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Matmos – A Chance To Cut Is A Chance To Cure

04.05.2001
Matmos
A Chance To Cut Is A Chance To Cure
Matador, distri. Zona Música
8/10

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É o novo álbum dos Matmos, M. C. Schmidt e Drew Daniel, indivíduos de gostos estranhos, filhos de médicos, para quem um dia bem passado é permanecer 24 horas numa sala de operações a gravar o som da carne esquartejada e esturricada. Pode soar a mórbido, mas os resultados justificam os procedimentos – cirúrgicos – utilizados. Em “L.A.S.I.K.”, o som das serras de laser funciona como um “Groove box” para o drum ‘n’ bass mais experimental, a fonética pediátrica de “Spondee” transforma-se em house viciante, os Dat Politics não utilizaram melhor um crânio, em “Memento mori”. Os sons do corpo manipulado pelos bisturis confundem-se com os sons sintéticos do estúdio, num laboratório virtual onde a electricidade e a mecânica moldam os corpos e estes determinam o “corpus” da música. O tratamento é radical, mas no bloco pós-operatório dança-se, sem recurso a anestesia.

Matmos – Música Na Mesa De Operações

23.02.2001
Matmos
Música Na Mesa De Operações
Uma oportunidade de cortar é uma oportunidade para curar. Sobre esta máxima os Matmos partiram para o estúdio como médicos cirurgiões desejosos de cortar e coser. O disco cheira a éter e a carne queimada.

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Ruídos de uma operação de lipoaspiração, o som do laser a cortar tecido óptico, testes auditivos a crianças surdas, agulhas de acupunctura amplificadas, a agonia de um rato de estimação gravada em directo, a fritura de narizes a serem cauterizados. Tudo isto serviu aos Matmos – Andrew Daniel e Martin Schmidt – para fazerem um disco, “A Chance To Cut is a Chance To Cure”, em que a música se confunde com uma operação cirúrgica. O hospital como estúdio de gravação. O estúdio como clínica de recuperação. Cortar e curar. O odor a formol da morgue e o cheiro a carne queimada foram montados de maneira a poderem ser dançados e escutados como uma experiência que abre novos limites à música electrónica. O Y ouviu a receita destes dois filhos de médicos.

FM – Como é que tiveram a ideia de fazer um álbum desta natureza?
. Os nossos pais são ambos médicos e costumávamos perguntar-lhes que sons é que ouviam no trabalho, achávamos fascinantes as descrições que faziam. As pessoas têm uma ideia da música electrónica como algo frio e maquinal. Quisemos falar de máquinas como algo físico, como o corpo humano. A gravarmos o som de maquinismos médicos, mesmo se são mecânicos, criam logo a associação com a sua acção sobre o corpo. Levou algum tempo até conseguirmos recolher os sons de operações.
FM – Como é que conseguiram a autorização para fazer essas gravações?
. Houve vezes em que fomos corridos dos hospitais (risos). Mas havia sempre amigos ou conhecidos que conheciam alguém e a quem pedíamos se podíamos assistir às operações…
FM – Falaram com os pacientes?
Claro, a maior parte envolveu-se no projecto! Alguns sentiam-se orgulhosos. Uma amiga nossa, por exemplo, deixou-nos gravar a operação a que foi submetida aos olhos, o som do laser, e logo que a operação acabou foi a correr para casa para ouvir as gravações. Foi importante para nós que não se tratasse de exploração… Noutras ocasiões, a autorização veio dos médicos que nos deixavam entrar. Mas deu trabalho. Na América é fácil ser-se processado pelos motivos mais triviais. Por isso encontrar um médico em quem pudéssemos confiar e que nos permitisse estar presente num ambiente esterilizado, sem dar cabo de nada…
FM – Os médicos não se sentiam perturbados por vos terem ao lado com gravadores e microfones a funcionar?
. Na verdade encararam a coisa como se fosse uma “perfomance”, como se estivessem a actuar num espectáculo. Por exemplo, no tema da lipoaspiração, ao saber que íamos gravar, o médico decidiu usar uma agulha maior do que o costume, só para fazer mais barulho. Digamos que “tocou” toda a área de carne que estava a ser aspirada.
FM – Como é que se sentiram durante as gravações? Estavam conscientes do sofrimento físico dos pacientes?
. Todas as operações que gravámos, de cirurgia estética, não eram indispensáveis à saúde das pessoas envolvidas. Se houve sofrimento, foi voluntário, ou já traziam o sofrimento com elas, antes. E estavam sob o efeito da anestesia, por isso podia observar-se à vontade as reacções do corpo. Às vezes custava observar… Um de nós é muito medricas e chega a desmaiar só de ver sangue. Mas como estávamos concentrados em gravar, com a posição dos microfones, ou preocupados se podíamos aproximar-nos do dispositivo de manutenção de vida, tudo isso nos distraiu e fez sentir seguros. Os microfones, por exemplo, tinham que estar suficientemente perto para captar bem os sons mas não tão perto que pudessem perturbar o cirurgião.
FM – Usaram equipamento especial nessas gravações?
. Um microfone AKG-414 que é excelente para captar sons extremamente baixos. Mas tivemos que pedir aos médicos e às enfermeiras para não falarem durante as operações. Normalmente eles estão sempre na conversa ou a dizer piadas. Muitas vezes ouvem música. Estão a fazer o seu trabalho.
FM – Suponho que quando as gravações não ficavam boas, era impossível pedir aos médicos para repetirem?…
. Bem, aconteceu isso com a operação de laser aos olhos. Da primeira vez o microfone ficou encostado a uma máquina médica e ficou uma horrível interferência que arruinou a gravação. Mas como o doente sofreu algumas complicações e teve que se submeter a outra cirurgia, acabámos por poder repetir.
FM – No primeiro tema, “Lipostudio… and so on”, o tal da lipoaspiração, contaram com a colaboração de um ex-membro dos Coil, Stephen Thrower, no clarinete. Coil que não são, propriamente, sinónimo de música saudável…
. Têm sido uma inspiração para nós. Os seus álbuns são sempre ambiciosos e têm um tema central que nunca é simplista. Para alguém como eu (Andrew) que é gay, foi importante, durante a adolescência, saber que pessoas tão estranhas e que também eram “gays”, podiam fazer música tão boa.
FM – Usaram neste tema as vozes de grupos ou pessoas tão excêntricos como Kid606, Lessser e Blectum from Blechdom. Tudo projectos instrumentais…
. Temos uma ideia que vamos desenvolvendo e completando de álbum para álbum, uma espécie de enigma. No álbum anterior, “The West”, há uma voz que diz “The sky is always the hardest part”. Trata-se simplesmente de um excerto de um parágrafo maior que, neste novo álbum, tem continuação com as vozes de Kid606 e dos Blectum a dizerem: “Now, I know how it fits”. À medida que formos editando mais álbuns a frase ir-se-á revelando até se perceber a totalidade.
FM – Todos esses nomes têm algo em comum. Já se pode falar na emergência de um movimento dentro da cena electrónica americana?
. Isso cabe aos jornalistas decidir. Mas há uma rede de cumplicidades. Somos todos amigos, ouvimos a música e tocamos nas bandas uns dos outros. Mas tentamos atingir alvos diferentes. No nosso caso o objectivo é pegarmos num tema perturbador e tentar fazer com ele uma música engraçada. Às vezes acabamos por ser ultrapassados, como na canção do rato Felix, que não é nada engraçada… Mas mesmo no tema em que usámos um crânio humano, tentámos manter o sentido de humor, em vez de cairmos no gótico.
FM – Nesse tema, “Memento Mori”, o crânio pertencia a quem?
. A um cadáver. Talvez aqui sim, possamos ser acusados de exploração. O crânio veio do Tibete.
FM – EM “L.A.S.I.K.”, quase se pode sentir o laser a cortar os tecidos…
. As iniciais são de uma sigla médica que designa este tipo de operação.
FM – Em “Spondee” transformaram um teste auditivo em música de dança. Música de dança para quem?
. Foi gravado numa escola para crianças surdas, com uma mulher a fazer testes para averiguar se elas conseguem ou não perceber o discurso falado. Ela recitava as mesmas palavras, mas alterando-lhes a acentuação fonética, para ver até que ponto os danos auditivos eram mais ou menos graves. Também usámos sinais áudio com frequências a partir dos 15 htz até ao limite do espectro auditivo humano. Quando ouvimos este tema na master original o som chegava a ser insuportável.
FM – Segue-se “Ur tchun tan tse qi”, um título que não é lá muito esclarecedor…
. É uma transcrição fonética do chinês. Um amigo nosso faz acupunctura. Mas ao invés das agulhas que perfuram os pontos nervosos do corpo, usámos outras que servem para procurar esses mesmos pontos. Segura-se nas mãos essa peça de metal que está ligada por um fio a um aparelho que envia impulsos eléctricos. Ao perfurar a pele, o corpo estabelece o circuito eléctrico. O curioso é que o próprio corpo humano transmite electricidade mais facilmente através desses tais pontos. Assim, à medida que a agulha vai circulando na pele, e aproximando-se de um desses pontos, mais alta vai ficando a frequência eléctrica. Todos os sons deste tema foram criados por este detector. Quando interpretamos este tema ao vivo parecemos cientistas, com o Martin deitado numa marquesa a mover a agulha sobre o rosto. Como instalámos uma câmara na pele pode observar-se tudo em pormenor. E sempre que a agulha toca num ponto sensível ouve-se uma sucessão cada vez mais acelerada de “clics” amplificados. Samplámos os sons e fizemos uma canção só de “clics”. Também usamos ao vivo imagens recebidas de uma câmara endoscópica que introduzimos no corpo.
FM – “For Felix (and the all rats)” aborda um ângulo diferente: a morte de um rato engaiolado. É um manifesto contra o abuso dos animais na investigação médica?
. Começou por ser. Nos laboratórios médicos dos EUA, existem leis que obrigam os cientistas a fazer testes com animais que não são realmente necessários. Uma vergonha. Cada vez que fabricam um sabonete novo fazem testes em centenas de animais, mesmo quando não têm produtos que não tivessem sido testados antes. Centenas de animais mortos por causa da burocracia!
Tínhamos um rato de estimação, Felix. Vivia connosco no estúdio, numa gaiola. Costumava ouvir e ver com muita atenção tudo o que fazíamos. Tornámo-nos amigos. Um dia tivemos que partir para uma digressão e entregámo-lo a um amigo para tomar conta dele. Ele deixou-o fugir e Felix acabou por se esconder num buraco de uma parede. Comeu veneno para ratos e morreu lentamente, foi horrível.
FM – O resultado sonoro, além da tristeza que transmite, soa a música clássica…
. Compusemos este tema para os Kronos Quartet. O David Harrington esteve em nossa casa e disse que parecia música antiga. Tocámos com um arco de violino nas grades da gaiola.
FM – O álbum termina com “California Rhinoplasty”, sobre cirurgia estética ao nariz. É uma boa maneira de terminar um disco – com narizes…
. (risos) É algo pessoal, na medida em que o meu pai (de Andrew) é especialista em narizes. Escreveu um tratado de 900 páginas, sobre anatomia nasal. A canção acaba por ser sobre ele. E o Martin toca uma flauta que se sopra com o nariz (NR: a “nose flute” usada por algumas tribos de pigmeus). Quisemos que as pessoas pensassem sobre os seus narizes, o que acontece quando respiram. Geralmente só reparam quando estão constipadas… E na variedade de sons que se podem fazer com o nariz (NR: Neste ponto os entrevistados desataram a emitir ruídos nasais de toda a espécie).
FM – Uma parte da canção lembra os Residents…
. A sério? Obrigado! O nosso amigo Rex, que faz toda a parte gráfica dos Matmos, já trabalhou com os Residents. Chegou a vestir uma das célebres máscaras de globo ocular num dos espectáculos deles.
FM – O que é que os Matmos preparam para o futuro?
. Estivemos a gravar texturas sonoras para o novo álbum de Bjork que sairá em Maio. Das 20 canções participámos em metade. E vamos fazer parte da banda, juntamente com Zeena Parkins, que a acompanhará na digressão mundial.
FM – Acredita realmente que “uma oportunidade de cortar é uma oportunidade para curar”?
. Eu (Andrew) tinha uma mancha na cara e perguntei ao meu pai se ele a podia tirar. Já deitado na mesa de operações, e depois de me ter injectado no rosto a anestesia, quando se preparava para cortar, atirou-me: “Nunca te esqueças que uma oportunidade de cortar é uma oportunidade para curar”! A frase atingiu-me em cheio. É a mesma coisa que fazemos com o som.

Matmos – The West (conj.)

12.01.2009
Excêntricos De Luxos
Matmos
The West
8/10

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Blectum From Blechdon
The Messy Jesse Fiesta
8/10

Electric Birds
Electtric Birds
7/10
Todos Deluxe, distri. Symbiose

A distribuição em Portugal da editor Americana Deluxe traz para já consigo três objectos fascinantes, à margem dos parâmetros mais em voga na música electrónica.
“The West”, terceiro álbum dos Matmos (Drew Daniel e M. C. Schmidt), foi considerado um dos melhores discos de 1999 para a revista The Wire. Colaboradores remisturadores de Aerial M, Cul de Sac, Pluramon, Kid606, The For Carnation, tortoise, Labradford, Ground Zero e Björk, os Matmos fazem em “The West” uma música difícil de catalogar na qual se redimensiona o imaginário do western, através de processos que, numa primeira leitura, requisitam todo o formulário identificável do pós-rock para, de forma subliminar, lhe introduzirem o factor electrónico. É usada instrumentação acústica (violino, violoncelo, guitarras) para criar atmosferas de “saloon” que, por força da repetição e de subtis sequenciações computorizadas, se transmutam em “trompe l’Oeil” sonoros e emissões de rádio galáctica. A uma distância apesar de tudo considerável das cavalgadas épicas dos Godspeed You Black Emperor! Os Matmos estarão porventura mais próximos dos Gastr Del Sol, enquanto inovadores de uma linguagem, o pós-rock, a necessitar urgentemente de novas reformulações. Para que consta, o próximo trabalho da banda terá como base as sonoridades de tecnologia médica.
Ainda mais estranhos são os Blectum from Blechdom que, em termos gráficos, remetem para os “cartoons” dos Residents ou Renaldo and the Loaf. A escuta mostra a actividade de cabeças com febre tocadas pelo génio. Grooves cortados à lâmina pelos Severed Heads, samples de conversas em contramão, breakbeats no “sítio errado”, loops em inversão de marcha, humor a la Mr. Bungle, caixas de música com monstros dentro, esgares Aphex Twin e toda a espécie de delírios colados num puzzle sem manual de soluções, arrastam o ouvinte para uma terra de ninguém, fazendo desde já de “The Messy Jesse Fiesta” a primeira grande surpresa de 2001.
No álbum de estreia dos Electric Birds (Mike Martinez, patrão da Deluxe), com co-produção dos Matmos, apesar da estranheza que parece caracterizar todos os lançamentos da editora, descortinam-se com alguma nitidez as vigas que constroem o edifício: Steve Reich, ambientes de digitalindustrial, saturação de software, em “Acoustic Orange” um andamento hipnótico falsamente acústico evocativo dos primeiros Biosphere e, já no final, uma verdadeira canção com patente 4AD, seguida de uma imagem impressa no mesmo formato dos Labradford que, se amenizam o som, contrariam em absoluto a orientação estética do resto do álbum.
Os amantes do bizarro têm nestes três discos com que se entreter para os próximos meses.