecer o barracão das traseiras do Fórum, capaz de tornar lixo o melhor som, como foi o caso. Organização de novo a cargo dos Concertos de Portugal. Os preços, por confirmar, devem rondar os 2500 escudos. Nas Picoas, foi um pouco como ir ao circo. As bocas abriram-se muito de espanto, perante a velocidade estonteante dos executantes. Sobretudo as daqueles desconhecedores de obras capitais do saxofonista, como “The Big Gundown” ou “Spillane” (em que a rapidez não apagava os pontos intermediários da viagem, ou então é o crítico que está a ficar senil) ou, no caso de Frith, os geniais “Gravity” e “Speechless”, sem esquecer a importância das obras a solo de Horvitz e Frisell. Desta vez, como será? Aparentemente, ainda mais rápido. “Torture Garden”, o novo álbum dos Naked City, impressiona como o estalo de um raio. As faixas raramente alcançam a eternidade dos sessenta segundos. Os ouvidos têm de ser rápidos para acompanharem a coisa, a riqueza do pormenor, as “nuances” microscópicas, às dezenas, espalhadas por cada milésimo de segundo. Houve que ousasse aplicar-lhe o termo “trash”. Talvez por não se ter apercebido da subtileza, quase sinfónica, de uma música somente perceptível e saboreável em profundidade a uma rotação de disco por segundo. Os cinco intérpretes, não se duvide, são fabulosos. Independentemente de conseguirem ou não alguma vez condensar a história completa da música numa única espira. Enquanto não o conseguem, vale a pena apreciar as tentativas.

Naked City – “Naked City” (1989), 320kbps, aqui