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Lisa Germano – “Lullaby for Liquid Pig”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
18 Abril 2003


LISA GERMANO
Lullaby for Liquid Pig
Ineffable, distri. Edel
8|10



Quase sempre os lugares mais interessantes da pop são os mais misteriosos e difíceis de encontrar. Não é fácil descortinar entre os vultos do bosque a cabana onde Lisa Germano se esconde e projeta, em noites de insónia, os fantasmas da sua fantasia. O chão está molhado, forrado de vermes e cetim apodrecido. Das paredes tombam farripas de papel de cores indefinidas, desbotadas pela chuva, como as canções e as palavras que escorrem tristemente de “Lullaby for Liquid Pig”. Podemos imaginar uma sessão de espiritismo. Podemos imaginar “The lodge” — a capela do medo que Lynch instalou no meio do nada de “Twin Peaks”. Podemos mesmo ver, nas fotos da capa, um corpo suspenso no ar ou encurralado a um canto de um quarto vazio. Ou a floresta onde Lisa corre como uma noiva perdida. Predominam a melancolia, sombras coleantes, cânticos de solidão e amores de sentido único, pianos bolorentos, correntes de ar eletrónica a compor o mesmo tipo de emoções veiculadas pelos This Mortal Coil. Lisa sussurra-nos ao ouvido farrapos de melodias decalcadas dos seus discos anteriores, como um carrocel que não pára de girar no mesmo sítio mas continua a salpicar-nos de sangue.



Lisa Germano – “Excerpts from a Love Circus”

Pop Rock

18 de Setembro de 1996
poprock

LISA GERMANO
Excerpts from a Love Circus (8)
4AD, distri. MVM


lg

“Sad Lisa”, cantava, já lá vão uns bons anitos, Cat Stevens. A Lisa mais triste, mas também mais acutilante, deste mundo, é, com certeza, Lisa Germano. E aquela que melhor traduzir essa tristeza em música que não prescinde da originalidade. “Excerpts from a Love Circus” – terceiro álbum posterior à obra-prima “Happiness” e ao exercício barroco de “Geek the Girl” – constitui um depoimento conturbado de uma alma atormentada pelo amor que deverá ser apreciado na maior intimidade. O tema recorrente é o dos fracassos e desencontros amorosos, tudo lágrimas e equívocos, uma busca que eternamente desemboca em traição. Mas quantas mulheres não fazem desse estendal de mágoas material de exibição para os seus discos? Hoje em dia, imensas, sem dúvida. A diferença está em que Lisa Germano, ao contrário daquelas, mergulha as suas sublimações e devaneios autobiográficos num universo musical pessoal e personalizado, onde as obsessões são submetidas ao método da coloração, sabendo nela bem o que noutras sabe mal.
Cuidados prévios a ter com este “circo do Amor” há, pelo menos um, importante: não confiar nas primeiras impressões. “Love Circus” é cioso dos seus segredos e não se revela aos ansiosos e apressados. Uma primeira leitura dá-nos a conhecer um fio narrativo poético-musical mais linear do que o dos seus dois anteriores trabalhos. As descontinuidades são menores, sendo aqui a separação temporal e temática mais nítida, de canção a canção. Por outro lado, a noção de ciclicidade e de repetição (Velvetiana, no caso da abertura “Baby on the plane”, na sua derivação Suicide, de “Cheree”), bem como a sobreposição e saturação de timbres, jogam ainda mais forte do que no passado, o que exige um grau maior de cumplicidade e disponibilidade para penetrar as camadas cerradas de som que revestem cada tema. Como invólucros de electricidade húmida a servir de prisões que visitássemos com muita precaução, onde as guitarras soam como pântanos e o violino a um raspar de unhas no vidro (“A beautiful schizophrenic”).
É um álbum de luzes baixas, de néons e verniz fora de uso, uma noite de insónia passada numa águas-furtadas a contar as baixas de guerra, na companhia de osgas e lesmas sonolentas. Cornetas e metal em colisão amparam “I love a snot”, dança de marionetas, “Metal Machine Music” da idade das bonecas.
Ao longo desta noite sem estrelas, desfilam as memórias. Algumas já desbotadas. Os motivos de desgosto tanto podem vir de receber pelo correio um catálogo de “lingerie” (”Victoria’s secret”, a pop que vicia) como do confronto de personalidades que lutam em “Lovesick” e confundem em “I love a snot” – “amo um ranhoso”, o substantivo “snot” (“ranho”) parece ter dado azo, a editora, a equívocos engraçados… Lisa, bem entendido, não facilita. “Odeio-te porque te amo, amo-te porque me odeio” e “Gostei de ti quando me magoavas” (de “Forget it, it’s a mystery”) não fazem, com toda a certeza, parte do vocabulário amoroso da dona-de-casa vulgar. O tom autobiográfico e intimista destes excertos encontra um escape na inclusão de três interlúdios, onde o desempenho “vocal” foi entregue aos dois gatos da cantora, Dorothy e Miamo-Tutti.
“Excerpts from a Love Circus” é um lamento e um lugar de perdição, em cujo centro, o quarto sem janelas de “Forget it, it’s a mystery”, a voz não encontra nenhum eco e se expõe a decomposição dos sentimentos.



Entrevista – Lisa Germano: “É A Criança Que Tenho Na Cabeça”

Pop Rock

16 de Outubro de 1996

“É a criança que tenho na cabeça”

“Excerpts from a Love Circus” é uma iniciação ao desencanto. Um álbum onde Lisa Germano fala de relações estragadas e experiências traumatizantes e onde deixou “Miamo-Tutti”, o “macho-cat”, a miar. Lisa, desiludida, mas não Lisa, a submissa. É a criança que existe em si, a ronronar. Num disco sobre coisas “tristes, trágicas e absurdas”.


lg

Em lugar de dissertar sobre música, Lisa Germano prefere expor os seus sentimentos. Num discurso que insiste na tónica dos amores não correspondidos e na necessidade de cortar com situações de impasse, capazes de arruinar, mais do que uma relação, uma vida inteira. “Sad Lisa”, a velha canção de Cat Stevens, define a sua maneira de reagir mas não a sua maneira de ser. “Love Circus” é uma arena de desenganos da qual é preciso escapar. Desabafou com o PÚBLICO as suas mágoas, as suas fraquezas, as suas convicções.
PÚBLICO – O que são as “relações disfuncionais” que vêm mencionadas nas notas de promoção de “Love Circus”?
LISA GERMANO – É o que fazemos quando não gostamos de nós próprios e procuramos pessoas para andarem à nossa volta mas que acabam por nos tratar mal. Algo que não funciona.
P. – As relações que teve foram todas desse tipo?
R. – Pelos menos todas sobre as quais escrevi…
P. – O problema é mais seu ou dos outros?
R. – Cheguei à conclusão que é mais meu. Pelas razões que me levaram a escolher determinadas pessoas para viver com elas, relações que não funcionaram. Poderia ter saído delas mas não o fiz… Deixei andar… Está tudo nas canções. Quem melhor as compreenderá são as pessoas que passaram pelo mesmo, pessoas que se foram abaixo.
P. – Continua à espera que um dia as coisas possam bater certo?
R. – Não sei… Penso que sim. Mas olho à minha volta e vejo uma quantidade de pessoas que vivem juntas e que não se amam. Algo deprimente de ver mas que existe.
P. – Ao ouvirmos os seus álbuns fica-se, por vezes, com a impressão de estarmos perante uma criança a debater-se com os seus medos?
R. – Sim, às vezes, quando ficamos demasiado confusos, voltamos para trás, até à infância. É a criança que temos na cabeça. E é essa criança que fica ferida e que precisa que as outras partes da cabeça tomem conta dela.
P. – Símbolos da infância são as bonecas que aparecem na capa de “Happiness” e “Geek the Girl”, ou a roda de crianças, em “Excerpts from a Love Circus”. Têm algum significado mais específico?
R. – Bom, o autor das capas deve ter sentido o mesmo, que é o meu lado de criança que escreve as canções. Acontece as pessoas virem ter comigo e acharem que estou bem, que não tenho nada o ar de estar lixada…
P. – O que tem a dizer sobre o facto de ter posto os seus gatos a miar nos discos, em particular Miamo-Tutti, que aparece em “Happiness” e neste novo álbum?
R. – Miamo-Tutti é o meu gato “mau”. Dorothy é a fêmea. Utilizei-os nos discos só por graça… Não, na verdade, fazem-me lembrar uma das minhas relações. Miamo-Tutti é o tipo de gato “macho” que anda fora durante dias deixando Dorothy sozinha, muito triste, à espera que ele regresse a casa, sem conseguir livrar-se dele. Converso muitas vezes com os meus gatos. Quando acabei de fazer o disco compreendi que eles faziam parte dele.
P. – Como é que fez as gravações?
R. – O meu co-produtor emprestou-me um gravador DAT que levava para casa, onde gravei grande parte das vocalizações do disco. Como tinha o microfone à mão…
P. – Já falou no seu lado infantil, mas há o outro, o perverso. Numa canção como “Forget it, It’s a mystery”, canta coisas como: “Odeio-te porque te amo, amo-te porque me odeio” e “Gostei de ti quando me magoavas”. Soa a masoquismo. Está a referir-se a amor ou a sexo?
R. – Pode soar dessa maneira, de facto, para quem não passou por essas situações. A questão é como é que se pode viver com alguém que nos magoa e nos trata mal? É porque devemos estar muito apaixonados. Não podemos estar sempre a deitar as culpas para cima dos outros, quando a verdade é que nunca aprendemos nada. Essa canção é uma espécie de confissão. De resto, não separo amor e sexo. Não se deveria fazer o segundo sem existir o primeiro, quero dizer, podemos fazê-lo, mas é cinco milhões de vezes mais comovente quando se ama alguém.
P. – É o oposto de Liz Phair, por exemplo, quando numa das suas canções fala das vantagens de determinadas posições, que permitem ter o acto sexual ao mesmo tempo que se vê televisão…
R. – Sim, ela é mais descarada, move-se noutros quadrantes. As minhas canções são mais sobre a pessoa cruel que dá cabo da via dos outros.
P. – A pureza e a experiência são incompatíveis?
R. – Uma boa pergunta! As experiências que vamos tendo tornam-nos mais cautelosos, põem-nos na defensiva, a não acreditar. Mas talvez que, a longo prazo, ela nos ensine a encontrar a pureza. Talvez a experiência sirva para nos extirpar do que está errado, fazendo-nos ver onde está o erro, para da próxima vez estarmos mais atentos.
P. – “Lovesick” fala de terror e de medo, de um psicopata que diz amá-la e você fica paralisada à espera que algo terrível aconteça. Há algum trauma de infância por trás?
R. – Aconteceu de facto uma situação de alguém que me perseguiu, não sei se era ou não um psicopata, mas foi algo assustador, alguém a entrar pela minha casa dentro. Basicamente, o tema de “Lovesick” é semelhante ao de “Forget it, it’s a mystery”: pensar que se encontrou a nossa alma gémea e essa alma gémea nem sequer gostar de nós. No fundo, a outra pessoa tem o mesmo problema, de não conseguir abandonar a relação. A vida a dois torna-se miserável. Um “amor” doentio.
P. – Continua a acreditar na existência dessa alma gémea?
R. – Não… Actualmente acredito que há uma quantidade de almas gémeas. E ilusões. Quando escrevi “tu não és a minha Yoko Ono”, referia-me a alguém que me dizia que eu não era forte, que não correspondia à ideia que fazia de mim. Eu tinha posto esse alguém num pedestal, sem sequer me aperceber disso.
P. – O facto de ser uma cantora de rock e levar um determinado estilo de vida torna as coisas mais difíceis?
R. – Nunca tive esse problema. Não sou nenhuma estrela. Penso que essa imagem não funcionaria comigo, não tenho esse tipo de personalidade. Limito-me a escrever sobre coisas genuínas, sobre sentimentos. Acontece, apenas, que por vezes me perco no meio deles…
P. – O título do álbum, “Love Circus”, sugere espectáculo, um jogo, alguém que perde a alguém que ganha… Uma questão de poder?
R. – Não… Este álbum é apenas sobre coisas que não fazem sentido, como num circo… O primeiro título que pensei dar-lhe foi “Guillotine” [guilhotina], sobre uma pessoa que é cortada. Depois fui-me apercebendo de que se tratava mais de um circo de relações forçadas entre as pessoas. E da necessidade de cortar a direito através delas, de ver o seu lado absurdo, caso se queira mudar alguma coisa. Este disco é sobre coisas tristes, trágicas e absurdas. Um disco realmente muito, mas mesmo muito triste.
P. – Lembra-se de uma canção antiga de Cat Stevens, Sad Lisa”?
R. – Sim, costumava ouvi-la quando era uma rapariguinha [risos].
P. – “Excerpts from a Love Circus” é um álbum de canções de ódio?
R. – Comecei realmente por sentir ódio, mas isso não me levava a lado nenhum. Não valia a pena estar constantemente a gritar: “Odeio-te! Odeio-te! Odeio-te!” Senti a necessidade de compreender as razões desse ódio e partir para outra, tentar aprender a lição. No fundo, a minha música é uma tentativa de encontrar soluções para os meus problemas. As pessoas dizem que ninguém consegue fazer isso através da música, mas penso que, no meu caso, o processo resulta. A música pode ser uma cura. No meu caso é uma catarse que me ajuda a ver as coisas numa perspectiva correcta.
P. – O que é que odeia e ama com mais intensidade?
R. – Odeio que as pessoas tenham tanto trabalho para gostarem de si próprias e acabem por se deixar cair em situações às quais ficam amarradas para o resto da vida. Isso lixa-me completamente. E amo a vida. O simples acto de viver.