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Albert Ayler – “Nuits De La Fondation Maeght” + Aercine – “Aercine” + Geir Lysne Listening Ensemble – “Korall” + Orchestre National De Jazz – “Charmediterranéen” + Toshinori Kondo – “Nerve Tripper” + Misha Mengelberg & ICP Orchestra + “Japon Japon”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 29 Março 2003

Uns oram. Outros caminham sobre uma camada de gelo fino. Alguns riem. No meio de tantos palcos que o jazz continua a montar, só os verdadeiros criadores, com um esgar de dor ou um riso rasgado, se mantêm de pé.


Espíritos que sofrem, espíritos que riem

ALBERT AYLER
Nuits de la Fondation Maeght
Water, distri. Trem Azul
7 | 10

AERCINE
Aercine
Drimala, distri. Trem Azul
6 | 10

GEIR LYSNE LISTENING ENSEMBLE
Korall
Act, distri. Dargil
6 | 10

ORCHESTRE NATIONAL DE JAZZ
Charmediterranéen
ECM, distri. Dargil
8 | 10

TOSHINORI KONDO
Nerve Tripper
DIW, distri. Trem Azul
7 | 10

MISHA MENGELBERG & ICP ORCHESTRA
Japon Japon
DIW, distri. Trem Azul
8 | 10



Espírito e carne, uma inquietação crescente, Deus constantemente a escapar-se por entre as notas do seu saxofone. Albert Ayler, asceta e erotólogo do “free jazz”, morreu, como a sua música, rodeado de mistério. As duas sessões realizadas na Fundação Maeght (iniciativa de Aime Maeght, comerciante de arte e adepto da “new thing”), em St. Paul de Vence, França, a 25 e 27 de Julho de 1970, constituem os derradeiros testemunhos gravados do saxofonista, que quatro meses mais tarde viria a falecer em circunstâncias pouco claras (suicídio ou assassínio?) e uma demonstração cabal do paradoxo que esteve colado à sua música. “Nuits de la Fondation Maeght” tem como fundamento o “gospel”, o jazz de New Orleans, as marchas e hinos que na origem sustentaram os negros americanos na sua demanda de uma casa no céu. Ayler sobe a pulso a escada de Jacob, com uma persistência e ingenuidade que alguns viram como exteriorização de uma personalidade “naïf”, nos antípodas, por exemplo, do misticismo mais intelectualizado de um dos seus mais brilhantes discípulos, David S. Ware.
A “Spiritual Unity” que uniu a sua alma numa das obras-primas incontestadas do jazz dispersa-se neste disco por uma interrogação quase infantil, feita de frases-orações e gritos modelados segundo a aceção de que a música deverá ser o veículo de salvação e de cura de uma humanidade doente. “Truth is marching in” é puro Ayler em ardente ascensão com citações diretas do “gospel”, “Spirits” um alucinado conciliábulo com o além e “Music is the healing force of the universe” inclui um daqueles “slogans” vocais (por Mary Parks) que Sun Ra costumava utilizar no anúncio da vinda de uma nova idade cósmica, mas “Holy family” deita o altar por terra num “espiritual” de pacotilha ritmicamente arreigado a um compasso sem saída.
No jazz contemporâneo, os “blues”, enquanto substância aglutinadora desta linguagem musical contextualizada à luz da sua evolução histórica, permanecem em muitos casos apenas como horizonte virtual. Com base numa premissa enunciada pelo trompetista português Sei Miguel, citada na capa — “O jazz é uma música transidiomática com uma vocação cósmica cujas origens, relativamente misteriosas, residem na explosão de diversas músicas tradicionais, ‘deportadas’ e, a seguir, magnetizadas pelos ‘blues’” —, o grupo plurinacional Aercine, formado Harvey Sorgen
(bateria), Steve Rust (baixo, Michael Jefry Stevens (piano), Mark Feldman (violino) e Herb Robertson (trompete) pratica a livre improvisação, mas uma improvisação regida por leis, por mais ou menos camufladas que elas estejam. Na vida, como na música, o acaso não existe.
Subentende-se em “Aercine” a citação folclórica, o desenvolvimento “free”, mas também uma rigorosa disciplina na gestão da economia instrumental do coletivo. Mark Feldman e Herb Robertson protagonizam a maior parte das emergências solistas num álbum que, dadas a riqueza das matérias conceptuais disponíveis, poderia ter ido mais longe. A visão da liberdade pode ser a pior das prisões.
Geir Lysne, compositor e maestro norueguês, líder da Listening Ensemble, não tem essas preocupações. Em “Korall” o exotismo de uma música inspirada nas tradições folclóricas sobrepõe-se ao desejo manifestado de substanciar uma “visão aural de um ‘som nórdico’ para grande orquestra”. Anda-se de braço dado com o jazz rock, o jazz latino, as mil e uma noites árabes, o “scat” abrasileirado, algum jazz de câmara. Mas, apesar de ser atirada ao ar uma fórmula como “Middle age-punk-archaic, late Miles Davis with hints of trip-hop” (entende-se a menção ao Miles fusionista na faixa “Djambo”), não se vislumbra em “Korall” nem a dimensão onírica do “étnico” Jan Garbarek, nem o génio desse tal “nordic sound” plurifacetado e em formato grande orquestra que se manifesta em obras de Edward Vesala como “Nan Madol”, “Lumi”, “Ode to the Death of Jazz” ou “Invisible Storm”. Quem apreciar jazz bem colorido encontrará, porém, uma caixa inteira de lápis com que se entreter.


Operação de charme

Outra orquestra grande, a ilustre Orchestre National de Jazz francesa, prossegue o seu percurso, jamais linear, pelo jazz sem fronteiras, desta feita sob a direção do italiano Paolo Damiani e com a participação dos convidados Anouar Brahem, no alaúde árabe, e Gianluigi Trovesi, no clarinete “piccolo” e saxofone alto. O título “Charmediterranéen” diz muito do teor feérico e festivo desta música em que a cor é usada não com meros fins decorativos, mas como elemento constituinte de um quadro infinitamente mais complexo, inteligente e sedutor que o boneco garatujado pelo músico norueguês.
Sente-se uma liderança forte, a organização de sentidos, a gestão de uma arquitetura mutável, mas sustentada por uma inequívoca unidade e na posse da mesma integridade e sentido de humor do “Dedalo” de Trovesi. Os foguetes lançados pelos naipes de metais contrastam com os momentos de intimismo proporcionados pelo “ud” de Brahem. Cinematográfico e muito trovesiano é ainda o desenvolvimento das várias “Sequenzas”, algumas delas imbuídas do espírito do rock progressivo (outro tema, “Estramadure”, chega a soar aos… Gentle Giant) deste “charme mediterrânico” que mantém os sentidos permanentemente alerta e em deleite, numa notável demonstração de que o termo “fusão” é muito mais do que a simples soma de partes.
O trompetista japonês Toshinori Kondo desde os já longínquos discos gravados com o projeto Ima que vem fincando os dentes num som modernaço, inchado de “groove” e programações eletrónicas. O novo “Nerve Tripper” não foge à regra, numa aliança entre a nevrose de John Zorn, o “funk” digital, programações automáticas e preocupações “new age” expressas tanto em títulos como “Dream vibrates with space”, “Attaining the esoteric life” e “Eternal quest”, como nas sonoridades “space jazz” . Miles Davis é o culpado, claro, por ter descoberto os segredos da eletricidade em “Bitches Brew” e nos subterrâneos sagrados de “Agartha”. Mas Kondo não é Miles, embora “Insane moon moves innocent man” também possa ser comparado ao “quarto mundo” de Jon Hassell sob o efeito de estimulantes. “Nerve Tripper” foi criado unicamente com a trompete elétrica e as programações do japonês e os gira-discos de DJ Sahib. Um programa de computador não faria melhor, passe a ironia, porque Toshinori Kondo, apesar de tudo, consegue conferir um rosto humano e pessoal à sua música.
Toshinori fazia parte da ICP (Instant Composers Pool) Orchestra quando esta formação liderada pelo pianista holandês Misha Mengelberg gravou o álbum “Japon Japon”, registado ao vivo neste país em 1982. Integrando referências de topo da música improvisada europeia, como Han Bennink, Peter Brotzmann e Michael Moore, “Japon Japon” é um “pastiche” de jazz-comédia, jazz–recriação e jazz-trocadilho. Música de circo, ambientes Nino Rota, jogos de melodias populares ou familiares ao ouvido, “passedobles”, “habaneras” e “foxtrot” são pervertidos por divergências, desvios, dissonâncias e súbitos golpes de rins e golpes de génio por este grupo de iconoclastas de boa índole. Cita-se um punhado de notas do “Für Elise” de Beethoven, os músicos ladram (literalmente, em “Carnaval”) ou produzem um silvo insistente durante largos minutos só para azucrinar o juízo da assistência, mas esta reage ao longo de todo o concerto de forma entusiástica, alternando o aplauso com gargalhadas que permitem avaliar a comicidade, não só musical, mas visual, desta “performance” em que o humor é pedra-de-toque de solos desconcertantes. Motivo de saudável loucura que devolve ao jazz o seu lado mais “nonsense” e libertino.