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Top 10 Álbuns De Covers – Lista / artigo de opinião / crítica de discos

TOP 10 de álbuns de “covers”

“It’s Like This” insere-se na tradição de álbuns de “covers”. Aqui ficam alguns mais representativos.

JEAN-LUC PONTY
King Kong Blue Note, 1970

“Virtuose” do violino eletrificado, ginasta do jazz de fusão, herdeiro de Grappelli, Ponty deu novo rosto instrumental ao papa dos Mothers of Invention, reinventando o humor de “Idiot bastard son” e “Twenty small guitars”, ou alinhando em cumplicidade com o mestre, em “Music for Electric Violin and low budget orchestra”.

DAVID BOWIE
Pinups EMI, 1973

O camaleão ainda arranjou tempo para vestir a pelo dos seus heróis, travestindo “See Emily play”, de Syd Barrett, “I can’t explain”, de Townshend ou “Where have all the good times gone”, de Ray Davies.

THE RESIDENTS
George and James Ralph, 1984

Os amantes da soul, seu pudessem, davam-lhes um tiro. Os da música clássica, enforcavam-nos. Os “criminosos” são os Residents, e o crime foi o massacre de James Brown e Gershwin, no primeiro volume de uma série dedicada a compositores americanos deste século.

MARIANNE FAITHFULL
Strange Weather Island, 1987

Resultou do encontro mágico entre a produção de Hal Willner e uma voz do fundo da noite. Tom Waits e Bob Dylan sangrados. E os extremos de uma ressurreição sempre incompleta, entre a ferida de “As tears go by” e o despojamento sem esperança de “Boulevard of broken dreams”.

STEVE BERESFORD
L’Extraordinaire Jardin de Charles Trenet Nato, 1988

Do jazzman e lunático Steve Beresford tudo se espera. Mas foi na editora-anedota Chabada que o inglês soltou o humor nonsense e o amor pelas variedades, em particular a “chanson française”, num disco sorridente que levou ao colo as canções de Trenet.

PASCAL COMELADE
El Primitivismo Les Disques du Soleil et de l’Acier, 1988

Tudo o que toca fica em cacos. E é ao juntar os pedaços com a cola da memória que a música se transforma num brinquedo. Aqui remonta alguns dos seus preferidos: Stones, Wyatt, Nino Rota e Chuck Berry.

MARY COUGHLAN
Uncertain Pleasures Eastwest, 1990

Uma das mais sensuais vozes da atualidade, a irlandesa Mary Coughlan desfiou álbuns de “covers”, qual deles o mais brilhante. “Uncertain Pleasures” distingue-se pela arrebatadora versão de “Heartbreak hotel”, de Presley, subindo ao cume em “The little death”, dos Boomtown Rats, feito standard de jazz.

MATHILDE SANTING
Carried Away Solid, 1991

Todd Rundgren, Roddy Frame e os Doors contam-se entre os autores de “Carried Away”, veículo para a voz desta holandesa cultivar a arte da elegância. Com a meticulosidade de colecionadora e o apuro da designer.

URBAN TURBAN
Urban Turban Resource, 1994

Para os suecos Urban Turban, dar lustro a uma canção é esfregá-la com o desregramento. Sarcasmo, rock & rol e sanfonas, numa variante das barbaridades folk dos compatriotas Hedningarna. “Voodoo chile”, de Hendrix, e “Let’s work together”, dos Canned Heat, caíram que nem ginjas nas mãos dos iconoclastas.

JONI MITCHELL
Both Sides now Reprise, 2000

Uma das damas da pop deste século, na sua primeira incursão no universo das “covers”. Canções sobre o amor, numa paleta interpretativa que vai do recolhimento à orquestração majestosa das emoções. “Standards” na sua aceção mais nobre, de modelos a seguir.



Listas – O Novo Som De Chicago – Post-Rock (2001)


O novo som de Chicago

CHICAGO UNDERGROUND
Synesthesia

Guarda avançada do novo jazz, os Chicago Underground Duo movem-se entre as coordenadas da eletrónica, do pós-rock e do free-jazz, diluídas numa música sem fronteiras tao (des)alinhada com os Supersilent, Miles Davis e Don Cherry, como com Sun Ra, Conrad Schnitzler, em zonas ambientais de ressonâncias cósmicas.

GASTR DEL SOL
Upgrade & Afterlife

“Camoufleur” poderá ser o álbum da iluminação, mas “Upgrade & Afterlife” é aquele que mais longe transporta a candeia dos Faust pelas grutas do inexplorado. Com John Fahey a servir de guia à guitarra e Tony Conrad e LaMonte Young a ensinarem que pode ser necessário todo o tempo do mundo até se descobrir que da repetição pode nascer a luz.

ISOTOPE 217º
The Unstable Molecule

O jazz rock psicadélico e indolente dos jardineiros de Canterbury pode não fazer parte das suas conjeturas, mas a verdade é que os Isotope 217º redescobriram o mesmo sentido de melodia, a afetação diletante e o gosto pela transgressão dos cânones, dos National Health, Hatfield and the North, Nucleus ou Isotope, numa música onde o jazz e a eletrónica correm com um swing quase infantil. E o fraseado “cool” do trompete e do trombone enviam “The Unstable Molecule” para as memórias de Miles Davis de “The Silent Way”.

JIM O’ROURKE
Bad Timing

Um dos gurus de Chicago, em plena fase de transição do hermetismo “faustiano” dos primeiros álbuns para a pop falsamente inocente e por muitos odiada do posterior “Eureka!”. Há melodias, como estas, que nascem tristes e doentes. Como as de Robert Wyatt.

ROME
Rome

Cada audição revela uma esquina diferente dos vários caminhos trilhados por esta banda da primeira geração do pós-rock. Com ênfase no ruído, na eletrónica visceral e num tribalismo electro que evoca as velhas invocações a um demónio sem nome da velha guarda da editora ESP.

STEPHEN PRINA
Push Comes to Love

Antes dos The Sea and Cake dizerem “sim” em francês, já Stephen Prina, dos The Red Krayola, introduzira o Verão e a delicadeza fonética num álbum de canções com a textura de nuvens que tanto carregam a chuva de um chá das cinco em Canterbury como dão a mão à garota de uma imaginária Ipanema. Com a música das palavras a conduzir a dança.

TORTOISE
Millions now Living Will never Die

O álbum que deu credibilidade a uma invenção, o pós-rock, que outros arrastaram pelas ruas do tédio e da amargura. O experimentalismo e a ousadia num álbum de eletrónica em estados de alerta, sem fronteiras que não as da própria música. “Millions” entrou para o grupo dos “que nunca morrem” e fez de novo Chicago o centro do mundo.

VANDERMARK 5
Target or Flag

Hoje aclamado como um dos maiores saxofonistas da nova geração, Ken Vandermark cultiva a musculatura e o fraseado sem papas na língua, aqui num projeto que não desdenha o rock sem as câmaras de magia da estética da editora Recommended.

E ainda:

AERIAL M Post-Global Music
BOBBY COM Rise Up!
BROKEBACK Field Recordings from the Cook Country Water Table
CUL DE SAC Crushes to Light, Minutes to its Fall
ELEVENTH DREAM DAY Eight
THE FOR CARNATION The For Carnation
FREAKWATER End Time
JOHN MCENTIRE Reach the Rock
THE LONESOME ORGANIST Cavalcade
SAM PREKOP Sam Prekop
SLINT Spiderland
THE SEA AND CAKE Oui
TOWN & COUNTRY Decoration Day

Ricki Lee Jones – “A Arte Do Be-Pop” (artigo de opinião) + “Top 10 Álbuns De Covers” (artigo de opinião / listas)

Y 26|JANEIRO|2001
música|rickie lee jones


classicismo é, em Rickie Lee Jones, sinónimo de classe

Rickie Lee Jones – “génio”, “louca” ou “sublime”? Um pouco de tudo, como se poderá comprovar na primeira atuação ao vivo da cantora em Portugal, para apresentar “It’s like This”, coleção de standards candidata a um Grammy.

a arte do be-pop



É pegar ou largar. A voz de Rickie Lee Jones, ou se odeia ou se ama. Em todo o caso, não seria uma má ideia ela pôr umas gotas de Nazex para desentupir o nariz (será que só grava no Inverno, ao ar livre e de manga curta?). Já lhe chamaram “Tom Waits no feminino”, “génio”, “louca”, “irresponsável” e “sublime”. Tem um pouco de tudo isso, como se verá na sua primeira apresentação ao vivo em Portugal, agendada para o último dia deste mês (quarta-feira), às 22h, na Aula Magna da Universidade de Lisboa.
O seu mais recente álbum, intitulado “It’s like this”, é uma coletânea de “standards” de autores como Gershwin, Brecker Brothers, Beatles, Traffic, Marvin Gaye e Bernstein/Stephen Sondheim, que poderá ser considerada a continuação do clássico trabalho com o mesmo formato editado pela cantora há dez anos, “Pop Pop”.
Para já, o novo disco é candidato a um Grammy, na categoria “pop vocal tradicional”, repetindo o que já acontecera em 1979 com o disco de estreia, “Rickie Lee Jones”, que viria a arrecadas o prémio de “Best New Artist”, e em 1989, quando conquistou, de parceria com Dr. John, outro troféu, pela interpretação jazz de “Makin’ whoopie”.
Rickie Lee Jones começou a escrever canções aos sete anos mas a sua primeira profissão, em 1976 e 1977, foi a de empregada doméstica, em Los Angeles, onde conheceu Chuck E. Weiss e Tom Waits, cujo círculo começou a frequentar e com quem chegou a ter um início de romance. No ano seguinte, foi a vez de Lowel George, dos Little Feat, a descobrir, gravando com ela o tema “Easy money” ao mesmo tempo que convenceu a editora Warner Brothers a investir no seu talento.
Mas Rickie era uma força da natureza e adaptava-se mal às convenções. Depois de ter fugido de casa e ser expulsa da escola, por insubordinação, exigiu da editora que o produtor do primeiro disco fosse Lenny Waronker, um dos nomes mais importantes da companhia.
O álbum saiu em 1979 e um dos temas, “Chuck E’s in love”, chegou aos lugares cimeiros do top americano, com um milhão de cópias vendidas, um Grammy no bolso e digressões esgotadas. Parecia aberto o caminho para o sucesso, mas Rickie Lee Jones era perita em desviar-se e enveredar por caminhos pouco iluminados. Desviou-se para não mais voltar a encontrar o êxito desse primeiro disco, mas em contrapartida a sua música ganhou o estatuto de culto e um núcleo de adeptos ferrenhos.
“Pirates”, de 1981, vendeu metade do disco de estreia. Rickie fugiu uma vez mais. Desta vez mudando-se para Nova Iorque e, logo de seguida, para Paris.
As versões de clássicos aparecem em força pela primeira vez no mini-álbum “Girl at her Volcano”, de 1983, onde a classe das suas interpretações se impunha.

Cabeça de fantasma. Regressou a Los Angeles e a Hollywood para gravar “The Magazine” (1984), onde a sua voz inconfundível se rodeava de sintetizadores e de uma aura futurista que voltaria mais tarde a entrar em funcionamento, de forma bem mais escura, em “Ghostyhead”.
Depois de nova fase de turbulência da sua vida privada, com casamento, nascimento de uma filha e a morte do pai, Rickie mudou uma vez mais de casa – indo viver para o campo, em França – e de editora, assinando para a Geffen o álbum “Flying Cowboys” (1990), com um novo produtor, Walter Becker, dos Steely Dan, pondo fim a um interregno de seis anos afastada dos estúdios, excetuando o single “The moon is made of gold” e o encontro com os The Blue Nile, na Escócia.
O seu talento interpretativo explodiria em pleno em 1991, no álbum “Pop Pop”, um trabalho imaculado saído dos sonhos de uma criança magoada, apaixonada pela canção clássica e pelo be-bop. O ciclo Geffen fechar-se-ia com “Traffic from Paradise” (1993); o regresso à Warner teria lugar dois anos depois, com “Naked Songs”, revisitação acústica de alguns dos seus temas mais antigos.
“Ghostyhead”, de 1997, marcaria outro dos seus momentos de transgressão. Álbum difícil e mal aceite por alguns, de sonoridades carregadas, explora a eletrónica industrial e o lado mais sombrio de uma personalidade sempre inquieta, permanecendo até à data como um dos seus trabalhos mais estimulantes.
Por fim, nova mudança de editora – passagem para a Artemis –, e o regresso a um dos formatos que lhe é querido, o dos “standards”, com o novo “It’s like this” (com os convidados Joe Jackson e Taj Mahal) a fazer de novo incidir os holofotes na vertente da interpretação. Numa altura em que se tornou “trendy” fazer álbuns de versões (recorde-se que outros dois concorrentes ao Grammy de melhor “pop vocal tradicional”, Joni Mitchell, com “Both Sides Now”, e Bryan Ferry, com “As Time Goes by”, competem igualmente com álbuns de standards) não deixa de haver ironia no facto de Rickie Lee Jones ver associado o seu talento à “tradição”, quando é sabido que ela fez sempre questão de fintar as convenções.
Mas no final do mês se demonstrará que “classicismo” é, em Rickie Lee Jones, sinónimo de “classe”

TOP 10 de álbuns de “covers”

“It’s Like This” insere-se na tradição de álbuns de “covers”. Aqui ficam alguns mais representativos.

JEAN-LUC PONTY
King Kong Blue Note, 1970

“Virtuose” do violino eletrificado, ginasta do jazz de fusão, herdeiro de Grappelli, Ponty deu novo rosto instrumental ao papa dos Mothers of Invention, reinventando o humor de “Idiot bastard son” e “Twenty small guitars”, ou alinhando em cumplicidade com o mestre, em “Music for Electric Violin and low budget orchestra”.

DAVID BOWIE
Pinups EMI, 1973

O camaleão ainda arranjou tempo para vestir a pelo dos seus heróis, travestindo “See Emily play”, de Syd Barrett, “I can’t explain”, de Townshend ou “Where have all the good times gone”, de Ray Davies.

THE RESIDENTS
George and James Ralph, 1984

Os amantes da soul, seu pudessem, davam-lhes um tiro. Os da música clássica, enforcavam-nos. Os “criminosos” são os Residents, e o crime foi o massacre de James Brown e Gershwin, no primeiro volume de uma série dedicada a compositores americanos deste século.

MARIANNE FAITHFULL
Strange Weather Island, 1987

Resultou do encontro mágico entre a produção de Hal Willner e uma voz do fundo da noite. Tom Waits e Bob Dylan sangrados. E os extremos de uma ressurreição sempre incompleta, entre a ferida de “As tears go by” e o despojamento sem esperança de “Boulevard of broken dreams”.

STEVE BERESFORD
L’Extraordinaire Jardin de Charles Trenet Nato, 1988

Do jazzman e lunático Steve Beresford tudo se espera. Mas foi na editora-anedota Chabada que o inglês soltou o humor nonsense e o amor pelas variedades, em particular a “chanson française”, num disco sorridente que levou ao colo as canções de Trenet.

PASCAL COMELADE
El Primitivismo Les Disques du Soleil et de l’Acier, 1988

Tudo o que toca fica em cacos. E é ao juntar os pedaços com a cola da memória que a música se transforma num brinquedo. Aqui remonta alguns dos seus preferidos: Stones, Wyatt, Nino Rota e Chuck Berry.

MARY COUGHLAN
Uncertain Pleasures Eastwest, 1990

Uma das mais sensuais vozes da atualidade, a irlandesa Mary Coughlan desfiou álbuns de “covers”, qual deles o mais brilhante. “Uncertain Pleasures” distingue-se pela arrebatadora versão de “Heartbreak hotel”, de Presley, subindo ao cume em “The little death”, dos Boomtown Rats, feito standard de jazz.

MATHILDE SANTING
Carried Away Solid, 1991

Todd Rundgren, Roddy Frame e os Doors contam-se entre os autores de “Carried Away”, veículo para a voz desta holandesa cultivar a arte da elegância. Com a meticulosidade de colecionadora e o apuro da designer.

URBAN TURBAN
Urban Turban Resource, 1994

Para os suecos Urban Turban, dar lustro a uma canção é esfregá-la com o desregramento. Sarcasmo, rock & rol e sanfonas, numa variante das barbaridades folk dos compatriotas Hedningarna. “Voodoo chile”, de Hendrix, e “Let’s work together”, dos Canned Heat, caíram que nem ginjas nas mãos dos iconoclastas.

JONI MITCHELL
Both Sides now Reprise, 2000

Uma das damas da pop deste século, na sua primeira incursão no universo das “covers”. Canções sobre o amor, numa paleta interpretativa que vai do recolhimento à orquestração majestosa das emoções. “Standards” na sua aceção mais nobre, de modelos a seguir.