Arquivo de etiquetas: Maria João

Maria João, Teresa Salgueiro e Filipa Pais – “Três Cantoras Debatem Música Portuguesa No Feminino – Cantos Da Alma Sentida” (entrevista)

pop rock >> quarta-feira, 03.02.1993


Três Cantoras Debatem Música Portuguesa No Feminino
CANTOS DA ALMA SENTIDA



Reunimos o trio de ouro das vozes portuguesas. Para Maria João, Teresa Salgueiro e Filipa Pais, o prazer de se saberem cúmplices juntou-as quase imediatamente nos cantos que encheram os corredores do PÚBLICO. Em jeito de antecipação de um projecto antigo de Filipa Pais e Teresa Salgueiro, baseado nos temas populares recolhidos por Michel Giacometti. Maria João, por seu lado, vai continuar a cantar pelo mundo fora com músicos de excepção: Aki Takase, Lauren Newton, Marilyn Mazur e Bobo Stensson. Alheias ao tempo e ao lugar, quando finalmente, se sentaram para falar das coisas que bordam a sua música, as horas anteriores já tinham acendido a chama. Entre a descoberta de dificuldades e entregas comuns, afirmaram-se intérpretes rodeadas de excelentes profissionais e defenderam a dignidade da música que lhes sai da alma e das vísceras. Entre a diversidade das suas imagens e personalidades, a felicidade de estar em palco arrebata-as para lá da indústria e dos seus contos imorais. Vozes de corpo inteiro partilhadas com quem as ouve, esquecidas da pequenez de um país provinciano.
No final deste encontro de raparigas, entre a promessa de um jantar e a troca de gravações de temas queridos, Maria João, Teresa Salgueiro e Filipa Pais tinham afirmado com emoção a intenção de abrir caminhos. É isso que anima os seus cantos. Soltos, instintivos, cristalinos e interiores. Porque de cantoras e mulheres de alma à superfície.

Maria João, Teresa Salgueiro e Filipa Pais contaram ao PÚBLICO segredos, riscos e estratagemas. E algumas fraquezas. Falaram de si e dos homens. Do que é ser mulher e cantora em Portugal, um país provinciano, reconheceram, onde “fica tudo uma coisa caseira”. E onde nem tudo é o que parece.
PÚBLICO – Em Portugal, na música popular, há poucas compositoras. O homem compõe e a mulher interpreta?
FILIPA PAIS – A mim, neste momento, apetece-me mais interpretar que mostrar as minhas coisas. Não me sinto ainda pronta para mostrá-las… Os homens se calhar são mais libertos…
MARIA JOÃO – É mais uma questão de pessoas, de sensibilidades. Há mulheres muito brutas e homens muito sensíveis. Eu componho quando estou a cantar. Quando improviso estou no fundo a compor. Agora, pegar num tema desde o princípio da composição, acho um disparate. Como estou rodeada de músicos excepcionais, tudo o que eu possa compor será sempre inferior ao que eles podem fazer e fazem excelentemente. Muitas vezes os temas nem sequer são para mim mas eu agarro neles e “roubo-os”…




TERESA SALGUEIRO – É isso. E talvez venhamos todas a compor nos tempos mais próximos. Era uma coisa que eu gostava de fazer. Não sei é quando…
M. J. – Os meus ídolos são três mulheres que nunca foram compositoras – a Maria Callas, a Maria Teresa de Noronha e a Elis Regina, que são apenas intérpretes.
P. – As instrumentistas também se contam pelos dedos… Uma questão de educação? De comodismo?
F. P. – Penso que é uma questão de educação. Eu vejo agora, que estou no Conservatório, que há imensas raparigas com boas vozes, com vontade, mas que não arriscam, estão sempre à espera de qualquer coisa…
M. J. – A voz é um instrumento como outro qualquer. Eu não toco piano, pois não, mas toco cordas vocais.
F. P. – Leva-se para todo o lado…
T. S. – O pior é que enquanto num piano afinado se toca um “mi” e sai um “mi”, nós, se estivermos cansadas, queremos cantar o “mi” e às vezes sai um “ré” sustenido…
P. – Em Portugal as grandes vozes pertencem a mulheres?
T. S. – Existe uma tradição de música portuguesa cantada por mulheres. Muitos mais do que por homens. Embora haja o caso do Alentejo, dos fadistas de Coimbra…
M. J. – Acho que sim, vozes femininas é que é! [Risos.] Em Portugal há mais boas vozes femininas do que masculinas. Não no conceito que normalmente ouço dizer – “o fulano tem um vozeirão, uma extensão enorme e não sei quê”. Por exemplo, o Carlos do Carmo, que é um excelente cantor, tem uma extensão pequenina, mas diz tudo, está lá tudo…
P. – Haverá da parte da mulher uma identificação mais fácil entre a voz e o corpo? Será a voz o instrumento ideal feminino?
T. S. – Isso acontece em qualquer cantor, penso eu. O que conta é a interpretação que se consegue dar às palavras, aos sons, seja ao que for. A alma com que se entrega ao que está a fazer.
M. J. – Olha, o Marco Paulo tem uma excelente voz…
F. P. – Dentro do estilo é o maior!
M. J. – Um cantor tem que ser como um atleta, tem que estar preparado. É o corpo todo que nós usamos como se fosse um instrumento.

Aquecimentos

P. – Vocês desde que chegaram ao jornal não pararam de cantar, como se fosse a coisa mais natural do mundo. É difícil imaginar cantores homens a fazerem o mesmo…
F. P. – Talvez nos envolvamos mais…




M. J. – Uma vez perguntei a Lauren Newton (com quem ando a trabalhar) como é que ela aquecia a voz. Ela procede de maneira diferente da habitual. Já a Jay Calyton faz o aquecimento de uma forma tradicional. Depois quis saber como é que faz o Bobby McFerrin. A Lauren respondeu-me: Ele não aquece, está sempre a cantar, o dia todo!” E é o gajo que faz aquelas acrobacias todas… Está sempre quente!
T. S. – Embora o masculino e o feminino tenham diferentes sensibilidades.
P. – As mulheres entregam-se mais? Há maior interiorização no canto?
M. J. – Se calhar nós temos mais cuidado com o instrumento… Ou será porque somos umas tagarelas? [Risos]. Porque gostamos de abrir a boca e dizer coisas?

Pernas Ao Léu E Os Manéis De Bigode

P. – Em palco vocês são cantoras mas também mulheres. Será possível existir uma Madonna à portuguesa?
M. J. – Eu acho a Madonna altamente, uma excelente profissional, curto imenso o que ela anda a fazer.
F. P. – Ninguém a critica, ela dá a volta…
P. – Não responderam à questão…
T. S. – A Madonna é mesmo Estados Unidos.
M. J. – É, os Estados Unidos funcionam muito nessa base, do produto, da encenação, do que se vê e do que se diz.
P. – Mas ela liga de forma explícita a sexualidade e a voz. É possível fazer o mesmo em Portugal?
M. J. – Mas cá há cantoras que também fazem isso. Normalmente cantoras mais ligadas à área do nacional-cançonetismo que andam sempre impecavelmente de perna ao léu, maminhas bem feitinhas, todas a mostrarem-se… É a tal componente sexual. A Cândida Branca-Flor, a Alexandra… Se repararmos bem, elas têm um cuidado extremo com o que vestem, como se apresentam, mini-saias não sei quê. Muito mais do que nós.
T. S. – Eu nunca seria capaz de cantar de mini-saia.
P. – De vocês as três, a Maria João parece ser quem mais assume essa componente…
F. P. – Perfeitamente! Tu és m ais liberta.
M. J. – Eu? Eu? [Risos]. Às vezes não é nada bonito de se ver – faço caretas…
F. P. – Mas isso é que é bonito.
M. J. – Muitas vezes a gente vê na televisão o malfadado “playback”, e as pessoas depois notam. O leigo, que está em casa, diz: “Ah, aquela está tão bonita, tão agradável de se ver!” Depois vem um concerto ao vivo e é terrível, a pessoa torce-se, tem as veias salientes…
T. S. – Quando canto determinadas coisas sinto-me diferente, mais “sexy”, mais triste, mais contida, mais atrevida, conforme a música.
P. – … A Teresa tem uma imagem discreta, mais sóbria…
T. S. – Mais quietinha!… Mas tem a ver com o tipo de música e com a personalidade.
M. J. – Mas aquilo que eu faço não é de propósito. Estou lá e é assim que sai. Sinto uma felicidade tão grande por estar em palco…
P. – Quando estão em palco, têm consciência dos olhares que recaem sobre vocês? Dos olhares masculinos, por exemplo?
M. J. – Masculinos e femininos, atenção! Mas eu nunca olho para o público. Imagina que estás a cantar uma coisa incrível e olhas para um Manuel à tua frente que se está a assoar… [Risos]
F. P. – Eu prefiro nem olhar para um Manuel de bigode! [Risos.]
T. S. – Não estou a pensar se aquele está a olhar para mim, a reparar na minha cintura… Mas penso se são homens ou mulheres que me estão a ver.
F. P. – É uma massa enorme e assustadora…
M. J. – … Que nos dá uma pressão e uma felicidade imensas!
F. P. – Eu estou ali no meio daqueles quatro irmãos Salomé, dos Lua Extravagante, de bigode (risos). São uns companheiros fantásticos e meus amigos. Mas é evidente que sinto qualquer coisa quando entro em palco.
M. J. – No vosso espectáculo da Aula Magna levaram bastantes assobios (risos).
F. P. – Eu ouvi.

Contos Imorais

P. – Quem as ouvir falar, assim amigas diria que não existe qualquer rivalidade entre quem trabalha neste ramo. É mesmo assim, não há competição?
T. S. – Cada vez mais as pessoas se querem juntar para aprender umas com as outras.
M. J. – É saudável. Não há competição, é na boa. Fulana está a cantar e pensa “Não sou ninguém se não cantar como ela canta.” Mas rivalidade, rivalidade, acho que não existe.
P. – Dentro da indústria, quais são os vícios e virtudes?
F. P. – Virtudes, a existência de bons compositores e grandes ideias. E estão a criar-se condições para que as pessoas possam trabalhar cada vez melhor.
M. J. – Vícios, de venda e de mercado. Acho que a indústria está viciada em certos padrões de comprar, vender e promover, o que acaba por condicionar os músicos e os cantores. Embora no meu caso as coisas sempre tenham sido mais fáceis, justamente por ser mulher.
F. P. – Às vezes é complicado, porque… não sei se quero dizer isto…
M. J, T. S. e PÚBLICO – Diz lá!
F. P. – Às vezes há coisas que acontecem mais facilmente se…
P. – Como? Propostas, digamos, de índole não propriamente artística?
F. P. – Por exemplo. Há coisas que parecem tomar um caminho porreiro até certa altura, a amizade e não sei que mais, até que chega um momento em que afinal é mais qualquer coisa. Se tu dizes que não, deixam-te cair.
M. J. – Nesses casos também não interessa. Se alguém te quer usar para fazer não sei quê, esse alguém também não te vai servir para mais nada.
P. – Não chegando a casos tão extremos, poderá dar-se o caso de a indústria pensar em primeiro lugar numa imagem apelativa que possa vender – e menos na música?
F. P. – Evidentemente que pensam logo nisso.
T. S. – A mim não me passa pela cabeça.
M. J. – Ai é, pensam não sei quê? Fixe! Vou aproveitar-me disso. Se alguém acha que me pode vender porque sou mulher, por uma imagem, não me vai pôr as mãos em cima de certeza absoluta, se eu não quiser. Então vou aproveitar-me dessa ingenuidade para poder fazer as minhas coisas. Se uma pessoa olha para nós e diz: “Vou comer esta querida” (risos), eu só tenho é que lhe dar a volta. Se, por exemplo, um produtor me disser: “Vou promover esta mas quero algo em troca”, eu, na troca, não lhe vou dar coisa nenhuma. Se calhar não devia estar a dizer isto.
F. P. – Acho que é uma questão de tacto. Se apostarem em mim, não vou dar nada em troca que não seja o meu trabalho. As coisas depois avançam ou não.

Primeiro Passa-se A Roupa A Ferro

P. – Em Portugal assiste-se presentemente ao fenómeno da reciclagem musical – pessoas que já andam nisto há muito e se juntam para formar novos agrupamentos. É possível acontecer um equivalente feminino?
M. J. – Era bom as pessoas juntarem-se. Lá vou eu ter que falar nos Resistência, dos quais não gosto nada. Penso que é uma forma inteligente de sobrevivência, de sobrevivência a um alto nível, pois aquilo vende imenso. Mas há outras hipóteses das pessoas se juntarem. Por exemplo, aquilo que nós fizemos [espectáculo de Maria João com Lena d’Água, Xana, Teresa Salgueiro e Anabela Duarte realizado em Novembro de 1991, no Teatro São Luiz, integrado nos Festivais de Lisboa]. Foi diferente – um encontro por prazer.
F. P. – Há um projecto meu com a Teresa, mas não quero falar antes de as coisas acontecerem.
P. – Conseguem conciliar a vossa carreira, cheia de “timings” e digressões, com a vida familiar?
M. J. – Tenho uma criancinha, um rapaz quase com três anos, e é muito difícil para mim estar longe dele. E ele começa também a sentir a minha falta. Passada uma semana fora fico doente de tristeza, começo a embirrar com toda a gente, sou mal educada, chego mais atrasada que o costume…
T. S. – Atrasada? Tu também?…
M. J. – Uuii!…
T. S. – Ah, que alívio…
F. P. – Eu estou a melhorar.




M. J. – Mas a gente não chega atrasada por falta de respeito. Eles [os músicos] quando chegam tarde é porque ficaram sentados na cama a ver televisão (risos). Sei que é assim porque tive essa experiência na minha última “tournée”. Eles, coitados, já estão mais que escaldados com os meus atrasos, de maneira que eu chegava a horas, num esforço sobrehumano, e acabava por ficar à espera que eles viessem. E eles, naquela: “Ela deve estar atrasada.”
P. – O atraso sistemático é o arquétipo feminino desconhecido?…
M. J. – Nós temos mais coisas para fazer do que os homens. Os homens fazem a barba, tomam banho já está. Nós tomamos o banhinho, secamos o cabelo, que é comprido, pintamos os olhos, estamos quase a sair e pensamos: “Será que estamos bem, será que vou vestir isto ou não vou”…
F. P. – A mim o que me acontece é que arranjo sempre qualquer coisa – não gosto de sair de casa e deixar a cama por fazer. O homem está-se nas tintas.
M. J. – Eles chegam aos concertos, fazem o ensaio de som, depois vão para o quarto, vestem-se em cinco minutos e estão prontos. Enquanto nós, eu pelo menos, deixamos a roupa na cama, dobrada e passada a ferro com um ferrinho minúsculo, o que dá umas dores nas costas atrozes, numa posição não de todo ideal para quem vai cantar a seguir. Depois, lavar a cabeça, as pinturas… É um “stress” enorme (risos).
F. P. – Eu começo sempre a preparar-me umas duas horas antes…
T. S. – Também eu.
M. J. – Nem tenho tempo para comer.
F. P. – Normalmente eles vão jantar enquanto eu me vou pintar. Até porque cantar com a barriga cheia… Eles também não gostam.
M. J. – As pessoas pensam que os cantores, os músicos, levam uma vida altamente, vão curtir, vão ver o país – “rica vida, rica vida!”
F. P. – Mas é deitar cedo e cedo erguer!

As Luzes

P. – Afinal sempre dão uma importância decisiva à imagem…
T. S. – Evidentemente. Arranjo-me e pinto-me para me sentir bem.
F. P. – Nos tempos que correm, a imagem é cada vez mais importante. Por altura do 25 de Abril, em 74, lembro-me que as pessoas cantavam como se fosse uma luta. Hoje isso está um bocado morto. As pessoas agora querem é luzes, grande espectáculo.
M. J. – Num concerto estamos em frente das pessoas e temos que nos sentir bem connosco próprios.
T. S. – É uma espécie de máscara que resulta para eu estar à vontade em frente a uma multidão que está a olhar para mim, e que não possa dizer mal dos sapatos ou achar o penteado esquisito…
P. – Nesse aspecto, as cantoras portuguesas também não primam pela ousadia…
F. P. – Não concordo. A Xana, por exemplo, não tem uma imagem clássica.
M. J. – A Anabela Duarte é bastante extravagante.
P. – O negócio, e não só, da música em Portugal poderia comportar excessos do tipo dos cometidos por Sinead O’Connor?
F. P. – Se for uma coisa que faça sentido…
M. J. – O que é isso de excesso?
P. – No sentido de provocação. Lá fora há uma mediatização e assimilação por parte da indústria. Mas num país de brandos costumes como é o nosso?…
M. J. – Se aparecesse cá uma mulher assim, na província chacinavam-na! Quanto à indústria, é Lisboa e Porto e pouco mais.
P. – Somos um país de provincianos?
F. P., M. J. e T. S. – (em coro) – Acho que sim!
M. J. – Somos um país pequeno, conhecemo-nos todos uns aos outros. Conhecemos os críticos, eles conhecem mais não sei quem, fica tudo uma coisa caseira.

Sandra Baptista, Zé Pedro, Zé Ferrão, Ana Deus, Nuno Rebelo, Maria João, Amélia Muge, José Mário Branco, Isabel Leal, Tentúgal – “Inquérito – Um Inquérito Para Mudar De Ano” (inquérito / dossier)

pop rock >> quarta-feira, 06.01.1993


INQUÉRITO
UM INQUÉRITO PARA MUDAR DE ANO


É um inquérito para gente que faz música e mais coisas sobre música e sobre o resto. Sobre um ano que passou e outro que já começou. Foi provocado mais por curiosidade epidérmica que por preocupações intrínsecas. Logo de início, convém avisar que os inquiridos não formam um conjunto homogéneo, ou representativo do que quer que seja. São músicos portugueses, foram, por uma razão ou outra, notícia em 1992, e é tudo. Depois, as respostas são como as perguntas – isto é, variam. Umas são sérias e empenhadas, outras caprichosas e triviais, algumas até são a dar para o disparate. Em qualquer caso, toda a gente, ou quase toda, parece ter opinião formada sobre os Resistência.

Sandra Baptista
Acordeonista dos Sitiados



Melhor músico / banda
Tenho várias preferências, no que diz respeito a melhores músicos. A melhor banda, talvez os Madredeus.
Promessa
Entre aspas.
Melhor disco
Não consigo ser assim tão radical e dizer qual é o melhor e o pior. Digamos que é um estado de espírito que cada disco nos dá.
Pior disco
A mesma resposta que a anterior
Acontecimento musical mais relevante
Sem dúvida alguma os Resistência
Surpresa
Ainda está para vir.
Tendência
Talvez tenha sido a festa. As pessoas precisavam de festa, de alegria.
Anedota / equívoco
Foram bastantes, mas a maior barraca, para mim, foi o trambolhão que dei dos monitores devido á chuva que estava naquela noite… Parti o acordeão. Mas as coisas lá se resolveram e o espectáculo não parou.
Loucura
Em todos os nossos espectáculos e no público
Projecto para 93
Tocar canções novas, incluídas no nosso novo espectáculo.
Sonho
Ver mais bandas portuguesas a apresentar novos trabalhos e que houvesse mais locais para espectáculo, em condições. Talvez fosse por aqui que surgissem novas bandas.
Europa
Sem racismo.

Zé Pedro
Guitarrista dos Xutos & Pontapés e apresentador do “Vira o Vídeo”



Melhor músico / banda
Nuno Bettencourt
Promessa
Rockódromo em Lisboa
Melhor disco
Mutantes S. 21
Pior disco
Muitos
Acontecimento musical mais relevante
GNR em Alvalade
Surpresa
Metallica em Paris
Tendência
Guitarras
Anedota / Equívoco
Joker
Loucura
O empréstimo monetário ao Tio Aníbal
Projecto para 93
Ter um Johnny Guitar compatível com as minhas ambições
Sonho
Académica de Coimbra na 1ª Divisão
Europa
Mandem mais papel para deixar de emprestar ao Tio Aníbal

Zé Ferrão
Guitarrista dos Repórter Estrábico



Melhor músico / banda
John Lee Hooker
Promessa
Boosty Collins / George Clinton
Melhor disco
Ronny Jordan – The Antidote
Pior disco
Resistência
Acontecimento musica mais relevante
Frank Sinatra no Estádio das Antas
Surpresa
Xanana Gusmão
Tendência
Persistência
Anedota / equívoco
Europa
Loucura
Monumento ao empresário
Projecto para 93
Repórter Estrábico
Sonho
F. C. Porto campeão europeu 92/93
Europa
Anedota-equívoco

Ana Deus
Vocalista dos Três Tristes Tigre e ex-Ban



Melhor música / banda
Talvez Red Hot Chilli Peppers ou ???varna
Promessa
A que fiz a mim mesma
Melhor disco
Não ouvi discos. Ouvi boas e más músicas. “Lithium” dos Nirvana e “Hendrix” do Seal
Pior disco
O pior já esqueci
Acontecimento musical mais relevante
Um que não vi: David Byrne em Lisboa
Surpresa
Continuarmos vivos
Tendência
Quase todas
Anedota / equívoco
Há obscenidades na informação televisiva. Broad Cast News à portuguesa
Loucura
Realidade virtual
Projecto para
Músicas, cenários, luzes, roupas, objectos, imagens / arrumar a casa
Sonho
A sã história de cantar
Europa
Europa / América

Nuno Rebelo
Compositor e multinstrumentista dos Plopoplot Pot e de outros projectos musicais alternativos. Fundador dos Street Kids. Autor do duplo álbum “Sagração do Mês de Maio”.



Melhor música / banda
Fred Frith – não será certamente o melhor, mas continua a ser o meu preferido.
Promessa
Prometo tentar de novo.
Melhor disco
Algum que provavelmente desconheço e que deve ter vendido muito pouco ou quase nada.
Pior disco
Noventa e cinco por cento de todos os discos editados durante o ano no mundo inteiro.
Acontecimento musical mais relevante
Expo 92 (concertos etnográficos), pela possibilidade de, no mesmo local, se poder assistir a concertos de todo o mundo e de ter acesso a alguns instrumentos artesanais.
Surpresa
A minha Polyp Ploc Orquestra (alunos da Escola Profissional de Artes e Ofícios do Espectáculo) e as suas actuações de música ao vivo para o filme “Nosferatu” de Murnau.
Tendência
Esperar por 93.
Anedota / equívoco
Era uma vez um crítico musical que tinha uma escrita tão explosiva que as palavras explodiram e lhe rebentaram os dedos (Ah, ah, ah, ah – riem os músicos em geral, carregadinhos de humor negro.)
Loucura
De génio e de louco nem todo o mundo tem um pouco – 4m33 de silêncio pela morte de John Cage
Projecto para 93
Iniciar-me em concertos a solo e em instalações vídeo.
Sonho
Sonhos são intimidades que não quero contar a toda a gente.
Europa
1.500.000 contos por dia, não é?…

Maria João
Cantora de jazz. Ou simplesmente cantora. Colaborações regulares com o grupo Cal Viva, Mário Laginha e a pianista japonesa Aki Takase.



Melhor músico/banda
Todo aquele que cumpriu o que se propôs cumprir, seja por ter melhorado no instrumento que toca, seja por ter composto o que quis, ou por ter vendido muito, para esta ou aquela editora.
Promessa
O meu filho João que fará 3 anos em 1993.
Melhor disco
“O Sol”, de Maria João com o grupo Cal Viva. Cantei os temas de quem ais gostava, com os músicos que quis. Gravei-o num dos melhores estúdios do mundo, para a Enja. E ainda por cima está a vender bem. Porreiríssimo!
Pior disco
Todos aqueles feitos sem dedicação, a pensar apenas nas vendas, mal tocados, mal cantados, etc. Uuhhh, fora, fora!
Acontecimento musical mais relevante
Quase todos os concertos que aconteceram este ano. Muitos e bons.
Surpresa
I Festival de Jazz de Guimarães. Bem organizado, óptimas condições, sala lindíssima e sempre cheia, o que prova que, se as coisas forem bem feitas e com coração, festivais deste tipo podem fazer-se em qualquer ponto do país.
Tendência
Melhorar.
Anedota/equívoco
Várias, mas não digo nenhuma por delicadeza.
Loucura
O Festival de Jazz Lis’ 92, das Festas da Cidade, feito com boas intenções e excelentes propostas musicais, mas em que a quantidade foi tal que o público não conseguiu dar resposta a tudo. Foi um grande fiasco financeiro, uma pena. Fiquei furiosa com o desperdício.
Projecto para 93
Duo com Mário Laginha e disco já em Março, provavelmente para uma “major” internacional. Trio com Bobo Stenson e Christof Lauer, disco no final do ano. Quarteto com Lauren Newton. Cal Viva. Hipótese de quarteto com Aki Takase, Nana Vasconcelos e Dino Saluzzi.
Sonho
Que se realizem todos os meus sonhos.
Europa
Vai ser a confusão deste ano. As broncas vão continuar até haver qualquer coisa que rebente.

Amélia Muge
Compositora, intérprete de um dos discos do ano de música popular portuguesa, “Múgicas”. Actuou ao lado de José Afonso e Júlio Pereira.



Melhor músico/banda
Sh… qualidade, qualidade… Quem a tem… seja discreto (cala-te boca!).
Promessa
As “Cantigas de Maio” em disputa com a “margem de certa maneira” (que saudável que é a concorrência), este ano e sempre, por enquanto (sem revivalismos fora daqueles que fizeram estas promessas tão genuínas).
Melhor disco
“15 Anos de Recriação da Música Tradicional Portuguesa”, da Brigada Victor Jara.
Pior disco
Se me tivessem pedido a pior cassete, eu tinha uma data de gente candidatável. Seja como for, disco ou cassete, é preciso ter cá uma Resistência…
Acontecimento musical mais relevante
Até que poderiam ter sido os Encontros de Música Europeia.
Surpresa
“Ki faxiamu noi kui” – isto é que é sonoridade. [Peça que esteve em cena no espaço da Companhia Teatral do Chiado.]
Tendência
Outras músicas (as a sério e as a brincar, para não falar nas feitas à pressa, ou na sopinha de pedra).
Anedota/equívoco
Os chapelinhos alta voltagem de artifício, com ou sem ventoinha.
Loucura
Ver chegar D. Sebastião carregadinho de ecus, ecoando à brava qualquer mnemónica obsessiva.
Projecto para 93
Combinar novas formas de estar (artística-vividamente falando) com propostas de espectáculo. Com nome em primeira mão: “Mus & calidades” (ilimitadas, como comentário à parte). E com a UPAV. Sempre.
Sonho
Como ter um sonho de expulsar os vendilhões do templo sem ser logo conotada, no mínimo, com a madre Teresa de Calcutá?
Europa
Qualquer dia já não podemos ouvir falar nela. E se falássemos do Atlântico? Ou do Índico? Vá lá, do Mediterrâneo. Meter água… assumidamente.

José Mário Branco
Compositor, arranjador, intérprete. Fez parte do GAC – Grupo de Acção Cultural e do Teatro do Mundo. Sócio fundador da cooperativa cultural UPAV. Realizador do programa radiofónico Música Portuguesa, com Certeza.



Melhor músico/banda
José Afonso. Com toda a sua obra, ainda é o melhor de todos os anos.
Promessa
Amélia Muge
Melhor disco
“15 Anos de Recriação da Música Tradicional Portuguesa”, da Brigada Victor Jara.
Pior disco
Hesito entre o dos Resistência e alguns que tive a sorte de não ter que ouvir.
Acontecimento musical mais relevante
Concerto de Hermeto Pascoal, um dos melhores músicos do mundo. Tocou em Lisboa para uma sala quase vazia.
Surpresa
Surgimento de pequenas editoras alternativas, sobretudo no Norte do país.
Tendência
Como alguém escreveu recentemente (e eu concordo), o movimento do “rock português” confronta-se com o seu vazio congénito. Esgotado o internacional-parolismo, prolonga-se a agonia com o nacional-revivalismo.
Anedota/equívoco
A notícia, lida algures, de que Santana Lopes e La Féria têm como projecto, para Lisboa 94, uma ópera-rock portuguesa cujo título (e tema) será “Salazar”. Se for verdade; demissão, já!
Loucura
Haver ainda quem acredite ser possível vencer os interesses do poder e do dinheiro, e os desinteresses da ignorância e da incultura, safando a música portuguesa da asfixia que lhe impõem as multinacionais.
Projecto para 93
Música portuguesa. Com certeza. Mais e melhor.
Sonho
Música universal. Com certeza. Tão rica e multifacetada.
Europa
As fronteiras europeias da música abrem-se nos dois sentidos. Oxalá os nossos governantes aprendam alguma coisa.

Isabel Leal
Vocalista dos Jig, grupo portuense que se tem dedicado à interpretação de música tradicional de raiz celta.



Melhor músico/banda
Se me colocar apenas como observadora do impacto musical que um grupo pode ter, os GNR foram a melhor banda de 92. Se pensar realmente no que me toca, acho que ainda não surgiu nenhum grupo que me encantasse tanto como os Madredeus (principalmente aquela voz, apesar de começarem a necessitar de um novo disco de originais.
Promessa
Um grupo do Porto muito prometedor, os Frei Fado Del Rey. Tocam música portuguesa com um som acústico e dão um grande destaque às vozes femininas. Estão à espera de gravar um disco proximamente. Espero que não demorem muito, pois fazem falta grupos assim.
Melhor disco
Não houve nenhum que me agradasse ao ponto de o ouvir vezes sem conta, como aconteceu com os dos Madredeus, Trovante e Rui Veloso em anos anteriores. No entanto gostei muito de ouvir algumas músicas da Amélia Muge.
Pior disco
Pode dizer-se que o melhor disco é aquele que mais ouvimos, mas o inverso não acontece, pois se não se gosta não se ouve. E há tanta coisa que não se ouve!
Acontecimento musical mais relevante
Concerto dos GNR em Alvalade.
Surpresa
Sitiados e o impacto que conseguiram ter, goste-se ou não deles.
Tendência
Repetir fórmulas através da recuperação de temas musicais de um passado recente, vestindo-os de novas cores, por vezes enriquecendo-os, outras vezes tornando-os irreconhecíveis ou mesmo inaudíveis.
Anedota/equívoco
Concerto dos Guns’n’Roses, com todos os incidentes ridículos que ocorreram, entre eles e a postura do vocalista, que cantou deitado para se proteger dos ataques inimigos.
Loucura
Os Jig terem-se “atirado” para a produção independente de espectáculos e terem conseguido um certo êxito na apresentação no S. Luiz, em Lisboa.
Projecto para 93
Gravar finalmente o disco dos Jig com temas cantados em português.
Sonho
Espalhar pelos quatro cantos do mundo a música que me dá prazer cantar e ouvi-la cantada por outras vozes.
Europa
Uma Europa agitada por grandes mudanças a todos os níveis. No campo musical penso que haverá oportunidade para trocas e influências mútuas, apesar da manutenção das diversidades culturais existentes.
Os Jig têm aqui algo a dizer, pois, de certo modo, foram pioneiros na abertura à música celta em Portugal.

Tentúgal
Líder dos Vai de Roda



Melhor músico/banda
Carlos Zíngaro / Penguin Café Orchestra
Promessa
O projecto e trabalho do grupo U-Nu
Melhor disco
Aqua, Ficções / Pieces of Africa, Kronos Quartet
Pior disco
Moby Dick, Moby Dick
Acontecimento musical mais relevante
Sem dúvida o III Festival Intercéltico do Porto e a estreia mundial de “The Seville Suite” de Bill Whelan, pela RTE Concert Orchestra, no Teatro de La Maestranza, Sevilha.
Surpresa
Pela negativa, o “Fogo” – Sétima Legião
Tendência
La Féria e Cª – Sociedade anónima de “Chulas” e “Malhões” Ilimitada. Facilitamos o mau gosto e a mediocridade com boa digestão. Contacte-nos! Também temos sucedâneos!!
Anedota/equívoco
Sitiados, Resistência e La Férias
Loucura
Acreditar no futuro da música portuguesa, apesar das bruxas e papões que nos fazem perder, momentaneamente, o rumo, lutando contra os “altifalantes sem barriga” que nos comem a actividade de músicos, nos abafam os instrumentos… e as mentes.
Projecto para 93
Vai de Roda, sempre!! E o seu próximo trabalho fonográfico. Concertos em Inglaterra, Dinamarca, Noruega e Galiza.
Sonho
Estar vivo e tentar ter a cabecinha no lugar. Já agora, ó Sr. Serafim, quando é que edita em CD o 1º trabalho do Vai de Roda?
Europa
Quim Barreiros para presidente, já!! Livrai-nos, senhor das tetas dos Falcões e Sa(n)tánas, e não nos deixeis cair na tentação de “mamar em seus subsídios”, para bem da “Música (em) Portugal”.

Maria João – “Maria João Apresenta ‘Convidadas’ Em Lisboa – A Música Suspensa Do Corpo”

Secção Cultura Segunda-Feira, 02.12.1991


Maria João Apresenta “Convidadas” Em Lisboa
A Música Suspensa Do Corpo


A cantora Maria João actua hoje à noite no Teatro S. Luiz em Lisboa. Com a presença de “convidadas” ligadas a outras áreas musicais: Lena D’ Água, Teresa Salgueiro (Madredeus), Anabela Duarte (ex-Mler Ife Dada) e Xana (Rádio Macau). Adivinham-se surpresas. Maria João prefere guardar segredo.



Em princípio, tudo pode acontecer. Acompanhada pelos habituais Mário Laginha, piano, Carlos Bica, contrabaixo, José Peixoto, guitarra e José Salgueiro, bateria, Maria João, uma vez mais, preferiu o prazer inesperado, o confronto com a novidade – “a ideia é justamente pegar em pessoas que não fazem o mesmo que eu, construir qualquer coisa com elas e ver a que é que isso soa. Isto é que é divertido e estimulante”. “Uma ideia deliciosa” – nas suas próprias palavras.
Quem quiser pormenores, o melhor que tem a fazer é deslocar-se logo às 22h00, ao Teatro S. Luiz, e ouvir para crer. Que vai acontecer qualquer coisa diferente, é garantido, mas o quê? “Isso é surpresa” – a cantora fecha-se em copas e apenas adianta que “como de costume, vai haver lugar para a improvisação”. Trata-se, para Maria João, de uma necessidade vital de movimento, de constante mudança: “Seria extremamente aborrecido se fosse uma coisa fixa. Gosto muito de mudar as coisas. Até ao último minuto.”
A solo, sabe-se que cantará temas do seu mais recente álbum, “Sol”, gravado na Alemanha com o selo Enja e os mesmos músicos do espectáculo de hoje à noite. Além de “outras pequenas coisas que não estão lá, e as convidadas, claro”. Claro. Logo à noite se verá qual o segredo que permite juntar, no mesmo palco, a pureza ascética de Teresa Salgueiro, o jovial cançonetismo de Lena d’ Água, a excentricidade de Anabela Duarte e a energia rock de Xana, com o discurso libertário de Maria João

Entrega Total

A ideia de recrutar outras cantoras, aquelas de que “mais gosta”, surgiu a partir de um projecto que desde há algum tempo vem mantendo no estrangeiro, um trio vocal feminino do qual fazem parte ela e duas americanas, a experimentalista Laura Newton e a cantora de ópera, residente da Filarmónica de Berlim, Catherine Geyer. Refira-se a propósito que Maria João ainda tem tempo para se integrar num quarteto “com um programa especial”, ao lado de Mário Laginha, a já citada Lauren Newton e o guitarrista alemão Thomas Hortsmann. Já para não falar das aventuras em duo com a pianista japonesa Aki Takase, das quais resultaram o magnífico “Looking for Love”, e em trio, com Takase e o contrabaixista dinamarquês Niels-Hanning Orsted Pedersen, no álbum “Alice”.
Seja qual for o contexto, o que mais impressiona nesta cantora que, de uma maneira quase sôfrega, não para de evoluir, é a paixão com que se entrega de corpo inteiro à música, numa relação que tem muito de sexual. Tinham razão John Coltrane e John McLaughlin quando defendiam que fazer música é deixar-se possuir e tocar por ela e que ao intérprete se exija que seja o seu instrumento afinado. Afinação que exige uma total transparência e a máxima tensão / atenção. Fazer música é saber ouvir a voz que vem de dentro, o movimento cósmico que em cada indivíduo se manifesta e traduz numa forma particular. No caso de Maria João essa capacidade passa pela dimensão física, pela sensualidade dos gestos, pelo desnudar interior. Seria isto o jazz se “isto” não fosse mais qualquer coisa.

Jazz Ou Algo Mais?

Eis-nos chegados ao pomo da discórdia, para os que estão do lado de fora. Maria João é uma cantora de jazz ou não é uma cantora de jazz? Ela não se importa nada com isso, desde que as pessoas a ouçam e gostem do que ouvem. O termo “jazz”, há quem o jure a pés juntos, é uma derivação fonética do verbo francês “jaser” – “tagarelar, conversar animadamente e um pouco à toa sobre diversos assuntos”, segundo a “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira” (ilustrada com cerca de 15 mil gravuras), que era a que estava mais à mão.
À primeira vista poderá parecer ao auditor médio português, habituado a ouvir Phul Collins e Madonna, que Maria João canta “à toa”, isto é, “como uma maluca” a vociferar “coisas sem sentido”, frequentemente “sem letra”, em suma, “esquisitas”. Mesmo quando essas “coisas” são um tema de música tradicional portuguesa ou um “standard” de Billie Holiday. É neste sentido que Maria João pode ser comparada, na atitude e na maneira como vive e dramatiza a vibração musical, a Bobby McFerrin. Em ambos existe o amor pela liberdade e uma fé. Ou a consciência, no caso feminino quase táctil, de um acto mágico que só o verdadeiro músico vive e compreende, no qual a ordem dos sons, a Harmonia como que se organiza por si própria, cabendo ao Intérprete, com “I” grande, centrar-se, coincidir, dizer e dizer-se, dançar e dançar-se, e às vezes consumir-se, nesse fogo que dizemos vir de “cima”, ou de “dentro”, quando queremos significar a transcendência.
Diz-se por outro lado, muito por força do hábito, que o jazz é “música de negros”. A “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira” (ilustrada com cerca de 15 mil gravuras) faz mesmo questão de acentuar a “natural disposição dos negros para a arte musical”. É verdade. Em Maria João corre, do lado materno, sangue africano. É o pólo energético complementar: a natural apetência pelo ritmo, a assunção das forças da terra que sobem dos pés até ao cérebro e os põem a dançar. É ainda a sensualidade e, se levada ao extremo, a dor, alegria insana dessa entrega. E no limite do humano, a loucura.
Talvez por isso Maria João (como Meredith Monk ou Shelley Hirsch) saiba a exigência do método (o “haikido” – não, não é porrada – que praticou, ajuda muito), da justa medida, a necessidade de equidistância entre o oceano e o raio. Decerto que sabe.