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Mono – Formica Blues

21.11.1997
Monoquini
Mono
Formica Blues (8)
Echo, distri. MCA

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Para quem acha os Portishead demasiado pesados e os Smoke City uns pãezinhos sem leite, os Mono são a solução ideal. Afixe-se desde já o cartaz: “Formica Blues” vai causar sensação e andar nas bocas do mundo.
Os Mono são um duo constituído pelo programador e conceptualista Martin Virgo e pela cantora Siobhan De Maré. Ele faz parte da equipa técnica responsável pela remistura de Nellee Hooper, do clássico dos Massive Attack, “Unfinished Sympathy”, ajudando ainda a gravar “Debut”, de Bjork. É um apaixonado pela música dos filmes franceses dos anos 60 e pelo genuíno “easy listening” de Burt Bacharah e John Barry. Ela é filha do baterista dos Shadows e passou a vida a ouvir “hip hop”, “soul” e “Rhythm ‘n Blues”. A combinação entre ambos resultou numa daquelas simbioses raras no universo laboratorial da Pop.
A fórmula é simples mas os Mono fazem dela uma solução mágica: juntar o “easy listening” a uma depuração sofisticada do “hip-hop” e do “jungle”. Bingo! Ao primeiro tema, “Life in Mono” (antes já editado em “single”) percebe-se logo que o duo acertou em cheio. Tudo é feito a aprtir de matérias-primas de luxo, incluindo um “sample” de John Barry e uma produção que junta com a maior delicadeza a nostalgia e as máquinas. Siobhan encarna a ingenuidade perversa de Jane Birkin. Lembramo-nos de objectos musicais de “design” elegante como “Anne Marie Beretta”, de Steve Beresford (a revisitação do “easy listening” já estava presente em alguns discos editados com o selo Chabada, dele ou dos Melody Four, por exemplo) ou das versões de canções de Brigitte Bardot interpretadas pela japonesa Kazuko Hohki, também na Chabada. Isaac Hayes, numa composição de Burt Bacharah, e um excerto de “Get Carter”, de Roy Budd, são samplados no tema seguinte. “Silicone”, capaz de fazer alucinar um “voyeur” em pleno delito em Saint-Tropez. Siobhán deixa-se possuir pelo fantasma de Dusty Springfield, em “Disneytown” e “High Life”, enquanto Virgo, com a sua arte de manipulação electrónica ao serviço de um revivalismo virtual, faz corar de vergonha os Stereolab (que tentaram, mas não conseguiram, encontrar a fórmula mágica no recente “Dots and Loops”), os High Llamas e os Combustible Edison. O “jungle” parece ritmo de fadas, em “The Outsider”, para ouvir como acompanhamento de um filme de Godard. O ar torna-se mais rarefeito e oleoso em “Playboys”, com vénia aos Depeche Mode de “Ultra”. Mais “samples”, de David Byrne e Gil Evans, em “Penguin Freud” dão lugar, no tema final, “Hello Cleveland”, sumptuoso festim de “jungle” e “scratch” atenuado pelo segredo da imponderabilidade do qual os Mono possuem a patente.