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Vários – “Um Guia Seleccionado Para A Música De Quatro Décadas Que Se Reeditou Em 90 RAROS, INÉDITOS e REEDITADOS” – Fernando Magalhães e Luís Maio

Pop-Rock 09.01.1991


Um Guia Seleccionado Para A Música De Quatro Décadas Que Se Reeditou Em 90
RAROS, INÉDITOS e REEDITADOS
Fernando Magalhães e Luís Maio


Depois das glórias dos anos 50 e 60, foi a vez de o sumo da década de 70 e da primeira metade da de 80 alimentar em 90 a indústria dos fundos de catálogo. Essa orientação de mercado parece, contudo, não corresponder a alguma nostalgia instantânea pelo que acabou ou ainda está a passar – e muitas das compilações em causa integram e foram lançadas em simultâneo com novos singles. Houve sim uma espécie de adaptação ao mercado da música do sistema de montagem em série com variações mínimas de pormenor, corrente por exemplo no ramo automóvel. Prova disso, outra tendência dominante foi voltar a reeditar tudo o que ainda há pouco se reeditara, mas em diferentes embrulhos sob o lema das retrospectivas definitivas, em luxuosas caixas de CD, com aliciantes suplementares de títulos inéditos, gravações raras e “takes” alternativos. Importa também notar que, se o fluxo de reedições no resto da Europa foi em 90 tão grande, ou nalguns meses superior ao das edições de originais, as companhias portuguesas não parecem ter compreendido as potencialidades desse mercado (em contraste com algumas lojas de importação). Isso mesmo se poderá constatar neste guia pela ausência maioritária de representantes locais para tais reedições.

A divisão do guia por décadas é estritamente operatória

ANOS 50

THE EVERLY BROTHERS
Perfect Harmony (Knight Evy)

Todos os hits dos famosos manos, desde a estreia nos tops em 57 com “Bye Bye Love”, até à ligação com os Beach Boys para “Don´t Worry Baby”. Parce que sem eles os Simon & Garfunkel nunca teriam passado de meninos de coro.

GENE VINCENT
Boxed Set (Capitol)




Uma das grandes lendas mortas do rock ‘n’ rol, o preferido dos inadaptados, o eleito dos clã motorizados. “Be Bop A Lula” e tudo o resto reempacotado em CD para velhos adolescentes de alma rebelde sob o uniforme de executivos.

JOHNNIE RAY
Cry (Bear Family)

Celebrado como o primeiro “crooner” do rock ‘n’ rol, professor de Elvis nessa matéria, Ray parece não ter tido tanta felicidade na escolha do seu reportório de coberturas de negros, ou pelo menos não lhes comunicou tanto carisma em estúdio.

LITTLE RICHARDS
His Greatest Recordings (Ace)




Duas dúzias de pérolas do negro que assustou toda uma geração de pais americanos e, antes de se converter ao divino, inventou o vocábulo mais significativo da língua inglesa do pós-guerra, “Awopbopaloobopalopbambooom”.

THE SHIRELLES
The Collection (Castle)

Vinte e quatro lembranças queridas, ou tantos hits do tempo em que as Shirelles introduziram um modelo de singela “coqueterie” (para sempre?) no vocabulário do rock ‘n’ rol.

SCREAMIN’ JAY HAWKINS
Voodoo Jive (Rhino)

Aproveitando a reabilitação como gerente de hotel no “Comboio Mistério” de Jim Jarmusch, o pioneiro do rock ‘n’ rol foi recuperado nesta compilação das peças essenciais do seu show surrealista. Mesmo hoje, parece impossível que alguém pudesse cantar em semelhante grau de desarranjo.

ANOS 60

BEACH BOYS
“Pet Sounds”, “Surfin’ Safari” / “Surfin’ USA”, “Surfer Girl” / “Shut Down, Vol. 2”, “Little Deuce Coupe” / All Summer Long”, “Todo” / “Summer Days (and Summer Nights)”, “Summer Dreams” (Capitol, distri. EMI-VC)




Até “Pet Sounds”, os Beach Boys foram os meninos de ouro, queridos na Costa Oeste e, mais tarde, no resto dos Estados Unidos. Meninos da praia, reis do “surf” e das intricadas harmonias vocais, das raparigas de sardas e rabo-de-cavalo e dos descapotáveis eram a coqueluche das “garage band” da época. Brian Wilson, o génio da família, queria mais. “Rubber Soul”, dos Beatles, espicaçou-lhe o orgulho e a veia criativa. Decidiu que tinha de fazer melhor e há quem diga que o conseguiu. Com “Pet Sounds”, por muitos considerado um dos melhores álbuns de sempre da música popular. Um naipe de fabulosas canções e uma revolucionária utilização das técnicas de estúdio, tornam o disco incontornável. Depois foram os próprios Beatles a querer ainda mais além – “Sergeant Peppers” seria o disco e a lenda.
Cada uma das actuais reedições inclui quatro ou cinco faixas extra – as habituais versões alternativas ou simples experiências de estúdio. Nos textos das capas, Brian Wilson conta parte da história e explica como foi. “Summer Dreams” é uma colectânea que inclui a maior parte dos temas famosos da banda. “Good Vibrations”. Para sempre.

BEE GEES
The Very Best (Polydor)

or aqui se vê que eram melhores imitadores dos Beatles que divas da “febre” disco dance.

THE BYRDS
The Byrds (CBS)




Caixa de quatro CD, contendo a maioria dos temas que cobriram de glória a banda americana percursora do “psychedelic rock” de tendências rurais. Guitarras cristalinas que fizeram escola (frequentada entre muitos, pelos R.E.M.) e vozes que serviam excelentes melodias funcionam como máquinas do tempo que nos leva direitinhos à época das grandes explorações de estúdio e ideologias a condizer. A caixa contém novas misturas e versões alternativas de temas antigas, interpretações ao vivo de “Mr. Tambourine Man” e “Turn! Turn! Turn!”, bem como quatro temas extraídos de um concerto recente em que de novo se juntaram Roger McGuinn, David Crosby e Chris Hillman, “Younger Than Yesterday”, “The Notorious Byrd Brothers”, “Sweethearts Of The Rodeo”, momentos mágicos de uma era (aparentemente) dourada. Canções, pois claro, a “Eight Miles High”, vibrando para sempre no éter estelar.

DONOVAN
The Collection, Donovan Rising (See For Miles)




Parece mentira, mas é verdade: O homem da voz doce e tremelicante ressuscitou das profundezas de “Atlantis”, mais gordo, mas cósmico e florido como nunca. Para além da colectânez e do álbum ao vivo, lançou ainda este ano o novo “One Night In Time”. Os psicadélicos devem-lhe alguma coisa, talvez as flores. Gravou uma obra-prima que poucos conhecem – o duplo “HMS Donovan”, tão belo e absurdo como Alice no país das maravilhas. Chegou a ser rival de Dylan. Hoje os Butthole Surfers homenageiam-no com a sua interpretação de “Hurdy Gurdy Man”. Homenageiam-no é uma forma de dizer…

ERIC CLAPTON
Clapton Conversation (London Wavelenght)

Depois desta caixa de três discos com Eric Clapton a botar discurso na rádio, porque não meia dúzia de CD da celebridade a cantarolar no duche?

HERMAN’S HERMITS
The EP Collection (See For Miles)

Odiados nos anos 60 pelas elites como campeões da patetice, os Hermits são agora reabilitados a título de porta-vozes de eleição da inocência dos anos 60, numa compilação que alterna os hits imediatos com títulos que, apesar de não terem conhecido os favores da altura, por isso mesmo resistiram melhor ao tempo.

JIMI HENDRIX
Cornerstones, 1967-1970 (Polydor)

Quatro temas por ano. A ordem e simetria são muito bonitas. Greenaway procederia assim. O guitarrista era menos ordenado, o génio explodia-lhe da alma até à guitarra, em chamas. Hendrix não se compadece com cronologias. Pertence à eternidade. “Hey Joe, Are You experienced?” Ao pé dele somos todos meninos.

THE KINKS
“Kinks”, “Kinda Kinks”, “The Kink Controversy”, “Face To Face”, “Something Else By The Kinks”, “Live At The Kelvin Hall”, “Are The Village Green Presrvation Society”, “Arthur Or The Decline And Fall Of The British Empire”, “Lola Versus The Power Man And The Moneyground, pt. One”, banda sonora de “Percy”. (Castle)

Inglaterra, nevoeiro, chá das cinco, bosques verdes, Londres, Big Bem, Picadilly Circus, Ray Davies, Dave Davies, os Kinks. Sobretudo Ray Davies, o “dandy” preocupado em cantar o declínio do império. As reedições em CD reproduzem as capas originais e abrangem toda a obra fundamental da banda londrina. “Arthur” não apanhou o comboio das óperas rock, arrastado pela velocidade de “Tommy”, dos rivais “Who”. Quase tudo são hits que fizeram uma época e que assobiaremos para sempre no coração. “You Really Got Me”, “Sunny Afternoon”, “Waterloo Sunset”, “Death Of A Clown”, “Victoria”, “Shangri-La”. Roupas e vozes muito coloridas. Londres parecia então um arco íris.

RIGHTEOUS BROTHERS
Unchained Melody (Verve)

Já não se façam canções românticas deste classicismo. Se se fizessem, por que razão haveria um filme tão chunga quanto “Ghost” de ressuscitar um tema com 25 anos para os primeiros postos de vendas dos tops mundiais?
Rolling Stones

ROLLING STONES
Hot Rocks, More Hot Rocks (London, distri. Polygram)

A pretexto dos Stones 1990, a reedição dos seus êxitos no catálogo London. Passa sem muita discussão que aqui se encontra tudo ou quase tudo o que interessa nos Stones, e teria sido menos cansativo e incomparavelmente mais elegante editarem só estas colectâneas no lugar de “Steel Wheels”.

STEVE MILLER BAND
Best Of 68-73 (Capitol)

Tem tudo a ver com a recuperação de “The Joker” no recente anúncio da Levi’s. Mais ou menos o mesmo que a prévia “Anthology” sob outra ordem.

SMALL FACES
The Ultimate Collection (castle), The Singles A’s & B’s (See For Miles)




Se, na altura da explosão mod inglesa, os Who foram os que mais fizeram negócio, os Small Faces devem ter sido os mais originais e dinâmicos, extrapolando com classe as coordenadas soul e r&b para um contexto branco. Estas colectâneas são provas indiscutíveis.

TIM BUCKLEY
“Dream Letter, Live In London 1968”

Duplo CD contendo temas inéditos do autor de “Goodbye and Hello”, “Starsailor” e “Look At The Fool”. 1968 foi o ano em que se apresentou pela primeira vez ao público londrino. Uma voz, guitarra acústica, baixo e vibrafone (absolutamente encantatória a introdução de “Hallucinations”) chegaram para criar uma atmosfera mágica, intimista e irrepetível. Tim Buckley nunca parava de cantar, mesmo no intervalo entre duas canções. Como se sabe, só a morte o impediu de continuar.

VAN MORRISON
The Best Of (Polydor, distri. Polygram)
É quase um crime reduzir a obra discográfica do irlandês a escassas duas dezenas de títulos. A boa desculpa desta compilação é serem os favoritos do próprio artista na altura da resenha.

ANOS 70

BUZZCOCKS
The Peel Sessions Album (Strange Fruit, distri. Anónima)

Oportunidade para recordar Pete Shelley, acreditado como o poeta oficial do punk e um dos ídolos de Morrissey, nas gravações para o programa de John Peel, em Setembro de 1977, no zénite da sua eloquência desesperada.

CHIC
Megachic (Atlantic)

Depois das remisturas que lançaram o revivalismo “Chic”, os originais, ou seja, aquilo por que os Chic hoje valem ainda a pena serem recordados.

DAVID BOWIE
Changes Bowie, Space Oddity, The Man Who Sold The World, Hunky Dory, Aladin Sane, Pin Ups, Diamond Dogs (Emi)

Primeiras peças do grande teatro Bowie, acrescidas em CD, de temas bónus – novas misturas, “takes” de estúdio, brincadeiras. Claro que se trata de álbuns todos eles fundamentais, como fundamental é a totalidade da sua obra até “Scary Monsters / Super Creeps”. Daí para a frente o “Thin White Duke” trocou o teatro pelo cinema e os resultados são um pouco para esquecer, não havendo “Tin Machine” que lhe valha. Antes era diferente. Era sempre diferente. De álbum para álbum. De máscara para máscara. De comum entre “Space Oddity” e “Diamond Dogs” existe apenas essa extraordinária capacidade de se metamorfosear e a facilidade com que produzia fabulosas experiências musicais, sempre à frente do seu tempo. Indispensável. Toca a trocar os discos por CD!

THE ENID
Touch Me, Six Pieces, The Spell, Final Noise!

O melhor de uma dessas bandas sinfónicas que o punk sepultou, agora ressuscitada em CD como pioneiros da “nova idade”.

ISAAC HAYES
Black Moses (Stax)

O épico de 1971 reeditado num CD duplo para consolo dos iluminados da época e educação dos actuais aprendizes do funk filosófico. Apoteose acabada de um dos maiores profetas da música negra deste século.

THE ISLEY BROTHERS
Forever Gold (Epic)

Ainda não foi a reedição integral destas glórias da fusão soul/rock dos anos 70, que hoje se estima mais estimulante que na altura, mas do melhor nos seus primeiros quatro álbuns no selo próprio T-Neck.

JOHN LENNON & YOKO ONO
The Interview, (BBC) The Ultimate Lennon Box Set (Parlophone)




Duas horas de conversa entre John e o jornalista Andy Peebles, gravada para a Radio One, com a japonesa a interromper de vez em quando. As ideias, a generosidade e ingenuidade de um visionário que acreditou até ao fim que o mundo podia ser melhor. Quanto à caixa são os discos pós Beatles que já toda a gente conhece nu embrulho luxuoso para revigorar o apetite.

JONATHAN RICHMAN AND THE MODERN LOVERS
Great Recordings (Essencial)

Jonathan Richman, o tipo de Boston que à saída da Factory de Andy Warhol tropeçou num buraco negro e foi dar às filmagens de um secreto re-make de “O Feiticeiro de Oz”, retratado nos seus momentos de mais brilhante alucinação.

KATE BUSH
This Woman’s Work (Emi)

O trabalho todo – nove álbuns que incluem os seis discos de originais até agora gravados em estúdio, mais 31 lados B de singles, uma faixa extra retirada da colectânea “the Whole Story” e dois temas em francês, “Ne T’En Fuis Pas” e “Un Baiser d’Enfant”, num total de noventa e oito canções. Chega e sobeja para nos arrepiar.

KEVIN AYERS, JOHN CALE, ENO, NICO
June 1, 1874 (Island)




Imemorial reunião de quatro das personalidades mais bizarras da pop. Hoje, Nico, “deusa da Lua”, brilha na escuridão do firmamento. Ayers deixou os copos, deixando também para trás a genialidade dos cinco primeiros álbuns, trocada pelo sol de Maiorca. Cale continua a ser aquilo que sempre foi: um bom compositor, com esporádicos lampejos de génio. Eno forçou a que se inventassem novos sistemas de referência – sozinho, vai redescobrindo o silêncio e inventando novos universos. Há 16 anos provavam que a loucura pode ser partilhada, inflamados no vulcão de “Baby’s On Fire”.

KEVIN AYERS
The Collection (See For Miles)

O menino prodígio dos Soft Machine, que renunciou à alta-roda dos tops para cantar os prazeres e as amáveis alucinações da vida ao sol mediterrânico, em mais uma recapitulação que evita os delírios surrealistas em favor das baladas acessíveis e suaves.

LED ZEPPELIN
Remasters, Led Zeppelin (Atlantic)

No primeiro caso trata-se de três discos, ou dois CD, preparados e tratados em estúdio por Jimmy Page, numa operação de cosmética destinada a valorizar o material passado para o “compacto”. No segundo, os números passam para o dobro: Seis discos, quatro CD. 54 temas que incluem os bónus “Travelling Riverside Blues” e “White Summer / Black Mountain Side”, gravados em 1969 numa sessão para a BBC, nova versão do clássico da percussão “Moby Dick” e “Hey, Hey What Can I Do”, originalmente o lado B de “Immigrant Song”.

MADNESS
One Step Beyond; Absolutely; The Rise & Fall (Virgin)

Melhor banda “new wave” com humor britânico, recordada numa edição limitada de três “Picture discs”, talvez demasiado composta para recheio tão achicalhado.

MARC BOLAN & T. REX
My People Were Fair And Had Sky In Their Hair… Prophets, Seers And Sages, Unicorn/Beard Of Stars, Electric Warrior”, Bolan Boogie, The Slider, Tanx, Zinc Alloy And The Hidden Riders Of Tomorrow, Bolan’s Zip Gun, Futuristic Dragon, “Dandy In The Underworld, The Collection. (Castle)




Era uma espécie de David Bowie a uma escala menor. Mestre do “glamour” e da poesia “naif”, Marc Bolan era o Merlin dos adolescentes, cobrindo de lantejoulas e melodias pop um universo de fábula. Tyranossaurus Rex, assim se chamava o duo inicial – guitarra acústica, bongós e uma voz de encantar. Depois foi a electricidade e o rock em hits como “Hot Love”, “Get It On” e “Telegram Sam”. Infelizmente as letras dos álbuns da época “mística”, não constam nos CD. Também “T. Rex”, álbum de transição para a fase eléctrica não teve direitos de reedição. Deste disco apenas quatro faixas aparecem nas colectâneas “Bolan’s Boogie” e “The Collection”. Já não há flores na cabeça das pessoas.

MONTY PYTON
Monty Pyton Sings (Virgin)

Mais que larachas cantadas, canções verdadeiras que fazem rir, a prova dos nove dos Monty Python no terreno do “vaudeville”.

NICK DRAKE
Five Leaves Left, Brayter Layter, Pink Moon, Heaven In A Wild Flower (Island)

Obra completa do poeta da melancolia. A música de Drake cai na alma como folhas no Outono. Trsitemente. À luz da lua. Morreu muito novo, depois de caminhar pela loucura em câmara lenta. Passou despercebido na altura em que todos queriam ser sinfónicos. Ele cantava, apenas, com voz frágil, a passagem do tempo e das ilusões. Joe Boyd, responsável e amigo do artista, autorizou a venda do catálogo Witchseason à Island, na condição de esta manter permanentemente em “stock” os discos do poeta. “Heaven In A Wild Floer”, título do romântico William Blake para a colectânea do mesmo nome, sintetiza a essência da visão que Nick Drake em vida cantou e, depois da morte, decerto alcançou.

PETER GABRIEL
Shaking The Tree – 16 Golden Hits 8Virgin, distri. Edisom)

Foi o próprio Gabriel quem escolheu, e agora o seu segundo álbum a solo não está entre os seus preferidos, mas sobretudo o mais recente “So”. Sendo assim, se calhar, não valia a pena fazer compilação nenhuma.

QUEEN
Queen At The Beed 1973 (Band Of Joy, distri. Anónima)

A curiosidade de descobrir que, nas secções de gravação prévias ao álbum de estreia, a estrela dos Queen era Brian May. Do mal teria sido o menos…

SOFT MACHINE
The Peel Sessions (Strange Fruit)




Duplo álbum gravado durante as célebres sessões de John Peel, num período compreendido entre 1969 e 1971. Na época, Hugh Hopper acabara de substyituir Kevin Ayers e a banda alcançava com o duplo “Thrid” a sua obra-prima absoluta, após os psicadelismos pop dos dois primeiros discos. Destaque para a participação nalguns temas da secção de metais constituída por Elton Dean, Lyn Dobson, Marc Charig e Nick Evans (que colaboraria também em “Third”) e de uma nova versão de “Moon in June”, a clássica e terna liturgia esquizofrénico-vocal de Robert Wyatt, aqui com letra alusiva ao locutor. Mike Ratledge e Elton Dean tornam a coisa mais complexa.

THE STRANGLERS
Greatest Hits 1977-1990 (CBS, distri. CBS port.)
Agora saiu Hugh Cornwell, amanhã, se calhar, Jean Jacques Burnell vira actor de cinema, ou qualquer coisa no género. Os hits dos Stranglers, esses, são sempre os mesmos. Pelos vistos, o que muda é o pretexto.

SUICIDE
1/2 Alive (Contempo)




Alan Veja e Martin Ver gravaram, durante uma carreira de vinte anos, três álbuns de estúdio. Neste disco aproveita-se tudo o que ficara até agora de fora: gravações caseiras e inéditos ao vivo, gravados entre 1974 e 1979. “Harlem II”, “Going to Las Vegas”, “Space Blue”, “Long Talk”, “Speed Queen”, “Love You”, “Cool as Ice” e “Dreams” são alguns dos originais incluídos no disco. O ritmo da sociedade industrializada à beira do caos tocado por Ver em serra elétrica e cantado por Veja, encarnando o espectro cavernoso e reverberado de Elvis Presley. Implacável.

TELEVISION
The Blow Up (Danceteria)
Peça essencial para enriquecer a magra discografia da mais carismática banda nova-iorquina de guitarras na fase “new wave”, onde as duas faixas de cerca de 14 minutos, gravadas ao vivo em 1978, chegam e sobram para demonstrar o virtuosismo explosivo da dupla Tom Verlaine / Richard Lloyd.

ANOS 80

ABC
Absolutely (Phonogram, distri. Polygram)

O fim do contrato dos ABC com a Phonogram deu origem a esta compilação dos anos em que durou (81-89), com justo destaque para os títulos do LP de estreia “Lexicon Of Love”. O caso acabado dos tipos que são melhores a fingir mundos e fundos que a chorar as desgraçadas dos subúrbios.

CARMEL
Collected (London, distri. Polygram)




Jazz estilizado, gospel incendiário, pop distanta, conjugados numa fórmula harmónica que, ao longo de sete anos, nunca vingou nos tops, mas fez sempre as delícias das elites de bom gosto. Só os distraídos preferem a colectânea aos discos originais.

JOE JACKSON
Ntepping Out (A & M, distri. Polygram)

A colecção de mais de uma década de êxitos falhados, mas de muito prestígio, que acabaram por fazer a A & M meter Jackson no olho da rua.

THE FALL
458489 A-Sides, 458489 B-Sides (Beggars Banquet, distri. Anónima




Um disco para as faces A, outro para as B dos singles que os Fall editaram entre 84 e 89, os seus anos na Beggars Banquet. Mark Smith fica uma vez mais reiterado, é único companheiro de Morrisey na fé de que o público nunca se farta de lhe comprar discos por atacado.

THE GO-BETWEENS
1978-1990 (Beggars Banquet, distri. Anónima)
Os Go-Betweens acompanharam de perto as mais sinuosas elipses do coração apaixonado ao longo demais de uma década sem colherem grande contrapartida financeira. Esta compilação faz-lhes justiça alternando os seus clássicos com material que foi ficando pelo caminho.

MADONNA
The Immaculate Collection (Sire, distri. Wea)




Os hits da escaldante senhora e mais nada, dos inícios electrodisco nos primórdios da década de 80 até ao bailado “voguing” nos inícios dos anos 90. Como remate, a mesma história de sempre, quer dizer, mais um single para encher o olho no pequeno ecrã, onde pela milésima vez a loura avantajada justifica as suas fraquezas carnais.

MANTRONIX
The Best Of (1986-1988) (10 rec, distri. Virgin)

Pioneiros algo inglórios da actual febre de sincretismo dançante, os Mantronix viram o seu material antigo recuperado nesta compilação graças ao hit menor, mas recente “Got To Have Your Love”.

MOMUS
Monsters Of Love Singles (1985-90) (Creation, distri. Anónima)

Um tipo que se tornou francamente chato e afectado, cujas boas recordações estão todas aqui, porque o actual já ninguém tem paciência para aturar.

MORRISSEY
Bono Drag (His Master Voice, edi. EMI-VC)

Na sequência do ensaio frustrado para o segundo álbum a solo, Morrissey iludiu a crise editando primeiro um vídeo de concerto e em seguida esta compilação dos seus singles em nome próprio. A eloquência poética e a chama vocal não se apagaram, mas este material transpira a ausência de um cúmplice nos arranjos à altura de Johnny Marr.

NEW ORDER / JOY DIVISION
Peel Sessions (Strange Fruit, distri. Anónima)




Esboço de retrato da evolução do mais cinzento projecto britânico de finais dos anos 70 para a banda independente de dança mais brilhante dos 80, através das sessões gravadas pelas duas formações para o programa de John Peel. Sem surpresas, só pelo prazer de recapitular.

PUBLIC IMAGE LTD
Greatest Hits (Virgin, distri. Edisom)

O grande profanador de crina multicolor Johnny Lydon reciclado nos seus hits pós-Pistols, na liderança da “experiência” Public Image. Se isto não fosse uma compilação, mas um disco de originais, os PIL, seriam com certeza maiores que os Pistols.

THE TEARDROP EXPLODES
Everybody Wants To Shag The Teardrop Explodes (Fontana, distri. Polygram)

O terceiro álbum “perdido” dos Teardrop Explodes, com o título pretendido para o primeiro. Cinco faixas foram incluídas num EP que saiu em 83, duas retomadas depois a solo por Julian Cope, restando assim de facto cinco inéditos. Mais uma sequência de esboços que de canções acabadas, peça sobretudo dedicada aos colecionadores.

TALK TALK
Natural History (Parlophone, distri. EMI)

Estranhamente, depois de os Talk Talk terem assinado em “The Spirit Of Eden” um enorme salto qualitativo, percorrendo sinuosos caminhos algures entre a pop e a música ambiental, eis que a Parlophone os despediu. O êxito comercial da compilação cronológica sequente foi um verdadeiro certificado de incompetência para o seu sector de “artistas e reportório”.

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Monty Python – “And now, for something completely different…”

PÚBLICA

24 Novembro 1996

“And now, for something completely different…”

John Cleese era a figura com maior carisma dos Monty Python, o mais fantástico grupo de humoristas de todos os tempos. Monty Python’s Flying Circus, a série de televisão que os tornou célebres do mundo subatómico aos confins da galáxia, está a partir de agora disponível no mercado vídeo de venda directa. Será que o Governo português vai cometer o mesmo erro que o seu congénere britânico cometeu há 25 anos e “gastar menos dinheiro com o Ministério dos Passos Disparatados do que com a Defesa Nacional?” John Cleese “dixit”.


mp

Um homem de gabardina, John Cleese, entra numa loja de animais para protestar. Venderam-lhe um papagaio morto. O vendedor, Michael Palin, procura a todo o custo convencê-lo de que o animal está apenas a dormir. O homem bate com a ave várias vezes no tampo do balcão. “Está morto, faleceu, finou-se, bateu a bota, deu o berro, entregou a alma ao criador!” O outro insiste: “Não, não! Está a dormir!” magnífica metáfora sobre a condição humana. E um dos “sketches” emblemáticos dos Monty Python e do seu Flying Circus, série que a RTP exibiu recentemente e cujo primeiro pacote se encontra a partir de agora disponível no mercado vídeo de venda directa.
O “sketch” do papagaio, como é conhecido, tem, à semelhança de muitos outros, o seu “script” totalmente transcrito para uma das várias páginas da Internet dedicadas aos Monty Python, a maior “troupe” de humor de todos os tempos. Mestres absolutos do “nonsense”, o humor dos Monty Python marcou a sua época, entre 1969 e 1974, cinco anos que abalaram o tradicional conservadorismo britânico através da série televisiva Monty Python’s Flying Circus.
O impacte atingiu Portugal dois anos a seguir ao 25 de Abril, em 1976, criando-se desde logo um fenómeno de culto, reforçado na década seguinte, com uma primeira reposição, interrompida a meio. Este ano, os Monty Python regressaram pela terceira vez aos ecrãs nacionais, com a exibição diária da série, na RTP1, que, uma vez mais, não respeitou a sua ordem cronológica nem contemplou a totalidade dos episódios.
Pior ainda, talvez com receio de chocar ou ferir susceptibilidades (passado um quarto de século, a televisão do Estado ainda tem destes medos!), a castidade dos programadores levou-os a arrumar, é o termo, este monumento ao humor universal num horário obsceno, já de madrugada e com a agravante de o retalhar com odiosos intervalos. Decerto em nome dos bons costumes e com a pia intenção de poupar o grande público à iconoclastia e à influência nefasta que o grupo poderia exercer sobre as mentes da nossa juventude.
Os que eram fanáticos, claro, não perderam um episódio, mantendo-se firmes no seu posto, nem que tivessem de esperar até às quatro da manhã. Ou então ligando o gravador. É que tão bom como ver pela primeira vez um episódio dos Monty Python é revê-lo vezes infinitas. Mas os novos, os desconhecedores, todos os que não tiveram nem o privilégio nem a felicidade de ter conhecido a obra dos Monty Python ficaram a perder. Porque ainda estavam mortos? Não, porque estavam a dormir!…
A partir de agora, porém, toda a gente vai poder desfrutar em casa do humor dos Monty Python. Para os tais fanáticos – pois não se pode gostar dos Monty Python de outra maneira, que não os venera detesta-os – é a oportunidade de conservar para a posteridade, nas melhores condições técnicas, o objecto da sua devoção. Para levar para casa, existe, para já, um primeiro volume, contendo os primeiros quatro episódios da primeira série: 126 minutos de delírio, de génio, de pura religião com o seu templo e os seus sumo sacerdotes, contendo “sketches” clássicos como (só a menção dos títulos, provoca um júbilo irreprimível) “Artur ‘duas cabanas’ Jackson”, “A anedota mais engraçada do mundo”, “O homem com três nádegas”, “O problema do rato”, o antológico “sketch” “do Restaurante”, “Cotoveladas” ou “Autodefesa”. Todos sublimes. Todos capazes de enviar um cérebro inteligente para o hiperespaço do riso. Aliás, os tradutores encontraram bons títulos descritivos, como “Palestra francesa sobre carneiros aeronaves” ou “No tribunal (testemunha no caixão/cardeal Richelieu)”, opção deliberadamente esotérica, dirigida, em primeiro lugar, aos iniciados.
Formavam os Monty Python cinco personalidades únicas: John Cleese, Eric Idle, Micahel Palin, Graham Chapman e Terry Jones. Um sexto elemento, Terry Gilliam, era o responsável pelas montagens animadas da série, embora também tivesse esporádicas participações como actor. Mais tarde viria a notabilizar-se na realização, através de filmes como “Brazil”, “O Rei Pescador” ou o recente “12 Monkeys”. Neil Innes, do grupo cómico musical Bonzo Dog Doo Dah Band, e Carol Cleveland foram dois dos convidados mais assíduos. Graham Chapman – o “Brian” da longa-metragem do grupo “A Vida de Brian” – já morreu.
Com o fim da série, que mantiveram intermitentemente durante cinco anos na BBC, iniciaram um novo período de actividade, durante o qual, ainda como Monty Python, fizeram quatro longas-metragens, qualquer delas histórica, “And now for Something Completely Different…”, de 1971, inédito em Portugal, “O Cálice Sagrado”, de 1975, “A Vida de Brian”, de 1979, e “O Sentido da Vida”, de 1983. A partir daí, cada um seguiu uma carreira em separado, com esporádicas associações em filmes ou documentários.
O conjunto total com o genérico Monty Python’s Flying Circus – atenção, tomem nota, para não deixar escapar nada – divide-se em quatro períodos temporais, correspondentes a outras tantas séries de programas. A primeira foi para o ar na BBC a 5 de Outubro de 1969, aí se mantendo até 11 de Janeiro de 1970. É constituída por 13 episódios. A segunda é formada pelos episódios 14 a 26 que estiveram em exibição entre 15 de Setembro e 22 de Dezembro de 1970. A terceira, com os episódios 27 a 39, durou de 19 de Outubro de 1972 a 18 de Janeiro de 1973. A quarta e última, episódios 40 a 45 (sem John Cleese), encerrou o ciclo, entre 31 de Outubro e 5 de Dezembro de 1974. Existem ainda mais dois episódios adicionais, gravados para a televisão alemã, de genérico “The German Episodes”. No total, uma obra com a dimensão e a importância de “Guerra e Paz”, “O Anel dos Nibelungos”, a Enciclopédia Britânica e sexo.
Sim, o SEXO. Os Monty Python reinventaram o sexo para o destruir e reinventar de novo e redestruir e… como reinventaram a religião para a destruir, para… e a política, e o desporto, e a arte, e os papagaios, e os juízes, que eram sempre “travestis”, e os polícias, e os ingleses, e os franceses, e os escoceses, sobretudo os escoceses, de Johann Gombolputty – dois minutos de apelidos – von Hautkopff of Ulm, e a Inquisição (“Nobody expects the Spanish Inquisition”, tchatcham!) e tudo o mais que existe á face da Terra, sem esquecer Ken Buddha e os seus joelhos insufláveis. E até, escândalo dos escândalos, a rainha. Sim, um dos episódios, dos mais ordinários e com o humor mais negro, mesmo próximo do mau-gosto, da série, é-lhe especialmente dedicado. O “sketch” que encerra este episódio é mais ou menos assim. Trata-se de um diálogo entre um cliente (John Cleese) e o empregado de uma agência funerária. Cliente – A minha morreu. Empregado – É para enterrar, cremar ou deitar fora? Cliente (hesitante) – Bem… Empregado – Trá-la consigo? (o cliente acena com a cabeça e atira com um cesto para cima do balcão). Já considerou a hipótese de a comer, temos um belo forno… Cliente (ainda hesitante) – De facto, tenho alguma fome, mas não sei se… E se me sentir mal? Empregado – Não há problema, pode vomitar que nós depois apanhamos e atiramos para a cova. Fim do “sketch”. Com dedicatória a sua majestade.
Mas o humor dos Monty Python é uma moeda com mais de duas faces. A sua essência está no talento para extrair humor de qualquer faceta da vida, por mais ínfima que seja. Os Monty Python inventavam a vida. Tudo, mas mesmo tudo, era usado como fonte de gargalhada ou sorrisos. De transgressão. Puro gozo interior. O êxtase supremo de quem está a fazer humor é ter ao mesmo tempo consciência dele próprio no próprio instante em que está a ser criado. Deste modo se explica o caos estrutural, por vezes no limite do aleatório, que anima e sustenta alguns episódios da série. Nestes, um “sketch” confunde-se, transforma-se ou alterna com outros, aniquilando toda e qualquer espécie de lógica narrativa ou de linearidade temporal. Ladrões do tempo. O intervalo tanto podia surgir no princípio como no fim. Episódios inteiros terminavam antes do tempo (!), com o restante preenchido com interlúdios que tanto podiam ser o ecrã completamente negro, como o logotipo da BBC ou John Cleese dentro de uma armadura, passeando numa praia deserta com um frango depenado na mão.
Além do mais, os cinco Monty Python eram extraordinários actores. Vale a pena visionar vezes sem conta cada episódio só pelo prazer de saborear as entoações, as expressões e os pequenos gestos das personagens, segundo uma espontaneidade encenada ao pormenor. Monty Python’s Flying Circus é o humor na sua expressão mais elevada. Cada vez que a série é reposta, cada cena vista e revista centenas de vezes, apresenta sempre algo de novo, numa pluralidade incontável de níveis de leitura. Mesmo antes, há já uma antecipação emocional, uma comoção estética que apenas os fãs dos Monty Python compreendem e sentem. Melhor do que ver um episódio dos Monty Python só discutir um episódio dos Monty Python. Quando dois fanáticos dos Monty Python se encontram para conversar sobre os seus heróis, sentem-se unidos por um elo iniciático. O riso transforma-se num acto sagrado. Os Monty Python pertencem ao domínio do sagrado. Os Monty Python pertencem ao domínio do sagrado. A mesma impressão de sagrado que sentiram os milhares de fiéis que nos dias 26, 27, 28 e 29 de Setembro de 1980 se reuniram no Hollywood Bowl, para assistir a uma memorável apresentação do grupo, ao vivo, num espectáculo cuja síntese também se encontra gravada em cassete vídeo no mercado português. “Albatross!”
Perdoem-me se me excedi.
Mas nos sabemos que entre os deuses vivia, e continua a viver, um deus maior. Silêncio. Chama-se John Cleese. A simples menção do nome provoca arrepios de prazer. John Cleese é o mago. O dominador absoluto da arte de fazer rir da forma mais inteligente. John Cleese está marcado pelo humor desde que nasceu, em 27 de Outubro de 1939, em Weston-Supermare (dava um belo título para um “sketch”), no Somerset. O pai chamava-se Reginald Francis Cheese (“queijo”), mudando o apelido para Cleese quando entrou para o exército. Cleese recebeu tratamento psiquiátrico, escreveu livros e continua a representar no cinema. Em televisão, depois de Monty Python’s Flying Circus, realizou com a sua mulher Connie Booth e interpretou a série Fawlty Towers, também já exibida na televisão portuguesa. Quem não se lembra de Manoel, o impagável empregado espanhol da pensão, ou do episódio dos nazis?
Participou como actor, entre outros filmes, em “Os Ladrões do Tempo”, “Clockwise”, “Silverado”, “Um Peixe Chamado Wanda”, “Erik the Viking: The Book of the Film of the Book” e, mais recentemente, tem uma aparição esporádica no “Frankenstein”, de Kenneth Brannagh. No teatro, ainda hoje representa Shakespeare. No registo mais sério que se possa imaginar. Realizou o vídeo “Como Irritar as Pessoas” (“o segredo é dar a entender que não se faz de propósito”…).
John Cleese sente-se particularmente à vontade no papel de psicopata ou em todas as personagens que envolvam histeria. Não resistimos a descrever duas cenas memoráveis, ilustrativas desta sua faceta. Uma é o “sketch” em que faz de instrutor numa aula de autodefesa contra peças de fruta. O seu grito de desafio para um dos alunos, “Hit me with a banana!”, faz parte da História. Outra é uma sequência inteira de “Cálice Sagrado”, quando invade, alucinado, um encantador casamento que se está a celebrar num pacato castelo medieval. Investido com as armas de Cavaleiro da Távola Redonda, vai chacinando sucessivamente todos os convidados. No auge da alucinação, volta atrás numa escadaria, só para decepar à espadeirada uma vela que se encontrava no seu caminho. Quando, no meio de um mar de sangue, em pleno átrio do castelo, se dá conta do equívoco, pede desculpa. Tinha sido um engano.
Num registo diferente, o domínio absoluto do corpo, há outra cena para rever até ao fim dos tempos. A dos passos disparatados. Se a versão original da série é um portento de hilaridade, a versão ao vivo no espectáculo do Hollywood Bowl ainda é melhor. Só visto e revisto. “No ano passado, o Governo gastou menos dinheiro com o Ministério dos Passos Disparatados do que com a Defesa Nacional!”, desabafa Cleese e acerta altura.
Para terminar, duas observações de John Cleese, na área das relações humanas: “Penso que o cimento é mais interessante do que as pessoas julgam” e “Por favor, desculpe a minha mulher. Ela pode não ser muito bonita, não ter muito dinheiro, não ter qualquer espécie de talento e ser chata e estúpida, mas por outro lado ela… perdão, não me consigo lembrar de mais nada!”
“And now…”



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