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Música Portuguesa, Que Futuro?

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Vitorino – “Se pudesse, gostava de cantar em sérvio, ou em gaélico. Em inglês é que não… Por isso é que comecei a cantar em castelhano [num álbum recente, “La Habana 99”, com reportório cubano e a presença do Septeto Habanero]…”
“Os textos em inglês que muitas bandas cantam estão sintacticamente errados.”

Amélia Muge – “Nada do que o Fernando Pessoa escreveu em inglês o impediu de escrever o que escreveu em português. E o Eça teve um cargo importante no consulado em Paris. Eu canto em português, porque é a maneira de resolver, em mim própria, influências que recebo de muitos sítios. Fazer uma canção com a mesma matéria, a mesma língua, com que penso. Um poema é, antes de mais, uma base de trabalho sonora”

Miguel Cardona – “Escrevo em português e em inglês. Quando é um ‘rapport’ autobiográfico, escrevo em português. É a única via para ser sincero comigo mesmo. As coisas não me acontecem em inglês. Nas quando aio da minha vida, já posso recorrer ao inglês.”

Jorge Dias – “Está associada a quem canta em inglês uma ideia de antipatriotismo. É uma estupidez completa. Não há coisa que mais me entristeça do que poder absorver uma islandesa como a Björk, uns judeus belgas ou uns tipos franceses, todos a cantar em inglês, e não conseguir ver ninguém do meu país a conseguir vingar lá fora, a conseguir mostrar que em Portugal se fazem coisas tão actuais e tão interessantes como no resto da Europa, sem ser remetido para a categoria do exotismo.”

Rui Reininho – “Os brasileiros apropriaram-se da linguagem de computador e já falam em ‘downlodar’ ou ‘browsar’.”
“No outro dia reparei num cartaz de uma ‘rave’. É impressionante como se faz uma solicitação destas sem uma única palavra em português. É uma tentativa de globalizar. Em Atenas ou no Senegal seria a mesma coisa. É tudo a mesma tribo.”
“É importante a defesa da língua portuguesa. Aprendi um bocado isso com os nossos amigos galegos. Não lhes passa pela cabeça cantar em inglês. E, se calhar, em certos aspectos, até são mais modernaços do que nós.”

Miguel Cardona – “Os espanhóis dobram tudo. Tem a ver com uma certa ideia de nação. Nós, enquanto artistas, reportamo-nos muitas vezes a coisas exteriores. Um guitarrista fala do seu ‘amp’, num som de “Rhodes”, há toda uma linguagem corrente em inglês.”

FM – O presente, parte 2. As editoras são as bruxas da história, porque só promovem o produto que vem de fora. Os “media” são vilões, porque só escrevem sobre música chinesa. O Estado não apoia. Há preconceitos e barreiras a romper.
Miguel Cardona – “O rock cantado em português não sofre da mesma injecção de espuma que o inglês. É possível ler nos jornais ‘revivals’ de Bob Dylan ou Pink Floyd, com a cumplicidade de toda a gente, que não passam de meras manobras de promoção de limpeza de fundo de catálogo. Com certeza que não vão buscar os NZZN ou os Tantra e promovê-los na América…”

Vitorino – A rádio não passa música portuguesa, enquanto as percentagens de música anglo-americana são brutais. O Ministério da Cultura só dá força ao cinema. Tem que começar a apoiar a música portuguesa. Os Beatles foram condecorados pela Rainha.”
Jorge Dias – “As bandas que cantam em inglês também não passam na rádio. Não por cantarem nesta ou naquela língua, mas porque não têm o apoio de uma grande campanha de ‘marketing’. Não há critérios de avaliação. As pessoas limitam-se a colar-se a modelos de sucesso. Como, com raras excepções, não se consegue criar cá nenhum desses modelos, ninguém liga. Quem está nos centros de decisão pertence à geração do Rui, dos que conquistaram para a música a língua portuguesa, mas que, de repente, fecharam os olhos. Existe hoje um caciquismo, entre aspas, nos ‘media’ e, sobretudo, nas editoras. Apresenta-se uma banda a cantar em inglês e é recusada só por esse facto, nem sequer chegam a ouvir.”

Rui Reininho – “Tenho pena de que ninguém tenha rompido aquela barreira do meio milhão de discos. Toda a gente encravou nos 300 mil. É uma barreira psicológica.”

FM – O futuro. Globalizar ou resistir. O que é que podemos fazer?
Talvez socializar.

Amélia Muge – “As coisas que vêm do Norte têm uma conotação de tecnologicamente mais avançadas, enquanto o étnico estaria umbilicalmente ligado a um certo terceiro-mundismo. A imagem da música, da cultura portuguesa, enquanto for passivamente vendida sob estas conotações de mercado, tem que submeter-se à máxima do ‘quanto mais étnico ‘ melhor. Se calhar o circuito que vende os Madredeus não é o mesmo que vende a música tradicional portuguesa, no seu sentido folclórico.”

Vitorino – “Há uma grande música deste século, a música anglo-americana dos anos 60 e 70, conotada com um movimento social universal. Depois entrou numa decadência horrível, quando começou a ficar visual, a ouvir-se através dos ‘clips’. Subverteu-se a escuta. No Midem latino de Miami as estatísticas afirmavam que nos últimos três anos a música anglo-saxónica já tinha perdido no mundo um espaço de 6 por cento para as músicas de expressão castelhana. A única possibilidade que temos de exportar uma música cantada em português no mundo é fazer uma aliança com os brasileiros, como os espanhóis têm com toda a América Latina e as Caraíbas. Infelizmente os brasileiros fecharam-se a nós nos anos 60, coincidindo com a ditadura.”
“A salvação é a socialização dos meios. Dentro de uns dois anos eu ou o Rui Reininho podermos gravar em casa sozinhos. Os anglo-saxónicos inventaram os ‘media’ e nós vamos aproveitar e socializá-los.”

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Entrevista: Coldfinger Acenam com “Lefthand”

22.09.2000
Coldfinger Acenam com “Lefthand”
Quem é a Favor, Levante a Mão Esquerda

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Mãos ao ar! A esquerda! “Lefthand”. O álbum de estreia dos Coldfinger electrifica filmes negros, comete crimes na noite, faz scratch de sentimentos obscuros e corta à faca versos de Álvaro de Campos. E se entrar para um autocarro a uma hora de ponta e olhar para dentro da cabeça de uma pessoa – isso é drum ‘n’ bass. O PÚBLICO armou-se em detective e foi investigar.

Ele, Miguel Cardona, faz filmes sonoros, sente o poder de tocar na teclas de um piano Fender Rhodes ou de um Mini-Moog, arreganha os dentes a quem ousa proclamar a morte do drum ‘n’ bass e não consegue aguentar até ao fim a beleza excessiva de um filme como “Magnolia”. Ela, Margarida Pinto, veste-se das grandes cantoras clássicas e assume-se como a “face escura” da banda. Em “Lefthand” cada um é o braço do outro.
FM – Como é que Álvaro de Campos aparece metido nesta história, no tema de abertura, “Para um poema”?
Margarida Pinto – Foi um poema que me veio parar Às mãos. Normalmente trago sempre comigo a “Tabacaria” mas neste caso li os versos na casa de um amigo meu e achei-os extremamente musicais. Fiquei com o poema na cabeça. Acabámos por utilizá-lo com uma base musical que também não é nossa, mas do Arkham Hi*Fi.
FM – “Lefthand” junta electrónica, lounge, jazz, bossa-nova… Não se pode dizer que não estejam na crista da onda.
Miguel Cardona – No meu caso, que estou mais ligado à produção, se não estiver a fzer música estou a ouvir. Em minha casa ou na de coleccionadores de discos. Ainda na semana passada comprei o “Room With a View”, que é uma compilação dos Amalgamation of Soundz, que são eles próprios coleccionadores, a colectânea “Jazz in the House 8” do Phil Asher, alguém que passa este tipo de som que agora está na moda, um álbum já antigo de Q-Tip. A verdade é que todas estas modas, como o fat garage, ou o Larry Levan, já me andam a chatear. São cada vez mais rápidas, as pessoas não têm tempo para absorver o que é importante.
Margarida Pinto – Eu ouço Billie Holiday, Nina Simone, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan…
FM – Dizia o Miguel que as pessoas já não absorvem o que é importante?
Miguel Cardona – Às tantas forma-se um bloqueio. De repente gosta-se de bossa e já não se gosta de drum ‘n’ bass, de que se gostava há três meses. Ouvir música torna-se um fenómeno consumista e “racista”. A moda leva as pessoas a terem sensações apenas pelo facto de ser algo que está na moda e não simplesmente pela música em si. Diz-se: “Sinto-me bem porque estou num ambiente lounge a ouvir Masters at Work na versão “Bossa Très Jazz” e pronto, estou bem porque estou com o pessoal, sei que o que está a tocar é a faixa três, sei que isto foi roubado pelos Moloko e que deu milhões de contos em “Sing it Back”, portanto sou uma pessoa especial porque sei isto, porque li numa revista ou um amigo meu ou um jornalista informadíssimo me disse!”…
FM – Mas isso não faz parte da própria natureza do circuito da música de dança, essa socialização? Mesmo a música de “Lefthand” está mais próxima do que nos primórdios da banda, dessa vertente, digamos, mais mundana…
Miguel Cardona – Isso é porque ficámos mais sozinhos a produzir o disco, apenas nós os dois e o Joe Fossard. É um disco mais vasto onde se torna mais fácil darmos largas a todas as nossas ambições musicais e se calhar porque estamos mais perto dessa ideia de contemporaneidade social do que de uma ideia de contemporaneidade intelectual.
FM – E a Margarida, sente o mesmo apelo do gozo directo, de uma música mais conotada com o conceito de diversão?
Margarida Pinto – Não, normalmente sou eu a “face escura”. O Miguel é uma pessoa com mais energia que assume esse lado de provocar uma experiência sensitiva, de provocar nas pessoas uma vontade de dançar. Eu vou menos por aí…

Duke Já Havia

FM – “Duke Interlude” é obviamente uma dedicatória a Duke Ellington, embora pela música ninguém adivinhasse…
Miguel Cardona – Esse tema tem uma história. Ao registar as faixas na SPA, o tema chamava-se “Rude Interlude”. A senhora que lá estava, muito simpática, disse logo “não, não! Esse tema não pode registar com esse nome porque há aqui um senhor que é o (soletra) D-u-k-e E-ll-in-g-ton…”. Já eu me estava a partir a rir. Exactamente, é mesmo o senhor Duke Ellington. Entre gargalhadas acabei por “agradecer” à senhora ter ficado a conhecer um grande vulto da orquestração jazz e um dos músicos do séc. XX. Ficou “Duke Interlude”.
FM – Pelos títulos, percebe-se que gostam de brincar com as palavras…
Miguel Cardona – É uma necessidade. Por exemplo, “B com 1”, que no poema original da Margarida se chama “One Alone”. Mas também tivemos dificuldade com o registo dessa faixa… “Mondo” faz-me lembrar o nome de uma bebida, ou uma paisagem…
FM – Quem são os Lisbon City Rockers que produzem os temas “Criminal Behaviour” e “Trans Interlude”?
Miguel Cardona – É segredo. Também foram eles que produziram o nosso single, “Single plus”. Digamos que são um colectivo cujo anonimato tem a ver com a ideia de criar uma imagem, um espaço lúdico, uma etiqueta que possa incluir Os Faíscas, António Variações ou os Mler Ife Dada, passando pelo Rock Rendez-Vous. Uma ideia de unidade, de movimento e que também tem a ver com o rock fora da sua conotação anglo-saxónica, um “Lisbon rock!”. Mas fazem essencialmente música de dança ligada ao “house” ou um “electro” mais pop, da velha escola. São uma espécie de testemunhas silenciosas.

Condução de Pesados

FM – Foram buscar para a gravação os velhos sintetizador Moog, o órgão Hammond e o piano eléctrico Fender Rhodes.
Miguel Cardona – O que o Fender Rhodes tem de melhor é o peso das teclas. Podes ter um bom som de Fender samplado mas depois não tens a relação com o instrumento, que vibra e é bonito, e em que a sua própria imagem inspira o músico. Quanto ao Moog, assiste-se a um regresso brutal. No analógico, a parte eléctrica é muito mais rica, os componentes, os próprios materiais, permitem ao instrumento ter um som muito mais poderoso. Sente-se que está ali qualquer coisa. É como conduzir um veículo pesado. É diferente teres um tecladozinho Midi onde podes chamar um “som Rhodes” ou um “som Moog”. Perde-se essa relação.
FM – Cada um dos temas de “Lefthand” podia passar por um pequeno filme. Há uma relação directa da música dos Coldfinger com o cinema?
Miguel Cardona – O cinema é algo que transporto comigo. O último filme que vi foi “Magnolia”. Achei-o tão bom, de tal forma intenso, que me levantei e fui-me embora, já não aguentava mais, comecei a ficar transtornado. Deviam parar a meio para as pessoas descansarem. As imagens cinematográficas determinam por um lado o facto de nos expressarmos em inglês e, por outro, a relação com personagens, com heróis, que acabam por influenciar a minha escrita musical. O último tema, por exemplo, “The tree and the bird”, é uma fábula que vejo na minha cabeça como um filme de animação. Sobre um fundo branco, há uma arvora a falar a um pássaro dizendo-lhe “Tu também fazes parte de mim, não vou poder ir contigo, mas se puderes levar um pouco de mim dentro de ti quando te fores embora…”. Claro que há outras imagens bastante mais pesadas…
FM – “Lucky Star” é um dos temas de “Lefthand” mais declaradamente inserido no drum ‘n’ bass. Afinal em que ficamos, o d ‘n’ b morreu ou veio para ficar? Um músico como Amon Tobin enterrou ou salvou o d ‘n’ b?
Miguel Cardona – Não acredito nessas mortes anunciadas. Já quando era miúdo tentaram matar o punk, depois tentaram matar o rock… O Amon Tobin trabalha com o som de uma forma quase dada, cola os elementos, muito na escola dos Coldcut e da Ninja Tune, apesar de ser diferente. Não acho que ele seja um típico autor de drum ‘n’ bass. O James Hardway também fez agora um disco um bocado diferente, mas faltam os gurus… O LTJ Bukem, que seria um dj de d ‘n b, fez um disco que não é de d ‘n’ b. Mas o d ‘n’ b não morreu. É uma ideia que existia já no jazz be-bop, com uma atitude tipicamente humana. Se um gajo apanhar um autocarro numa hora de ponta, lá dentro é um concreto de d ‘n’ b na cabeça das pessoas…

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