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Marta Dias – “Yué”

POP ROCK

30 Abril 1997
portugueses

Marta Dias
Yué
ED. E DISTRI. UNIÃO LISBOA


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Os primeiros sons de “Ai Mouraria” não auguram uma experiência inolvidável. Se a voz de Marta Dias impressiona de imediato, o mesmo não acontece com a justaposição de um regionalismo afadistado à la Anamar com a dolência “trip hop” que o produtor Jonathan Miller soube adoptar à realidade lusitana. Mas quando percebemos nos versos uma coisa como “Fora da janela há uma verdade que desmente, uma imagem virtual vendida como fado a toda a gente”, compreendemos que por detrás do emblema brilha a inteligência e um espírito atento. Não que Marta Dias se embrenhe em matérias complicadas, antes pelo contrário, a sua postura e colocação vocal não poderiam ser mais “cool”. “Yué” é uma espécie de sonambulismo latente num passeio pelas tais ruas virtuais de um país sem centro. A cantora não esconde o seu gosto pela “soul” nem um descomprometimento no modo como se aproxima da música de dança (“Say you could be mine”). O vibrafone está omnipresente, acentuando o lado etéreo da música, por vezes consentindo um sabor a “chill out”, noutras cedendo ao arrastamento exigido pelas estilizações “hip” ou “trip hop”. Mais portuguesa em “Flores do verde pinho”, mais triste em “Tão longe”, mais vulgar em “Amor”, mais internacional e imersa nas correntes em voga em “Seen it all before” e “Baby”, Marta Dias percorre, quase com displicência, o espectro menos velado de uma música da alma bastante menos portuguesa do que seria de supor. (6)



Marta Dias – Entrevista – “Suave Sobressalto”

Pop Rock

26 Março 1997

Marta Dias estreia-se a cantar sobre “ritmos lentos”

SUAVE SOBRESSALTO

“Y-U-É” constitui a estreia discográfica, a solo, e Marta Dias, uma voz talentosa que antes já colaborara com General D, Ithaka e Cool Hipnoise. Sobre ritmos trip hop ou em temas mais afadistados, é uma outra maneira de fazer dançar suavemente. Ou não fossem os seus heróis os nomes míticos da Tamla Motown.


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A serenidade prevalece nos sons e no discurso desta jovem cuja estreia discográfica aponta cruzamentos estimulantes da balada jazz e soul com a música de dança. Histórias vividas por interposta personagem, onde a nostalgia deixa um “travo de inquietação”.
PÚBLICO – Na folha promocional pode ler-se que “começou a cantar as músicas que ouvia”. Que músicas eram essas?
MARTA DIAS – Canto desde sempre. Tenho a sorte de pertencer a uma família onde éramos incentivados a cantar ou a representar. A primeira música que ouvi foi do José Barata Moura, era o meu ídolo quando tinha seis anos. Ouvi também muitas canções da resistência, os meus pais eram de esquerda, muito Zeca Afonso. Mais tarde, Amália, fruto de uma grande fixação que o meu padrasto tinha pelo fado. Também música clássica, Mozart. Depois comecei a ouvir as minhas coisas, música da Motown, que colidia com tudo o que ouvia em casa.
P. – O quê, da Tamla Motown?
R. – Temptations, Jackson Five, Diana Ross, Gladyz Knight and the Pips, Martha Reeves and the Vandellas. Sobretudo, houve canções que me marcaram, “Take me in your arms and love me”, da Gladys Knight, muitas coisas dos Temptations, inclusive fizemos uma versão de “Papa was a rolling stone”, ao vivo.
P. – Quando e onde cantou pela primeira vez em público?
R. – Aqui em Setúbal, com o Teatro de Animação da cidade. A solo, cantei uma vez no Dia da Mulher, também com dois guitarristas, um trabalho acústico co clássicos portugueses. Há cerca de dois, três anos.
P. – Antes tinha estado em Colónia. Essa estada foi-lhe útil, em termos de evolução artística?
R. – Teve muita influência, no sentido de poder desbravar a voz. Sempre tinha cantado a título de brincadeira, de gozo, de fruição. Conheci então uma cantora e professora de canto, Marta Laurito, brasileira. Conhecemo-nos no elevador, ouvi falar português, alguém a chamar Marta, que também é o meu nome. Meti-me com ela, soube que era cantora de ópera e disse-lhe que era uma coisa que eu adorava fazer. Sempre tivera vergonha de dar aqueles berros, quer dizer, eu dava os meus berros, mas não eram muito sintonizados!… Ela ofereceu-se para me dar aulas, aceitei, uma vez por semana. Foi óptimo. Depois tive aulas cá em Portugal, com a Filomena Amaro, no Conservatório de Setúbal.
P. – Essa aprendizagem serviu-lhe apenas do ponto de vista técnico ou influenciou também o seu estilo?
R. – Serviu para poder fazer imensas coisas que gostava de fazer com a minha voz e até essa altura não sabia como. E para me dar alguma disciplina. Mas em termos de estilo e orientação, não. Porque desisti muito cedo de qualquer vontade de seguir carreira na ópera.
P. – Porque é que desistiu?
R. – Gosto demasiadamente da minha vida e quero ter uma. Não quis tornar-me uma garganta e não fazer nada, foi isso que me assustou. Acredito, sobretudo, na expressão. Acho que uma voz transmite histórias, coisas vividas. A perspectiva de passar o tempo todo com um cachecol enrolado à volta da garganta e de não poder fazer nada, porque isso me poderia afectar, não me agradava. Por mim, mesmo rouca, cantava.
P. – Antes da gravação do disco, colaborou com General D, Cool Hipnoise e Ithaka. Conte como foi.
R. – Com o General D, ele estava à procura de uma pessoa para cantar um tema com uma referência aos blues. O meu irmão, que também é “rapper”, apresentou-mo no concerto dos Urban Species. Fui ensaiar com eles, começámos logo com o tema, que se chamava “Amigo prekavido”. Fiz uma intervenção com uma frase de blues, salvo erro, do John Lee Hooker. Com os Cool Hipnoise foi uma participação muito breve, muito subtil, ao nível de coro, no tema “Bairro da lata”. Como os Ithaka, o Darin Pappas e o Pedro Passos estavam também à procura de uma pessoa… É engraçado, nesses três projectos acabei por ter a mesma função.
P. – Darin Pappas que participa no seu disco…
R. – … Como eu participo no próximo disco dele. Foi ele que escreveu uma letra para o meu CD, “Look to the blue”.
P. – E o seu encontro com o produtor Jonathan Miller?
R. – Conheci-o antes das gravações com o General D. Ouviu a minha voz num ensaio, gravámos, depois estive imenso tempo sem ouvir falar dele. Um dia telefonou-me a dizer que gostara imenso da minha voz e que podíamos trabalhar juntos. Fiquei um bocadinho espantada. Na altura estava no Hot Club a ter aulas e estava mais interessada na formação dentro de uma área mais jazzística. Não me passava pela cabeça gravar um disco. Ele mandou-me uma “maquette” com alguns temas, mais tarde encontrámo-nos para compor. Funcionou bem.
P. – As decisões, ao nível da produção e da composição, foram da inteira responsabilidade dele ou a Marta também teve alguma palavra a dizer?
R. – Ele compunha uma base instrumental, eu escrevia a letra, e a partir daí trabalhávamos a dicção, possíveis opções, eu punha alguns instrumentos, seleccionávamos o que funcionava melhor. Na produção, os créditos são só dele. Mas se havia qualquer coisa que eu achava absolutamente repelente, ele não insistia…
P. – Em certos temas, Amália pode ser apontada como referência?
R. – Amália influenciou-me muito, mas isso não quer dizer que se ouça Amália no que eu canto. Ela inspira-me, na medida em que as coisas dela estão sempre presentes na minha cabeça.
P. – Aliás, os registos de voz que utiliza no álbum são múltiplos…
R. – Tenho uma costela africana, outra indiana, há uma fusão muito grande em mim.
P. – O hip hop e o trip hop estão inevitavelmente presentes na base rítmica de alguns temas. É sobre elas que se sente mais à vontade a cantar?
R. – O disco tem uma certa coerência em termos de ritmo. Há quem lhe chame “ritmo lento”. Sinto-me confortável a cantar nessa onda. Os temas são todos mais ou menos intimistas, mais ou menos nostálgicos.
P. – O jazz também está presente. Se lhe pedisse que citasse cantoras, que nome escolheria?
R. – Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan. Sou uma clássica e absolutamente conservadora nesses domínios.
P. – O álbum revela uma enorme serenidade da sua parte. É assim mesmo na vida real?
R. – Há uma tranquilidade na música, mas não nas letras. Gosto de contar histórias que sejam aparentemente normais mas que deixem um travo a inquietação. Que de repente, quem as ouve, tenha um certo sobressalto.
P. – Como é que constrói essas histórias? Saem apenas da imaginação ou de vivências concretas?
R. – Há muitas pessoas que cruzaram a minha vida e muitas experiências. E situações que não compreendo totalmente mas em que imagino alguém, que não sou eu, eu está lá sentada, a vivê-las. Sentada, porque está a observar, sem nunca participar totalmente. É essa pessoa intermédia que me vai contando o que os outros estão a viver.