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Magma – “Magma Live”

Pop Rock

29 ABRIL 1992

A SAGA DE KOBAÏA

Magma
Magma Live

2xCD, Seventh, distri. Megamúsica

“Louco”, “megalómano”, “fascista”, “génio”, de tudo chamaram a Christian Vander, uma das personagens mais fascinantes e que melhor música produziu durante os anos 70. Os Magma nasceram de uma visão sua, desmesurada, de um universo paralelo, o “Uniweria Zëkt”, centrado no planeta Kabaia. A partir desse delírio central, Vander edificou uma construção musical imensa, até hoje sem paralelo nos anais da música popular, inspirada em doutrinas místicas obscuras e na noção wagneriana de “obra” como um todo. Chegou ao ponto de inventar sozinho uma língua, o kobaiano, com gramática própria (parece que o músico chegou a pôr a hipótese de escrever um dicionário de francês-kobaiano…).
A música dos Magma narra a saga do encontro entre Kobaia e a Terra e cada disco funciona como um capítulo inseparável dos restantes, desde o duplo-estreia intitulado simplesmente “Magma” até ao epílogo “Attahk”, passando por “1001º Centigrades”, “Mekanik Destruktiw Kommandoh”, “Kohntarkosz” e “Udu Wudu” (as vogais levam geralmente tremas ou outras pontuações bizarras). A capa do primeiro mostra uma garra gigantesca esmagando a mole humana e numa das faixas Vander grita um discurso em voz histérica, à maneira de Hitler, o que desde logo lhe valeu a acusação de “fascista”. Pelos Magma passaram músicos como Klaus Blasquiz, Didier Lockwood, François Cahen, Gérard Bikialo e Michel Graillier, entre outros, todos eles senhores de capacidades técnicas notáveis e todos eles incapazes de aguentar o total empenhamento exigido por Vander, para quem os Magma, mais do que um simples grupo, foram uma filosofia de vida. Na capa de “Magma Live” lê-se o seguinte: “A música dos Magma é como um espelho onde cada um pode ver o reflexo de si próprio.” Ao vivo, a banda tinha por hábito dar concertos com cinco ou mais horas de duração. Autênticos rituais de fogo em que a bateria marcial de Christian Vander se desmultiplicava no comando das operações, servindo de maestro às litanias operáticas da sua irmã Stella e às labaredas do baixo de Jannik Top, único adepto convicto das doutrinas do mestre, capaz, a seu lado, de viver a aventura até ao fim. “Magam Live”, capítulo seguinte a “Kohntarkosz” na odisseia de Kobaia, inclui a variante “Kohntark” e os originais “Ëmëhntëht-Rê”, “Hhaї”, “Lїhns” e “Mëkanїk zaїn”. Sem atingir a teatralidade dos primeiros álbuns, a tensão levada ao limite de “Kohntarkosz” ou o ponto de combustão de “Udu Wudu”, e incorrendo por vezes em lugares-comuns do jazz-rock, “Magma Live” é, anda assim, um dos grandes discos da década de 70, nascido do coração, do cérebro e das entranhas de um peregrino do absoluto. (7)



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Magma – A Música Do Fogo

Blitz

10.10.89
VALORES SELADOS


MAGMA
A MÚSICA DO FOGO


magma

A história da música popular contemporânea está repleta de mitos. Uns para sempre irradiando glória do alto dos seus pedestais, erigidos pelas multidões. É o panteão oficial dos consagrados. Depois há os outros, tão ou mais importantes do que aqueles; os malditos, sempre incompreendidos, sempre mais à frente dos restantes. As massas passam ao seu lado sem os verem, exceptuando uma minoria mais atenta que sabe distinguir a marca dos eleitos. Dos deuses, não dos humanos.
Os Magma pertencem a esta categoria. São obscuros e grandiosos. Christian Vander, o seu líder e mentor espiritual de sempre, é das figuras mais importantes e enigmáticas que têm atravessado o universo musical do nosso século. Génio para uns, louco para outros, é talvez ambas as coisas. A sua obra ergue-se num monumento definitivo – Construção musical e ideológica perfeitamente homogénea e coerente. A música de Vander é UNA e UMA. História intemporal com vários capítulos correspondentes a outros tantos discos. História da Luz e das Trevas. Da guerra e da serenidade. De todas as lutas e contradições. Se há uma música que reflecte na perfeição esta dialéctica entre pares de opostos temáticos, estéticos e ideológicos, ela é a dos Magma. E a prova de que a Utopia é possível.

DOS DEUSES E DOS HOMENS

Mas comecemos pelo princípio. Christian Vander é francês e Kabaiano. Confusos? Eu explico. Para Vander as linguagens convencionais não chegam. A sua única linguagem é a da desmesura, do heroísmo exacerbado, da demanda do Absoluto. Assim, inventou um mundo, um universo, com a sua língua própria, a sua história, os seus ódios e amores. O mundo de Kobaia, em cuja língua (inventada por Vander) são cantados todos os discos dos Magma. Vander chegou mesmo a pensar escrever um dicionário Francês-Kobaiano. Não sei se o chegou a fazer.
E os discos, estarão à altura da personagem? Absolutamente. Poderemos compreendê-los melhor se conhecermos os seus heróis. São eles Nietzsche, Wagner, Hammill e Coltrane. Aos dois primeiros deve as concepções totalitárias e o paganismo presentes em toda a sua obra. De Nietzsche em particular as suas teorias sobre o super-homem. De Wagner retém as suas noções operáticas. De Hammill e Coltrane o lirismo apaixonante e a dimensão visionária. Tudo isto junto valeu-lhe o apelido de fascista. O símbolo que escolheu para os Magma e sobretudo para a capa do seu primeiro álbum, também não ajudaram. O símbolo representava uma espécie de garra, a mesma que na capa esmaga uma multidão em pânico. No interior, um desenho dos membros do grupo fazendo estranhas saudações a um sol negro.

O UNIVERSO DE KOBAIA

«Magma» de 1970 é também o título deste 1.º álbum, um duplo magistral, obra ímpar da década que não se iniciava. Sons operáticos, jazz-rock sem concessões e ritmos militaristas aliam-se a uma energia inesgotável. Num dos temas, Vander discursa à maneira de Hitler, num dia de maior histeria. A temática do álbum refere-se à odisseia do povo de Kobaia, o planeta da Beleza, Bondade e Sabedoria, ameaçado por mil perigos. «Thaud Zaia», «Aurae» ou «Sckxyss» são nomes belos e estranhos para uma música ainda mais bela e totalmente fora do vulgar. Acompanham Vander, nesta aventura, alguns excelentes músicos, com destaque para o pianista François Cahen, o saxofonista Teddy Lasry, o baixista Francis Moze e o vocalista Klaus Blasquiz. Em 1971 é editado o álbum seguinte, «1001.º centigrades» – temperatura a que o magma vulcânico são do interior da Terra. Vulcânico é também «Riah Sahiltaahk», tema que ocupa todo o lado A, réplica de Vander ao fabuloso «A Plague of Lighthouse Keepers», composto por Peter Hammill para a obra-prima «Pawn Hearts», dos Van Der Graaf Generator, editada nesse mesmo ano. Onde nos Van Der Graaf a energia é inerente e subjugada pela palavra poética de Hammill, nos Magma é o vulcão em plena actividade. Juntaram-se ao colectivo mais um saxofonista, Jeff Seffer e um trompetista. Os metais sempre foram, de resto, fundamentais na estrutura sonora do grupo, constituindo-se como um dos principais destacamentos do exército comandado por Vander.

OS COMANDOS DA DESTRUIÇÃO

magma2

Em 73 é editado «Mekanik Destruktiw Kommandoh», o álbum mais conhecido do grupo, primeiro editado em Inglaterra, com o selo A&M. É o 3.º movimento da trilogia «Theusz Hamtaahk» – o julgamento da humanidade, culpada dos crimes de crueldade, desonestidade, inutilidade e falta de humanidade, segundo a palavra do profeta Nebehr Gudahtt, inspirado pelo espírito do Universo. Vem-nos àlembrança «Dune», obra aliás cuja versão cinematográfica realizada por David Lynch esteve para ser musicada por Vander. O álbum assinala a entrada no grupo da sua mulher Stella, com a sua voz soprano de diva alucinada. Stella é a estrela deste disco. Sozinha ou acompanhada, em longas invocações culminando numa histeria colectiva. Imaginem Diamanda Galas integrada num coro, invocando estranhos deuses. É mais ou menos isso. A grande falha do disco está nu defeito das gravações originais, problema que Vander, na altura, se viu impossibilitado de solucionar. A secção rítmica formada pelo baixo e bateria é, em algumas partes, praticamente inaudível. Convém aqui esclarecer que Christian Vander, além de grande compositor é um fenomenal baterista, aliando uma técnica perfeita a uma energia quase desumana.

MUNDOS VULCÂNICOS

«Kohntarkosz» de 1974 é a continuação, mais instrumental, de «Mekanik». É também o titulo da composição-chave, meia-hora orgiástica, com todos os instrumentos contribuindo para a criação de um clima grandioso e angustiante. A música e intensidade opressiva ergue-se a alturas talvez só atingidas novamente por Hammill em «In Camera», na sequência «Gog/Magog». Jannik Top entrara entretanto para os Magma e seria o único a aguentar até ao fim a pedalada de Vander. As sonoridades convulsivas do seu baixo e violoncelo e a entusiástica adesão às ideias do mestre tornaram de imediato Top numa peça fundamental para a música do grupo. Por esta altura Top e Vander formavam a Uniweria Zekt, associação global, aglutinadora de todos os pressupostos estéticos e ideológicos do universo construído pelo músico francês. O álbum incluía ainda «Ork Alarm», da autoria de Top, descrevendo o combate entre os povos de Kobaia e Ork, o planeta cujos habitantes estavam para as máquinas como estas estão para os humanos. O tema é literalmente arrasador. O álbum termina com «Coltrane Sundia», pungente homenagem de Vander a um dos seus mestres espirituais.
É editado entretanto o duplo ao vivo «Magma Live», demonstração exemplar da energia libertada pelo grupo nas suas prestações em palco, em actuações que chegavam a durar perto de oito horas.
1976 vê surgir «Udu Wudu». O 1.º lado é totalmente ocupado pela suite «De Futura» com os Magma reduzidos ao trio Vander/Top/Blasquiz. É um tour de force rítmico, em contínuo crescendo. 18 minutos de lava sonora a transbordar culminando num êxtase absolutamente indescritível. Neste disco eram utilizados pela 1.ª vez os sintetizadores. A electrónica predominava já no álbum seguinte «Attahk» que nada adiantava em relação a obras anteriores.

O CREPÚSCULO DO HERÓI

A partir daqui Vander perde-se em misticismos insondáveis. «Merci» e «Offering» apontam decididamente para direcções mais jazzísticas e contemplativas. Vander trocava progressivamente a bateria pelo piano, dando especial ênfase ao trabalho de orquestração. Gravou ainda três álbuns a solo: «Tristan et Iseult», ainda no tempo áureo dos Magma, «Fiesta in Drums» e o recente «To Love», autêntica anedota, com o antigo baterista cantando esganiçadamente baladas de uma espiritualidade balofa, acompanhadas ao piano. O resultado é, no mínimo, confrangedor.
Ficam um passado glorioso e as fundações de uma escola que não tem parado de formar novos discípulos, dos quais os mais brilhantes são hoje os franceses Art Zoyd e os belgas Univers Zero.
Para a semana ficaremos na Alemanha, com os Faust.

Magma – Kobaia (1970) – aqui



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