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Meira Asher – “Spears into Hooks”

Sons

22 de Janeiro 1999
POP ROCK


Meira Asher
Spears into Hooks (10)
Crammed, distri. Megamúsica

Apocalypse Now


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Como o mundo acaba antes do ano 2000, Meira Asher antecipou-se, deixando para a geração de sobreviventes o seu próprio testemunho do apocalipse. “Spears into Hooks” é o segundo álbum desta israelita de cabelo rapado cuja estreia, intitulada “Dissected”, pese embora toda a sua força, não fazia prever o abalo emocional que a audição deste seu novo trabalho provoca. Os resquícios étnicos que aligeiravam um pouco a densidade musical de “Dissected” desapareceram, substituídos por um terramoto constante de electrónica industrial ultra-saturada, muito para além dos primeiros Test Dept. ou das litanias do inferno cuspidas por Diamanda Galas, que Meira ultrapassa na estética do grito, do vómito e do desespero.
“Spears into Hooks” explode-nos no estômago como uma granada. Obsessivamente, esfacelando o corpo e a alma, Meira Asher escalpeliza com uma minúcia que raia a crueldade a temática do Holocausto, tema após tema progressivamente mais perto do fundo do abismo. “Shahid 1” e “Shahid 2” são feridas, sons insuportáveis, samples de todas as guerras e todas as mortes e todas as torturas, música da agonia. Não se compreende como o estúdio aguentou, como as próprias máquinas suportaram a violência que lhes foi infligida. Imagine-se “Second Annual Report” dos Throbbing Gristle, mais “The Unacceptable Face of Freedom”, dos Test Dept., com uma dose extra de horror. “The Flood”, ainda no princípio, faz-nos já pensar na fuga, levando-nos a questionar como foi possível gravar um disco onde a dor está exposta de forma quase pornográfica.
Sob a voz, à beira do colapso, as máquinas agitam-se em fúria, elas mesmas esmagadas num sofrimento sem limites. E, como pano de fundo, um painel de morte: “samples” com gravações de mulheres e crianças atingidas por vários tipos de projécteis, descrevendo os seus efeitos físicos e as graduações da dor. Excertos adaptados do Génesis bíblico. Descrições de mortes, de assassínios, vozes vazias perante corpos que tombam, o testemunho de um sobrevivente do Holocausto. No final, a voz da israelita, cada vez mais distorcida, clama, escarra: “Die! Die” DIE!” Nada que se compare e nada que nos prepare para o que vem a seguir: “Weekend away break”. Um fim-de-semana turístico no campo de concentração de Birkenau. Uma batida de coração, amplificada até se confundir com a do planeta inteiro, em marcha para o inferno. “Uma canção de boas-vindas a um lugar criado por nós num momento de inspiração.” Golpes sobre golpes, dissecando a carne. E a canção saltando da hecatombe para uma valsa de Johann Strauss, “Spahrenklange”. Marlene Dietrich dançando com graciosidade, discos antigos, a elegância germânica, o mundo como um lugar cor-de-rosa.
“Birkenau e as suas florestas divinais, abrigo de espécies em extinção/De manhã vêem-se pessoas apanhando raízes e morangos/Outra atracção interessante: Elas não suportam o seu próprio cheiro a decadência/E à medida que o sol se põe por trás da floresta/Eles estarão a banhar-se e a fumar.” O martelo prossegue, a marcha torna-se fantasmática. A valsa do carrasco confunde-se com a ronda desconjuntada das vítimas. “Acordarás ao som das sirenes para outro dia passado no bar/e vais esquecer-te do pequeno-almoço porque vais experimentar os nossos pequenos jogos/E se não te apetecer jogá-los, bem, o que é que te podemos dizer mais?/Oferecemos-te a opção da sauna/Basta inalares e serás transportado para o paraíso.” O “ambiente celestial”, a “experiência etérea” culminando no silvo de gás e nos ecos de milhões de vidas que se vão extinguindo, como uma alucinação da mente, no “poema de Birkenau”. Não nos recordamos de um único disco que tenha ido tão longe.
Mas Meira Asher prossegue, implacável, atirando-nos à cara os coros de um povo que se extingue. Milícias de pedra, filmes sem imagem, queimados, esgotos e a fanfarra da Kocani Orkestar a incendiar o folclore dos Balcãs, em “Tiring night”, o único momento de “Spears into Hooks” em que se alivia um pouco a tensão. Mas logo a seguir os fornos reacendem-se com renovada intensidade. “Me last granny”, o amor e a destruição do amor, cantada em búlgaro e hebraico, metamorfoses vocais sobre electrochoques, chicotes eléctricos e ruídos de motor. Não faz mais sentido falar de música industrial. “I love you so – so – much.” Novo golpe. Doença do cérebro. Heresia e uma bênção. Uma criança com voz de demónio. Programações de Satanás.
O mal tudo cobre, por fim, em “É um Uomo”, resposta ao poema “Se questo é un uomo”, de Primo Levi. Insensíveis, com a inexorabilidade da morte, as máquinas (nunca os computadores se reduziram tanto a instrumentos de tortura, como em “Spears into Hooks”, conglomerando-se em rajadas de metralhadora, explosões e entropia de gases, vidro estilhaçado e metal) despedaçam os membros, braços e pernas, de uma mulher que grita até conseguir esquecer: “Lembramo-nos de tudo o que aconteceu/E agora é encarado como nunca tivesse acontecido/Não gravaremos nada nos nossos corações/Quando chegarmos a casa e já estivermos longe/Quando pudermos descansar e nos erguermos de novo/Não imprimimos nada do que vivemos nos nossos filhos/Deste modo perderemos a nossa essência/E a doença tomará conta de nós da cabeça aos pés/E a nossa descendência afastar-se-á de nós/Cada vez mais, para todo o sempre.” 1999 já encontrou o seu disco do ano. Chama-se “Spears into Hooks” e tem na contracapa um pardal crucificado.



Meira Asher – “Dissected”

Pop Rock

12 Fevereiro 1997

O corpo dissecado

MEIRA ASHER
Dissected (8)
Crammed, distri. Megamúsica


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Utilizar os textos bíblicos do Velho Testamento, domínio de um Deus castigador, para fazer passar o escândalo tem sido a estratégia seguida de há muito por Diamanda Galas. Agora surgiu em cena, no mesmo terreno, uma competidora à altura, a israelita Meira Asher. “Dissected” é um manifesto do excesso, à semelhança dos álbuns da cantora da trilogia “Masque of the Red Death”, mas a forma como cada uma delas nos atira à cara aquilo que gostamos menos de ver difere em múltiplos aspectos. Os pontos em comum entre ambas resumem-se a três: a relação ambígua entre sida e religião, que a israelita aborda de forma violentíssima (e – provocação máxima – dançável!) no tema de abertura, “Sida”; o recurso aos textos da Bíblia; a ênfase emocional posta na interpretação, a beijar o grito e a declamação, com recurso às possibilidades do “multitracking”.
A partir daqui, Meira Asher segue o seu próprio caminho, enveredando por uma falsa “world music” que incorpora técnicas vocais “Dharab” indianas, “grooves” de “drum ‘n’ bass”, percussões africanas e orientais (com a presença de Yuval Gabay, dos Soul Coughing), electrónica industrial e todo o tipo de batidas rituais que acentuam a sensação de ruptura que se desprende da maioria das canções.
Além de “Sida”, libelo sarcástico contra a praga do século, analisada sob a mesma perspectiva de “punição divina” com que Diamanda Galas envenenou um dos capítulos da sua trilogia sobre a sida, há ainda para dar cabo do juízo “Dissect me”, análise obsessiva sobre a tortura, a mutilação e a autocastração, numa alusão à Intifada que se propaga por outro tipo de leituras, “Daddy came”, monólogo desesperado sobre o terror do incesto, e “Maligora, the sand child”, onde Meira declama um poema de Tahar Bem Jelloun, com música inspirada em Ustad Ali Akbar Khan. Uma proclamação do auto-erotismo feminino, encarado como corrente mágica de transfiguração da realidade, cuja linguagem poética atinge uma crueza e claridade que roçam a obscenidade do espelho: “Durante muito tempo toquei nos seios e na vagina. Fiquei dominada pela emoção. Senti-me envergonhada. A descoberta do meu corpo passava por esse encontro das minhas mãos com a vagina.”
“Dissected” é “world music” no fundo do poço, habitado por polifonias simuladas em estúdio, réplica mutante das Zap Mama, polirritmias nas quais o étnico se mistura à pulsação do metal, sobrevoadas pelos demónios pessoais da cantora. O combustível das palavras, sempre acutilantes, alimenta as labaredas. Quer nas conotações simbólicas que lhe conferem os textos sagrados, quer pela intencionalidade que Meira Asher coloca em cada entoação. Uma granada prestes a rebentar.



Entrevista – Meira Asher: “As Cavidades Do Templo”

Pop Rock

12 Janeiro 1997

Meira Asher lança estreia controversa

AS CAVIDADES DO TEMPLO

O álbum de estreia da israelita Meira Asher, “Dissected”, promete dar que falar. Gritos e suspiros. Música das cavidades do corpo e da alma. Das suas doenças e dos seus sonhos. Poesia e experimentação sobrepostos num painel de tabus e sublimações. “World music” do fundo do poço.


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Meira Asher usa os textos bíblicos para dar a conhecer as suas visões. Ouve música de dança, mas não obedece às suas ordens de comando. Em viagem pelos caminhos da sexualidade, num “veículo próprio” entre a terapia e a denúncia, Meira Asher revelou ao PÚBLICO algumas das inquietações que manifesta em “Dissected”. Questionada sobre o diabo e a sua interferência na música, respondeu com uma citação de Job. Tão perturbante como a música.
PÚBLICO – “Dissected” é um álbum violento, de confrontação. Há alguma razão especial para ter escolhido esta estratégia de choque.
MEIRA ASHER – “Dissected” tem a ver com confrontação, mas não é violento. É um procedimento médico vulgar, uma observação mais de perto dos membros.
P. – Por que razão decidiu fazer também a produção do disco?
R. – Foi a coisa mais natural do mundo. Pretendi dar-lhe o toque mais pessoal possível. Em termos artísticos: projectar uma multiplicidade tumultuosa de disciplinas que resultasse numa síntese que pudesse manejar a meu bel-prazer. Em termos da indústria: as editoras que existem aqui [em Israel] não têm nem visão nem independência, todas elas lidam apenas com a música de Israel mais “mainstream”, que é extremamente chata. Os poucos músicos com uma atitude individualista que existem por cá geralmente produzem os seus próprios álbuns.
P. – O corpo e o sexo são duas das temáticas centrais de “Dissected”. Porque escolheu “Sida” para abrir o álbum?
R. – “Sida” tem por base uma oração de luto maravilhosa, chamada “Aquele que dá forma”. É uma invocação do poder de cura de Deus e refere-se a todas as cavidades do corpo humano. Quem ora não conhece nenhumas fronteiras, nem do tempo nem do espaço, nem da boca que canta…
P. – A relação que estabelece entre os textos bíblicos e alguns temas tabus da sociedade ocidental é outra estratégia de choque ou tem raízes mais profundas?
R. – Utilizo as escrituras por diversas razões. Uma dela é por ser uma grande obra de poesia, acessível, que emprega uma sábia sintaxe das sílabas hebraicas, o que resulta numa textura sonora de enorme profundidade. Aqueles que andam sempre a lamentar-se do desaparecimento da música do templo não se aperceberam deste facto. Por outro lado, a natureza eterna dos textos permite interpretações infindáveis, uma das quais é a sua manipulação tendenciosa por fanáticos, no contexto sócio-político de Israel.
P. – “Dissect me” fala de sofrimento, mutilação e tortura. Há uma relação óbvia com a Intifada, mas também permite outro tipo de leituras…
R. – … é um tema que traduz um sonho de horror que tive, durante a Intifada. Mas são possíveis outras leituras, sim… Sugerindo um Estado próprio chamado Palestina.
P. – “Maligora”, com poema de Tahar Bem Jelloun, é um dos temas mais fortes do disco. A energia sexual em circuito fechado. Uma espécie de tantrismo solitário. Que pretendeu dizer com este tema?
R. – O lugar é Marrocos. Na maior parte das sociedades orientais, quem não tem filhos e ainda por cima tem uma quantidade de filhas é objecto de desprezo. Um pai de sete filhas, frustrado, decide que o próximo será um rapaz, custe o que custar. O oitavo a nascer é, assim, uma “filha/filho”, como uma mentira, condenada a viver toda a vida na solidão. Ele leva as suas capacidades de escrita ao extremo de usar as palavras para preservar a sua sanidade. No parágrafo que utilizei, ela descreve o encontro sexual com o seu próprio corpo, à medida que vai descobrindo a sua identidade feminina. Tem 20 anos, o pai acabou de morrer e ela abandona a aldeia para uma longa viagem. “Maligora” é uma “raga” do Norte da Índia, entre a noite e a madrugada, em que os sentidos estão despertos e aguçados como o sabor do alho. A recitação do texto é feita pela harpista italiana Stefania Mpoiraghi.
P. – O incesto é abordado em “Daddy came”. Ainda e sempre o corpo e a pureza violentados?
R. – É um grito de despertar. Uma forma cáustica para nos recordar os direitos da criança.
P. – Está de acordo com que a sua música se pode considerar “ritual”, na medida em que induz a transformações, interiores e exteriores, de vária ordem?
R. – Sem dúvida.
P. – Trabalhou em musicoterapia, com crianças autistas. “Dissected” é, nesta medida, uma terapia ou, pelo contrário, uma contaminação?
R. – Digamos que um espelho da realidade. É necessária uma grande dose de energia para transformar um sonho como este em palavras. Lembro-me de, nessa altura, trepar pelas paredes e esborrachar os miolos contra elas…
P. – Que tipo de reacção tem tido este seu trabalho, em Israel?
R. – O “feedback” tem sido bom. As pessoas comovem-se, nalguns casos até às lágrimas. Os israelitas, embora raramente prezem a originalidade, admiram a honestidade.
P. – Sei que se interessa pela música electrónica, nomeadamente pela techno e industrial, formas musicais conotadas com a massificação, o apocalipse e o terror. De que maneira pretende trabalhar, no futuro, com estas formas musicais?
R. – Não posso predizer o que aí vem, mas planeio, de facto, entrar mais a fundo na electrónica. Há novo material a aparecer e estou na fase de procurar músicos para o tocar.
P. – Que relação mantém com a cena internacional da música de dança? Concorda que é uma óptima maneira de introduzir determinado tipo de mensagens ideológicas? O transe como veículo, não de ascese, mas de hipnose…
R. – Ouço bastante “dance music”, de toda a espécie, apesar de o meu corpo rejeitar a maior parte e não obedecer à ordem de comando “Move!” [Mexa-se!]. Propaganda e formas de hipnose podem e têm sido usados através de vários estilos de música. No que me diz respeito, sinto necessidade de criar um veículo protótipo.
P. – O demónio, caso acredite nele, está a trabalhar em pleno neste final do século. Concorda que a música é, presentemente, o seu instrumento privilegiado?
R. – “Satanás replicou ao Senhor: ‘Um homem é capaz de dar tudo o que tem, e até a sua própria pele, para poder salvar a sua vida! Mas experimenta levantar a tua mão contra ele, faz com que ele sofra a doença nos seus ossos e no seu corpo e verás se ele não te amaldiçoa, mesmo na Tua frente!’” Job, 2:4-5.