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Mike Oldfield – “Elements,The Best of…”

Pop Rock

22 SETEMBRO 1993

Mike Oldfield
Elements,The Best of…

Virgin, distri. EMI – VC


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“O melhor” seja de quem for é sempre contingente. No caso do menino-prodígio dos sinos tubulares, considerou-se desta vez que o supra-sumo são as canções curtas que foram editadas em single, da fase posterior à dos grandes épicos do início de carreira. Outra compilação, em caixa dupla, do músico, lançada já há alguns anos, dizia exactamente o contrário e privilegiava as sequências longas… Enfim, aqui reuniram-se canções agradáveis como “Moonight shadow”, “Five miles out” e “Shadow on the wall”, com outras menos interessantes, como “Family man”, e alguns paraísos de anjinhos assexuados, como “In Dulce jubilo” e “Islands”. Para compor o ramalhete incluíram-se excertos à pressão e bastante abreviados das “opus magnum” “Tubular bells”, “Ommadawnn” e a mais recente “Amarok”. Inofensivo. (5)

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Mike Oldfield – Sinosite (Entrevista)

Pop Rock

22 de Setembro de 1993

SINOSITE

Mike Oldfield: um homem, uma guitarra de som inconfundível, uma personalidade instável e um disco onde coube tudo: “Tubular Bells”. Em dois volumes, separados por duas décadas, a marcarem a distância entre o génio e a banalidade.


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O autor de um dos discos mais vendidos a música Rock, “Tubular Bells”, o primeiro, pois claro, vai tocar numa praça de touros. Uma actuação em registo orquestral a exigir enorme concentração. Com a guitarra, vários tipos de guitarra, no comando das operações. Menos a portuguesa, de que Mike Oldfield, estranhamente, nunca ouviu falar.
PÚBLICO – Que motivos o levaram a gravar “Tubular Bells II”?
Mike Oldfield – Pensei que fosse uma boa ideia e agradou-me imenso fazê-lo. Tinha essa intenção já há cerca de cinco anos, mas queria fazê-lo com uma nova editora. Já não me sentia feliz na Virgin e tive de romper o contrato.
P. – Por que razão se aborreceu com a editora?
R. – As pessoas originais foram-se embora e as que vieram não eram grandes apreciadoras de música instrumental. Pensavam que era um formato difícil de promover. Depois, Richard Branson estava mais preocupado com a sua companhia de aviação, enquanto no passado se preocupava mais com a música. Foram 17 anos na mesma editora e achei que era tempo de mudar.
P. – Poderia ter feito “Tubular Bells II” com música original, mas em vez disso preferiu apenas alterar os arranjos. Porquê essa opção?
R. – As sequências não são as mesmas… mas porque é que me está sempre a perguntar “porquê”?

TubularBellsII

P. – Porque o público português quer ficar a saber…
R. – Oh! (suspiro). Não há uma razão para tudo o que faço, portanto não faz sentido perguntar-me “porquê”. Não tenho explicação para as coisas. Não sei por que razão há seres humanos sobre o planeta, não sei explicar os enigmas do universo. As coisas simplesmente existem. Eu faço coisas não por este ou aquele motivo. Faço-as e pronto.
P. – A sua obra tem-se caracterizado por dois campos musicais separados: longas peças instrumentais e, por outro lado, pequenas canções curtas…
R. – Resolvi deixar essas canções de lado por uns tempos. Comecei a sentir aborrecimento a escrever canções, que me estava a repetir. Há muitas pessoas no mundo a escrever canções mas muito poucas a compor peças instrumentais. Uso um pouco as vozes, é claro, mas não no formato tradicional de canções.
P. – Mas, sobretudo nos últimos anos, foram essas canções que lhe deram mais dinheiro…
R. – Nunca fiz nada por dinheiro. À parte quando era muito novo e trabalhava porque necessitava dele. Passei a ter sempre dinheiro desde “Tubular Bells”. A maioria das pessoas pensa que se age sempre a pensar em dinheiro, mas eu faço as coisas por outras razões, pelo prazer que sinto, por exemplo. Quando deixar de sentir esse prazer, paro, e vou fazer outra coisa.
P. – Passados todos estes anos, continua a sentir prazer em tocar ao vivo?
R. – Sim, especialmente nesta digressão, em que os processos utilizados são diferentes. Não vai ser como em digressões anteriores, em que fazia versões rock dos álbuns. Tinha já tudo escrito, como se fosse uma peça orquestral, os músicos vão cingir-se às respectivas partituras. Os actuais concertos soam bastante aos álbuns, embora num contexto “ao vivo”, com várias partes separadas que se complementam e que exigem uma grande concentração, de modo a conseguir-se a ordem correcta. Têm a duração de uma hora e meia, o que, nos dias que correm, pode parecer um pouco curto. Não se trata de preguiça, mas sim da tal concentração.
P. – Vão ser tocados temas novos ou só os arranjos é que variam?
R. – Novos arranjos. Vou tocar um pouco de “Tubular Bells II”, um pouco de flamenco, que adoro…
P. – Sempre mostrou interesse pela música tradicional, nomeadamente de inspiração celta… Tocou recentemente num clube de música tradicional na Galiza…
R. – É verdade. A minha namorada é galega e fomos visitar os pais dela. Conheci o grupo Luar na Lubre e tocámos juntos nesse clube. Adoro música celta.
P. – Continua a viver no campo?
R. – Sim, em Inglaterra, algumas vezes.
P. – Tem medo da cidade?
R. – Tenho uma casa em Los Angeles que é uma das maiores cidades dos Estados Unidos, só que fica um pouco à margem, no alto de um monte. Gosto de me sentir próximo da cidade, mas não no meio dela.
P. – Descontando “Tubular Bells II”, pensa regressar ao estilo e à complexidade de um álbum como “Amarok”, por sinal excelente?
R. – Complexo, sim, mas feito de forma muito espontânea. Costumava levantar-me de manhã e pensar em algo, uma técnica de composição que resultou bem. Há nesse disco secções maravilhosas, mas, na generalidade, é um disco em que existe raiva, um disco negativo. Não estou a dizer que seja mau…
P. – Sabe-se que costuma ser sensível a estes aspectos negativos, mas o curioso é que se desprende da sua música uma sensação de harmonia. Usa a música como terapia?
R. – Sim, é uma espécie de terapia. Nos primeiros tempos, a música era algo que me fazia sentir feliz e seguro, mas se se reparasse bem, não era uma máusica feliz, embora possa dizer que era uma música positiva.
P. – Define-se primeiro que tudo como um guitarrista?
R. – Absolutamente. Quando vir o concerto reparará que me concentro muito na guitarra. Vou tocar vários tipos de guitarra: espanhola, clássica, eléctrica…
P. – E guitarra portuguesa?
R. – O quê? Nunca vi uma guitarra portuguesa, o que é isso?
P. – Não sabe o que é?
R. – Não, mas vou tentar investigar, manter os ouvidos abertos para ela.

DIA 22, DRAMÁTICO DE CASCAIS, 21H30



Mike Oldfield – “Tubular Bells II”

Pop Rock

9 SETEMBRO 1992

CANOS DE ESGOTO

MIKE OLDFIELD
Tubular Bells II

LP/MC/CD Warner Bros., distri. Warner portuguesa

Negócio é a palavra-chave. Negócio de imagens, números, reciclagem, desenterrar o passado, polir o produto e apresentá-lo como uma “ideia original”, inteligente, um golpe de génio. É disso que trata “Tubular Bells II”, versão tardia, de 20 anos, do original que nos anos 70 “revolucionou” a música pop, nas palavras de Rob Dickins, presidente da Warner no Reino Unido. Ao ponto de, na campanha publicitária, o primeiro “Tubular Bells” ser referido como uma “prequel”, dando a entender que o novo produto é que é o genuíno, numa brincadeira sintomática que recupera o termo “sequel”, ou sequela, cada vez mais em voga no cinema.
Dickins fala, a propósito, num “mundo de ‘Alien III’, ‘Arma Mortífera III’ e ‘O Exterminador Implacável II’, um mundo de números, de exploração de fórmulas que deram frutos dourados. Se “’O Padrinho II’ era melhor que o primeiro”, diz ainda Dickins, porque não ver em “Tubular Bells II” apenas a “sequência lógica” daquela atitude transposta para a música? Porque é óbvio que não, respondemos nós.
Coincidindo com a edição do novo disco de Mike Oldfield para a Warner, pela primeira vez, Richard Branson da Virgin não auferirá de quaisquer proventos. O compositor, guitarrista e multi-instrumentista assegurou também um novo acordo com a EMI, que, recorde-se, adquiriu todos os seus direitos de autor, quando da compra do grupo Virgin. “Tubular Bells II” terá ainda direito a um “home video”, na Warner, consumada que está a apresentação ao vivo, com pompa e circunstância, num espectáculo realizado num castelo de Edimburgo, que os portugueses tiveram oportunidade de assistir, na sexta-feira, em directo pela televisão.
“Tubular Bells II” é a versão adocicada do original. Carregou-se nas tintas “new age” e na limagem de arestas. A estrutura é a mesma, respeitando as diversas partes onde nem sequer falta a sequência final do primeiro lado (no formato vinílico), com um “mestre de cerimónias” incumbido de apresentar os diversos instrumentos até ao momento apoteótico correspondente à entrada dos célebres “tubular bells”. Mas como os tempos mudam, apesar de tudo, ouve-se uma introdução a “two sampled guitars” e a outros artefactos electrónicos que, diga-se de passagem, são muito menos românticos que os “mandolins” e “glockenspiels” do disco antigo. Não faltam a voz feminina à beira do desfalecimento de Sally Bradshaw e as gaitas-de-foles, aqui entregues aos P. D. Scots Pipe Band e aos Celtic Bevy Band. Mike Oldfield toca o esperado estendal de instrumentos, incluindo os sinos, e Trevor Horn assegura a produção, ele que foi um dos grandes impulsionadores do projecto e a quem, por tal motivo, devem ser assacadas responsabilidades. Nunca há só um culpado.
Ainda segundo Rob Dickins, “Tubular Bells” dirige-se a uma “subgeração de jovens fartos de música minimalista, à base de ritmos computorizados e ‘samples’” que procuram “outra coisa qualquer, próxima da música clássica”.Essa coisa é um híbrido mole e requentado, um golpe oportunista, pese embora os argumentos em contrário avançados por todos os envolvidos, com a agravante de minimizar e conseguir apagar as virtudes, que as havia, da versão original. Os tubos, depois de cornucópia de divisas, mesmo se a nova capa os mostra dourados, passaram a canos de esgoto. Não por acaso, sempre se foi lembrando que “Tubular Bells II” já vendeu, 20 anos passados sobre a sua edição, mais de 16 milhões de cópias em todo o mundo, mantendo uma média de vendas anual na ordem dos cem mil exemplares. É obra. Mas não de arte. (3)

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