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Loreena McKennitt – Live In Paris And Toronto” + Alan Stivell – “Renaissance de la Harpe Celtique” + Alan Stivell – “Olympia Concert” + Alan Stivell – “Symphonie Celtique – Tir na Nog” + JPP – “String Tease”

19 de Novembro 1999
WORLD


Sob a luz de um vitral


jpp

Tenho de Loreena McKennitt a melhor das impressões. Há anos tive oportunidade de a entrevistar. Como mulher, irradia uma luz difícil de encontrar nos tempos de escuridão que estão a tomar conta do mundo. Esta loura com ar de princesa medieval que há anos actuou em Portugal está verdadeiramente apaixonada pela música que faz, uma música que procura trazer para o presente uma magia e um mistério que se perderam algures numa das engrenagens da razão. Estrategicamente apoiada numa editora própria, a Quinlan Road, a cantora canadiana começou por gravar uma série de álbuns como “Elemental” ou “Drive the Cold Winter away” onde a faceta céltica e a new age se combinavam em doses razoavelmente equilibradas e trabalhadas de modo a não se confundirem com simples murais decorativos. Com “The Visit” abriram-se-lhe as portas de um mercado mais alargado. Coincidindo com o aprofundamento de um trabalho de estudo e de aproximação entre músicas e épocas como a Idade Média, a música indiana e as sonoridades árabes, sempre com a tapeçaria e a harpa céltica como pano de fundo, “The Visit” mostrou, por outro lado, os limites da visão musical de Loreena McKennitt. Nesta canadiana dificilmente o bonito se tornará, algum dia, Belo.
O seu novo álbum, “Live in Paris and Toronto”, um duplo gravado ao vivo, confirma tudo o que se disse até aqui. Loreena possui uma voz extremamente doce e melodiosa, toca harpa com mãos de fada mas falta à sua música profundidade e um lado escuro que lhe permitisse tirar partido do contraste. Assim, é tudo luminoso, mas de uma luminosidade que de tão suave acaba por se perder numa névoa de manchas sonoras que distraem sem desafiar. Há canções que são um afago, percussões étnicas qb, melodias “célticas”, medievais ou orientalizantes recortadas de folhetos turísticos e, acima de tudo, uma sensação geral de um jardim sem recantos escondidos por descobrir. Fica a imagem do postal da promoção, com Loreena na típica pose de princesa, tocando solitária a sua harpa na nave de uma catedral banhada pela luz azul de um vitral. Um postal, pois… (2XCD, Quinlan Road, distri. Megamúsica, 6).

Pior, muito pior, para não dizer senil, está Alan Stivell. O ex-mago da Bretanha há muito que se perdeu nos meandros de uma “world music” rendida ao império dos dólares mas à época em que foram gravados os três álbuns agora reempacotados e remasterizados em conjunto numa caixa – que, diga-se de passagem, não oferece qualquer dado novo relativo às anteriores edições para além da remasterização – a sua fama e criatividade encontravam-se no auge. “Renaissance de la Harpe Celtique” (1972), “Olympia Concert” (1972) e “Symphonie Celtique – Tir na Nog” (1979) representam três momentos marcantes na carreira do harpista bretão. O primeiro constitui o manifesto orgulhoso de uma cultura e de um instrumento, a harpa céltica, reapossados da sua dignidade e dotados de uma voz que do passado cantava para o futuro. Num lance de magia, a herança céltica subia em maré viva pela folk francesa, abrindo caminho a novos projectos que fariam do hexágono um dos mais sólidos bastiões da folk na Europa. “Olympia Concert” (no original “Alan Stivell à l’ Olympia”) mostrava ao mundo, de forma exuberante, uma música onde o legado tradicional se impunha e exclamava através de uma linguagem eléctrica colhida do rock. Nesse espectáculo (transmitido há muitos, muitos anos pela televisão portuguesa, naquele que foi o meu primeiro e deslumbrado contacto com Stivell) a França espantou-se com a pujança, a originalidade e a ousadia de um jovem músico que viria a tornar-se num dos principais embaixadores da música francesa, mesmo reclamando a diferença das raízes bretãs. Ao lado de Stivell estiveram nesse espectáculo mítico alguns dos músicos que dariam origem a novos e importantes desenvolvimentos da folk francesa. Como Gabriel Yacoub, que viria a fundar os Malicorne, Rene Werneer (L´Habit des Plumes) e Dan Ar Braz hoje, multimilionário com a sua Héritage des Celtes.
Culminando um trajecto de fusão da folk bretã com o rock, “Symphonie Celtique – Tir na Nog” alarga este conceito até dimensões planetárias. Alan Stivell atingia o zénite da sua arte, compondo uma sinfonia que reunia num objecto totalitário todas as culturas, sons e línguas conotadas, ou não, com o celtismo. Dezenas de músicos oriundos de diversas nacionalidades – da África à Índia, passando pelas nações celtas – juntaram-se numa gigantesca Babel, cruzamento de dialectos e instrumentos sem igual. “Symphonie Celtique” materializou de forma desmesurada a panvisão de Alan Stivell ao mesmo tempo que pareceu esvaziar em definitivo a sua inspiração. Alan Stivell, como Blake, teve a visão do paraíso mas faltou-lhe o fôlego para se aguentar lá. (Dreyfus, distri. Megamúsica, média 9).

Quem também fez escola mas tem conseguido manter-se a dar lições, são os finlandeses JPP, a mais formidável horda de violinistas oriundos da Escandinávia. Comandados por mestre Arto Jarvela o núcleo de quatro violinos do grupo faz, como se costuma dizer, miséria, ainda segundo os mandamentos de uma segunda batuta empunhada pelo discreto Timo Alakotila, garantindo terra firma com o seu órgão de foles. À semelhança de “Pirun Poolska” (na foto) ou “Kaustinen Rhapsody” o novo “String Tease” induz ao pecado da luxúria, um verdadeiro Champagne Clube do violino. Em variações em torno da tradição e do jazz os quatro violinos despem-se de preconceitos, desnudam os seus segredos e roçam nos ouvidos em danças a quatro vozes de corpo intricado mas com a leveza de borboletas. O grupo sueco Väsen participa como convidado em dois temas sem fazer pesar os pratos da balança para o lado da selvajaria. Para desintoxicar de Hedningarnas e Garmarnas nada melhor do que ouvir JPP. (Rockadillo, distri. MC – Mundo da Canção, 8).



Loreena McKennitt – “The Mask And The Mirror”

Pop Rock

9 MARÇO 1994
WORLD

BUGIGANGAS CÉLTICAS

LOREENA MCKENNITT
The Mask and Mirror

Quinlan Road, distri. Warner Music


lm

Cada álbum de Loreena McKennitt tem tudo no lugar ou, para utilizar a terminologia actual, é politicamente correcto. “The Mask and Mirror”, como o anterior “The Visit”, vai beber nas fontes celtas, mas da forma mais saloia que se possa imaginar. Loreena esforça-se. A capa e embalagem são belíssimas (desta feita um bestiário boschiano e fundo de noite americana), a produção é perfumada e a voz dela é agradável. Em “The Visit”, a conotação celta fazia-se através dos Oriente. No novo disco é pela Espanha, dos Pirinéus à Galiza a até à Andaluzia, com passagem por Marrocos. Há sufis, trovadores, cátaros e templários, as mil e uma noites e os evangelhos gnósticos. Loreena interroga-se e interroga Deus. O Licórnio volta à carga, Yeats e Shakespeare também. Aparece S. João da Cruz, Stª Teresa d’Ávila, o mercado de Marrakesh, um mosteiro beneditino no Quebeque, Santiago de Compostela e outras figuras e lugares decorados dos compêndios. A música é doce, pegajosa e enjoativa. Cheia de corantes. Loreena entra a matar, com uma sugestão de cânticos gregorianos em fundo, que é o que está a dar, em “The mystic’s dream”. É, mesmo assim, o menos mau. O ultraje surge com a entrada de guitarras eléctricas à Scorpions, em “The Bonny swans”. “The dark night of the soul” é um vómito cor-de-rosa com pretensões metafísicas; “Marrakesh night market” mistura Gypsy Kings com tablas indianas. Em “Santiago”, a harpista e cantora canadiana vai à cartilha do “medieval” e serve, embevecida, o equivalente em música antiga a “Scarborough fair” na tradicional: o óbvio e requentado. As “uillean pipes” dão um cheirinho da sua graça no “tema irlandês”, “The two trees”, e tudo acaba às voltas com Shakespeare e a condição humana em “Prospero’s speech”. “The Mask and Mirror” é bem capaz de vender como ginjas, mas são discos como este que dão mau nome não só à música tradicional como à música em geral. Discos enganadores, que procuram vender gato por lebre. Muito provavelmente, Loreena até estará inocente. Porque, lá na visão dela, as lebres são capazes de andar sobre os muros e fazer “miau”. (3)



Loreena McKennitt – Concerto, 31 de Março, Lisboa

Pop Rock

30 MARÇO 1994

A PRINCESA PROMETIDA


lm

A sua figura de princesa da Idade Média sugere os mitos e a simbologia célticos. Infelizmente, vista de perto, Loreena McKennitt revela-se uma figura de papel. Vem pela segunda vez cantar e tocar harpa a Portugal. Com um novo álbum na bagagem, “The Mask and Mirror”.
Nasceu no Canadá, aprendeu canto clássico e encontrou a harpa quase por acaso. É estudiosa da cultura celta e interessa-se, entre outras coisas, por literatura, pelos vários folclores do Globo e por Portugal, onde tirou as fotografias da capa e foi buscar alguma inspiração para o seu penúltimo álbum “The Visit”, cartão de visita do seu anterior concerto, há dois anos, no nosso país. Loreena McKennitt parece ter à partida vários trunfos à sua disposição. Trunfos que, na prática, desaproveita ao desbarato. Em parte, talvez, devido ao sucesso de vendas obtido com “The Visit”, primeiro álbum da sua discografia a ter distribuição internacional, pela Warner, a música desta senhora, que se adivinha cheia de boas intenções, raramente ultrapassa a beleza superficial, dispersando-se por arranjos que privilegiam o exotismo e piscam o olho aos ouvidos e sensibilidades ávidas de evasão, mas que, ao mesmo tempo, não dispensam uma certa caução cultural.
Loreena dá, no fundo, aos seus auditores aquilo que eles querem receber, pondo de lado aquilo que os poderia levar mais fundo e a outras músicas menos presas à superficialidade. Não basta ir buscar um amontoado de referências – Yeats, Shakespeare, Tennyson, Stª. Teresa d’Ávila, S. João da Cruz, Santiago de Compostela, a música indiana, sufis, cátaros, templários, os evangelhos, a mil e uma noites, África… – para depois as misturar numa sopa que, no novo álbum, “The Mask and Mirror”, mais ainda do que em “The Visit”, acaba por saber a um inofensivo exercício de “new age”, com um ligeiro aroma a tradição.
Compreende-se que Loreena queira agradar a todo o custo. As capas dos discos são por regra belíssimas – por sinal mais, até, do que a própria música –, as referências célticas são distribuídas com parcimónia por tudo o que é nota, a força evocativa da harpa (céltica, topam?), também ajuda. Tudo isto não chega nem evita que a obra de Loreena McKennitt precise urgentemente de levar um abanão.
Posto isto, o que poderemos esperar desta sua segunda apresentação em Portugal? Sem dúvida, muitas e bonitas melodias, uma voz doce como a dos anjos, doses cremosas de folclore e “imaginários” celtas, um ou outro bocejo nos momentos mais contemplativos. Deve chegar para fazer do concerto desta princesa prometida um êxito.

31 DE MARÇO
Lisboa
Grande Auditório do Centro Cultural de Belém
22h00